Beyond The Bounds Of Sky
4 Capítulo 4 - Mudanças
“O maior trunfo de um jogador não é memorizar todas as jogadas ou fazer cálculos mirabolantes. Sua maior cartada é induzir o oponente a fazer exatamente o que se quer”
-Manual de Xadrez, pág. 31
O sol já havia se levantado por entre as nuvens, resquícios da chuva do dia anterior. As ruas e as calçadas ainda mantinham poças em cantos isolados, criando verdadeiras armadilhas para os pedestres desavisados. Ainda sim várias pessoas percorriam a área residencial da cidade, passeando com cachorros ou conversando animadamente nos bancos de madeira. As rádios tocavam baladas calmas nas varandas dos pequenos prédios retangulares, enquanto os termômetros marcavam temperaturas incomuns para tal época do ano.
Yure desceu no ponto de ônibus no começo da rua, que subia em um leve declive. A roupa era muito diferente do traje formal do dia anterior: uma calça jeans claro com cinto, uma camisa social branca com as mangas dobradas até a altura dos braços e um par de tênis preto. As únicas peças que ainda continuaram foram o coldre com a pistola escondido pela camisa e o relógio de corrente, com o chocalho amarelo preso.
Subia a inclinação sem muita pressa, pensativo com o decorrer dos fatos até então. O recrutamento estava indo bem conforme o planejado, embora havia alguns fatores que estavam além de seu alcance. O que podia fazer quanto a isso era confiar na capacidade de persuasão da Doku Sasori e esperar que os bons ventos trouxessem a tempestade de volta.
Quando se deu por si,o Sucessor já havia chegado à frente do prédio verde de quatro andares. Dois moradores conversavam animados entre si com o portão aberto, algo sobre futebol e a liga principal, sendo fácil para Yure passar despercebido como um inquilino qualquer. Subiu dois lances de escadas com uma leveza de hitman e parou em frente ao apartamento.
Desde o primeiro andar conseguia escutar aquela torrente de acordes pesados chamada de Heavy Metal. O rapaz se perguntou se o Guardião do Trovão havia mudado alguma coisa.
Bateu na porta diversas vezes mas fora em vão, pela altura da música que ecoava do outro lado. Respirou fundo e esmurrou a madeira com uma dose de impaciência. Surtiu efeito, pois o som foi diminuído a quase o mínimo e uma voz rouca foi ouvida.
-Já vai.
A porta se abriu logo em seguida. Yure acenou para o Guardião do Trovão, com um sorriso simpático. O outro rapaz apertou os olhos, fazendo uma análise clínica sob o Sucessor do Sol.
-Você não parece a entregadora de pizza.
Leo Göbel continuou segurando a maçaneta da porta por dentro, ainda encarando a visita. O cabelo era todo negro, os fios crespos penteados para trás indo até a altura do final do pescoço. Usava uma camisa preta bastante larga com a figura de uma banda de heavy metal alemã, junto de um bermudão azul. O rosto tinha as feições levemente arredondadas, a barba estava rala e os pequenos olhos castanhos faiscaram de irritação quando Yure ensaiou de falar algo.
-Antes de qualquer coisa, -atropelou Göbel –você veio me convencer a ir para a Reunião da família, não é?
Yure fez o sinal de positivo com a cabeça e foi convidado a entrar pelo outro rapaz, após ouvir um audível “previsível”.
O apartamento do guardião era pequeno, mas o dono havia estilizado cada canto que podia. A sala era ampla, sendo divida pela cozinha com um balcão de mármore escuro, e estava cheia de pôsters de bandas até a altura do teto. Um grande sofá azul escuro ficava a frente de uma TV de 42 polegadas e duas enormes caixas de som que ainda tocavam a música barulhenta de minutos atrás. Ao que parecia, o aparelho que estava rodando o CD era um videogame branco preso na vertical.
Göbel deu a volta pelo balcão, indo até a parte que ficava do lado da cozinha.Yure o seguiu, após fechar a porta pintada em verniz, e se sentou em uma das banquetas retangulares.
-Quer algo? -o Sucessor fez sinal negativo com a cabeça novamente. O dono da casa então abriu a geladeira e pegou uma garrafa de Coca. Se serviu e deixou a garrafa sob a pia laminada.
-Você vai? –questionou Yure. Não era necessário convencer o mais orgulhoso dos guardiões, apenas lhe dar um motivo coerente.Ele não era uma pessoa de meias palavras e isso facilitava bastante.
-Não sei. Vou ganhar alguma coisa com isso? –rebateu rapidamente Göbel, antes de virar um gole do refrigerante.
-Rever velhos companheiros não conta? –Yure contra-atacou, apoiando os cotovelos no mármore.
-Devo realmente considerar vocês companheiros?
Yure arqueou a sobrancelha, sem resposta. Não havia entendido a colocação. Göbel sorriu de forma sarcástica, vendo que havia atingido a meta.
-Onde você quer chegar?
-O real motivo de nossa separação, Yure.
-Está querendo jogar verde? –o Sucessor sorriu, tenso. O tema da conversa estava ficando perigoso. O rapaz de cabelos negros tomou outro gole de Coca, arrastando aquela atmosfera pesada para um silêncio inquebrável mesmo com a música ainda tocando.
-Não me venha com o papo de treinamento ou de “cada um deve seguir seu caminho”. Isso nunca me convenceu e acredito que não funcionou com nenhum dos outros também. –arrebatou o guardião e depois virou o resto do conteúdo do copo. Ele pousou o objeto de vidro e sorriu triunfante. –Eu não sou igual ao Igor. Não sou o tipo de pessoa que confia plenamente nos outros sem saber o que realmente está ocorrendo.
Yure respirou fundo e trocou olhares com Göbel. Não adiantava tentar enrola-lo.
-Então porque você não se manifestou na época? –perguntou Yure ainda com certa tensão na voz. Em resposta, o guardião do Trovão deu os ombros.
-Ficar contra o Jô, o Zatch e o próprio Décimo? Creio que não adiantaria muita coisa...
-E o que muda agora?
-Eu quero saber. O verdadeiro motivo pelo qual você obrigou os Sete Guardiões a tomarem seus rumos distintos. Pergunto-me:o que seria tão grave a ponto de fazer um Sucessor como você tremer de medo?
Yure não respondeu de imediato. Sua expressão estava com uma seriedade sombria e seu cérebro trabalhava rápido em formular uma desculpa qualquer. Mas ele próprio sabia que era em vão. Seus olhos percorreram vagamente as estantes em que Göbel guardava seus vários gashapons de animes diferentes, tomando a decisão que ele sabia que era tardia.
Esse era um assunto que todos já deviam estar a par.
Por bem ou por mau.
Yure se virou e massageou as têmporas.
-Muito bem. Se é assim que você acha que deve ser feito... Acho que, não só você, mas Karoline, Kiba e Ricardo também precisam saber dessa história. A oferta de beber algo ainda está de pé?
-Lógico. –disse o Guardião do Trovão, com os olhos brilhando de ansiedade e um sorriso largo de satisfação.
-Me de uma dose de whisky. Essa vai ser uma longa história...
Notas finais
Animes: Animação japonesa, que começou a fazer sucesso no país a partir do início dos anos 90.
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