Beyond The Bounds Of Sky

3 Capítulo 3 - Um novo alvorecer


“Aquele que reflete o ataque inimigo e sempre usa o próprio corpo para proteger a família de todo o mal
-Missão primordial do Sol

O dia amanhecera com um clima frio, ainda mais ali na universidade que ficava nos limites da cidade localizada no planalto. O vulto, carregando o saco de feno nos ombros em meio ao capim ainda úmido pela cerração, parecia não se intimidar com a baixa temperatura. O nevoeiro diurno pouco a pouco se dissipava e o sol dourado ia se levantando pelo céu anil totalmente limpo. O vulto virou o rosto e sentiu a luz sobre si, abrindo um largo sorriso com a lembrança de tempos imemoriáveis vindo à tona. Ricardo então voltou a si e ao que estava fazendo, retornando aos estábulos da instituição com o grande e pesado saco de feno.

Realmente se sentia feliz fazendo veterinária, embora estivesse longe de tudo e de todos. Ali, naquela aconchegante cidade que abrigava a universidade rural e seus estudantes, o rapaz de corpo musculoso e olhos azuis havia encontrado a paz que sempre procurara em toda sua adolescência, embora a ausência de seus antigos amigos o deixasse bastante só.

Entrou no estábulo e jogou o saco de feno perto da porta sem muita delicadeza. Aproveitou para acariciar uma égua de pelagem branca e muito dócil antes de sair e ir para a Casa Grande, o nome do local onde todos os estudantes dormiam. Tinha a forma de um prédio, onde cada um tinha um quarto e um banheiro individual, além de uma grande cozinha e salas de recreação.

Abriu nas portas duplas em meio ao completo silêncio. Era final de semana e nesse horário, tão cedo, poucos se aventuraram a já estar de pé. Ricardo não se importava, muito pelo contrário, gostava de sempre arranjar uma ocupação em que pudesse estar aprendendo cada vez mais. Sua sede de conhecimento era muito grande e gostava de fazer as coisas com as próprias mãos, embora isso lhe desse certa dose de teimosia mesmo que ele não se desse conta.

Ricardo atravessou os pelos corredores, ajeitando os óculos de grau que usava, enquanto pensava o que iria fazer com o resto te tempo útil que teria no decorrer do dia. Talvez estudar o ciclo dos parasitas eqüinos do meio-Oeste, mesmo sendo uma matéria de um semestre adiante. Era muito aplicado aos estudos, quase considerado um prodígio e isso lhe dava muitos créditos com todos os professores. Estava devaneando sobre isso quando parou na frente da porta simples de madeira, marcada com o número “19”.

O quarto do universitário era organizado, mais pelo fato dele nunca passar tempo o suficiente ali para bagunçá-lo. Tinha uma cama simples, uma escrivaninha pequena e um armário não muito alto, além da portinha lateral que dava acesso ao banheiro miúdo com uma ducha, pia e sanitário. Ricardo caminhou até o armário e começou a trocar o agasalho e a camisa amarrotada por uma camiseta amarela. Olhou-se no espelho interno preso a porta de madeira. Havia crescido um pouco, mas ainda devia ser mais baixo alguns centímetros do antigo pessoal. O cabelo, que já fora comprido até abaixo dos ombros com seus fios loiros e lisos, agora estava raspado com alguns centímetros de altura e arrepiado. Os músculos eram bem definidos graças o imenso treinamento físico que ele se auto-aplicara durante o passar dos anos, fazendo os ombros ficarem mais largos e resistentes. A pele era bastante clara, o que deixava seus olhos azuis vívidos atrás das lentes em evidência. Sorriu, satisfeito com o resultado enquanto contraia o músculo do braço direito em frente ao espelho.

Foi quando uma moça bateu na porta de madeira entreaberta do quarto e a abriu. Era uma das colegas do rapaz no curso de veterinária. Usava uma camisa amarrotada e uma calça de lycra preta, com o cabelo amarrado todo despenteado. A cara era de quem havia acabado de acordar.

-Ricardo, alguém está te ligando lá no ramal. Disse que precisa falar com você com certa urgência.

O loiro arqueou a sobrancelha e agradeceu a outra estudante, dizendo que já iria atender a ligação. Era estranho, sua família tinha o número de seu celular, logo não fazia sentido estarem utilizando o ramal. Ricardo fechou a porta do quarto e saiu apressado pelos corredores, descendo as escadas tentando encontrar algo que fizesse sentido para alguém ligar para ele no ramal.

Chegou à sala ampla e bem iluminada, com duas bancadas laterais onde havia diversos telefones iguais e numerados. Ao lado da porta havia uma pequena mesa, onde um jovem estudante era obrigado a trabalhar ali pelo menos uma hora por semana, como outras tantas atividades que a universidade mantinha. O rapaz estava com uma cara mal humorada, de quem estava realmente muito puto por ter acordado cedo.

-Me chamaram dizendo que havia uma ligação para mim. Ricardo Perdoncini, segundo ano de Medicina Veterinária.

O rapaz suspirou entediado e pegou uma prancheta, analisando os nomes. Grifou um com uma caneta estereográfica e mexeu em um computador bastante rudimentar e antigo, batendo algumas teclas.

-Certo, telefone número “6”. Conhece as regras: só apertar o botão e começa a discagem, sendo que você tem 10 minutos.

Ricardo agradeceu e se locomoveu ao telefone indicado, enquanto o atendente puxou dois fones de ouvido e deitou a cabeça sob a mesa com sono. O loiro puxou uma banqueta e se sentou a frente da bancada, puxando o telefone para perto do ouvido e apertando a tecla.

Os minutos de discagem deixaram Ricardo apreensivo. Quando a outra linha atendeu, ele nem deu tempo da pessoa dizer alguma coisa, falando coma voz firme e um pouco ansiosa.

-É o Ricardo.

Ouviu uma risada do outro lado, uma voz feminina.

-Eu já imaginava que você estaria acordado há essa hora. Bom dia pra você também, Sol.

Ele identificou a voz quase de imediato. Aquele tom meio brincalhão meio ácido, a voz suave e afiada como uma navalha. Só conhecia alguém no mundo com aquele timbre de voz.

-Doku Sasori, o escorpião venenoso.

A voz riu mais um pouco e tomou uma postura como de ofendida.

-Eu me chamo Sara, esqueceu? Meu nome de guerra é apenas para meus inimigos, a menos é claro que você tenha se tornado um.

O punho do rapaz, que estava fechado pela tensão, foi relaxando.

-Você ligando para mim é realmente uma surpresa, Sara. –ele grifou o nome dela, para dar mostra que estava tentando ser amigável. -E quanto à parte do acordar cedo, você também levantou a esse horário para falar comigo não foi?

-Na verdade eu ainda nem dormi.- ela rebateu com um certo tom ácido.- Mas vamos ao assunto sério Ricardo. Eu tive todo o trabalho de encontrar o local onde você estava e o telefone porque tenho que te passar um recado de um velho amigo nosso. O Sucessor da Marca do Sol. -Ricardo ficou algum tempo em silêncio, refletindo. Foi tanto tempo que Sara pensou que ele havia desligado.- Você ainda está ai?

-Estou. –ele respondeu em um tom seco. –Depois de separar a todos, ele quer nos juntar de volta como se nada tivesse acontecido, não é? Eu nunca entendi o motivo que aqueles quatro haviam para querer que cada um seguisse um caminho diferente.

-Só estou lhe passando a informação, Ricardo. A decisão de ir ou não está com você... Posso dar minha opinião? Eu acho que você deveria estar lá para dizer tudo o que pensa para eles. De não ter concordado, de achar tudo totalmente desnecessário.

O loiro sorriu, ajeitando os óculos novamente.

-Você é muito sábia.

-Devo considerar isso como um sim, então?

-Estarei lá.

-Certo,– a voz da garota ficou incrivelmente animada do outro lado do telefone. –amanhã então estarei passando ai para te pegar, não me atrase ouviu?

-O que você quer dizer com “te pegar”?

Mas o outro lado ficou mudo. O tempo havia acabado. Ricardo suspirou. Pelo que conhecia de Sara, ela era suficientemente capaz de estar ali amanhã antes do nascer do sol para lhe levar até a Reunião.

Voltou novamente ao próprio quarto, decidido a fazer uma mala. Não precisaria de muito, os pais ainda moravam naquela cidade e tinha certeza que não haveria problemas em pedir dispensa nas matérias para alguns professores, afinal sempre estava adiantado da turma. Pegou uma antiga bolsa de academia que estava no fundo de uma gaveta, junto com suas luvas de boxe já desgastadas lhe criando uma nostalgia que fazia tempo que estava ausente. Foi até a mesa da escrivaninha e abriu uma gaveta, jogando papéis na própria cama até encontrar o que estava encontrando.

Estava ali, o brasão. Mesmo guardado, mantinha aquele brilho dourado peculiar, onde estava gravado o símbolo do Sol. Ao tocá-lo com os dedos e o erguer na altura da janela, pode sentir os raios da alvorada voltarem a aquecê-lo pouco a pouco. Colocou a corrente em volta do pescoço e a atou novamente, como sempre usará a três anos atrás.

Ricardo arrumou a mala rapidamente, pegou as luvas e um rolo de gases e se dirigiu para a pequena academia do colégio, onde iria tirar a ferrugem das juntas e voltar a treinar o modo de combate que seguia com fervor. Antes de fechar a porta encarou a luz do novo alvorecer vindo da janela mais uma vez, e repetiu para si mesmo o que havia decidido desde que terminara a conversa com Sara.

Família Vongola. Desta vez, ele sem dúvida colocaria um pouco de juízo na cabeça de todos.

Notas finais
Doku Sasori: Escorpião Venenoso.