Beyond The Bounds Of Sky

25 Capítulo 25 - O Início do Fim


A chuva se transformou em uma garoa fina e Kiba se sentou no chão molhado, com as pernas dobradas e os braços apoiados nos joelhos. Assoprou para cima, fazendo as mechas escuras e molhadas de seu cabelo se mexerem levemente, enquanto encarava uma Letícia perplexa.

O rapaz piscou algumas vezes e baixou lentamente o rosto. Apontou para entre os pés dela, falando calmamente com a voz rouca.

-Bem, eu acho que aquilo é seu.

A Rainha, cuja expressão transformava-se de perplexa para raivosa, voltou a atenção para o local indicado. Sua jóia brilhava parcialmente submersa na lama.

Os outros combatentes também se entreolhavam assustados, todos haviam parados os ataques. Douglas abaixou as mãos que seguravam as facas, enquanto Karoline colocava a mão no peito com o olho castanho arregalado.

-Eu... Não sinto mais a minha Chama.

O assassino trincou os dentes.

-E minha arma simplesmente selou. Que tipo de ataque foi esse?

Criou-se um burburinho, enquanto todos ficaram completamente sem ação. Em meio a todo aquele choque de ordem o estrategista soltou o ar dos pulmões, passando as costas da mão na testa molhada.

-Essa foi por pouco.

-O que devemos fazer agora? Cair todo mundo na porrada feito animais? –Sara cruzou os braços e tremeu levemente por debaixo da roupa, sentindo a friagem lhe golpear como uma lâmina fria. Kiba reclamou algo sobre “ainda estar com fome”.

Uma veia saltou e ficou visível na têmpora de Slan.

-Parem de nos ignorar seus filhos da p...

-E vocês vão fazer o que? Sem Chamas, todos aqui contamos apenas com força física. Sendo assim estamos em vantagem numérica. –ralhou a Doku Sasori, revirando os olhos.- Ou quase, se considerarmos o fato de que o espadachim maldito não para de reclamar por comida.

O ex-Guardião da Tempestade fez biquinho.

Dudu se adiantou, segurando o braço ferido. Göbel, Karoline, Doug e Xande serviram de barricada para evitar que qualquer Gallardo avançasse contra ele. A sobriedade havia retornado à sua expressão, talvez graças à dor e a experiência de quase vivenciar a completa aniquilação.

-Aceitemos o fato que nosso embate não tem como prosseguir.

Letícia trincou os dentes de raiva, deixando seus lacaios protegendo seus flancos. O espadachim moreno continuava agachado com as mãos na cabeça, resmungando que estava precisando de duas pizzas tamanho família.

Ela ia replicar, quando uma voz calma quebrou aquele clima de guerra.

-Sangue já foi derramado por um tempo longo demais. Decreto um basta neste conflito infantil e besta... Com o poder conferido a mim.

A mulher fechou o guarda-chuva preto que segurava e o chacoalhou levemente, derrubando pingos de água no solo. Usava uma saia vermelha longa, com a borda suja por causa da lama e presa por um cinto negro, combinando com a blusa rendada que estava usando. O cabelo estava penteado todo para trás, preso em um coque, sendo os olhos claros e a expressão acalentadora.

Acompanhando ela estava um homem ridiculamente alto, quase tanto quanto o ilusionista da ENEO, usando um macacão de motoqueiro e segurando um capacete estilizado de motocross na mão esquerda. Brincava com o piercing em forma de esfera que tinha na língua, enquanto seus olhos escuros faiscavam com aquela atmosfera pesada. Sua cabeça estava coberta por um gorro que combinava com suas vestes, deixando as orelhas cheias de furos quase escondidas.

O terceiro que compunha o grupo de recém-chegados era baixinho, menor estatura e de tronco curvado. Os cabelos eram de um tom castanho claro e encaracolados, usando um par de óculos de lentes quadradas e um jaleco três números maior que o aceitável. Esfregava uma mão na outra com uma expressão um tanto quanto psicopata, enquanto falava palavras consigo mesmo.

Sucessores.

A mulher retomou a palavra.

-Sou a Sucessora do Céu e Juíza Suprema da Ordem de San Dracone. Julia, a Iluminada. Após vários acontecimentos e ações que vão contra o Protocolo das Três Ordens, me sinto obrigada a intervir.

Momentos de silêncio, enquanto todos digeriam a informação.

Os Chefes da família se curvaram, em respeito aquela figura importante. Letícia teve que engolir todo o orgulho e frustração enquanto baixava a cabeça, as unhas ferindo a palma da própria mão. Os Sentinelas, Andarilhos e Guardiões imitaram o gesto. Apenas quatro pessoas não fizeram isto.

Göbel, que era orgulhoso demais para se rebaixar ao nível dos outros, ficou olhando de soslaio para as figuras.

Zatch, que cruzou os braços e ficou pensativo sobre todas as possibilidades que a chegada daquele trio iria proporcionar para o futuro do conflito.

E Kiba e Sara, que não faziam patavinas de idéia de quem poderia ser aquela mulher. Além de ser uma Sucessora, é claro.

Enquanto todos pegam um fôlego, vamos tomar algumas considerações.

Ninguém sabe ao certo quando surgiu a Ordem dos Anciões. Nem de fato eles próprio sabem.

Alguns estudos apontam que a Ordem começou com um sábio proveniente da Ásia Menor, que viajava ao redor do continente coletando conhecimento e lecionando sobre todas as coisas. Ele se juntou a Seis outros Grandes de seu tempo, unidos pela ânsia de partilhar experiências e prosperar o intelecto, e formaram assim a primeira geração.

Porém, por mais que sua sabedoria e conhecimento fossem vastos, nada é mais letal que o passar do tempo. E a morte espreita sempre aqueles que já possuem muitos anos neste plano. Foi então que eles descobriram uma forma de Transcender, passar para Outro Lado, um lugar onde pudessem continuar a refletir e a estudar sobre tudo e sobre todos.

Antes de atravessarem, deixaram parte de seu legado a um grupo seleto de intelectuais e prodígios, ao qual esperava que mantivessem o compromisso de partilhar lições e aprender mais e mais sobre os mistérios que cercavam este plano existencial. E que, no final de sua jornada, eles também realizassem as artes ocultas de Transcender, para que assim se juntassem a seus antecessores no Outro Lado. Ficaram assim conhecidos como Sucessores.

De geração em geração, iam-se acumulando o valor e o prestígio que esta Ordem possuía e que espreitava seu caminho além do horizonte. Sacerdotes clamavam por suas preces, Imperadores pediam conselhos e Filósofos curvavam suas mentes as novas idéias vanguardistas.

Portanto, em meados do século XVIII, os Sucessores haviam se situado no Velho Continente. Eram influentes, hábeis e recorridos freqüentemente a resolver impasses políticos. Suas reuniões eram eventos que geralmente antecediam grandes mudanças na História. Elas aconteciam em uma pequena vila ao norte da Itália, chamada San Dracone. Com este mesmo nome, ficou conhecido a reunião dos Sucessores com as pessoas mais importantes do mundo conhecido.

O último Conselho havia acontecido há quatro anos atrás, juntamente com a participação de poderosas organizações marginalizadas pela sociedade: donos de cartéis, membros de coorporações bilionárias, famílias mafiosas...

-Você entendeu agora? –perguntou Zatch, apoiando os cotovelos na mesa e deixando os braços cruzados.

Kiba, com uma caixa de esfihas abertas de carne em sua frente e devorando uma em cada mão, concordou avidamente gesticulando com a cabeça. Estava com tanta comida na boca que sua bochecha direita parecia que ia explodir.

Sara, após um momento de perplexidade de como Kiba às vezes parecia uma criança, inclinou a cadeira para trás e cruzou os braços, comprimindo os próprios seios fartos. Ficou se equilibrando em apenas duas pernas do assento, enquanto encarava o teto. O trio estava em uma espécie de sala de espera dentro do complexo da Torre do Vigia. Todos, sem exceção nenhuma, foram convidados a ir até lá após o encontro com Julia. Claro, Vongola e Gallardo estavam em pavilhões separados.

-Me surpreende o por quê de um grupo tão antigo e seleto como os Anciões pode ter se instalado em nosso país. – e mulher disse por fim. Os ferimentos estavam curados graças ao pugilista que, ao contrário da moça, estava recebendo um tratamento mais complicado enquanto a conversa se desdobrava.

Zatch deslocou o ar com uma das mãos.

-Se analisar o desdobrar dos fatos históricos no século XX realmente a fundo, a América Latina foi palco de alguns movimentos políticos e sociais interessantes. O fato também é que tudo que disse sobre o início dos Anciões são boatos e especulações.

-Be oke ba abontefendo la bentro?

O estrategista revirou os olhos.

-Pelo amor de Deus, não fale de boca cheia.

Sara riu,sem nem ter a preocupação de abafar a risada com uma mão a frente da boca.

Kiba engoliu tudo o que tinha e pegou um guardanapo que estava ao lado do imenso copo de refrigerante, quase escondido pelas quatro caixas vazias de esfihas que o rapaz já havia devorado. Ele limpou a boca antes de falar.

-Véi, o que ta acontecendo lá dentro? Dudu, aquela lunática e os Sucessores se trancaram no refeitório e não saíram de lá até agora.

O Guardião da Chuva encarou o amigo e explicou pacientemente.

-Como eu disse antes, o último Conselho de San Dracone ocorreu a alguns anos, antes da partida dos Anciões e da nomeação dos Sucessores. Estavam presentes o Chefe da Nona Geração Vongola, grande parte da Cúpula que cuida dos interesses da Família Gallardo, além de outros senhores de Ordens importantes e ocultas. Naquela ocasião foi anunciado que os Anciões estavam de posse de uma série de Artefatos poderosíssimos, que podiam tornar qualquer indivíduo treinado em um usuário de Chama. Antes disso, cada Clã ou Seita tinha seus próprios métodos para isso. Seguindo exemplo, é o Impulso Sísmico para a família Vongola.

Sara novamente sentou-se direito e corrigiu a postura da coluna. Kiba colocou o canudo do copo de fast-food na boca e começou a escutar a história com os olhos vidrados. De uma coisa Zatch não tinha o que reclamar: aqueles dois eram bons ouvintes.

-E junto com o anúncio veio a nomeação que a família Vongola possuía o direito de recebê-las, tal como uma urna de pedra que datava mais de trezentos anos. Lógico, muitos dos participantes da reunião foram contra essa concessão, e alegaram que a Vongola já era poderosa o suficiente para receber tal dádiva. O líder do Conselho acabou acatando os protestos e deixou ao encargo do Nono Chefe que ele criasse uma nova geração, sem qualquer vínculo de influência, poder ou verba com seus antecessores.

-Lembro dos homens rondando nosso antigo colégio em busca de pessoas “com talento”. –a loira quebrou o silêncio momentâneo. O estrategista concordou com a cabeça.- Tem também aquele lance de que vocês seriam protegidos do Conselho, não é?

-Sim. A cobiça dos poderosos era visível em seus olhos. Por isso que foi decretado que não deveríamos ser atacados por nenhuma família ou agregado de qualquer um dos grupos participantes. Eles não o fizeram. Não diretamente é claro. –o Guardião da Chuva se referia, lógico, ao grupo mercenário do Esquadrão do Espectro Negro.- Foram contratados saqueadores e bandoleiros de todos os lados. E demorou para conseguirmos revidar a altura. Teoricamen...

Sluuuuurrrrbghhh.

Zatch e Sara pararam de falar e voltaram os rostos para a mesma direção da mesa circular em que estavam. Kiba os encarou confuso por um momento, até entender que o barulho de sucção do canudinho no copo vazio estava fazendo um barulho demasiado irritante. Ele deu uma risadinha sem graça e escorregou um pouco da cadeira, afundando no assento, e largando o recipiente vazio descartável de volta na mesa.

O estrategista voltou seus olhos castanhos para o belo rosto da Doku Sasori e continuou.

-Teoricamente ainda estamos sob a proteção. Então não podíamos ser atacados.

Kiba ergueu parcialmente a mão, a pele morena por causa da exposição ao sol do Sudeste, e resolveu tentar falar algo inteligente para que os amigos esquecessem a mancada que ele acabara de dar.

-Mas eles estão enrascados, né? Os tais Gallardo desobedeceram este tal de Conselho de San Panettone, sem contar que a mulherzinha oxigenada lá quase fez o Yure virar presunto...

O espadachim anuiu os ombros ao ver a expressão de descrença de Zatch com o comentário. Sara desta vez enterrou a cabeça entre os braços apoiados na mesa e teve um acesso de riso. Kiba era o idiota mais estúpido e maneiro que ela conhecia. O rapaz de cabelos crespos e olhos claros olhou para o próprio colo, embaraçado.

O amigo por fim passou a mão pelos cabelos escuros e levemente compridos, jogando as mechas da testa para trás da cabeça.

-Não é tão simples assim. Os Sucessores tem por regra não interferir em qualquer acontecimento político, mesmo que eles vão contra suas ideologias. Tudo o que devem fazer é observar, aprender e ensinar. Participações ativas em eventos sempre são seu último recurso... E isso quase nunca acontece. Yure nos ajudou esses anos todos porque somos amigos dele, e tinha o único intuito em nos ver prosperando como grupo. Foi uma falta grave.

A mulher ergueu a cabeça de seu esconderijo e seus cabelos emolduravam seu rosto com expressão preocupada.

-A Gallardo... Pode então contestar a posse das Armas Seladas por isso?

-Quem sabe? –Zatch suspirou. — Agora que estão lá dentro reunidos, tudo se baseia em argumentos. O punho vale muito menos que um punhado de palavras... Vou ser franco: dos poucos Sucessores que eu conheço, eu não levo muita fé que tenhamos bons ventos ao nosso lado.

O espadachim coçou a cabeça por um momento. Depois falou.

-Parando pra pensar, vocês viram todos os Sucessores? Quer dizer, eu conheci Mariana quando era mais novo, ai veio o Yure e o Guilherme...Mas o resto...

Os três se calaram. E talvez ficassem mais um bom tempo assim pensativos se Ricardo não tivesse aparecido na porta da sala. Bastou sua presença para a Doku Sasori se levantar em rompante e ir até ele.

Nem passou pela cabeça dela que o Guardião do Sol havia acabado de sair da enfermaria, nem se a costela fraturada havia de fato sido calcificada, porque tudo o que ela pensou naquele momento foi feito: ela pulou em cima do rapaz caucasiano e de cabelo curto arrepiado, passando seus braços ao redor do tronco dele e obrigando-o a aparar a queda.

-Ow... Vai com calma. Posso acabar escorregando e desmontando tudo de novo. –Ricardo fingiu reclamar enquanto retribuía o abraço. Por algum motivo sentia um calor estranho percorrer seus músculos definidos que a muito não sentia. Colocou-a no chão de volta e ia falar alguma coisa, quando alguém assoviou.

O casal olhou para o lado e observou o olhar meio embasbacado do espadachim da Tempestade, fazendo par a expressão de estranheza com a sobrancelha levantada do estrategista da Chuva.

Sara ficou extremamente vermelha e com os olhos arregalados. Ficou meio sem reação até se afastar do lutador, abrir a palma da mão e lhe aplicar um forte tapa no pescoço. Embora tentasse vociferar de raiva, seu tom de voz saiu trêmulo e o discurso que havia cogitado às pressas em sua mente meio “arranhado”.

-I-I-IDIOTA!!! Não pense que vai sair impune p-por tudo que me fez passar! Vai ter que me dar um carro novo ouviu?!

Ele fez uma careta por causa do golpe, e começou a passar a mão no local atingido. A pele havia ficado muito vermelha devido ao impacto.

Sara ficou em silêncio, constrangida, sem entender porque havia feito aquilo sem pensar. Kiba e Zatch se entreolharam: só falta fazer aquele “Huuuuuuuuuuuum” característico.

-Então, cem por cento recuperado? –perguntou o estrategista. A mulher voltou a se sentar, sem graça. Teve que mostrar o dedo do meio ao ver que o espadachim a encarava fazendo movimentos repetitivos com as sobrancelhas para cima com os olhos frisados.

O Guardião do Sol ajeitou os óculos, se aproximando do trio.

-Sim, Xande realmente faz milagres com aquelas agulhas.

-Onde estão os outros? – questionou Kiba.

-Karoline e Douglas estão à frente do refeitório, com as portas fechadas. Parecem não aguentar todo esse mistério. Jô estava na enfermaria quando eu saí, e Göbel parece que foi dar um ou dois telefonemas.

-Mas está tudo bem mesmo? –Sara começou a falar.- Os Gallardo estão aqui. Eles não poderiam tentar alguma coisa?

O Guardião da Chuva foi categórico em negar com a cabeça.

-Pense que foi necessário três Sentinelas e uma estratégia suja pra derrubar um Sucessor. Pense o que eles teriam que fazer com sete...

-Sem contar aquela técnica estranha que selou as armas de todo mundo. –completou Kiba, brincando com o canudo do copo vazio entre os dedos. O estrategista concordou.

-Aquela técnica me lembra muito o Clarion of Mercy, do Dudu. –comentou Ricardo, embora nem ele mesmo entendesse o por quê.

-Acho que o princípio é o mesmo: liberar Chamas do Céu para invalidar o ataque do oponente. Porém o do nosso Chefe é um movimento momentâneo. –e dizendo isso Zatch afastou os braços e os junto ligeiramente, imitando o movimento que o Guardião do Céu fazia para liberar a técnica.- O de Julia é diferente: ela executou a propagação de energia por muito mais que um quilômetro quadrado... Se pudermos teorizar isso, creio que ela tenha criado uma zona morta para usuários de Chamas.

-Zona Morta? –a expressão de loira denunciava estranheza. Ricardo apenas ajeitou os óculos de grau

-É como se denominam áreas em que a proliferação de vida geralmente é impossível. Chamam por exemplo de Zona Morta uma região do Golfo do México onde em períodos sazonais as águas ficam infestadas de algas marinhas, que praticamente deixam nulos os níveis de oxigênio e inviabilizam a vida marinha de existir ali... Que é? –Kiba fez um muxoxo ao ver que parte do trio estava embasbacada com sua explicação. Isto excluía Zatch, que mantinha seu olhar de inquisição pra cima do espadachim. –Eu vejo Discovery Channel.

-Me surpreende que você entenda o que eles falam no Discovery Channel. –Sara deu uma risadinha e piscou para o amigo, cheia de sarcasmo. O rapaz de cabelos crespos puxou parte dos cílios do olho direito para baixo com o dedo e mostrou a língua para a Doku Sasori.

-De qualquer forma, darão o sinal quando a reunião for encerrada. – O pugilista teve que atravessar rapidamente com palavras antes que Sara e Kiba iniciassem uma de suas enfadonhas trocas de palavrões e xingamentos. — Soará um sinal quando a reunião acabar e todos os Guardiões e Sentinelas devem se reunir para ouvir o pronunciamento do Conselho.

-Eu fico aqui esperando com a Sara então, e depois vocês me falam como foi. –sentenciou o espadachim. Zatch fez uma expressão de completo desagrado.

A loira e o pugilista se entreolharam, sem entender o que estava acontecendo. O Guardião da Chuva tratou logo de colocar a mão no bolso da calça e de lá retirou a arma selada da Tempestade, em forma de brasão, jogando o objeto de metal bronzeado na mesa.

-Kiba desistiu de ser o Guardião da Tempestade. –e encarou com o canto de seus olhos castanhos afiados o semblante de Ricardo. O Guardião do Sol não sabia onde enfiar a cara, então apenas baixou os olhos e encarou os próprios pés, sentindo-se culpado.

A Doku Sasori ficou pasma com o que acabara de ouvir. O rapaz moreno parecia não estar tão interessado na conversa, empilhando as caixas quadradas de papelão de onde vieram as esfihas.

Sara girou o braço e bateu tão forte na pilha que todas as caixas voaram contra a parede. O espadachim arregalou os olhos e pensou em falar alguma coisa, mas a mulher esmurrou tão forte os dois punhos na mesa que ele achou melhor ficar pianinho.

-VOCÊ TÁ DE SACANAGEM, SEU FILHO DA PUTA???

Ele apenas se encolheu com a gritaria, botando as duas mãos para cobrir as orelhas e fazendo uma careta. O estrategista estendeu a mão para que Sara parasse de vociferar contra o amigo e apontou com a mesma mão para o pugilista. Não havia raiva em sua voz, tampouco uma acusação: estava apenas concluindo um pensamento.

-Não culpe o Kiba, Sara. Ele foi condicionado a pensar que não está em condições de ser um Guardião da família Vongola.

A mulher virou o rosto para encarar Zatch por um instante, e logo em seguida encarou Ricardo.

-O que ele quer dizer com isso?!

O pugilista cerrou os punhos com força e começou a falar. Embora estivesse falando para a mulher, seus olhos safira confrontavam a expressão de rapina que o estrategista mantinha.

-Eu apenas expressei minha opinião: fiquei com medo de que, pelo fato do Kiba não conseguir domar sua própria arma selada, ele fosse cortado de nossa família... Afinal, poderia ser facilmente substituído por outro usuário de Chama da Tempestade. – O rapaz voltou o rosto para Sara: sua expressão demonstrava completo arrependimento. — Mas foi antes de termos aquela conversa, e eu não sabia que ele estava escutando. Peço desculpas... Eu só estava preocupado porque não queria que a família se desmantelasse.

A Doku Sasori exibia um olhar claro de desaprovação, fazendo uma negativa com a cabeça e resmungando alguma coisa. O pugilista ia tentar se replicar, mas o espadachim ergueu a mão e pediu que aquela discussão parasse.

-O fato é que você está certo: eu não consegui domar minha arma selada... Ela sozinha me causa ferimentos, e isto torna-se uma vantagem clara para nossos inimigos. Não culpem o Sol, ele apenas confirmou minhas suspeitas. Eu acho mesmo que a melhor situação é eu sair do cargo de Guardiã...

O tapa foi forte e deslocou o rosto do moreno para o lado. Sara ficou sentada na ponta da cadeira com a mão ainda levantada, a palma aberta, os dedos rentes uns aos outros. A marca vermelha surgiu logo em seguida, enquanto ela mantinha a expressão rígida.

-Nunca mais quero ouvir esta merda saindo da sua boca, entendeu? –Ricardo ia falar algo, mas a loira girou o tronco sentada na cadeira e apoiou uma das mãos sob a superfície elevada de madeira, enquanto a outra intimidava o pugilista. –E com que direito você acha que pode supor as coisas por aqui?! Você se esqueceu que, logo depois do Yure ser ferido e todos nós corrermos daquele local, foi o Kiba quem ficou para atrás pra atrasar um caminhão?! Ele arriscou a vida sozinho...

O Guardião do Sol mantinha o semblante cheio de culpa e remorso. O estrategista da Chuva se levantou e ajeitou as bandagens azuis que enrolavam seu antebraço esquerdo, caminhando em seguida em direção ao rapaz de óculos.

Seus olhos castanhos continuavam afiados, mas ele os cerrou por um momento enquanto um dos cantos da boca se estendia em um meio-sorriso de quem acabara de resolver um problema lógico complicado.

-Nós – e,embora Ricardo não tivesse mencionado, estava claro que o Guardião de cabelos escuros e corpo esguio estava se referindo a si mesmo. — jamais expulsaríamos o Kiba. Ele tem muitos defeitos, todos temos. Mas aprendemos a conviver com eles.

E deu alguns fracos tapinhas nas costas de Ricardo, quando uma espécie de campainha de intervalo soou, vindo de caixinhas de som que estavam acopladas nos cantos do teto do corredor. Como se tivesse calculado o timing perfeito, acenou para que os outros dois o acompanhassem. Foi só virar de costas para os outros Guardiões que sua expressão voltou a ficar séria e analítica.

-Hora de calcular os danos.

Ricardo assentiu com a cabeça e empurrou o aro do óculos de lentes quadradas com o dedo, devido ao fato dos mesmos estarem escorregando do seu nariz. Iria comentar algo com Sara, mas a Doku Sasori lhe devolveu um olhar atravessado, indicando que ele se retirasse. Meio cabisbaixo, mas completamente ciente do erro que havia cometido, deixou o recinto logo atrás do estrategista.

O moreno continuava parado, os dedos roçando na pele ainda irritada pela bofetada. O cabelo crespo estava todo bagunçado como de costume, e o espadachim encarava o chão com os olhos azul-cinzentos em um silêncio que não era de seu feitio.

Ela mordeu o lábio inferior e coçou a nuca, tentando achar alguma coisa para dizer em meio aquele silêncio pesado. O brasão da Tempestade continuava estagnado na mesa, o metal antigo refletindo a luz, cheio de marcas que apenas reforçavam seu aspecto antigo.

Por fim Kiba massageou o local atingido, voltando a olhar novamente para a mulher. Estava sem o tom brincalhão e meio displicente que quase sempre usava, tampouco tinha aquela expressão desleixada na face. Assim como Zatch, fazia anos que ela não via aquela seriedade fria refletida no azul-cinzento dos olhos dele.

-Eu não lembrava que sua mão era tão pesada. – ele disse por fim.

Geralmente esta era a hora que a loira vociferava uma resposta atravessada. Mas ela apenas meneou a cabeça.

-E eu não lembrava da última vez que tive que bater em você.

Por parte dele, um meio-sorriso apareceu, ainda que a sobriedade continuasse. Era estranho. Kiba passava grande parte do dia xingando e fazendo arruaça, o que muitas vezes o deixava com uma aura de “irmão mais novo” pra todo mundo à sua volta. Sua ingenuidade, sinceridade e muitas vezes falta de noção eram suas marcas registradas. Mas as pessoas que já o conheciam há muito tempo sabiam que aquilo era uma parte dele. Uma vez, Sara ouviu certa pessoa dizer que o espadachim era como o mar. Inconstante, muitas vezes de aspecto pacífico e calmo... Quando na verdade dezenas de torrentes marinhas poderosas e destruidoras estão lhe percorrendo por debaixo da superfície.

O olhar dele se perdeu por algum tempo no reflexo de sua arma selada. Era um escudo de formato antigo, assim como todos os outros seis. Havia uma faixa no campo superior, coroada com três conchas, enquanto no campo abaixo (e que ocupava três quartos do brasão) ficava o símbolo do Guardião. No caso da Tempestade, era forma de um tornado com sua cauda tombada levemente para a direita.

-Dói tanto assim... ser o mais fraco?

Ele se levantou resoluto.

-Você e o Zatch sabem o porquê de eu ser o que sou hoje. –ela concordou com a cabeça. — E de como eu era antes. Não é a questão de ser o mais fraco. É como se eu estivesse nadando contra uma correnteza e nunca chegasse a uma margem.

A Doku Sasori apertou o pingente bronzeada contra a mesa usando o dedo indicador, depois aplicou uma parcela de força suficiente para o objeto de metal deslizar pela mesa e ficar perto novamente do rapaz.

-Você é do tipo que vai ficar no mar a vida inteira. –ela disse categoricamente. Dava pra detectar uma pontinha de crueldade ali, ainda que carinhosa.

O Guardião da Tempestade segurou novamente a corrente entre os dedos e se levantou, no exato momento em que uma segunda campainha tocou. Desatou o feixe e novamente colocou o brasão ao redor do pescoço, respirando fundo.

-Isto... Não é muito encorajador.

Ela deu os ombros.

-Algumas pessoas conquistam grandeza. Outras nascem com ela, precisando apenas procurá-la. Óbvio que você não é nem um dos dois casos. –e a velha Sara voltou a sorrir, com seu jeito suave como uma marretada de sempre.

Mas o espadachim entendera o que ela quis dizer.

Sim, era o mais fraco. O que necessariamente não o tornava inferior. Pensou no estrategista, seu melhor amigo: entre os sete, ele era o que tinha a menor reserva de Chama no corpo. E, ainda assim, Kiba jamais o virá sair de uma situação como derrotado.

Sorriu e seus olhos refletiram uma resolução reforjada tão forte quanto o aço. Fez um sinal de positivo com o polegar.

-Valeu, véi. –e a seriedade se desmanchou para dar lugar à exaltação explosiva de sempre. Seu sorriso se alargou de um canto a outro da boca, enquanto ele golpeou um dos punhos cerrados contra a outra mão aberta em um soco firme.

-Ah, foda-se esta merda. Se eu ficar perdendo tempo pensando em coisas desnecessárias, vou perder a oportunidade de dar um sopapo naqueles malditos. –a loira não pôde evitar abafar uns risinhos, enquanto o espadachim ia batendo o pé forte em direção aos seus companheiros.

Sara acompanhou a trajetória do rapaz até onde seus olhos permitiam, tamborilando os dedos sob a madeira da mesa. Lembrou-se de uma música um tanto nostálgica e cantarolou justamente a parte que lembrava aquele garoto gordinho que ela conhecera há tantos anos.

-Don’t dry with fakes or fears... Cause you will hate yourself in the end…