Beyond The Bounds Of Sky
20 Capítulo 20 - Em suas mãos
”Feche os olhos e seja engolido pela escuridão
Enquanto os anjos choram lágrimas de sangue
A desolação toma posse do seu coração”
Zatch envolveu a mão na maçaneta de metal, enquanto encarava a superfície de madeira da porta. Maquinava em sua mente frases prontas, dezenas delas, cada uma para uma suposta direção que a conversava tomasse. Não seria um fácil, mas era algo inevitável. Agora que ele havia começado uma revolução, teria de ir até o fim.
Encheu os pulmões de oxigênio, sem nenhuma pressa, como uma forma de meditação,e forçou a pequena barra para baixo, causando um clique surdo e baixando o trinco. A porta se abriu lentamente, dando um fraco rangido, enquanto o estrategista adentrava no quarto.
-Com licença.
-É muita audácia estar aqui, seu desgraçado.
Zatch colocou as mãos nos bolsos da calça, enquanto encarava Dudu nos olhos. O chefe dos Vongola estava estirado em uma cama simples, ao lado de uma mesinha. As roupas estavam completamente amarrotadas, e seu cabelo castanho escuro estava molhado pelo suor frio. Tentou levantar o tronco, mas não conseguia encontrar forças.
-O que você fez comigo, Zatch? Pode pelo menos responder isso, com o pouco de dignidade que lhe resta... –a voz estava fraca, rouca pelo esforço que ele tinha que fazer para pronunciar as palavras.
O estrategista caminhou lentamente até o Décimo e segurou seu pulso debilitado entre os dedos. Ergueu-o, até que ficasse na linha de visão de Dudu.
-Consegue ver? –a voz de fria e paciente de Zatch era quase como o de um instrutor. Ele mostrava ao outro rapaz um bracelete metálico com um dispositivo eletrônico, ao qual piscava uma forte luz de um amarelo doentio. –os Sucessores usam como um repressor de Chamas. E como você sabe, a Chama é uma energia vital que flui em cada um. Logo se ela está sendo reprimida, o usuário fica bastante debilitado. Não vai lhe matar, quero apenas lhe manter com a cabeça fria.
Dudu tossiu violentamente, como as afirmações de Zatch lhe tivessem travado a garganta. Quando voltou a encarar o estrategista , seus olhos estavam inflamados pelo ódio, o suor frio que cobria parte do seu rosto reluzindo a luz.
-MANTER A CABEÇA FRIA?! PORRA, QUEM CONSEGUE MANTER A CABEÇA FRIA NUM MOMENTO COMO ESSE?! –vociferou, a voz estando rouca e grave por estar sendo forçada ao máximo. Tentou erguer o tronco para ficar ao mesmo nível de Zatch, mas qualquer leve torção espinhal já causava muita dor ao Guardião do Céu.
Em resposta, o Guardião da Chuva deixou caiu o braço do amigo e abriu a palma da mão, empurrando com força o peito de Dudu contra a maca. Ele perdeu a respiração por um momento, enquanto o estrategista aproximou um pouco o rosto. Os olhos castanhos cintilavam, como os de falcão.
-Eu estou conseguindo, embora fosse você que deveria estar aqui em meu lugar. Estando assim, você apenas está contribuindo para a vitória dos Gallardo. Sinto muito, velho amigo, mas não posso deixar a Vongola cair assim.
Afastou-se, virando de costas e colocando ambas as mãos no bolso. Encarava o chão, embora Zatch tinha plena convicção que estava fazendo a coisa certa. Quando ele estava próximo a porta aberta, estacou ao ouvir as palavras de Dudu. Foram proferidas cheias de raiva, em um tom fraco.
-Quando eu sair daqui... Vou te expulsar da minha família aos murros....
O estrategista voltou a caminhar, atravessando o portal, murmurando.
-Quando esta loucura toda acabar vou ficar satisfeito se ainda houver uma família da qual eu possa ser expulso.
Saiu a esmo pelo extenso corredor, sem qualquer tipo de rumo. Gostaria apenas de um lugar calmo para pensar no próximo passo. O estrategista precisa colocar todos os fatores e variáveis em ordem, para criar as alternativas e possibilidades. Com a expressão taciturna, colocou a mão no queixo e abaixou levemente a cabeça, até que ouviu alguém pronunciar seu nome logo atrás de si.
-Oe, Zatch.
Apenas virou a face, e seus olhos castanhos encontraram a silhueta do espadachim da Tempestade, saindo de uma das portas que compunham aquele pavilhão. Estava terminando de colocar uma camiseta regara negra, junto de um jeans azul rasgado e manchado em laranja. Não havia resquícios dos ferimentos anteriores, e a tatuagem “XIII” no alto do braço de Kiba estava exposta em sua plenitude. Seus olhos azul-cinzentos, na ocasião, observaram o amigo com a ingenuidade de quem não estava a par das coisas.
-Vejo que já está de pé. Vamos cronometrar agora quanto tempo você fica sem se estrupiar por ai... –o Guardião da Chuva sibilou, voltando a caminhar. O outro rapaz levou tal argumento como uma piada e balançou a cabeça, caminhando junto ao ritmo do amigo.
-Espero quebrar meu recorde pessoal, desta vez. –a katana estava amarrada a calça na altura da cintura, embora por vezes sua ponta se arrastasse pelo chão. Andava com o tronco levemente curvado, um hábito de má postura que o acometia as vezes, com as duas mãos no bolso. Zatch seguia segurando o queixo com o indicador e o polegar, os cabelos castanhos em coloração de cobre caindo até quase a altura dos ombros. –O que eu perdi durante o cochilo?
-Aparentemente, a guerra foi declarada definitivamente.
Kiba fez um muxoxo, espreguiçando os dois braços para cima.
-E ela precisava ser declarada? Cacete, vocês da zona de recuo ficam de frescura sempre...
O Guardião da Chuva revirou os olhos. Kiba sempre se referia dele e de Gobel como os homens que ficavam na retaguarda e observaram o conflito por um ângulo de estratégia. Já o espadachim se via como um dos membros do front: pensar é para os fracos, o negócio mesmo é sair atropelando tudo o que aparece pela frente.
Viraram uma curva, uma sessão de janelas mostrando a vista da baía próxima do antigo farol. O céu estava nublado e a garoa dançava em pleno ar, embalada pela violenta brisa marinha.
-Certo. Qual o próximo passo? –questionou Kiba.
-Devo confessar, eu não sei. –o estrategista suspirou e baixou a cabeça por um momento, segurando a testa como a palma da mão. Por mais resoluto que estivesse, aquela situação toda não estava sendo fácil para ele. Apenas precisava respirar um pouco, se livrar daquela máscara de frieza. Ela lhe estava roubando o fôlego.- Não fico confortável em ter que esperar o próximo movimento deles...Mas...
O espadachim deu um tapinha nas costas do amigo.
-Não se pressione tanto, véio.
-Bem, me preocupa as últimas palavras da Gallardo.
E Zatch contou ao rapaz a conversa com toques de tensão que os Guardiões tiveram com a líder da família. O Tempestade ouviu tudo atentamente, e uma nuvem de assombro passou por seu rosto quando o estrategista lhe contou da agressão contra os chefe dos Vongola.
-Vai me julgar também como os outros? –perguntou o Guardião da Chuva.
-Hm... Não sei. –Kiba coçou a cabeça. –Prefiro deixar essas coisas complicadas para as pessoas que pensam. Manterei meu foco contra esses cretinos que estão tentando nos matar. O resto, deixarei por sua conta.
O rapaz de cabelos compridos esboçou um sorriso, dando um soco fraco no ombro do Guardião da Tempestade.
Sara saiu do chuveiro sentindo o corpo ser flagelado por pelos arrepios. Bem, não era a maior fã de água fria, mas se sentia agradecido de pelo menos estar em um quarto com banheiro próprio, ali na Torre do Vigia. Depois da cela de prisão, aquilo estava melhor que um quarto cinco estrelas.
Sabia que os Vongola ainda estavam sob risco de serem penalizados por terem invadido o perímetro do território dos Sucessores, mas aparentemente Guilherme não os via como ameaça. A contragosto do militar, todos estavam ali praticamente como hóspedes.
A Doku Sasori jogou a roupa limpa sobre a o colchão duro, enquanto secava o corpo nu com a toalha. Havia trocado sua vida calma e monótona que levava nos últimos anos para voltar a velha rotina de perseguições e ferimentos. E tinha esquecido como de certa forma isso era divertido. Ao menos assim pensou, enquanto vestia a primeira peça de roupa a parte de baixo da lingerie azul, lentamente.
A porta então abriu, subitamente, e Ricardo entrou no cômodo em rompante.
-Sara, posso trocar algumas palavras com você? É urgen...
Os dois se entreolharam. Sara estava de costas para o pugilista, os cabelos cor de bronze ainda úmidos caindo sobre suas costas. Escondiam a mandala que ela possuía tatuada entre as omoplatas.
O silêncio perdurou longos momentos. Ela ainda segurava a toalha entre os dedos, com os olhos quase negros arregalados. O Guardião do Sol ajeitou os óculos de grau a frente dos olhos, sentindo o suor frio escorrer sob a nuca.
Merda.
-S-SEU FILHO DA PUTA, NÃO SABE BATER ANTES DE ENTRAR NÃO, CARALHO?! –instintivamente, Sara colocou o braço coberto com a toalha a frente dos seios. Antes que Ricardo pudesse dizer algo, ela se adiantou para a mochila que estava sobre a ponta da cama e de lá tirou um tênis arroxeado com a mão livre. O calçado voou na direção do rapaz, que teve que puxar a porta para fora para bloquear a investida inusitada. Seu rosto estava em vermelho lívido.
Murmurou desculpas diversas vezes, consternado, ainda com a mão sobre a maçaneta.
-Espere ai fora, vou terminar de me trocar... Porra...-disse ela por fim, ao se acalmar e respirar profundamente.
Ele encostou a porta, ainda esperando. Continuou envergonhado, mas não havia duvida de que a cena que acabara de presenciar fora uma bela visão. Surpreendeu a si próprio, ao ver o quanto isto estava mexendo consigo mesmo.
Minutos depois, Sara reabriu a porta e encostou o braço no portal de madeira. As mechas da testa, divididas para os lados, lhe caiam sobre os ombros nus e molhavam as alças da blusinha branca. As rendinhas do sutiã escapavam da linha do decote. A calça era negra e justa, com um cinto de couro e argolas de metal folgado caindo levemente pelo quadril. Agora a tatuagem de arame farpado que ela tinha enrolando o ombro direito estava visível, também.
-Agora é que eu realmente vou lhe fuzilar o traseiro, miserável. Não pense que esquecerei isso tão cedo. –murmurou com os dentes trincados. –O que você quer?
Sua expressão agressiva ruiu, ao ver aqueles olhos de safira carregados de melancolia.
-Podemos... Conversar?
A jovem encarou o pugilista por alguns momentos. Parecia estar com um conflito interno dentro de si. Então apertou o nariz com o dedo indicador e o dedão, da mesma mão que estava na porta, fazendo uma careta.
-E depois de tudo que passei, estou aqui me tornando psicóloga. Puta que pariu... Entra.
Adentraram no cômodo e o Guardião do Sol logo se dirigiu para se sentar na cama. Sara voltou a pegar a toalha que havia jogado sob o colchão e começou a monótona tarefa de secar o cabelo.
-Eu não consigo aceitar o que está acontecendo, Sara... –calmamente retirou os óculos e os pousou ao seu lado e apoiou os cotovelos nas próprias pernas. Passou ambas as mãos sobre a face, até deixá-las espalmadas sobre o alto da cabeça, para que pudesse encarar o chão.- Primeiro, sou bombardeado com a notícia que a família foi dispersada pela segurança de todos, agora tenho que concordar com uma rebelião... Zatch nos pede confiança, mas como posso fazer isso se ele golpeia sem qualquer tipo de emoção o nosso chefe?!
Sara fez menção de falar, mas mal começou a mover os lábios e Ricardo a atropelou com mais palavras. Aumentando o tom de voz.
-Tinha que fazer isto justo na frente da nossa inimiga?! Para ela ver o quão fragilizado estamos?! –ele ergueu a face novamente, enquanto cerrava os punhos com força e os encarava. –Eu não consigo mais entender que confusão está se tornando essa família Sara... Eu não sei se... O que mais essa família representa...?
E voltou a baixar os olhos, desolado.
A loira suspirou, deixando a toalha de lado. Caminhou próximo ao Guardiã do Sol e se agachou a sua frente, levando ambas as mãos ao rosto do rapaz. Ergueu delicadamente a face de Ricardo, para que ambos os olhares se cruzarem. Ele ficou em silêncio.
-Se acalme, Sol. Olhe no fundo dos meus olhos.
-Sara...Eu...
-Apenas olhe, não precisa falar, caramba!
Ficaram em silêncio, os rostos perfilados. Tão próximos, que as respirações se misturavam em pleno ar. Ela encarava aqueles tons de safira, contemplando as pequenas variações de cor dentro da íris do pugilista. Começou a falar pausadamente então, baixinho, como se tivesse medo que uma vibração mais brusca de sua voz pudesse estilhaçar aquele momento de tranqüilidade. As batidas do coração de Ricardo começaram a estabilizar, obliterando as dúvidas que lhe queimavam as veias.
-O seu problema é que, desde que chegamos, você não consegue olhar para o Zatch e o Jô mais como parte dos Vongola. Está mantendo a perspectiva deles como inimigos... Assim qualquer coisa vai lhe parecer como uma agressão. – tomou fôlego, as mãos quentes ainda segurando o rosto do rapaz. Ainda que ele tivesse a barba feita, a loira sentia a pele áspera sob sua palma. – Tente pensar racionalmente, como o Zatch faz, sem deixar o coração interferir. Talvez você concorde com o Chuva mais do que você imagina.
Ele não respondeu de imediato. Parecia hipnotizado.
-Sara... –murmurou mais uma vez, aturdido.
-Sim, pode falar. –a Doku Sasori abriu um sorriso singelo. Algo que não costumava fazer com frequência.
-Eu não enxergo nada de perto sem meus óculos. Seu rosto não está passando de um borrão disforme.
A mulher piscou fortemente três vezes. Depois de ter demonstrado seu lado mais sensível, tinha recebido uma resposta dessas por parte do Guardião do Sol. Seus traços já demonstravam traços de irritação. Sua mente já processava uma chuva de palavrões e xingamentos, quando Ricardo fechou os olhos e segurou a própria mão sobre a dela, enroscando os dedos.
-Mas... Obrigado. O “calor”... Conseguiu aliviar meu coração.
A loira engoliu em seco, sem saber como replicar aquilo. Estranho, para alguém que sempre vivia com uma resposta pronta na língua ferina. Soltou as mãos e se levantou, virando o corpo, o cabelo ainda úmido lhe cobrindo o rosto ruborizado.
-Tsc... Imbecil.
Então, uma sirene ensurdecedora ecoou por todos os ambientes da Torre do Vigia.
O saguão principal era onde se localizava a entrada de todo o complexo, sendo uma das partes mais antigas da construção. Deste cômodo circular, com o piso em ladrilhos de pedra e tendo uma redoma de aço e vidro imensa no teto, era possível acessar qualquer um dos pavilhões.
O som de passos frenéticos de aproximavam de todas as direções, e logo os seis Guardiões Vongola estavam se reunindo ali.
-Cadê o incêndio? –Jô chegou ofegante, apoiando as mãos nos joelhos com o corpo curvado. Sua fala saiu entrecortada por causa da respiração irregular.
-Incêndio? Eu jurava que essa era a sirene pro rango... Eu to morrendo de fome. –Kiba respirou fundo, retomando o fôlego, até receber um forte tapa na nuca da irmã mais nova. Isso quase o derrubou no chão.
Karoline voltou o único olho castanho visível para os outros, deixando o tapa-olho oculto pela franja castanha.
-O que está acontecendo aqui?
Mas foi Douglas quem respondeu sua pergunta, atravessando um dos portais, carregando uma pasta de documentos. Seu rosto estava lívido.
O Guardião da Tempestade fez uma careta de escárnio com a entrada do assassino da ENEO, mas nenhum de seus companheiros percebeu isso. Estavam com os olhos pregados no atirador de facas. Antes que qualquer outra questão fosse levantada, ele começou a falar. Ele, que já era branco, estava com o rosto pálido e assombrado.
-Uma rede de informantes detectou três acontecimentos aleatórios em toda a região da metrópole... Todos com relação à família Gallardo.
-O que isso quer dizer? –questionou Göbel, ajustando as luvas de motoqueiro.
-São todos fenômenos com um potencial catastrófico imenso. Um shopping Center perdeu completamente a força elétrica e está completamente às escuras. A estação de checagem dos trens de carga que vão em direção ao porto de uma cidade vizinha foi paralisada por um vazamento de gás e uma dos complexos de fundição está com o foco de incêndio que está se alastrando rapidamente.
-Um shopping Center? O que tem de alarmante nisso? –Jô arqueou a sobrancelha.
-O bloco de energia está em conjunto com de um hospital de larga escala. Estando a distribuição afetada, pode acabar causando um apagão também nas instalações médicas. –a resposta do Corvo veio rápida, e Kiba falou um palavrão em alto e bom som.
-Maldita Gallardo! Ela está colocando a vida de inocentes em risco de novo. –Ricardo ergueu o punho fechado, as veias sobressaindo da pele pela força que ele estava fazendo nos músculos.
Zatch se limitou a cruzar os braços, com o olhar sério.
-Ela está apenas botando em prática suas ameaças. “Vocês viram a meu encontro..”
-Em outras palavras, isto é nitidamente uma armadilha. –respondeu Göbel, com os dentes trincados. Não lhe agradava este tipo de situação.
Todos os Guardiões se entreolharam, apreensivos. De alguma forma, sentiram a falta da figura de Dudu entre eles naquele momento: era nessa hora que o chefe conseguia acalmar os ânimos e deixar todos menos apreensivos com suas piadas.
Mas por fim, foi o Tempestade que falou primeiro, socando um dos punhos contra a palma da outra mão.
-Ah, que se foda. Vamos lá enfiar porrada em todo mundo. –ao ver que todos voltavam a atenção para si, o rapaz arqueou ambas as sobrancelhas e arregalou levemente os olhos azul-cinzentos. –Que é? Duvido que algum de vocês tenha uma idéia melhor.
-Acho que não temos muita escolha, não é? -Jô deu os ombros, com a expressão complacente. –Já caímos na armadilha dela desde o início.
O Guardião da Chuva ergueu a mão, como se estivesse pedindo a palavra. Sua expressão era como sempre inflexível e serena, indecifrável. Ricardo já estava preparado para sentir uma afronta vinda das palavras do estrategista, mas então relaxou e baixou as defesas. Se lembrou das palavras de Sara: está mantendo a perspectiva deles como inimigos...
Tentou então, de alguma forma, controlar seus sentimentos e ponderar de forma racional sobre o que Zatch iria dizer. Então, o jovem de cabelos castanhos compridos começou a falar.
-É óbvio que é uma armadilha. Se formos para lá, não tenho dúvidas que estaremos entrando em uma séria enrascada. Contudo, devemos nos lembrar do que nós juramos utilizar como base para a família Vongola: defenda aquilo que julgas de importante. Essa cidade, por mais que muito de nós não morem mais nela, foi nosso lar durante longos anos... Foi aqui o berço de nossa fraternidade... Não podemos deixar que ela cause mais feridas ao nosso lar.
-...Isso quer dizer que ainda vamos lá dar uns pontapés neles não é? –Kiba questionou, coçando a cabeça. Zatch respirou fundo e massageou as têmporas com as mãos, fazendo um movimento afirmativo com a cabeça. O espadachim sorriu, a animação tomando completamente as feições de seu rosto, e agitou o braço em pleno ar.- Até que enfim!!! Estou sentindo um comichão!!!
Ele não foi rápido suficiente para evitar um cascudo da Guardiã da Nuvem, e se curvou de dor enquanto choramingava. Karoline encarou Zatch com a expressão ferina, mas também parecia concordar com o plano que a família deveria tomar naquele momento.
-Não esqueça, Guardião: é defendas aquilo que julgas importante e esmague o que julgas injusto. –a morena ajeitou o casaco de brim branco, de forma violenta.
Göbel riu de forma audível, dando tapas nas costas de Karoline, com um certo tom macabro. Finalmente seus inimigos teriam um pouco da dor que mereciam. Ela o encarou com o canto do olho, sendo visível que não estava gostando daquela forma de contato físico, mas ficou calada.
“O espírito dos Vongola ainda existe. Apenas eu que não queria enxergar isso”, o Guardião do Sol refletiu enquanto ajeitava novamente seus óculos de grau. Continuava não concordando com as atitudes de Zatch, tampouco achava certo o que ele fizera a Dudu... Mas podia ver que seus ideais eram idênticos, e isso o confortava.
-Guardiões, esperem então eu chamar os reforços da ENEO. Creio que em três horas poderemos partir daqui mesm...- Doug engoliu em seco e apertou os papéis debaixo do braço, quando Zatch voltou seu olhar para ele e lhe interrompeu de terminar a frase.
-Desculpe, Corvo. Não posso negar que sua ajuda até o momento tenha sido bastante bem vinda, mas esta é uma situação em que eu pretendo que resolvamos sozinhos. –o estrategista foi categórico, colocando as mãos no bolso em seguida e olhando para a abóboda de vidro que compunha o teto. –Vamos provar ao Décimo o que ele a muito esqueceu, com nossas próprias forças.
O assassino fez menção de protestar, mas Karoline fez um aceno negativo com a cabeça, seu cachos dançando junto ao movimento. O rapaz se calou, mas em seus olhos claros não havia dúvidas de que não estava concordando com aquilo tudo.
Mas se afastou alguns passos, deixando que os Vongola terminassem de resolver sua investida.
-São três focos, podemos nos dividir em duplas para liquidá-los então. –Jô cantarolou, alegre. –Creio que eu e o Zatch damos conta de três novamente sozinhos.
-Não. –Zatch fez um gesto com o indicador, o balançando-o no ar, do braço que possuía as bandagens azuis amarradas firmemente. A outra mão continuava no bolso. –Eles sabem nossa forma de agir, Névoa. Não podemos dar essa vantagem a eles. Teremos que modificar as duplas de ação, desta vez... E sim, todos nós formaremos dupla, Göbel. Não me venha com “gosto de trabalhar sozinho”.
O Guardião do Trovão resmungou baixinho, batendo com o bico do coturno no chão.
-Que seja. Você é o estrategista por aqui, Chuva. Faça o que bem entender. Quem não gostar de suas decisões, que lhe de um murro no estômago quando essa loucura toda acabar. –a morena deu fim as discussões, embora Jô continuasse com a expressão chorosa por não poder ir junto de seu companheiro favorito em combates.
-Göbel e Ricardo, deixarei que vocês cuidem da fundição. Karoline e Jô irão verificar o shopping Center. Eu e o Tempestade iremos a central de distribuição.
De imediato, o pugilista do Sol parou o olhar sobre a Guardiã da Nuvem, que o retribuiu de forma tensa. O temor de ambos de outrora retornou como um sólido peso nos ombros: Kiba e sua arma selada.
-Não me parece ser uma boa idéia estas combinações. Todos os estilos de combate são completamente diferentes... –Karoline se opôs, tentando não transparecer seu tremor nas palavras pronunciadas.
-É das combinações mais inusitadas que surgem as melhores surpresas, Karoline. –a resposta veio seca e cortante, especialidade do Guardião da Chuva. A morena poderia até insistir, mas tinha medo de que isso pudesse incitar qualquer suspeita que o estrategista tivesse perante a situação. Zatch caminhou até Douglas e lhe tomou os papéis com as informações levantadas. –Vocês tem dez minutos para se prepararem, enquanto eu vou montar o plano de ação e traçar as rotas mais rápidas.
O rapaz deixou o saguão com passadas rápidas, os cabelos castanhos oscilando próximos aos ombros. Göbel caminhou para o lado completamente oposto, enquanto estralava o pescoço, cantarolando alguma música sobre cerveja e chacina.
Kiba estava para tomar este mesmo caminho, quando Ricardo lhe segurou o ombro de forma firme. O Guardião da Tempestade se virou, arqueando a sobrancelha.
-Que foi, véi? –perguntou intrigado.
-Faça o que tiver que fazer, mas não use sua arma selada. Está me entendendo? –o Guardião do Sol falou categoricamente, ainda que seu tom de voz não passasse de um sussurro. Recuou o braço para junto ao corpo, mas seus olhos claros ainda encaravam o jovem espadachim. –Ao menos, não hoje.
Kiba frisou os olhos, de forma que eles se tornaram quase fendas coloridas pelo tom azul-cinzento.
-Hmmm.... Por quê? Pensei que você tivesse curado meus ferimentos, maldito.
Ricardo observou de soslaio para a direção que o Guardião da Chuva havia tomado. Já não se podia ver mais sua silhueta abaixo dos arcos dos corredores. Kiba e Zatch eram amigos de infância, os mais antigos entre os sete. Mas, mesmo considerando o fato de que tudo que o estrategista estava fazendo era realmente pelo bem da família, ainda estava preocupado quanto a sua reação perante ao descontrole da arma da Tempestade.
Afinal, de uma forma ou de outra, era o estrategista que estava no comando temporário dos Vongola.
Quando Ricardo voltou a consciência do presente, percebeu que Kiba já estava novamente se distanciando dele, despreocupado.
-Caramba, eu não terminei de falar! –ralhou o pugilista, indo de encontro ao amigo novamente. O rapaz de cabelos tempestuosos e rebeldes se virou, fazendo um muxoxo.
-Táquepariu, você ficou fazendo mó cara de paisagem... Queria que eu pensasse o que?
O Guardião do Sol revirou os olhos. E começou a embromar.
-Bem... A recuperação do Sol deixa uma certa “carga” de massa “endrosfática” no sistema nervoso da pessoa. Se você tentar usar a arma selada, essa carga vai acabar sendo liberada no seu sistema linfático e causar um ataque epilético... Você está entendendo? –Ricardo simplesmente atropelou palavra por palavra sua explicação, falando tudo numa velocidade absurda. Se um dos seus professores da faculdade de veterinária ouvisse isso, não tinha dúvidas de que iriam questionar sua capacidade mental.
O pugilista respirou fundo, piscando algumas vezes por de trás das lentes transparentes. Kiba por fim deu os ombros, colocando as mãos no bolso da calça jeans e fazendo uma careta.
-Tá, tá. Não quero ter um ataque epilético no meu sistema ento...ento...Como é que é mermo?
-Endrosfático. –repetiu Ricardo, tentando reprimir o fato de estar incrédulo pelo outro rapaz ter caído em sua sucessão de lorotas mal contadas.
-Isso. Endro-seiláoque. –o espadachim fez um leve movimento com a cabeça, sendo fácil notar que ele estava simplesmente fingindo que entendera a explicação de Ricardo. -Você venceu, não vou usar minha arma selada.
E por fim o Guardião da Tempestade se afastou, murmurando algo do tipo “nem preciso dela mesmo pra derrotar aqueles almofadinhas cretinos”.
O loiro baixou o rosto e cobriu a face com a palma da mão. Se não conhecesse Kiba a anos, diria que ele tinha suspeitas de sérios transtornos mentais.
Mas ele conhecia, fazer o que. E sabia que ele realmente tinha sérios transtornos mentais. A melhor coisa nisso tudo é que o rapaz sempre acreditava facilmente no que os amigos falavam, o que o tornava uma pessoa realmente fácil de convencer.
No passo que, no outro lado do saguão, a conversa já estava mais difícil de ser finalizada.
-Você não entende Karoline? Encare os fatos: vocês não estão levando este problema com a seriedade necessária! –repreendeu Douglas, com nervosismo na voz. Lhe era inconcebível a idéia de que os Guardiões lutassem sozinhos sem o apoio devido da ENEO.
Karoline deu um sorriso no canto dos lábios. Era inútil o rapaz argumentar: o fogo da determinação já ardia em seus olhos castanhos.
-Vamos atacar sozinhos, e isto é um assunto encerrado. Tente entender o que significa para nós fazer isso, após todos esses acontecimentos. Mataram um aliado, feriram um amigo. Nosso chefe está fora de si. Precisamos mostrar que não nos rendemos... –ela ergueu o olhar, fitando por alguns momentos a abóbada de vidro. Lá fora, a garoa continuava a cair de forma de forma incessante. –Mesmo tendo feito de forma radical, este foi o caminho que o Zatch quis nos mostrar.
O rapaz escutou as palavras da namorada, cerrando o punho junto ao corpo. Ela apenas sorriu e aproximou o rosto, colando os lábios dele por um momento. Afastou-se em seguida, dando um empurrão no ombro de Doug.
-Frouxo. –foi sua última palavra, antes de seguir os passos do ilusionista da Névoa.
O assassino continuou parado, os olhos fixos onde estava a morena há poucos minutos atrás. Se fosse em outros tempo, não se preocuparia com a segurança alheia, principalmente com seus companheiros de equipe. Mas havia mudado nesses últimos anos...
Ela o havia mudado.
Fechou os olhos, colocando a mão no bolso da calça.
-É... Talvez eu tenha ficado frouxo mesmo.
Não se permitiria ficar parado, enquanto a família Vongola corresse perigo. Retirou o telefone celular flip e negro para fora, abrindo-o com o polegar e apertando o botão de discagem rápida. Segundo o contrato, os integrantes da ENEO deviam obediência às ordens dos Guardiões.
-Aqui é o Corvo, do Esquadrão do Espectro Negro.
Ok. Hora de apelar para os superiores. Aliás, O superior.
-Deixe-me falar com o Nono. Creio que ele precisa ser informado de alguns acontecimentos recentes...
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