Beyond The Bounds Of Sky
27 Capítulo 27 - Afiando as presas de aço
O orvalho ainda se acumulava nas folhas verdes, escorrendo delicado e refletindo as luzes solares ainda fracas do começo de manhã. Uma leve brisa de friagem serpenteava quase junto ao solo, tão típico de regiões montanhosas e vales. Logo que a porta do veículo negro se fechou, ele partiu, deixando um pequeno rastro de poeira e remexendo os cascalhos da rua de terra batida enquanto se afastava. Ali, deixou uma figura solitária a encarar a paisagem bela e serena do local, acompanhada pelos sons vivos e tímidos dos pássaros que começavam a despertar.
Kiba segurou firme a alça da mochila verde de viagem que carregava sob um dos ombros, encarando o único caminho provável que deveria seguir: uma pequena trilha de pedras irregulares que era engolida pela vegetação cheia de árvores.
Sentiu a espinha gelar por um momento, após mais uma lufada gelada daquela manhã. Fora dos limites da cidade, ali o clima ficava menos úmido e a temperatura baixava um pouco. O Guardião da Tempestade coçou a nuca, enquanto começou a lentamente caminhar com seus tênis Converser surrados firmando a sola no pavimento irregular. Ajeitou o casaco negro fechado sobre o tronco, com a gola alta junta ao zíper quase alcançando o queixo do rapaz, colocando, em seguida, a mão livre no bolso da calça jeans cinzenta de boca de sino. Diferente dos dias anteriores, seus olhos azuis exibiam um reflexo esverdeado, acompanhando o raiar daquele novo dia.
Uma semana. Era todo o tempo que tinha antes do confronto derradeiro contra os Gallardo.
Havia acordado cedo e retirado da Torre do Vigia, sabendo que seus amigos fariam a mesma coisa e partiriam em rumos diferentes. Cada um treinaria com o respectivo Sucessor de sua Chama, tudo para conseguir dominar o poder dos misteriosos artefatos Vongola. “Com eles, a verdadeira natureza das Sete de Firenze será revelada”, foram as últimas palavras de Guilherme antes de desligar o comunicador.
O espadachim retesou os ombros, enquanto a trilha começava a ficar inclinada para cima e obrigava o rapaz a dobrar levemente os joelhos ao caminhar. Os cabelos castanho-escuros e rebeldes do rapaz estavam escondidos por debaixo de um boné azul de um time de baseball conhecido, com a aba virada para trás e sem nenhuma mecha cair em sua testa. Estava com um certo mau humor, com o percurso se complicando cada vez mais à sua frente. Claro que isto em grande parte era devido a ter que acordar cedo, coisa que detestava, mas toda aquela situação se complicando cada vez mais contribuía.
Kiba era uma pessoa de raciocínio simples. O mínimo de consideração que ele esperava do mundo à sua volta é que ele seguisse esta mesma regra.
Agora estava em um ponto que não bastava simplesmente derrotar seus inimigos com a força que possuía. Teria que se desdobrar para conseguir suportar a grande batalha que estava por vir. Aliás, não só ele. Cada um teria que passar por um treinamento especial e isolado do resto da família, já que Letícia Gallardo não poderia nem sonhar com essa orientação. Embora os Sete Sucessores tivessem que honrar o compromisso de seus antecessores e instruir a Vongola quanto ao uso de suas novas posses, isto causaria uma imensa dor de cabeça para o Conselho de San Dracone.
O que os olhos não vêem o coração não sente. É o que dizem.
Tortuoso era o caminho, e o Guardião da Tempestade mais de uma vez teve que se equilibrar para não cair. Algumas pedras eram escorregadias, sendo este fato piorado por seu par de tênis surrado não ter praticamente nenhuma aderência ao solo.
Como deveria ser o Sucessor da Tempestade? Tentou imaginar, mas nada via em sua mente. Conhecia já boa parte dos membros do Conselho de San Dracone, e tinha completa ciência de que todos eram praticamente muito diferentes entre si.
Estava um pouco ansioso, essa era a verdade. Suas pernas começaram a subir uma escadaria de pedras limosas, com certa dificuldade. Bufou, pensando no quão maldito tinha sido aquele motorista que não havia deixado ele dar uma parada em uma padaria para tomar café da manhã.
Finalmente alcançou o patamar elevado e se surpreendeu ao encontrar um grande pátio reto de paralelepípedos antigos, adornado de detalhes e esculturas quebradas, e com uma grande fonte desativada em seu centro. Pelo aspecto do mármore e pelo limo que cobria boa parte das estruturas, aquilo deveria estar abandonado a vários anos. Mais ao fundo, entre as árvores fechadas que entrecortavam a luz potente do sol, estava mais um caminho estreito que parecia levar a algum outro lugar.
Os olhos azul-esverdeados do rapaz contemplavam perdidos aquele imenso espaço, deixando que seu silêncio potencializasse tamanha contemplação. Nunca imaginaria um espaço como aquele em meio a cidade industrial que havia crescido com seus amigos, era algo completamente surreal.
Enquanto seu corpo e sua atenção voltavam-se para as esculturas neo-clássicas, uma silhueta deslizou saindo do meio das árvores sorrateiramente. Deixou as mãos na borda dos bolsos da jeans justa, enquanto encarava o Guardião de longe.
-Esse lugar é fantástico, não é?
Kiba se virou velozmente, devido a ter facilmente reconhecido aquela voz. Sua expressão era um misto de confusão e estranheza.
-...Véi.... Que que ‘cê ta fazendo aqui... Kamila?
A ruiva riu, seus cabelos vibrantes como línguas de fogo presos em um rabo de cavalo alto na cabeça, a franja diagonal curta voltada para o lado. O rimel preto forte contornava seus olhos, fazendo uma pequena volta nos cantos. Ela usava uma blusa sem mangas preta e colada ao tronco, junto à calça jeans justa e o tênis de corrida. E possuía uma fina corrente de prata com o pingente com o símbolo do infinito. Muito mais despojada do que como costumava andar ao lado da Guardiã da Nuvem junto ao comitê de disciplina.
-Meio lerdo como sempre, ein Kiba. –ela soltou o ar pelos lábios. O rapaz continuou completamente embasbacado com a presença de Kamila ai, e ela massageou as próprias têmporas com os dedos da mão esquerda. – Ah cara, fala sério.
Ela caminhou alguns passos em direção ao amigo, os pés pisando em folhas secas esparsas no pátio antigo.
O Guardião da Tempestade observou a moça virar parcialmente o corpo em sua direção. Abaixou a borda da jeans junto com a lingerie preta, erguendo assim junto a blusa, apenas o suficiente para que pudesse mostrar a tatuagem em negro que se estendia da metade da lateral de sua coxa até um pouco acima da linha da cintura.
O símbolo era um chocalho de três esferas, adornado com detalhes vibrantes de chamas e traços abstratos. O espadachim, a despeito de sua lerdeza, reconheceu o que aquilo representava e sua expressão aturdida transformou-se em um assombro feroz. Suas pupilas se contraíram quando os raios do sol que ia lentamente se erguendo no céu atingiram seus olhos e refletiram tons azul-esverdeados da íris do rapaz.
-Você... –balbuciou, deixando de apertar a alça da mochila que carregava.
A ruiva concordou com a cabeça.
-Dentre os Sete Caminhos, eu sou a Portadora da Fúria.
Um baque surdo levantou uma fina nuvem de poeira, quando o rapaz soltou a alça que carregava no ombro e o fardo de tecido atingiu o solo. Ele parecia ainda descrente nas palavras que sua amiga de anos já estava pronunciando.
-Como... Você... É a Sucessora da Tempestade? –a voz rouca saiu trêmula. A ruiva passou os braços ao redor do próprio corpo como se abraçasse a si mesma, olhando para o lado por um momento. Esperou alguns segundos, antes de voltar a olhar para o amigo.
-Venha comigo.
E se virou, voltando pelo lugar entre as árvores de onde havia surgido. O espadachim deu uma rápida olhada em volta, desconfiado e ainda sem entender porcaria nenhuma, e rapidamente iniciou uma passada apressada atrás de Kamila.
Quando a alcançou, ela nem sequer olhou para trás. Mantinha um passo apressado, mas leve, enquanto pouco a pouco o caminho ia se alargando.
Sua voz facilmente se misturou ao som da mata em que eles iam se embrenhando.
-Foi logo depois dos Guardiões se separarem. Nossa vida aqui ficou uma loucura, quando o próprio Yure veio me procurar em segredo. Ao que parece o Sucessor da Tempestade havia se ferido gravemente por motivos que nem ele mesmo havia conseguido me explicar, e teve que deixar o cargo. E, por algum motivo, meu nome havia sido indicado para tomar o lugar. –ela não se virou em nenhum momento para ver se o amigo a estava seguindo, mas continuou falando. Kiba tinha certa dificuldade em segui-la naquele ritmo, já que era tão sutil quanto um trator passando por um corredor estreito, mas não perdeu uma parte sequer da explicação. –Fui instruída a não contar a ninguém, principalmente a vocês, já que eu não queria me afastar da família Vongola ou da companhia de Karoline.
O espadachim esquivou por milímetros de dar uma testada em um galho de árvore.
-Mas então, se nenhum Sucessor pode ter contato direto com a Vongola, você via o Yure “quebrando as regras” e não falava nada?
A ruiva deu de ombros.
-É melhor ficar em silêncio nesse casos. Tomei um belo de um safanão por isso.
A dupla passou por outra clareira, essa menor, onde havia um grande chalé de madeira colonial já gasto, porém demonstrando ótimas condições. Kiba pôde reconhecer de relance a caminhonete de Kamila e uma estrada que parecia levar para fora daquelas paragens. Eles tomaram outro rumo, e a trilha tornou-se um caminho de terra batida. Ela continuou a falar, ajeitando o rabo de cavalo.
-Bem, de qualquer forma e até segunda ordem, só você e Dudu conhecessem meu segredo. E espero que continue assim. –virou a face para trás, e o olho de coloração escura encarou sério o Guardião da Tempestade. –Nem Karoline pode saber.
Kiba respirou fundo, coçando a cabeça. Entendia o porquê de tanta seriedade por parte da amiga: deveria ser doloroso esconder algo tão sério da Guardiã da Nuvem, sua amiga de infância.
Chegaram por fim a um descampado, onde o sol batia em um grande paredão rochoso e antigo. Era feito de pedra bruta, desgastada pelos incontáveis séculos exposta ao clima. O espadachim parou, colocando as mãos no bolso da jaqueta negra, enquanto a Sucessora andou um pouco mais a frente e colocou as mãos na cintura. Voltou-se de frente para o Guardião, com a expressão séria.
-Então, você é quem vai acabar me treinando. –sentenciou o Vongola, e teve em resposta um aceno positivo com a cabeça. -Bem, antes você que algum panaca falastrão.
-Vou levar isso como um elogio. –ela anuiu um pouco a rigidez nos traços no rosto, esboçando até um leve sorriso, mas voltou a ficar séria. –Entenda, Kiba, eu tenho apenas uma semana para te treinar. E não vou mentir pra você porque já é de seu conhecimento: seu treinamento será o mais difícil de todos... Mostre-me. Eu sei que aquilo já está em sua posse.
Os dedos do rapaz de cabelos crespos abriram o zíper da jaqueta até a altura do peito e um leve reflexo metálico revelou o brasão da Tempestade como pingente em uma corrente bronzeada. Porém ao seu lado jazia outro objeto metálico prateado.
Um anel, ostentando o mesmo brasão da Tempestade e com detalhes vermelhos no círculo.
O último presente dos Anciões, antes de partirem para o Outro Lado.
-A Chama nada mais é que um fluxo constante de energia vital que percorre o corpo de cada um, sempre mantendo o ritmo conforme o estado mental e psicológico da pessoa. Muitas vezes, podemos acelerar este fluxo a um ponto de que ele extravase do nosso corpo... É assim que liberamos a energia. – enquanto ela ia falando, deixava o braço suspenso no ar com a palma da mão aberta. Lentamente, a Chama da Tempestade foi sendo liberada com suas pequenas labaredas inconstantes e descontroladas. –São poucos os indivíduos que possuem um controle tão refinado a ponto de evocar a Chama sem nenhum objeto como canalizador, como o Göbel. Outros ainda conseguem a habilidade de utilizar qualquer objeto, como você. Mas a maioria das pessoas só consegue realmente dar uma vazão eficiente a suas Chamas utilizando as armas seladas como uma “porta de saída”.
Ela fechou a palma da mão violentamente, cessando por completo a queima de energia vermelha. Seu olhar encarava Kiba com uma seriedade furiosa. Em contrapartida, ele demonstrava uma atenção e um silêncio que iam completamente contra sua natureza.
-O Anel funciona como um amplificador. Ele age antes do fluxo atravessar a arma selada e liberá-la, aumentando a potência do Espectro de Chama e deixando-o mais refinado. Isto resulta num aumento de proficiência e poder e, segundo antigos relatos deixado pelo próprio Firenze, pode mostrar a verdadeira forma das armas seladas.
-Significa que nossas armas não estão agindo em força total? –Kiba rebateu quase de imediato.
-Significa que vocês podem se igualar ao nível dos Sucessores, se elas alcançarem a força total. –ela ponderou calmamente, fechando os olhos por um momento. O Guardião da Tempestade sentiu uma momentânea falta de ar nos pulmões. As folhas farfalharam por um momento quando uma singela brisa passou. Inconscientemente, o espadachim podia sentir sua própria Chama da Tempestade entrando em ebulição rente ao seu sangue quente.
-O seu problema, cara, é que seu fluxo de energia é descompassado. Por isso quando você utiliza a arma selada ele acaba ficando “mal calibrada”. Ela nem sequer assume sua forma material de forma apropriada, o que te leva a ter que usar suas armas como “suporte” e deixa a energia completamente instável. Por isso sua própria Chama lhe causa queimaduras nas mãos.
O rapaz cruzou os braços e frisou levemente os olhos claros. Estava com uma bela cara de descrença.
-E como é que tu sabe disso tudo, véi?
-O Sucessor do Trovão é metido a cientista maluco. Ele me deu umas dicas de coisas inteligentes pra te dizer. Não poderia fazer feio, sendo a mais novata entre os Sete.
-E o que eu devo fazer?- o Vongola assumiu uma postura introspectiva, colocando as mãos nos bolsos da jaqueta.
A ruiva gesticulou e Kiba a acompanhou até mais próximo do paredão. Ele antes não havia notado, mas ela carregava um par de luvas negras de impacto no bolso traseiro da calça. Vestiu-as delicadamente, enquanto seu olhar percorria a formação rochosa. Ela projetava uma gigantesca sombra que engolia a ruiva e o espadachim, enquanto o céu acima dele demonstrava um azul vasto e inatingível.
-Primeiro, você deve aprender a controlar o fluxo e a liberá-lo de forma correta. Somente assim você poderá dominar por completo sua arma selada. E cogitar a possibilidade de utilizar o Anel.
Ele chutou com a ponta do pé o chão, arremessando pequenos cascalhos para frente. Bufou, levemente irritado.
-Então vamos logo começar. O que eu tenho que fazer?
Kamila massageou os próprios ombros, relaxando os músculos.
-Você sabe como liberar a Chama da Tempestade, o que já é um grande avanço. Se conseguir fazer isto sem um objeto condutor, provavelmente conseguirá acertar o fluxo de energia no processo. E estará pronto para começar a segunda parte do treino. Mas terá que fazer isto com uma facilidade tão grande quanto respirar.
-Isto o que? –ele questionou.
A moça não respondeu, estando a menos de um braço de distância do paredão. Ali, tão perto da rocha, até o ar era mais frio e úmido que o normal. Ela separou bem os dois pés e manteve uma postura firme. Cerrou o punho direito e projetou o braço para trás, primeiro formando um ângulo reto com o cotovelo e depois lentamente levando-o mais para trás. Sua respiração estava inalterada e sequer parecia fazer qualquer esforço.
Foi um movimento limpo, rápido e certeiro. Um soco projetado contra o paredão. No último instante, uma torrente rubra de energia irrompeu do centro do punho dela no exato momento em que este atingiu a parede.
Ela recolheu o braço e se virou para Kiba, batendo uma mão na outra e depois mostrando o resultado do seu feito. Uma mancha negra estava marcada na superfície rochosa, como se uma imensa labareda a tivesse atingido com uma intensidade gigantesca. Pequenos vestígios de fumaça e calor saíam de onde a mão de Kamila havia socado.
-Claro, o atributo Degeneração não permite que eu cause grandes estragos físicos a esta pedreira, mas como pode ver o dano é bastante amplo. O segredo é você liberar a Chama quando sua mão estiver a milímetros de entrar em contato com o alvo. A energia vai servir como uma “almofada” e anular o impacto, ao mesmo tempo em que causa as queimaduras no alvo. Com o fluxo da Chama da Tempestade calibrado, você não sofrerá danos pelo seu próprio Espectro. — Kiba assentiu com a cabeça e encarou a própria mão, erguendo a palma aberta mais para próximo da linha dos olhos. A Sucessora ajeitou as luvas e retomou a palavra. –Você já sabe como liberar a Chama, mas está tão acostumado a usar uma arma comum como canalizador que sequer treinou como utilizar apenas as mãos nuas.
O espadachim inspirou, sentindo o ar puro e fresco daquele local inflar seus pulmões e revigorar seu espírito. Encarou as linhas da palma de sua mão, seus contornos e falhas, podendo sentir a energia de sua Chama ardente como uma centelha dentro de seu corpo, em cada célula e em cada milímetro de seu ser. Uma vaga lembrança, a voz do Sucessor do Sol, ecoou em sua mente. Anos atrás, quando Yure estava ensinando a seus amigos e guardiões-neófitos como se utilizava o Espectro de Chama.
“Isto não passa da materialização da força de vontade de uma pessoa. Quanto maior sua convicção, maior será o poder da energia, assim como pode ser ainda potencializada de acordo com o estado de espírito do indivíduo. Lembre-se: quando alguém luta com todas as forças, por algo em que acredita e protegendo algo que lhe é caro, é muito provável que o poder de sua Chama se intensifique bruscamente”.
Yure. Aquele homem que sempre estivera ao lado da Décima Geração desde sua gênese. Mais do que um mentor, fora um grande amigo e um protetor dos Guardiões e seu delegado. Colocara sua vida em risco inclusive por seus ideais.
Kiba fechou os olhos, ainda conseguindo sentir o fluxo de Chama da Tempestade por baixo de sua epiderme. Seguia lentamente o pulso de seu coração, como um rio calmo e tranqüilo. Começou a forçar a liberação, sentindo o braço formigar. Mas nada: a energia ficou apenas instável.
Bufou, sendo observado pelo olhar calmo e severo de Kamila. Tentou buscar mais a fundo algo que pudesse inflamar ainda mais sua força de vontade e a imagem de seus amigos coloriram o fundo negro de sua visão cerrada. Lutando juntos contra um inimigo comum, sempre apoiando uns aos outros não importando a necessidade.
Sentiu uma oscilação mais brusca por parte de sua Chama da Tempestade, mas ainda não era o bastante. Apertou os olhos, endurecendo as linhas do rosto em sinal de esforço, enquanto aumentava a concentração. Precisava continuar tentando.
A Sucessora da Tempestade apertou um pouco os dedos ao redor do braço. Estava preocupada. Tinha que fazer praticamente um milagre para que o amigo estivesse preparado para entrar em combate.
O Guardião continuava se concentrando, tentando achar algo nos cantos obscuros de sua mente que conseguisse forçar ainda mais sua Chama da Tempestade. O suor começava a brotar de sua testa, enquanto a expressão continuava rígida, e uma das têmporas começou a latejar. Mas, por mais que tentasse, a energia apenas oscilava bruscamente, sem conseguir ser liberada.
Chiou um palavrão, rabugento, cerrando o punho e apertando os olhos. Os dentes trincaram, enquanto ele começava a se sentir frustrado. Até que uma imagem se moldou em sua mente.
Uma mulher de cabelos tingidos e batom azulado, maquiagem pesada e olhos claros. Manuseava uma espada de lâmina fina, posando e manejando-a com uma das mãos. Seus lábios se curvaram em um sorriso maldoso, quando surgiu um reflexo rubro, deslizando no metal afiado e pingando no chão.
Sangue.
Um lampejo e Kiba pôde sentir uma fonte de calor próxima de si, ao mesmo tempo em que, com os olhos fechados, ele percebera uma forte fonte de luz à sua frente. Abriu as pálpebras e as pupilas se contraíram ao se depararem com a luminescência vibrante e violenta da Chama da Tempestade, que emanava da palma do espadachim.
E ela dissipou no ar, deixando de envolver os dedos do rapaz atônito enquanto o sentimento de raiva também começar a apaziguar em seu coração.
Jéssica era uma inimiga que ele não podia perdoar, muito menos perder de vista. O Guardião da Tempestade fechou o punho com força, os tendões saltando abaixo da pele, enquanto seus olhos claros deram de encontro com um sorriso de satisfação por parte da Sucessora.
-Vamos com isso, véi.
-Lerda, lerda, lerda!!! – e explodiu-se uma risada exagerada.
Karoline bufou, os músculos dos braços nus ficando rígidos. Mexeu de forma nervosa os dedos dos pés descalços na areia fina e gelada da praia. O mar brilhava com o sol nascente, as ondas calmas e tranqüilas quebrando na orla. Uma brisa outonal remexeu em suas calças folgadas de tactel que se arrastavam no solo, enquanto o tronco era revestido apenas por um top branco. Assim era possível ver toda a tonalidade de sua pele morena e seu corpo de porte atlético de jogadora de vôlei.
O cabelo castanho escuro com mechas que desciam em espirais estava preso em uma trança, enquanto a franja encobria parte do tapa-olho branco de quatro fios que ela estava utilizando. Segurava com força a alabarda de cabo arroxeado, retirando a lâmina que estava semi-enterrada no chão. Respirou fundo, o olhar severo fuzilando o Sucessor que a estava treinando.
Draco rebatia o olhar divertido, enquanto brincava com uma garrafa de refrigerante entre seus longos dedos. Sua estatura era absurdamente elevada, embora ele fosse completamente magrelo, e estivesse utilizando o agasalho de motoqueiro aberto. Sua cabeça era raspada, cheio de brincos e piercings, sendo a zíper de sua roupa em forma de um chocalho de três esferas. O homem estava sentado em cima de um caranguejo gigante, de cores vibrantes em roxo e branco, que ficava mexendo as grandes patas irrequieto e estalando a enorme pinça. O que mais surpreendia, é que aquele animal não era projeção de Chamas, e sim uma criatura real. Seu nome era Lulu.
Mas a história sobre esta magnífica obra da natureza ficará para outra hora.
A morena estava no meio de um círculo, entre três grandes troncos de madeiras que se erguiam da areia e ostentavam bandeirolas que esvoaçavam com o parco vento do local. Ao redor, a areia exibia uma série de buracos e falhas, prova das diversas tentativas de ataques que a Guardiã da Nuvem estava executando até então, sem sucesso.
O Sucessor da Nuvem coçou o queixo, erguendo as duas sobrancelhas ao mesmo tempo.
-Como é que ‘cê quer domar o poder do Anel se nem ao menos consegue ‘xecutar uma técnica de domínio tão simples? –ele brincou com o piercing esférico que ostentava na língua, antes de continuar a falar.- Mah’ssim nem vou conseguir te treinar direito, sô...
Aquele sotaque fez a têmpora de Karoline latejar, mas ela tratou de descontar toda sua frustração torcendo dedos ao redor do cabo de sua própria arma selada. Draco tinha todo aquele jeito completamente esculachado, mas era um Sucessor: ela não estava em nível de sequer conseguir lidar com ele sozinha.
Fincou mais uma vez a lâmina reluzente no solo, até que a mesma fosse engolida pela fenda na areia. Tentou se concentrar, enquanto sentia o fluxo de sua Chama percorrer todo o seu corpo. Enquanto isso, recordou o porquê de estar se submetendo àquele exercício e a causa de ele ser tão complicado.
A propriedade de seu Espectro, a energia arroxeada da Nuvem, é a propagação. Logo, a habilidade de sua arma era poder aumentar de tamanho conforme a injeção de energia. Isso lhe dava a possibilidade de aumentar o comprimento do cabo e da lâmina, além de criar tantas outras superfícies cortantes que se espalhavam e multiplicavam.
O problema da técnica é que Karoline não tinha muito controle quanto à vazão de sua Chama. Logo, ela tinha apenas duas alternativas: ou visava apenas um alvo com a propagação de lâminas em linha reta ou tentava atingir múltiplos alvos liberando-as para todas as direções de forma desenfreada.
Draco observou isso, e viu ali a maior fraqueza na morena.
O homem pigarreou, coçando o queixo de forma desleixada.
-‘Cê precisa entender que é uma ótima lutadora no mano-a-mano, sô. Mas pra lutar ao lado dos seus companheiros nem tem como. Sua técnica beira ao descontrole. – Draco estalou a língua no céu da boca.
O olho castanho e livre de Karoline percorreu as falhas que as tentativas fracassadas de sua técnica haviam deixado junto à areia. Já haviam sido tantas que ela estava começando a sentir os ombros ficarem pesados.
Mas não custava continuar se esforçando. Aliás, era praticamente seu dever, agora.
Enquanto clarões e ondas de areia se erguiam junto a lâminas reluzentes, o Sucessor observava com certo receio os levantes de metal que ziguezagueavam para lados confusos, enquanto a Vongola tentava acertar os três troncos de uma vez só.
Karoline tinha um potencial gigantesco, e não havia dúvidas que seu poder tinha a capacidade de evoluir muito além dos seus companheiros com o passar do tempo. Mas isto devia ser encarado como uma situação catastrófica também. Ele nunca falaria abertamente para a moça, tampouco para alguém próximo à mesma, mas a Guardiã da Nuvem já tinha poder o suficiente para liberar o poder do Anel e enfim liberar a verdadeira forma de sua arma selada... Mas, se ela não tivesse completo controle sobre suas técnicas, algo de muito ruim acabaria acontecendo.
Ela caiu de joelhos no chão, o cabo da alabarda tombando para o lado com seus dedos se afrouxando do entorno da arma branca. As lâminas que ela havia criado, que emergiam do solo como estigmas, começaram a se desintegrar transformando-se em pura energia arroxeada que se dissipava como fumaça densa. Ela arfava pesado.
Draco respirou fundo. Mesmo que mais uma vez a investida tivesse sido falha, era impossível não se impressionar com a quantidade de pontas triangulares materializadas em tão curto período de tempo. Ele sorriu, brincando com o piercing na língua, satisfeito: ao menos, a garota iria tornar tudo muito mais interessante...
-Não é, Lulu?
E passaram as vastas horas seguintes debaixo de sol forte, enquanto Karoline continuava invocando suas lâminas de sua arma selada, tentando, sem sucesso, acertar os troncos erguidos. Quando ela executava a técnica, um brilho em tom violeta vibrante tomava conta de toda a extensão da alabarda e a Chama da Nuvem se alastrava para três direções diferentes. Sua intenção era separar a energia em três frações iguais e direcioná-las uma para cada direção dos alvos. Assim, enquanto elas iam se propagando em linha, as pontas triangulares iam emergindo do terreno arenoso e crescendo imponentes em direção ao céu. Contudo, a Vongola não tinha controle completo sobre o fluxo, portanto era impossível manter as três trajetórias ao mesmo tempo. Como resultado, as lâminas saíam da trajetória e serpenteavam, até se extinguir em lugar nenhum...
Ao final da tarde, quando o sol começava a se pôr na linha do horizonte oposta ao mar e iluminava toda a praia deserta com sua luz morna e já enfraquecida, Karoline estava sentada ofegante na areia. As pernas estavam abertas em arco e estiradas, as mãos bem espalmadas no chão e a cabeça pendendo para frente. O cabelo preso estava encharcado de suor, e a pele morena reluzia aos raios solares graças à fina camada de gotículas que lustravam sua pele. Os seios se projetavam conforme os pulmões inflavam em um ritmo irregular, tentando refrear os batimentos cardíacos acelerados e restaurar a condição normal do corpo.
Havia retirado o tapa-olho, encharcado, embora mantivesse a pálpebra fechada, e deixou a vista perder-se na imensidão azul daquele mar de águas escuras. Seu olhar estava indecifrável.
Sentiu um baque ao seu lado, algo sendo amortecido pelo terreno fofo e arenoso. Virou por um momento a face, vendo a garrafa de líquido colorido vibrante caída ao seu lado. Isotônico.
Uma sombra se projetou sobre a Guardiã da Nuvem, tão alta que bloqueou os raios do poente, embrenhando Karoline em um fosso de cores apagadas.
-Bebe ai, sô. Você não quis nem um cadin de comida no almoço, seu corpo deve estar quase entrando em parafuso.
Indo contra sua natureza, ela pegou a garrafa obedientemente e a abriu, tomando goles e mais goles fartos. Sentia o líquido gelado refrescar sua garganta, enquanto o Sucessor da Nuvem sentou-se ao lado da garota e começou a encarar o oceano com a jaqueta de motoqueiro amarrada na cintura.
Ficaram em silêncio. A morena bebia os goles do isotônico com intervalos cada vez maiores, e seu único olho que se mantinha a atenção sobre a arrebentação que evocava sons pesados quando a água ia de encontro à areia bruscamente. O homem ao seu lado a observava de soslaio, se divertindo com tudo aquilo.
-Noh, ‘cê é muito estranha.
As palavras de Draco tiraram o torpor que envolvia seus pensamentos.
-Como é que é? –ela rebateu, meio resmungando.
Ele riu, achando graça, e ergueu o braço. Karoline sentiu o rosto queimar quando o homem afagou sua cabeça como se ela fosse uma criança, sem tirar o ar zombeteiro da face. A pele da Guardiã da Nuvem tomou a coloração avermelhada violentamente, mascarada pelo seu tom moreno.
-‘Cê tem um peso de uma pessoa velha nesses olhos. – ele fez uma expressão como se estivesse dizendo aquilo mais para si mesmo do que para Karoline. – É como se tivesse uma responsabilidade maior do que pudesse suportar...
Ela voltou a olhar para o mar e dobrou as pernas, apoiando os braços sob os joelhos e escondendo parcialmente o rosto. Mexeu os dedos dos pés, cavoucando a areia afofada enquanto a maré ia subindo lentamente. Abraçou o próprio tronco, como se tentasse se proteger do entardecer que ia engolindo o sol no horizonte oposto.
-Tenho que dar tudo de mim... Esse novo poder, tenho que domá-lo a qualquer custo... Não posso deixar o pessoal na mão. — O homem arqueou as duas sobrancelhas, sem entender em qual ponto ela queria chegar. – Aniki, Jô, até a Kamila... Todos eles projetam um futuro grandioso pra mim, entende? O prodígio... Minha maior preocupação é que, na hora em que mais precisarmos, eu acabe falhando. E, a fé que todos depositam em mim...
Antes que ela terminasse de falar, Draco novamente colocou a mão em seus cabelos, fazendo um cafuné tão forte que os cabelos dela se bagunçaram por inteiro. A Guardiã inclusive perdeu a fala, as palavras se embolando no fundo de sua garganta, enquanto ela sentia novamente o rosto ficar vermelho. Fazia anos que ninguém a tratava mais como uma criança.
-‘Cê tem que parar com isso, cadiquê tu é só uma garota, apesar de tudo. – o Sucessor da Nuvem se levantou e bateu as palmas no quadril para limpar a areia. Olhou para o mar, respirando fundo, antes de continuar falando com a voz carregada de sotaque — Não se tenta alcançar o futuro, e sim se anda com o presente com nosso próprio ritmo. Né não?
Karoline ergueu a cabeça, contemplando a figura do Sucessor da Nuvem. A luz alaranjada do poente criava um brilho tenaz em suas costas, criando reflexos brilhantes em sua indumentária. Sua figura, ainda que peculiar, era imponente, como qualquer outro de sua Ordem. A jovem se questionou por um momento o quão incrível aquele homem deveria ser, e se sentiu um pouco má por duvidar de sua capacidade. Afinal de contas, ele era o Portador da Lástima, um dos Sete Caminhos da Penitência Humana.
E o que ele disse fazia certo sentido. Estava tão preocupada em se ajustar à expectativa dos outros que sequer estava conseguindo avançar realmente. Precisava evoluir no próprio ritmo, e se focar apenas nisso.
-Náh, por hoje chega. Tu precisa descansar um pouco. Amanhã é apenas o segundo dia. O caminho ainda é longo, sô. – Draco estendeu o braço em direção a Guardiã da Nuvem, oferecendo apoio para que ela levantasse.
A morena fez um sinal positivo com a cabeça, e segurou a mão do homem para se levantar. Com as pernas flexionadas, pegou impulso e começou a levantar.
Isto até o Sucessor da Nuvem soltar a mão dela e fazer a morena cair com o quadril na areia da praia de forma completamente estabanada. Ela fez uma careta de dor, enquanto a gargalhada de Draco ecoou pela praia vazia. Era tão intensa que o homem envergou o corpo para trás.
-Máh ‘cê tem que ficar mais esperta, uai!
Karoline bufou, novamente sentada no chão, com a franja desalinhada caindo sob o rosto. Soltou o ar para cima, fazendo as mechas escuras se remexerem graças ao seu sopro.
Estava começando a considerar uma segunda motivação para levar aquele treino a sério: dar umas bordoadas na cara daquele infeliz sob o pretexto de precisar controlar o anel...
Faltavam seis dias para a o Confronto das armas seladas.
Fale com o autor