Beyond The Bounds Of Sky
26 Capítulo 26 - As Sete Primordiais de Firenze
Conta-se a história de um homem, um ourives habilidoso. Não era muito rico, embora vivesse uma vida confortável dentro dos limites que sua pequena vila oferecia. Dizem que pessoas de até mesmo regiões vizinhas buscavam por seu trabalho, e era ainda agraciado por possuir uma família que lhe amasse mais do que qualquer peso em ouro ou prata.
Foi então que recebeu o pedido de um dos nobres da região, ordenando que o homem fizesse uma coroa digna ao Rei dos reis, algo que fosse grandioso e que ostentasse poder absoluto.
O ourives ouviu as instruções em silêncio e recebeu incontáveis levas de metais e pedras preciosas. Trabalhou por estações a fio, deixando noites e dias transcorrerem. Até que a comitiva do nobre visitou o vilarejo, na primavera seguinte, para que o artesão entregasse sua obra.
Contudo, o ourives era sábio e havia ficado incomodado com a soberba demonstrada pelo membro da realeza. Antes de executar o serviço, questionou incansavelmente se era realmente aquele o desejo de seu cliente. Mas o nobre foi irredutível quanto a sua decisão.
No dia da entrega, todos os aldeões do vilarejo se acotovelaram junto a pequena praça, unindo-se junto a comitiva cheia de guardas e bufões. Todos cochichavam e trocavam olhares de curiosidade, enquanto o ourives ficou tranqüilamente parado ao lado de seu galpão de trabalho, as portas fechadas.
O nobre se aproximou, ficando completamente impaciente, e perguntou ao seu contratado se sua encomenda havia ficado ou não ficado pronta.
Em silêncio, o ourives fez uma mesura com o corpo e se afastou, abrindo a porta do galpão enquanto dezenas de pessoas prendiam a respiração.
Sua obra era magnífica. Aros de prata circundados por filetes de ouro, com rubis dispostos lado a lado, com lastros circulando ao alto e com uma gema violeta no topo da peça de indumentária. Seria a mais bela peça já vista pelo homem, digna do líder da mais forte das nações. Seria, se a coroa não tivesse mais de cinco metros de altura.
Todos ficaram perplexos com aquilo, inclusive o nobre. Após segundos que se alastraram, ele pediu explicações do tamanho absurdo do objeto, visto que humano nenhum que pudesse caminhar sobre todas as terras pudesse ostentar a coroa.
O ourives, em um tom mais humilde e sereno possível, explicou em voz alta que apenas atendera a encomenda da forma como lhe fora requerido. Haviam demandado que fosse feita uma coroa digna do Rei dos Reis, um símbolo de poder absoluto. Contudo, quanto maior a importância do nobre, maior suas responsabilidades. Então, se aquela realmente fosse um símbolo de poder absoluto, seu peso deveria representar a responsabilidade que isso acarretaria.
Um silêncio perturbador decaiu sobre todos os presentes, ao ouvirem idéias muito a frente de seu tempo. A comitiva real ficou abismada com as palavras daquele artesão, e o ódio transpareceu claro nos olhos do nobre.
O resultado por se falar de ideais justos e corretos naquela época eram claros. Toda a aldeia foi queimada e saqueada, a população fugiu para outras paragens e a família do ourives foi assassinada. A ele, restou o destino de ter a visão arrancada e as mãos completamente feridas.
O homem ficou a beira da loucura, vagando a ermo e amaldiçoando a si mesmo e ao mundo que permitia que homens como aquele pudessem ficar no poder.
E o homem adoeceu de forma terrível, junto ao relento e aos trapos. Viveu como indigente por diversas estações, amaldiçoando a si mesmo em cada passo que percorria. No fim de sua existência penosa, não passava mais do que um indigente maltrapilho.
Então ele veio. Um vulto envolvido em uma capa pesada, deixando-se prostrar a frente do velho moribundo que mendigava na calçada. Sua aura transparecia um misto de admiração e pavor, enquanto ele escondia as vestes e o corpo com sua massa disforme negra.
Deixou cair um punhado de moedas de prata, e se agachou logo em seguida, sibilando as palavras como uma cobra estalando a língua. Falou que sabia sobre toda as desgraças do mendigo, que carregava o peso da morte e desonra de seus familiares e amigos sobre os ombros. E que poderia lhe oferecer uma salvação para seu tormento.
Para tanto, lhe trouxe estranhos fragmentos de metal que o ourives nunca havia visto em sua vida. O pedido era que deveriam ser moldados na forma de jóias, brasões de poder, armas jamais vistas antes na história da humanidade...
A atmosfera do corredor estava inflamável, sendo qualquer faísca de tensão desencadearia uma explosão em escala colossal. Em cada ponta, Sentinelas e Guardiões se afrontavam com olhares e expressões, punhos fechados e dentes cerrados. Ainda que houvesse tamanha demonstrasse de ódio, nem mesmo os mais exaltados tinham coragem de mover um músculo sequer.
Entre ambos os grupos havia as portas duplas do refeitório, fechadas. Lá dentro, estavam reunidos os Sete Sucessores junto com ambos os Chefes das famílias, decidindo o futuro das Primordiais de Firenze. Logo à frente do arco da porta estavam prostrados dois vultos distintos e de aspecto fúnebre.
Vestiam longas capas e capuzes brancos, o rosto encoberto por máscaras negras com uma viseira tão fina que era impossível distinguir os olhos. Usavam vestes de couro, com luvas e botas, segurando bastões longos com adornos prateados. Arautos.
-São como mensageiros dos Sucessores. Conta-se que em épocas remotas algumas viagens eram difíceis ou urgentes demais para que os sábios a realizassem. Então foram treinados órfãos para que servissem para tais serviços. –cochichou Jô, assim que avistou as figuras ali. Ambos os indivíduos mantinham-se rígidos, em silêncio, como estátuas de mármore sólido.- Yure ma falou certa vez desses caras. Sua força equivale a de uma pequena milícia inteira.
De fato, naquele momento os estranhos estavam ali para guardar a reunião que ocorria dentro do refeitório improvisado em sala de reuniões. Dentro daquele grande espaço enclausurado por quatro paredes, estava sendo decidido o destino das Primordiais de Firenze.
Como Zatch já havia adiantado anteriormente, a situação não estava nada boa para os Vongola. Tendo dito o auxílio de Yure por mais de dois anos, eles desrespeitaram as regras do Conselho de San Dracone. Com isso, a transgressão que Letícia praticara de quase exterminar a vida do Sucessor do Sol fora praticamente anulada.
Já haviam se passado mais de meia hora desde que Kiba chegara para encontrar os outros, sendo o último Guardião a adentrar no local. Por mais que ninguém ousasse falar mais do que sussurros, a troca de olhares e os gestos com as mãos começavam a expressar nervosismo, potencializados pelo farfalhar das vestes sóbrias dos Arautos.
-Se os Sucessores não estivessem do outro lado destas portas, vocês encontrariam a mais terrível das mortes, escória.
A voz de Slan ecoou grave pelo corredor, despertando todos do estupor causado pela espera. Alguns de seus companheiros riram e sorriram com a afirmação, menos Marcello, que ainda mantinha o rosto parcialmente inchado pela investida da Doku Sasori.
-Como é que é?! Você ta querendo apanhar filho da p...!!! –Kiba começou a berrar, até que sua irmã mais nova colocou a mão em sua boca e lhe deu uma chave de braço. Não restou mais nada para o espadachim a não ser espernear.
Daniela deu uma risada cruel, deixando as costas da mão esquerda a frente dos lábios.
-Vocês precisam domesticar melhor seu animalzinho...
Karoline trincou os dentes e olhou para o estrategista de soslaio, o único olho visível castanho com um lampejo de crueldade.
-Deixa eu soltar ele, deixa. Eu vou aturar ver ele acabar com a raça daquela oxigenada.
O Guardião da Chuva meneou a cabeça, suspirando.
Jô mantinha o olhar fixo nas gêmeas ilusionistas da família Gallardo. Lado a lado, eram praticamente idênticas. A única diferença gritante era a expressão: uma se mantinha impassível e gélida, enquanto a outra tinha um olhar desinteressado que vagava por todos os cantos do corredor. O Guardião da Névoa levou a mão ao centro do peito, lembrando da dolorosa armadilha que o derrotará no shopping. Havia sido enganado desde a manhã chuvosa em que encontrara uma das Sentinelas pela primeira vez, e sentia raiva de si mesmo por isso.
O pugilista do Sol ao seu lado mexia lentamente os pulsos, movimentando tendões e músculos em uma atividade quase terapêutica. Seus olhos cor de safira atrás das lentes dos óculos. A imagem de Sara presa pelos tentáculos ainda talhava seu sangue. A primeira oportunidade que tivesse, iria esmigalhar os ossos de cada um que tinha tentado machucar seus amigos.
Göbel mantinha-se mais afastado, encostado na parede com as mãos no bolso. Achava tudo aquilo desnecessário.
Kiba finalmente foi solto do braço da Guardiã da Nuvem, ajeitando a roupa e bufando.
-Está demorando demais. –sibilou Jô,próximo ao ouvido do estrategista. –Isto está me deixando preocupado.
Então, subitamente, ambos os Arautos deram um passo a frente em um movimento sincronizado, para em seguida darem outro lateral para fora do alcance da porta. Giraram o corpo, voltando-se noventa graus um de frente para o outro, e batendo os bastões negros pro chão.
Todos pararam com as provocações e com o escárnio. A reunião havia chegado ao fim.
Os primeiros a saírem da sala foram Letícia e Dudu, lado a lado à uma distância palpável. Não emitiam uma palavra, tampouco sua expressão poderia identificar o resultado do que havia ocorrido lá dentro. Julia veio logo atrás, com seu sorriso tranqüilo e seus olhos claros emitindo uma calmaria sufocante, seu longo vestido se remexendo pela movimentação de suas pernas.
As portas novamente se fecharam, ecoado no silêncio.
A Sucessora do Céu remexeu a cabeça para ambos os lados, encarando os dois grupos distintos, as mãos abertas e juntas na altura do peito. Os Chefes foram de encontro aos comandados, enquanto a mulher de cabelos dourados começou a falar.
-Hoje, em uma reunião extraordinária, ao qual todos os Sucessores estiveram presentes, foi se discutido os eventos que ocorreram nos últimos dias, todos em função da posse das Sete Primordiais de Firenze.
Ninguém ousava falar nada. Julia agradeceu com um aceno de cabeça. Dudu baixou o olhar.
-A Décima Geração da Família Vongola recebeu a benção de ter em mãos as Sete armas seladas primordiais, como foi decidido durante o último Conselho de San Dracone. Contudo, tiveram no decorrer dos últimos anos os mesmos receberam a ajuda clandestina do Sucessor do Sol, Yure. Algo que transgride toda a conduta e missão que ele próprio jurou manter.
Letícia sorriu, remexendo levemente seus cabelos ruivos que agora mantinham-se espiralados. Culpa da chuva de antes.
Karoline cerrou o punho. Suas juntas estrelaram.
-Em contrapartida, a própria família Gallardo transgrediu também o tratado do último Conselho, atacando deliberadamente a Vongola pelas armas e ainda tendo quase acabado com a vida de um dos Sucessores.- os Arautos bateram mais uma vez as pontas dos bastões no chão.- Após ouvirmos ambos os lados e ponderarmos muito, chegando a uma decisão por maioria de votos.
“A Vongola recebeu a ajuda do Sucessor do Sol, mas não lhe pediu nada. O próprio disse que os ajudou por vontade própria, logo este é um erro que deve pesar em suas próprias costas. A Gallardo pecou em quebrar o Tratado, mas entendemos seu descontentamento em ver que outra família ganhara tantas regalias. E acreditamos que isso lhes dá o direito de reclamar as armas.”
-Reclamar... Como assim reclamar? –o ilusionista da Névoa arqueou uma das sobrancelhas. Pelo sorriso que se alargou no rosto da Rainha de Gelo, aquilo sem dúvida não era um bom sinal.
Sem se virar, Dudu respondeu a pergunta do Guardião.
-Um combate, pelo domínio de nossas armas seladas.
A notícia trespassou todos os Guardiões como um choque elétrico, causando desorientação. Julia se virou para eles, a voz ainda se mantendo tranqüila e o rosto sereno.
-Entendemos a vontade de nossos antecessores em manter as Sete Primordiais com vocês. Mas devemos considerar o quanto vocês receberam de “vantagem” por esses dois anos. E queremos dar a mesma oportunidade a Gallardo.
A Guardiã da Nuvem explodiu, dando um passo a frente e vociferando com fúria, enquanto erguia o braço direito com o punho fechado. O pugilista do Sol lhe segurou os ombros, e se surpreendeu ao ver que tinha que usar grande parcela de sua força para segurar a morena.
-Depois de tudo o que eles fizeram, vocês querem dar uma oportunidade?! Eles quase mataram o Yure, eles...!!!
Ela se calou e Ricardo sentiu que os músculos de Karoline ficaram rígidos de repente. Quando se deu por si, viu que Julia apenas olhava na direção da dupla, voltando o corpo completamente para aquele lado da sala.
Ainda que não passasse de uma nuance, era perceptível a Chama do Céu que emanava daquela mulher. Harmonia...
Karoline engoliu em seco, os braços tremendos devido ao choque dos músculos tencionados e a vontade de se mexer. A diferença de nível entre um Sucessor e uma pessoa normal nunca lhe fora tão clara quanto agora. Até mesmo os Gallardo sentiram esse peso: Daniela sentiu um calafrio ao pensar se Yure estava ou não realmente lutando a sério contra ela e seus comparsas naquela ocasião anterior.
Embora Julia, apenas com uma liberação parcial de sua Chama, oprimia Karoline sua aura serena continuava.
-Vejo uma relação entre a escolha de Yure de ajudar vocês e o preço que ele pagou para “proteger” suas vidas. Quando uma pessoa escolhe suas próprias razões em contraponto a um bem maior, as conseqüências que tudo isso acarreta não podem ser amaldiçoados.
-Como é?
O passo em si foi lento, desajeitado e um tanto espalhafatoso, refletindo ao gigantesco esforço que Karoline fez para movimentar um único membro estando envolvida na técnica de paralisação da Sucessora do Céu. Contudo, em meio ao vazio provocado pelas palavras da líder do Conselho de San Dracone e a resposta ferina da Vongola, o som da sola batendo no chão ecoou como um passo de um titã.
A própria loira de cabelos dourados ficou surpresa.
-Antes de ser um Sucessor, ele se tornou nosso amigo. –a fala saia entre dentes, palavras truncadas, devido ao esforço que a jovem Guardiã da Nuvem empregava para tentar continuar se locomovendo. –Não importa se você é uma Sucessora, uma Líder, tampouco Deus... Eu não admito que você enxergue justiças nos atos da família Gallardo.
-Está ousando me desafiar... Criança? –a expressão de Julia se modificou, transformando-se da serenidade para de um sorriso para o assombro de um aviso. –Sabes que se levantar a Arma Selada contra um dos membros do Conselho de San Dracone, você perderá sua porte por meio de coerção...
-Então, hipoteticamente, se nós atacarmos sem elas, a lei não se aplica, correto? –a voz de Zatch chiou como uma lâmina cortando o vento, enquanto ele caminhava com as mãos no bolso para o lado de Karoline livre da influência da Chama do Céu. Kiba uivou de animação praticamente com as palavras do estrategista, socando um dos punhos com a palma da mão oposta aberta.
O Arauto que estava próximo a Julia movimentou o bastão negro, girando-o lentamente no ar usando as duas mãos, preparando-se para entrar em posição de batalha. Do rosto oculto de seu capaz negro, uma baforada de ar gélido como fumaça escapou por seus lábios identificáveis.
O som de estática seguiu-se de um brilho luminoso esmeralda, enquanto a Chama do Trovão que tanto se assemelhava a eletricidade percorria o braço esquerdo de Göbel como em um fio de alta tensão.
-Eu vou adorar quebrar esse gravetinho... –seu sorriso sádico acompanhava o brilho violento em seus olhos castanhos protegidos pelas lentes de seus óculos de modelo esportivo.
Alguns Sentinelas se remexeram inquietos, sem conseguir acreditar naquela cena de afronta que estavam presenciando. Slan e Daniela, na vanguarda da família Gallardo, arregalaram os olhos ao ver todos os Guardiões (com exceção do Chefe) formarem quase de imediato uma linha de ataque.
Marcello cobriu o rosto cheio de hematomas com as costas de uma mão, com um largo sorriso de escárnio, estando com a cartola pendendo para frente e apoiado na bengala que carregava sempre. Mantinha-se o mais afastado de Letícia possível, ciente de que ela ainda poderia estar furiosa por ele ter falado demais. Mas estranhou ao perceber que, ao seu lado e encostada em uma parede de braços cruzados, a Sentinela da Chuva deu algumas risadinhas em volume baixo. Isto encomendou o homem, que voltou a face para ela e ajeitou o fraque intrigado.
-Por que você está rindo, mulher?
-Vocês da Gallardo não compreendem o valor... Se lhe causa espanto ver homens desafiando Sucessores por seus próprios ideais, é porque você nunca lutou por algo que valesse a pena.
A franja azulada artificialmente encobria parcialmente seus olhos belos, com os lábios pintados em preto, enquanto olhava disfarçadamente para o grupo inimigo. Em especial, o espadachim de cabelos crespos castanhos.
-Basta, meus amigos. Sem hostilidades desnecessárias.
Os Guardiões voltaram a atenção para traz, onde Dudu mantinha o braço erguido de forma apaziguadora, pedindo calma aos seus comandados. Suas feições eram calmas, embora os olhos severos, muito diferentes de como estavam a vinte e quatro horas atrás.
O Chefe tomou a frente, chegando próximo a Julia e o Arauto.
-Peço desculpas pela atitude de meus Guardiões, mas não a postura deles. Como eu disse lá dentro em alto e bom som, não me agrada nem um pouco ver que as ações –e eu ao sentenciar iss, cerrou o punho esquerdo colado no corpo com força, tentando reprimir a raiva que lhe consumia por trás da máscara de tranqüilidade- da Gallardo saíram impunes. Contudo, eu aceito o Desafio pela posse das Sete Primordiais de Firenze.
Os Guardiões da família Vongola ficaram surpresos.
-Lutar... Pelas armas seladas? –Ricardo se voltou para Dudu, ajeitando os óculos de grau. Era possível ver as linhas dos músculos desenvolvidos de seus braços ficarem rígidas pela tensão. Dudu confirmou para ele com um aceno com a cabeça, um gesto que se estendia a todo o resto da família.
-Perfeito. –Karoline sorriu, após estalar a língua no céu da boca. A franja castanha diagonal escondia o tapa-olho sobre o lado direito do rosto.
-Isto é verdade, Rainha? –Slan deslizou um passo, ficando um passo atrás de Letícia e sussurrando em seu ouvido. Não precisou de uma resposta com palavras, apenas o sorriso de contentamento da mulher quando ela deixou o rosto de perfil e mostrou seus lábios em vermelho.
Guardiões e Sentinelas começaram um pequeno reboliço, mas logo a Sucessora do Céu bateu o pé no chão, suavemente. Uma pequena onda alaranjada e circular, como uma brisa quente, se espalhou do ponto onde ela estava e atravessou a sala. Novamente, os presentes sentiram o corpo pesar e as Chamas serem anuladas. O Guardião do Trovão, que irradiava a energia esmeralda de seu braço, observou impotente a sua Chama ser extinta em pleno ar.
Julia voltou a juntar as mãos a frente do peito como em uma prece. Seu olhar voltou a ser gentil, enquanto suas palavras eram em um tom doce. O Arauto, que não parecia ter sido afetado pela técnica da mulher, girou o bastão no ar mais uma vez e voltou a se prostrar em sua posição de vigilância.
-O Conselho ponderou sobre a melhor forma de resolver está questão, visando que punir as duas famílias seria um tanto desnecessário. A Gallardo quer a posse das armas seladas para si, assim como conteúdo da urna, tendo como base a afirmação de que a Vongola é frágil demais para deter tal poder. Contudo, não podemos ser negligentes quanto a vontade de nossos antecessores. Por isso queremos ter uma prova definitiva de quem merece portar tamanha dádiva. E quando eu digo definitiva, é porque será a última vez que o Conselho permitirá que alguém reclame as armas seladas.
O ilusionista da Névoa respirou fundo e voltou o olhar para Dudu. Diferentemente do seu feitio, seu olhar não estava zombeteiro e sua fala não tinha qualquer resquício de traquinagem.
-É verdade, Dudu? Você concordou com isso?
O Guardião do Céu se voltou para os amigos. Seu olhar discorreu por todos os seus seis guerreiros, aqueles que o apoiaram naqueles últimos dias difíceis. Agora, recuperado da razão e sem o véu de vermelho de ódio que lhe turvava os pensamentos, pensava em quão indigno era de ter tão preciosos amigos.
Haviam confiado em sua decisão, e retornaram ao seu chamado mesmo após anos de trilhas diferentes. Empunharam armas e protegeram seus ideais, e até mesmo tentaram por meio da força aplacar sua própria fúria. Agora estava diante de todos mais uma vez, tomando a decisão de Sete vidas por Uma.
Pensou em argumentar, pedir desculpas por mais uma vez usufruir do destino daqueles caras por mais uma vez sem pedir permissão. Mas antes que ele falasse alguma coisa, apenas visualizou Zatch lhe fazendo um sinal de positivo com o polegar.
-Desta vez, vamos lutar a sério. –sentenciou o Guardião da Chuva calmamente. Essa simples frase, somada aos olhares cúmplices de todos os outros cinco, tirou um enorme peso dos ombros do líder da Décima Geração.
Jô foi até o Chefe e lhe deu tapinhas nas costas. Voltou a atenção de soslaio para o grupo dos Gallardo, pairando sua atenção nas gêmeas, sentindo algo estranho e não resolvido na boca do estomago.
-Não animem-se tanto, Vongola. –a Rainha de gelo jogou mechas de seu cabelo ruivo tingido para o lado, com a ponta dos dedos. –Vocês apenas estão prolongando uma história que nós todos sabemos que tem apenas um final certo.
-Sua derrota, é claro. –rebateu ríspida a Guardiã da Nuvem, cruzando os braços. –Quem se meter no meu caminho, amigo ou inimigo, eu vou surrar até a morte.
Daniela deu uma risada cruel, se divertindo com a morena. Isso deixou Karoline ainda mais irritada. Vanessa suspirou, achando o um todo daquela situação um tanto tedioso.
-A luta será administrada por nós. Portanto, qualquer contato entre as duas famílias é expressamente proibido. A violação desta regra trará conseqüências severas. O prazo para os preparativos serão de sete dias, portanto este tempo lhe és destinado para que igualmente as duas famílias estejam preparadas para o derradeiro embate. –todos ficaram se calaram a partir do momento que Julia começou a falar, e continuaram assim mesmo momentos depois da Sucessora terminar de falar. Cada um dos Arautos se locomoveu para um dos lados do corredor, nem sequer pedindo licença enquanto passavam. Apenas acenaram com seus bastões para que cada grupo seguisse para uma direção. –Vão, Vongola e Gallardo. Ainda temos que discutir outros assuntos pendentes.
Dudu soltou o ar dos pulmões, vagarosamente como se este simples gesto involuntário doesse: sabia que agora seria decidido a situação de Yure como Sucessor do Sol. E sua punição.
Um a um, começou a dispersão. Volta e meia alguém olhava para trás, cochichava ou até fazia um gesto ofensivo. Dudu e Letícia se entreolharam uma última vez ainda, como se seus olhares fossem lâminas silenciosas que se digladiavam em meio ao ambiente. A mulher continuava ostentando um sorriso incomodo de vitória, contrabalanceado com a expressão resoluta de Dudu.
Viraram ao mesmo tempo, afastando-se sem nem sequer olhar para trás, enquanto Julia novamente se recolhia para dentro do refeitório em que ocorria a reunião, abrindo as portas o mínimo possível para impossibilitar qualquer espiada em seu interior.
Kiba também já estava começando a se retirar, quando ouvir uma voz lhe chamar.
–Treize.
Jéssica havia se desencostado da parede, onde passara grande parte
de todo aquele espetáculo de braços cruzados e observando. Estava claro que ela pouco se importava com o resultado daquela luta definitiva ou tampouco com a própria Gallardo em si.
O rapaz estacou, mas não disse nada. Seus olhos claros continuavam rígidos e fixos no horizonte, embora sua atenção estivesse completamente voltada nas palavras dela.
A gótica deu um passo na direção dele, mantendo a distância ainda assim bastante folgada. Analisava a silhueta do Guardião da Tempestade tranquilamente com seus olhos vívidos, estudando os detalhes com cautela.
-Eu não irei atrás de nenhum Mestre até matar você. –o tom que ela usou foi diferente de tudo que ele ouvira daqueles lábios antes: não estava carregado com malícia ou arrogância, tampouco provocação: era como se a mulher estivesse simplesmente passando um comunicado ao outro membro da Ordem. – Acredito que isto deixará você treinar melhor.
-Quer um obrigado e um cafuné por isso, véi? –a voz saiu tão baixa que saiu com certo toque de rouquidão. Ainda assim, ele não se virou.
Ela nem se deu ao trabalho de perder o tom com aquela resposta mal-criada.
-Não seja tolo, cherry. Eu estou intrigada com nossa luta. Nunca vi um espadachim tão inconseqüente a ponto de quebrar a própria a arma em prol de uma luta. Você me disse que jogou fora seu orgulho em nome da Vongola. Quero ver até onde isto poderá levá-lo antes que sua vida seja ceifada por minhas mãos.
Desta vez, Kiba não respondeu. Deixou Jéssica sozinha, enquanto ela deixou seus olhos vagarem pelas costas do espadachim. Um oponente daquele feitio nunca havia cruzado seu caminho. Perguntava-se a jovem, tatuada com a marca do Estandarte, se era por isso que desejava a morte precoce daquele amaldiçoado.
Os sete então foram reunidos em uma das saídas da Torre do Vigia. Próximo dali, o som da baía calma e imersa em uma escuridão profunda era audível, entrando em conflito com o silêncio do Arauto que havia estacado naquele local. Os membros da família Vongola ficaram um tanto desorientados já que, mesmo estando parados com a cabeça voltada para eles, era impossível saber para onde aquela figura desconhecida estava olhando.
O ilusionista deu uma leve cotovelada no braço do pugilista, envergando o tronco para poder cochichar no ouvido do outro.
-Sou eu ou ele não falou nada até agora? Se é que está respirando pra dizer alguma coisa...
Göbel franziu os olhos para o lado com o comentário do amigo, como se o mesmo tivesse dito algo bastante ignorante.
Foi quando o estranho retirou de suas vestes algo que todos haviam se esquecido por completo em meio a tanta confusão: a pequena caixa preta e fina, o que estava lacrado dentro da urna e que só podia ser aberto com a junção das Sete Primordiais de Firenze. Não era de se admirar o espanto e a indagação de todos os amigos do por quê aquele indivíduo a estaria carregando.
Havia algo mais junto com a caixa. Parecia um pequeno dispositivo de som. O Arauto, com gestos calculados, apertou um pequeno botão no estranho aparelho e uma luz fraca se acendeu. Ruído de estática.
-Se o Arauto já ativou o canal de comunicação, significa que está seguro. –uma voz mais ao fundo, quase impossível de ser detectada, disse algo antes de dar uma risada um tanto excêntrica. Alguém se aproximou do outro lado.
Era fácil distinguir a voz forte e um tanto rígida do Sucessor da Chuva.
-O que está acontecendo? –perguntou Dudu, olhando para o Arauto. Mas não foi dele que veio a resposta.
-Logo após vocês saírem para fora do refeitório, o Conselho entrou em debate longe dos ouvidos de Letícia Gallardo. Afinal, antes de toda essa confusão começar, nos tínhamos o compromisso de entregar a vocês o conteúdo da Urna.
–E ao qual nada sabemos a respeito ainda. –o pugilista falou, girando o pulso direito algumas vezes para aliviar um pouco a ansiedade.
-É o que se pode chamar de um catalisador para suas armas seladas. Vai multiplicar o poder de cada uma delas em incontáveis vezes, podendo chegar a um resultado que beira o absurdo...
–...Tamanho poder... Pode nos dar a chance de liquidar de vez com a Gallardo. –concluiu Jô, coçando o queixo.- A maioria dos Guardiões concordou com a cabeça.
-Não podemos falhar desta vez. Julia falou que era uma batalha definitiva... –o Chefe respirou fundo, sentindo o coração acelerar um pouco a batida.
-Mas não é assim tão simples. Esses artifícios são de uma complexidade de controle muito grande. Levaria até anos para que vocês consigam utilizá-los. Por isso decidimos lhes dar um pequeno crédito: treiná-los para que possam dominar por completo o Conteúdo da Urna...
Zatch arqueou uma das sobrancelhas, taciturno.
-Treinar... Com os Sucessores?
O Arauto então abriu a pequena caixa fina e um brilho forte irrompeu no meio da noite. Em primeiro momento todos tiveram que proteger os olhos de tamanho brilho, até que o mesmo diminuiu de intensidade. Todo o grupo da Vongola ficou intrigado ao ver os sete pequenos objetos, dispostos em círculo dentro do fundo aveludado.
-Isso é... –Kiba começou, inseguro, piscando os olhos fortemente ainda sem ter se acostumado com a luz.
-...Algo que emana muito poder. –completou Ricardo, cerrando os dentes.
E assim, sete eram seu número como sete eram os espectros de Chama. Ali se enclausurava a última chance de Dudu e seus comandados de encerrarem por vez a facínora Letícia e seus ataques incessantes a tudo que era caro para a Vongola.
E mais além, embora eles ainda desconhecesse, ali as engrenagens que compõe o Carma começaram a se movimentar, pesadas e lentamente, assim como foi previsto milhares de luas antes desta noite.
Sete vidas que nunca mais seriam as mesma.
Sete, como os anos que Firenze levou para completar sua obra prima.
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