Beyond The Bounds Of Sky
21 Capítulo 21 - Missão noturna: parte I
Notas iniciais
Antes de começar o nosso esperado capítulo, só deixe explicar um pouco uma certa loucura que resolvi testar desta vez.
Seguinte: pra deixar de certa forma as cenas de ação mais envolventes, resolvi usar algumas faixas de música. Assim o leitor pode ficar ouvindo e ouvindo enquanto vai lendo a pancadaria rolar solta...
(Ao menos, quem consegue ler e ouvir música ao mesmo tempo)
Acho que é uma forma interessante de se climatizar ao enredo. Não esqueçamos que BOS tem uma influência colossal dos animes, e que os mesmos abusam desses recursos pra fixar a atenção do leitor.
Neste cap eu utilizei duas músicas, cada uma delas de uma fonte diferente (e de certa forma nostálgica para mim). É muito simples:
Quando aparecer um número em negrito, como este ao lado →(1)
significa que você deve colocar a faixa com o número indicado para tocar. Aconselho a deixar no repeat, pra só trocar até a próxima faixa ou quando o capítulo acabar.
É isso. Mais um teste na verdade, uma piração minha, uma forma de tornar essa história tão frenética e tresloucada ainda mais viciante. Se o feedback for bom, quem sabe não colocar uma música assim pra cada embate?
Ao final do cap, será dado o nome das respectivas músicas e da fonte em que foram tiradas.
Boa leitura para vocês, meus chapas! AND KEEP YOUR FLAMING BURNING!!!!
Igor B. Kiba Camargo
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Vou disponibilizar os links de download das músicas aqui, para o leitor que optar por ouví-las durante a leitura:
Soundtrack(1): http://www.4shared.com/mp3/TMOJWtgO/Soundtrack_1.html
Soundtrack(2): http://www.4shared.com/mp3/_PjVli5U/Soundtrack_2.html
Entre a magia do tinteiro e a lâmina da Navalha
O centro estava quase deserto aquele horário da noite, piorando pelo fato do quarteirão estar sem luz. Carros passavam velozmente pela rua, com os faróis altos, trespassando aquela estranha névoa que percorria o solo como uma praga. Não era um fenômeno normal para a estação.
A construção do Shopping Center erguia-se imponente, o branco de sua pintura submergido pelo véu da noite. Os faróis dos transeuntes faziam a fachada piscar de forma fantasmagórica, enquanto a chuva fina ainda caía ao solo de forma insistente. Dois vultos estavam parados à frente da entrada principal, alinhados. O silêncio entre ambos só era quebrado pelo barulho dos veículos passando na rua que ficava atrás de suas costas.
Então, um deles espirrou de forma audível.
-Eu falei pra você colocar um casaco antes da gente sair. Estúpido. –ralhou Karoline, com as duas mãos escondidas dentro dos bolsos do casaco brim.
O ilusionista da Névoa esfregou o nariz, fungando em seguida.
-Me deixa... –disse com a voz chorosa de quem estava levemente fanho. –Estou espirrando porque estão falando mal de mim por ai. Nunca ouviu falar disso não?
A Guardiã da Nuvem ficou respirou fundo. Seus cabelos morenos já estavam completamente úmidos por causa das gotas de água que caiam em abundância do céu.
-Se isso fosse realmente verdade, você espirraria toda hora Jô.
E seguiu para baixo do toldo da entrada, um local que a protegeria da chuva. O amigo foi logo atrás, cruzando os braços e reclamando baixinho.
Refugiaram-se, adentrando ao breu. Podiam ver a porta dupla de vidro fumê e o ambiente que ficava por trás dela. Alamedas de lojas, silenciosas e sem vida, com suas fachadas e banners. Não podiam ver mais do que contornos, já que não havia qualquer resquício de luz dentro da grande construção.
O olho livre de Karoline percorreu o máximo de pontos que conseguia. Não via qualquer movimentação aparente e isso a deixava nervosa. Parecia tudo estranhamente normal. No céu, uma fraca luminescência nas nuvens próximas ao outro extremo do shopping mostrava que a energia do hospital ainda não havia entrado em colapso.
Jô deu mais uma fungada e se aproximou do vidro.
-Pelo amor de Deus. Se quiser lhe dou dinheiro para você ir até uma farmácia e comprar um antigripal.
O Guardião da Névoa se virou, seu rosto demonstrava ligeira irritação.
-Fala sério, Karol! Meu nariz só está um pouquinho congestionado. – Ele girou o corpo, esticando o braço, pronto para se apoiar na porta de vidro. — Não como se estivesse ruminando como um porco nem nad... nada parecido.
Sua voz vacilou, porque seus dedos tatearam o ar. As portas haviam se dividido, deslizando para o lado sem produzir som algum, liberando a trajetória. Ambos ficaram estáticos, músculos rígidos, controlando até mesmo a respiração. Karoline podia sentir o frio da corrente que ostentava o brasão lhe marcar a carne. Precisava apenas de uma leve fagulha de sua Chama da Nuvem para liberar a poderosa Espectro Celeste.
Instantes percorreram e nada ocorreu. Aparentemente a porta havia simplesmente aberto devido ao sensor que possuía no alto de seu arco.
-Pensei que o prédio não tivesse energia elétrica... Mas os sensores estão funcionando... estranho. – as palavras da garota foram introspectivas, ainda que ela as proferisse em voz baixa. Maneou a cabeça por alguns instantes, seus cachos sem forma devido a chuva balançando e arremessando gotas de água pelo ar. Seus passos a conduziram adentro do edifício.
O ilusionista continuou parado, e seus olhos escuros baixaram e fitaram o solo. Observou que a névoa serpenteava sobre suas canelas e isso lhe causou uma sensação de desconforto.
A voz de Karoline lhe despertou de seu devaneio.
-E ai? Você vem ou não?
O Guardião fez um gesto afirmativo com o polegar, e se juntou à amiga.
Era quase impossível distinguir alguma coisa em meio à ausência de luz, conforme avançavam. Ora ou outra suas canelas eram golpeadas por objetos escondidos na escuridão, como bancos e latas de lixo, o que fez Karoline praguejar palavrões que sequer Jô conhecia. Podiam ver apenas traços superficiais de onde estavam às paredes, vitrais e objetos, da luminosidade quase nula que provinha de algum lugar mais a frente.
-Eu pensei que prédios assim possuíssem aquele sistema de iluminação de emergência, sabe? – Jô divagou, com as mãos no bolso, frisando os olhos na vã tentativa de enxergar melhor no escuro.
Estacaram ao chegar à fonte de luz precária. Era uma grande abóbada que provinha do último andar, formando uma clareira tenebrosa. Os outros andares também circulavam o vazio, formando quatro pisos distintos. Ao julgar pelas nuvens estarem menos densas, a chuva havia parado.
A Guardiã da Nuvem jogou os cabelos molhados para frente, torcendo-os, com as costas levemente arqueadas para que a água caísse a sua frente. O Ilusionista avançou mais alguns passos, agitado, percorrendo sua atenção por todos os caminhos possíveis. Sentia-se oprimido dentro daquele ambiente, como se estivesse acuado. Então, seus olhos se arregalaram e ele se virou, pronto para alertar a companheira.
Uma espiral de cor índigo fluiu o ar a frente deles, tão fugaz quanto um instante.
A morena arregalou o único olho visível e Jô deu um passo para trás. Entre eles, um vulto se materializou, agachado. O cabelo longo e liso escorria sobre seu rosto abaixado, ocultando completamente seus traços faciais. Ao seu redor, a Chama da Névoa oscilava.
A moça se ergueu, endireitando o corpo. Meneou a cabeça, levando os finos dedos até os cabelos e colocando parte da franja atrás da orelha direita, revelando o brinco de hematita. No lado oposto, uma grossa mecha de fios era envolvida por um barbante vermelho, enrolado em largos espaços. Usava um pulôver listrado, a gola indo até o alto do pescoço, e fitou com o canto dos olhos castanhos a única Guardiã dos Vongola.
-Finalmente, chegaram.
E em seguida, voltou o olhar para Jô. O rapaz perdeu o ar dos pulmões, sentindo uma onda de choque percorrer todo o corpo. Reconheceu os olhos amendoados e os traços faciais da sedutora estranha que encontrara de manhã, assombrado ao ver que toda aquela gentileza de antes fora substituída por um vazio profundo e gélido. Nem a voz e nem o rosto revelavam qualquer tipo de sentimento. Fosse ódio ou alegria.
Karoline foi acometida pela mesma surpresa, mas logo já havia se recomposto. Não podia vacilar na frente de uma inimiga. Focava o olhar sobre a oponente recém-chegada, embora pudesse visualizar pouco dela em meio à parca luz.
-Você é uma das capangas daquela maldita Gallardo, não é?!
Em resposta, a mulher apenas fechou os olhos por um momento. Em seguida os reabriu, voltando sua atenção para a morena. Ao redor de seus dedos e de suas unhas pintadas em um roxo doentio, reflexos de Chama da Névoa resvalavam no ar.
Jô colocou a mão espalmada na testa, sentindo a têmpora latejar. Ainda sentia um estranho embrulho no estômago por reconhecer aquela face doce de outrora em meio ao campo de batalha, embora algo em seu interior estivesse vociferando.
Não é ela.
-Sou a Sentinela da Névoa, Marisa. Estou sob as ordens de minha rainha, e tenho por dever eliminar qualquer um que ouse atravessar seu iluminado caminho...
-Pfft, você fala palavras pomposas, mas eu só escuto merda! –Karoline vociferou, dando um passo para trás e levando a mão ao brasão metálico atado em volta de seu pescoço. –Dane-se se aquela mulher é a Rainha, o Papa ou até mesmo Deus!!! Eu vou empalar todos aqueles que feriram meus amigos!!!
As palavras se tornaram desnecessárias, pois os olhares já moldaram toda a situação.
Era hora de lutar.
-Que seja feita vossa vontade, Vongolas.
A escuridão tremeluziu, como se fosse composta por algo pastoso, e começou a envolver o corpo da Gallardo. O ilusionista da Névoa levou segundos preciosos para perceber o que estava ocorrendo, mas já era tarde demais.
-KAROLINE!!! ESSA ESCURIDÃO... TODO O SHOPPING ESTÁ TOMADO POR CHAMAS DA NÉVOA!!!! ELA ESTÁ USANDO REFRAÇÃO DE LUZ PARA SE ESC...
Aconteceu muito rápido, e Jô foi arremessado para trás com a força do golpe no queixo. Atingiu a fachada de uma loja, fazendo o vidro reforçado trincar e soltar cacos para algumas direções. A Guardiã da Nuvem observou o amigo ser projetado para trás, impotente, mas não houve tempo para ir em auxilio a ele. Sentiu uma estranha movimentação atrás de si. Mal começou a girar o corpo, e recebeu o impacto de um chute aplicado na face esquerda. Isto a fez tombar para o lado, caindo sentada no chão.
-Mas q...?
Logo, Marisa reapareceu como se houvesse algo bloqueando sua silhueta junto à escuridão. Karoline percebera que ela brilhava, como se alguma luz estivesse sendo focada sobre ela, mas não conseguia encontrar sua fonte. A Sentinela apenas observava a morena, enquanto Jô tentava se levantar, o som de vidro se partindo enquanto ele se movimentava. Ainda que seus ataques tivessem tido um êxito assombroso, não havia sinal de satisfação em seu olhar.
-Resistir é inútil.
Um filete rubro escorreu dos lábios da Guardiã da Nuvem, enquanto seu olho atingindo ainda estava semicerrado pelo choque. Que velocidade absurda era aquela? O único que ela havia visto antes executar uma técnica parecida havia sido Yure...
Jô tossia fortemente, mas já havia se recuperado e estava em pé. Seu olho amaldiçoado era um ponto vermelho doentio em meio à escuridão total.
-Eu desconfiei... Que havia algo errado nesse lugar, mas... Uma ilusão que agregou a estrutura toda do shopping?! Que poder absurdo!
O ilusionista então tentou contra atacar. Ergueu o braço para frente e berrou por sua arma selada. O momentâneo clarão índigo irrompeu o ar e o báculo se materializou da mão do Guardião da Névoa. Em questão de instantes, uma dúzia dos cacos de vidro se ergueu do solo e começaram a apontar suas pontas afiadas para direção de Marisa. Ela nem se mexeu, em resposta.
-Tolo.
Novamente ela desapareceu, e antes que a ilusão do Jô fosse arremessada contra o alvo, ele recebeu um forte impacto logo abaixo do braço levantado. Ele cambaleou para o lado, mas logo em seguida sentiu o estômago ser forçado de forma violenta para trás, e suas costas bateram novamente na arcada de vidro. Alguns estilhaços lhe causaram cortes na nuca, e ele gritou, quando duas enormes serpentes circularam seu corpo em manobras defensivas, ganham as alturas em espirais, mas em nada colidiram. Sumiram em pleno ar, enquanto o ilusionista arfava.
Karoline se levantou, com as costas arqueadas. O rouxinol transformou-se do objeto de metal inanimado, girando ao redor da possuidora e se transformando na imensa alabarda de combate.
Podiam apenas ouvir suas respirações. A morena tentava localizar com o olho descoberto qualquer sinal da inimiga, mas era impossível. Ouviu então algo se mexer rapidamente atrás de si e se virou, girando o cabo da arma em rotação defensiva pronta para amortecer o golpe, quando recebeu uma flanqueada no meio das costas. O corpo se projetou para frente, mas Karoline firmou a perna direita para frente e se virou na tentativa de golpear a atacante. Mas tudo que conseguiu fazer foi à lâmina rasgar o ar. Jô observava atônito a toda a cena.
A Guardiã da Nuvem ouviu um sopro de voz atrás de seu ouvido.
-Você realmente está prestando atenção neste combate?
A morena sentiu um frio percorrer a espinha, mas o ataque não veio por onde ela havia esperado. Um baque e sentiu o sangue escorrer novamente por entre os lábios, escapando deles e tingindo o piso. Ela rodopiou no ar por um momento e caiu com violência no chão.
Marisa reapareceu. Parecia que não havia movido um músculo durante o combate. Observou ambos os Guardiões com sua expressão impassível.
O ilusionista não conseguia acreditar. Como o usuário de Chama da Névoa, ele deveria ter percebido a ilusão antes de adentrarem no prédio. E agora se encontravam naquela situação, desesperado. Começou a se mexer, focando o olho direito amaldiçoado novamente em Marisa e concentrando sua energia. Mas a Sentinela estava atenta aos seus movimentos.
-Será que vocês não conseguem ficar quietos um momento?
Fez apenas um movimento com o braço, e Jô sentiu algo mexer com a atmosfera ao seu redor. Ele sentiu algo como um empurrão, uma palma da mão pressionando seu ombro. Então a dor veio lacerante, como se seu osso estivesse sendo esmagado.
O grito ecoou pelas galerias do Shopping Center.
Marisa recolheu a mão e ficou observando o ilusionista se contorcer de dor, largando o báculo para o lado. O metal caiu no chão, tremendo até se estabilizar, causando barulho de atrito.
A mulher observou a dor com frieza e desinteresse.
-Você... –ressoou a voz irritada de Karoline.
Voltou os olhos castanhos amendoados de volta à Guardiã. Ela estava se levantando, provavelmente ainda levemente atordoada pela bordoada que levara no rosto. Parte do mesmo estava vermelho e inchado, o lábio inferior cortado com um filete de sangue escorrendo já abaixo do queixo. A cabeça pendia para baixo, a franja agora completamente desalinhada ocultando os olhos, enquanto o corpo se apoiava na alabarda prostrada ao solo.
-Ainda não apreendeu a desistir, garota?
-Eu disse... Que iria te empalar... Não disse?
-Creio que devo acertar de forma que te impossibilite na próxima vez, correto? –Marisa começou a se ocultar na escuridão novamente, fechando os olhos. –Não vejo qualquer tipo de diversão nisto, o que me leva a ter mais um motivo para terminar este serviço de forma limpa.
Jô se remexeu, o rosto ainda desfigurado pela dor. Temia pela vida da amiga.
-Karol...
Então ele percebeu aquele sorriso desafiador na face suja e ensanguentada da companheira. E notou outro detalhe crucial.
Algo movimentou-se atrás de Karoline, mas ela nem se mexeu. Até que, no último instante, ergueu o corpo juntamente com um movimento vertical da alabarda. Aparentemente iria golpear o ar.
Ar sólido. Uma massa disforme.
O quer que fosse, acabou por cair e rolar no chão, até bater em um dos bancos periféricos da galeria. Em sequência ao movimento, a morena girou a alabarda ao contrário e a fincou logo atrás de suas pernas, a lâmina rachando o piso e afundando no solo.
-Espectro Celeste!!!
O som do pio do rouxinol ecoou, quando três grandes lâminas cresceram em alta velocidade na diagonal. Pelo visto fora um movimento abrupto, pois conseguira também acertar outro vulto escondido as sombras.
O Guardião da Névoa se erguera, ainda apoiado à parede. Segurou a Vertigem Híbrida com o braço que estava sadio, observando incrédulo os dois vultos distintos. A escuridão se dissipou como uma nuvem de fumaça, revelando diversos painéis de luzes de emergência sobre todo o corredor, emanando fortes luzes brancas sobre todo o local. A ilusão havia sido desmantelada.
-Ela conseguiu... Acertando a criadora, ela conseguiu interromper a ilusão que cercava nossos sentidos. Nada mais do que o esperado para o prodígio... Karoline. –Jô sorriu. A Guardiã da Nuvem mantinha-se estática, enquanto as lâminas iam se extinguindo e transformando-se em espirais de Chama da Nuvem. Seus olhos ainda estavam escondidos sob a franja castanha. O vulto que havia sido atingido pelo primeiro golpe ainda estava mais ao longe, encolhido no chão e gemendo, em choque. Ainda estava envolto da estranha matéria escura que compunha a ilusão de antes.
-Surpresa? –A morena disse, agora em um tom provocante. Limpou o sangue dos lábios com o casaco de brim, virando-se e empunhando a arma novamente com as duas mãos. Sabia quem iria encontrar ali. –Marisa. Este é o seu nome, correto?
A Sentinela da Névoa frisou os olhos, abrindo levemente a distância entre as pernas. Havia recebido um corte de raspão na coxa esquerda, e o sangue fluía vagarosamente sobre o ferimento. Parecia intrigada.
-Você percebeu o duplo em meio à escuridão.
-Eu não percebi nada, apenas equiparei as coisas por aqui.
A mulher não entendeu de imediato a resposta da morena, até que Karoline deixou a alabarda para trás do corpo, na diagonal, segurando-a com apenas um braço. Levou o indicador da mão livre e retirou as mechas castanhas que estavam ocultando seus olhos.
Os dois olhos castanhos encaravam a inimiga, acompanhados de um sorriso de satisfação. O tapa-olho havia caído inerte no chão. Karoline o havia desatado enquanto estava caída após a segunda investida.
O olho humano leva certo tempo para se adaptar à luminosidade de um local. Quando você sai de uma área muito iluminada e entra em um ambiente de penumbra, a visibilidade tornasse quase zero, até que os receptores de luminosidade se estabilizem. Uma das formas de se “driblar” este reajuste é manter um dos olhos já envolto em escuridão. Assim já estará acostumado a falta de luz, e quando for novamente revelado poderá enxergar melhor.
Um simples macete tático, que fizera a Guardiã da Nuvem colocar os Vongola novamente em plano de ataque.
A Sentinela levou dois dedos ao ferimento, passou-os ligeiramente sobre o corte e levou-os a altura do rosto, observando o próprio sangue. Baixou a mão em seguida, observando Karoline. Para a morena, a frieza dela se assemelhava a do Guardião da Chuva. Mas era diferente de Zatch: não é como se ela oprimisse os próprios sentimentos: parecia que aquela mulher não possuísse nenhum.
-Deve ser a primeira vez... Que alguém consegue me ferir em combate.
-Sempre há um primeiro ferimento... E uma primeira derrota, minha cara.
As duas se encararam por um longo tempo. Jô começou a preparar um ataque de ilusão maciça, quando percebeu que Marisa o encarou pela visão periférica. Receou receber uma ofensiva, mas ela voltou o olhar para Karoline.
-Creio que uma mudança seja necessária aqui. Você parece ser a maior ameaça. Seu amigo não me causará tantos problemas... Hm....
A Chama da Névoa começou a emanar ao redor do corpo de Marisa, logo em seguida aquela mesma escuridão densa e palpável tomou conta do corpo dela. Em segundos, ela começou a se deslocar em alta velocidade para trás. Karoline xingou e se virou para o Guardião da Névoa.
-Fique aqui!
-Mas... Karoline... Ela....
-ELA É MINHA PRESA, ESTÁ ENTENDENDO?! –Jô tremeu levemente. Os dois olhos castanhos de Karoline estavam sedentos por um combate. Fazia tempo que o ilusionista não via esta face: a morena realmente queria derrotar Marisa. –PRIMEIRO, DERROTAREI ESSA SAFADA!!! DEPOIS VOU ESPANCÁ-LA, DESCOBRIR ONDE ESTÁ A CHEFA E IR CHUTAR O TRASEIRO DELA!!!!
E antes que pudesse haver objeções, ela partiu na corrida. Deixou a alabarda na diagonal do corpo, sendo segurada por um braço, com os cabelos cacheados e castanhos esvoaçando no ar por sua passada corrida.
Jô saiu do apoio da parede, seus tênis pisando e esmigalhando cacos no chão. O ombro ainda doía, e ele não conseguia movimentar aquele braço como conseqüência. Observou o caminho que a amiga havia tomado, tudo agora iluminado pelas potentes luzes esbranquiçadas de emergência. Elas criavam o efeito de ilhas brilhantes em meio ao chão escuro, em circunferências perfeitas.
O olho vermelho ainda emitia uma leve aura de sua Chama da Névoa. Pensou por um momento se era prudente deixar a Guardiã da Nuvem lutar com uma Sentinela sozinha. Afinal, estava falando de uma usuária de ilusões, e isso sempre exigia uma cautela redobrada... Mas conhecendo Karoline, ainda mais naquele estado, era bem capaz dele acabar levando umas bordoadas se estivesse próximo da batalha.
Então algo se remexeu junto aos escombros, fazendo o ilusionista se virar e colocar o báculo na diagonal como um movimento defensivo. Era difícil segurar a arma apenas com uma mão, mas ele estava se esforçando.
Um novo choque percorreu seus traços faciais.
Era idêntica à Marisa, os mesmos olhos amendoados e cabelos escuros escorrendo a frente dos seios. Usava um moletom justo, luvas sem os dedos e um jeans magenta escuro. Um par de all star e uma presilha de caveira junto à parte esquerda do cabelo completavam o conjunto. Observava para os lados assustada, como se tentasse entender onde estava.
O ilusionista reconheceu a mesma singela moça que havia encontrado mais cedo. Podia sentir, embora não compreendesse muito bem o que este sentimento significava. Ela então retribuiu o olhar, e sorriu da mesma forma que fizera naquela manhã chuvosa.
Jô se aproximou, baixando o báculo. Sentia-se um bobo, mas por algum motivo estava feliz em vê-la ali. Esquecera completamente da guerra, de Karoline, até mesmo do ombro esmigalhado. Só queria ficar próximo dela.
-É você não é? Lembra de mim... Da cafeteria, hoje de manhã... –disse com a voz doce. A moça se levantou, segurando ambas as mãos com os dedos entrelaçados.
Ela continuava a sorrir enquanto ele se aproximava. O olho amaldiçoado voltou à coloração normal, já que o Guardião da Névoa não via qualquer ameaça ali. Apenas aquela gentil e bela senhorita...
Aproximaram-se, quase frente a frente. O báculo se desfez em fumaça índigo, tornando novamente um brasão inerte nos dedos do ilusionista. Ele tinha que baixar o olhar para encarar aqueles olhos castanhos claros, tão convidativos. Murmurou alguma coisa, mas estava tão envolvido pelo momento que não entendia as próprias palavras. A palma da mão dela tocou sua face. Era quente... O rosto se aproximando cada vez mais... Ele entreabriu os lábios, absorto...
O som da carne sendo rasgada brutalmente.
Jô arregalou os olhos, deixando a corrente de bronze lhe escapar pelos dedos. O brasão da Névoa caiu e quicou, algumas vezes, antes de ficar estagnado de uma vez por todas no chão. Os olhos dela ainda o encaravam de forma gentil, mesmo quando o braço fino e delicado dela tivesse trespassado o tronco do ilusionista Vongola, chegando ao outro lado ao perfurar diversos órgãos internos. O sangue esguichou no chão violentamente, até mesmo sobre a roupa da jovem, e também subiram pela traquéia dele com violência. Ele tossiu.
Com o braço que não estava enterrado nas vísceras do Vongola, ela empurrou o tronco de Jô para trás, enquanto ia se esquivando dele. O Guardião queria gritar de forma ensandecida, mas a dor causada pelo atrito entre a pele e os músculos dela com seu tecido interior era absurda. Tanto que ele perdera a voz. Não era surpresa de se esperar que, quando ela se livrou totalmente dele, seu corpo caísse seco no chão.
Inconsciente.
A mulher o observou cair. Bateu a palma das mãos, suspirando. Ainda conseguia sentir o reflexo do impacto que havia ganhado da Guardiã da Nuvem no antebraço. Cutucou o local roxo e inchado com o dedo indicador, e fez biquinho ao constatar que o dolorido piorava. Voltou a atenção para o homem caído no chão.
Não sentia muito orgulho no que acabara de fazer. Tudo bem, ordens da “mana” sempre tinham que ser seguidas a risca, mas essa era a primeira vez que Marli não ficava contente com o resultado do que acabara de fazer. Aquele homem tinha olhos bondosos, e ela sentia-se feliz em olhar para eles.
Chacoalhou a cabeça, os cabelos se remexendo, enquanto sentia um incômodo na boca do estômago. Como se borboletas aflorassem vôo em seu estômago, chutou uma pedrinha sentindo o rosto arder, incomodada com aquela reação estranha que estava perto daquele inimigo.
Por fim, resolveu deixar estas estranhas sensações de lado. Havia cumprido as ordens dadas pela irmã, então agora deveria se juntar a ela na batalha contra a Guardiã remanescente. Andou na ponta do pé, evitando sentir o nervoso de esmigalhar os cacos de vidro enquanto andava, até sair da zona de batalha. Focou por uma última vez o corpo caído, intrigada e confusa com aquele estranho sentimento de pêsames, e então virou-se para rumar além daquela galeria.
Mas havia algo em seu caminho. Algo extremamente bizarro.
-Fique parada aí! NÃO SE MECHA!
A voz era grave como um trovão, a garota ficou estática sem se mexer, devido à ordem. Não havia notado a aproximação daquele indivíduo no campo de batalha. Seus olhos pairaram sobre ele, enquanto mantinha-se na posição de marcha, congelada: um pé para frente e uma das mãos projetadas para cima.
O homem estava sentado com as pernas cruzadas, tendo ao seu lado uma bolsa negra de apenas uma alça fechada com o zíper. Tinha em mãos um grande caderno de desenho, ao qual segurava com uma mão, deixando a outra completamente livre para que ele atacasse vorazmente a superfície do papel com traços rápidos do que parecia ser um lápis. Seu tom de pele era marrom escuro, que contrastava com o blusão moletom branco com capuz. As calças jeans eram boca de sino, quase escondendo o par de tênis negro que ele usava, e havia diversos anéis prateados em todos os dedos. Também tinha um brinco de argola grande, ao qual estava um guizo pendurado, mas era quase impossível identificá-lo de primeiro momento. Isso porque aquele rapaz tinha um grande black power, com os fios espessos armados e voltados para todas as direções. Quase caíam à frente de seus olhos negros, concentrados no desenho a sua frente.
-AHÁ, PRONTO, SPUTNICK! –berrou novamente, criando estrondosos ecos pelas galerias vazias e fantasmagóricas, graças às luzes de emergência que iluminavam o local. Então a garota percebeu algo se remexer no ombro daquele estranho, e que aquela estranha criatura concordava com a cabeça freneticamente. –YOSH! Que bom que você gostou!
Havia ali um pequeno furão. Corpo alongado, focinho rosado, patas curtas e orelhas triangulares. Devido ao seu pêlo, sua pequena cauda se assemelhava a um espanador, e possuía duas cores: branca, sendo na parte do rosto e na parte debaixo do animal; e levemente púrpura: cobrindo o resto do corpo e uma pequena tira que englobava os pequenos olhos esféricos.
A criatura guinchou e se sentou no ombro do dono. Cruzou as pequenas patinhas e fez um movimento com a cabeça para a mulher. Ela arregalou um dos olhos, sem entender o que diabos estava ocorrendo ali. Quando abriu os lábios para questionar, o homem se levantou de rompante. Fora tão rápido que a mulher logo cogitou um ataque, cruzando os braços a frente do corpo e colocando uma perna para trás para suportar qualquer impacto.
Mas ele havia simplesmente se levantado. Sua altura era maior do que a de uma pessoa normal, e sua sombra se projetou quase encostando aos pés da mulher de cabelos castanhos.
-Veja o poder ultra super mega fuckin’ Power do meu estilo! –e virou o caderno de desenho, exibindo a folha.
Havia ali um perfeito esboço da própria garota, estilizado com traços de mangá japonês. Podia reconhecer-se, além da pose em que havia ficado estática anteriormente, eram o seu cabelo liso com mechas colocadas atrás da orelha revelando o brinco losango de Hematita e seus olhos amendoados. Até mesmo as roupas estavam fiéis ao que ela usava.
Era um belo trabalho, sem dúvida. Mas antes que pudesse fazer qualquer elogio, o estranho baixou a cabeça e respirou fundo.
-Eu sei... Não precisa dizer nada... EU SEI QUE ESTÁ UMA PORCARIA!!!
E então, de forma dramática e completamente cômica, ele se jogou de bruços no chão. O pequeno animal saltou, pousando ao seu lado, enquanto o homem falava coisas com a voz rouca e embargada. A mulher apenas o ficou observando, intrigada, levando o indicador junto ao queixo.
-Oh Sputnick... Eu não tenho talento nenhum... Não passo de um pedaço de lixo, escória, um vermezinho maldito, ameba insignificante, projeto inacabado de um crustáceo sem qualquer tipo de massa encefálica...
E continuou a falar coisas completamente estranhas e aleatórias.
Marli, a irmã gêmea de Marisa e também possuidora do título de Sentinela da Névoa, ficou completamente sem reação perante todo o ocorrido. Aquele homem, juntamente com seu estranho animal, poderia ser apenas um equivocado na hora errada e no lugar mais errado ainda.
Então o furão, envolvido em uma pequena aura cor índigo, materializou um lenço xadrex. Primeiro abanou junto à cabeça do dono, fazendo o tecido tremeluzir. O grandalhão se sentou no chão, esfregando o nariz com a manga da camisa. Seus olhos negros se encontraram com o da criaturinha, que remexeu o lenço no ar. E começou a guinchar novamente.
-Oh Sputnick, você acha que eu sou mesmo um gênio incompreendido? –outra fungada extremamente exagerada, seguida da confirmação por parte do pequeno felpudo. –É por isso você é meu melhor amigo, SPUTNICK!
Os olhares se cruzaram por um momento, mareado de lágrimas. Uma aura de pequenas estrelas cor de rosa circulava sobre ambos, afluindo em um ambiente arroxeado. Marli se sentia vendo um trecho de novela mexicana, quando humano e animal se abraçaram e rodopiaram em círculos, rindo.
-Entendi. –disse a garota por fim, batendo o punho fechado sob a outra palma aberta, balançando a cabeça com os olhos fechados. –Você é um usuário da Névoa, assim como eu e a mana.
O homem parou de rodopiar, segurando o furão nos braços. Todo aquele cenário púrpura e cheio de estrelinhas se dissolveu como fumaça, entrecortada pela luz. Ele sorriu, o animal se embrenhando no alto de seu black power, enquanto ele cruzava os braços.
-Mas é claro. Como você acha que eu mantenho meu estilo ultra mega fuckin’ power? Não é pra qualquer um! –ele deu uma risadinha esnobe, e o furão o imitou, fazendo a mesma pose. Novamente a aura da Chama da Névoa envolveu ambos por um momento, e assim que se dissipou havia projetado óculos de lentes triangulares, de diferentes cores e tamanhos, sobre aquelas estranhas figuras. –Eu sou Lee, aquele que come X-burguer e bebe guaraná de manhã!
Marli inchou a bochecha esquerda, frisando os olhos, parecendo uma criança. Jogou o quadril para o lado e juntou os punhos na cintura, enquanto falava.
-Muito bem, senhor aquele que come X-burguer! O senhor não deveria estar aqui! A mana está resolvendo uma coisa muito séria, e ninguém pode atrapalhar a mana, ouviu bem? –ralhava ela, zangada.
Lee, o desenhista, então guardou o lápis dentro da bolsa, quando percebeu o que estava atrás daquela mulher. Havia um corpo caído, voltado para cima, os olhos vazios fitando o céu.
-Acho que teremos um problema, senhorita. Eu não posso ir embora sem levar este rapaz junto comigo. –ele deu de ombros, fechando os olhos, e o furão mais uma vez o repetiu. Então os cacos de vidro se remexeram, e ele teve tempo apenas para abrir os olhos.
A Sentinela da Névoa vorazmente venceu a distância que a separava do desenhista, seu braço projetado para trás com a mão aberta. A percepção treinada de artista dele viu o relance fosco da Chama da Névoa envolta na superfície da pele. Ele ergueu a alça que trespassava seu tronco, a única da bolsa, e deu um puxão forte para cima. O caderno, sendo solto, despencou até o chão.
O golpe de Marli foi neutralizado pelo tecido grosso da lona. O furão se encolheu contra o cabelo do homem, ficando apenas com a cabeça para fora daquele emaranhado negro. Seus olhinhos uniformes exibiam um leve pavor.
Por um momento, a Gallardo viu seriedade naqueles olhos escuros. As feições dele quase ficaram agressivas, no momento em que ele se movimentou para se defender. Mas novamente, um sorriso se alargou em sua face, enquanto ele falava com sua voz rouca.
-Maaaaaaas que maneiro!!!
Ela bufou, irritada, e tentou golpear com a outra mão. Novamente, a palma aberta na direção do rosto do rapaz. O desenhista recuou o tronco escapando por pouco do segundo golpe. Mas ele acabou envergando as costas de mais para trás, e acabou caindo.
Apoiou as duas mãos para trás e acima da cabeça, formando uma ponte com os joelhos levemente dobrados. Marli não se impressionou com a flexibilidade daquele grandalhão, e ergueu os dois braços acima da cabeça. Juntou as duas mãos envolvidas de energia Índigo, pronta para esmagar o centro da virilha dele.
( 1 )
Lee abriu ainda mais as pernas e impulsionou-as para trás. O corpo ficou de cabeça para baixo, enquanto ele se apoiava no solo com os braços estendidos. Girou, quase atingindo o rosto da Sentinela com as pernas em rotação, e depois deu um novo impulso. Desta vez, deu um mortal para trás, rodopiando em pleno ar, e caiu de pé.
-A mana vai ficar braba se você interferir nos assuntos da Rainha!!! E vai brigar comigo!!! –ela fez quase uma birra, enquanto reclamava. –Quem é você, afinal?
-Sou apenas um desenhista... E danço break nas horas vagas. –disse de forma divertida, antes de Marli partir para uma nova onda de ataques.
Ela tentava acertá-lo com as mãos, em movimentos rápidos, projetando e recuando os braços. Mas não estava obtendo sucesso. Ele era extremamente flexível. Torcia o dorso, abaixava a cabeça, recuava o ombro para trás. Ela tentou inclusive executar uma joelhada, mas o homem saltou para trás, dando uma estrelinha. Marli abaixou o corpo e aplicou uma rasteira, girando a lateral do tênis no solo, erguendo uma leve cortina de poeira. O golpe foi certeiro no braço de Lee, enquanto ele ainda estava de cabeça para baixo, e isso acabou por derrubá-lo.
Caiu com as costas no chão. Mas antes que a Sentinela pensasse em golpeá-lo, ele ondulou o corpo, jogando a força para as pernas e colocando-se de pé novamente. Recuou vários passos, enquanto ela ainda se levantava.
-Você é muito rápido.
-Nosso estilo de combate geralmente é utilizar truques para capturar ou subjugar o oponente. É necessário flexibilidade e agilidade caso o plano não saia como o esperado. –o furão, que estava tendo que fazer um esforço tremendo para se segurar no cabelo do dono, voltou a ocupar seu ombro. Ambos então, de forma sincronizada, fizeram um movimento de dança com os braços girando próximos um do outro à frente do peito e terminaram apontando o dedo para cima. –Esse é o nosso estilo mega fuckin’ ultra power star!!!
Marli cerrou os punhos, mostrando a língua.
-Você é um bundão, isso sim!!!
Lee cruzou os braços, fazendo pose de descolado enquanto falava com sua voz de tom grave.
-O fato é que você é perigosa, broto... –pausa dramática, enquanto Marli o encarava com a expressão incrédula: ele havia REALMENTE a chamado de broto?! – Você usa Chama da Névoa na palma das mãos... Provavelmente é algum tipo de técnica que repassa a ilusão de forma direta para a mente do adversário através do contato corporal... Estou errado?
Ela não respondeu, apenas prendeu o ar e fez biquinho.
Lee sorriu. Havia acertado na ferida.
-Eu faço faculdade de Educação Física sabe? Afinal, alguém tão maneiro como eu só poderia fazer algo tão maneiro como Educação física... –o furão confirmou com a cabeça, como se o desenhista precisasse do apoio da platéia. –E sei que existem dores que o nosso corpo sente que não passam de fruto de nossa psique... Assim como uma mulher pode acreditar que está grávida, e assim seu corpo reagir como tal, não vejo porque não seja possível você induzir alguém acreditar que está ferido... E essa pessoa reagir como tal. Foi o que você fez com o Guardião Vongola, não é?
A Sentinela da Névoa mordeu o lábio inferior. Aquele homem estava começando a irritá-la de verdade.
-A mana... Vai ficar incomodada com sua presença aqui, seu bundão... –reclamou ela, entre dentes.
-Você sabe que, entre uma batalha de usuários da Névoa, aquele que tem seus truques revelados está fadado à derrota. Você de alguma forma seduziu o rapaz para que ele não percebesse que estava sendo capturado em sua técnica, dessa forma ele caiu como um patinho...
Por algum motivo, ela sentiu o rosto arder quando ouviu a palavra seduzir. Meneou a cabeça freneticamente, colocando as mãos no rosto, morrendo de vergonha.
-Nyaaaaah, eu apenas segui as ordens da mana!!! Ela mandou que eu o neutralizasse e foi isso que eu fiz!
-Então, devo supor que sua irmã gostaria que eu não salvasse o Guardião Vongola, correto?
O silêncio se instaurou pelo ambiente, enquanto ambos se encaravam. O corpo de Jô continuava inerte, enquanto sons da batalha próxima ecoavam pela galeria como sussurros de mau agouro.
Marli sentiu um leve aperto no peito. O elo. Sua irmã parecia estar com problemas. Não tinha tempo para perder com aquele boçal de estilo retrô.
-Marisa me explicou... –ela começou a falar de forma pausada, tentando controlar a ansiedade e a preocupação pela gêmea- me disse que meu estilo de ilusão é diferente da maioria dos usuários da Névoa. Ainda que você entenda meu mecanismo, se eu conseguir acertá-lo, você sofrerá a dor dos ferimentos irreais... Não é possível controlar a psique, não para se proteger disso.
O rapaz colocou as parte das mãos nos bolsos de trás da calça, deixando alguns dedos de fora.
-Pelo visto teremos então que acabar com essa luta antes que você consiga me encostar, certo? Vamos lá, Sputnik. –o furão ficou de pé no ombro do oponente e flexionou as patas superiores a frente do pequeno corpo. Parecia que estava prestes a saltar. –Romper o selo.
A criatura, a arma selada guinchou. As suspeitas de Marli então eram verdadeiras. O roedor foi envolvido pela Chama da Névoa como se fosse uma massa de energia fervilhante, uma densa camada de vapor que oscilava de forma raivosa ao redor. Então começou a brilhar e ganhou as alturas.
Perdeu a forma, e se contorceu. Torcia e esticava diversas vezes, como se mãos invisíveis remodelassem seus contornos, até que o desenhista ergueu o braço para o céu, com dois dedos esticados. A arma selada foi de encontro ao usuário, e seu formato se revelou. Uma caneta tinteiro com um longo cabo negro, adornado de desenhos abstratos na cor índigo, com uma miniatura de cabeça de furão na ponta superior.
-Uma caneta? Vai mesmo conseguir lutar comigo com uma caneta? –a Sentinela da Névoa questionou, sem maldade nenhuma. Simplesmente não conseguia entender como ele iria efetuar um ataque com objeto tão peculiar.
Ele não respondeu de imediato. Começou a fazer rabiscos em pleno ar, enquanto a caneta criava traços e formas de luzes, como se todo o ambiente em volta do desenhista fosse uma folha de papel em branco. Daqueles movimentos rápidos e precisos, foi se materializando um grande lança-míssil arroxeado, com desenhos nas laterais e mísseis rechonchudos no formato de esquilos. Parecia ser apenas projeção, não ter peso algum, até que Lee o segurou firmemente e o colocou sobre o ombro, as mãos em torno do suporte e do gatilho.
Marli não mexeu um músculo, fitando aquele homem.
-Você mesmo disse que, em uma batalha entre ilusionistas, aquele que demonstra sua técnica está fadado a derrota. Você projetou a ilusão na minha frente!!! Como acha que eu vou cair nela?!
-É. Projetei mesmo.
E Lee apertou o gatilho, disparando três mísseis em sequência na direção da mulher. Assoviavam enquanto cortavam o ar, deixando para trás um rastro de fumaça branca. Ela simplesmente observou a investida, cruzando os braços e fazendo biquinho.
-Eu já disse que não vai adiantar, estou preparada para sua ilus...
O impacto dos mísseis eclodiu uma imensa explosão rubra, liberando a energia pulsante para todos os lados. A força fora tamanha que Marli fora arremessada para trás com violência, atravessando a vitrine de uma loja e se chocando contra uma estante de materiais esportivos. Caiu estatelada, sentindo parte do abdômen e do lado esquerdo do corpo queimar, enquanto a roupa havia sido obliterada em diversas partes. Baixou os olhos, vendo a parte da própria carne queimada sob a coxa esquerda, sentindo os ferimentos cobrarem os débitos de dor. Os olhos marejaram em lágrimas, mas ela mordeu os lábios para não chorar.
Como era possível?! Ela havia se preparado para receber o choque em sua mente, pronta para resistir à ilusão daquele cara... Mas tudo havia explodido!!! Como?!
-A menos...A menos que...
Sentiu os passos se aproximarem. O homem estava se aproximando. A Sentinela tratou se levantar com muito esforço, e de alguma forma se pôs em pé, se livrando dos entulhos que haviam caído sobre si.
Lee rodopiava a caneta entre os dedos, assoviando. Com uma larga passada, atravessou o rombo causado pelo seu ataque anterior, chutando destroços com o bico do tênis.
A ilusionista arfava pesado. Estava fazendo um esforço colossal para se manter de pé.
-Suas feridas são reais. A dor é real. Você realmente está tão tostada quanto carne bem passada de final de churrasco de domingo, broto. –parou de girar a caneta e a segurou na palma da mão. O desenhista agora falava em um tom mais sério. –Não me leve a mal, não vou matá-la. Mas não quer dizer que eu vou deixar você livre para sair andando por ai... Sem contar que a imprudência foi sua de não desviar do meu ataque mega ultra fuckin’ power blaster.
-Eu estava... Preparada... Qual o truque....Como suas...
-Como elas se tornaram reais? –ele completou a pergunta, enquanto a sentinela não conseguia terminar de formar as frases. –Isso é muito simples: os mísseis foram reais. A explosão foi real. Ou melhor dizendo: a carga de Chama da Tempestade que eu recheei elas... É real.
-Um... Multi-manipulador... De Chamas...
As Chamas são seis ao todo, percorrendo o corpo humano pelos sistemas vitais como o fogo se alastra por uma teia de aranha. É o que se pode chamar de “Força Vital” de um ser vivo. A junção dessas ondas de energia forma a Chama do Céu, rara e de cor alaranjada. Embora cada pessoa possua seis chamas, apenas uma das Chamas se desenvolve, comprimindo as outras e se tornando a Chama Vigente. Para os mais supersticiosos, esta Chama influencia diretamente na personalidade da pessoa.
Porém, existem pessoas raras que sofrem de anomalias. Algumas delas conseguem utilizar mais de uma Chama ao mesmo tempo, por terem Chamas Secundárias tão poderosas quanto a Chama Vigente. Essas pessoas são chamadas de Multi-manipuladores. Geralmente, possuem uma outra Chama e conseguem combinar ambas em ataques elaborados.
No caso do desenhista, ele criava uma ilusão, dando forma a um ataque sólido. Assim sua técnica tornava-se real e maciça, sendo a Chama da Névoa uma “casca” de contenção. Uma forma, para abrigar à instável e destrutiva Chama da Tempestade.
Marli ergueu os braços frágeis, debilitados. As palmas de suas mãos foram envolvidas com a Chama da Névoa. Sua respiração ainda estava irregular, de forma preocupante. O homem limitou-se a fitá-la, com a expressão séria e pensativa.
-Eu já disse que não tenho a intenção de matá-la... Mas não terei pena de inutilizá-la por completo se você tentar fazer uma investida contra mim...
Ela o encarou com voracidade no olhar.
-A mana... Não vai me perdoar... Se eu não...Cumprir as ordens... Da Rainha...Multi-manipulador... Não desistirei só... Por causa de uma... Combinação de duas Chamas...
E correu, sentindo dor a cada passo, sob o piso repleto de detritos. Um ataque frontal, limpo e desesperado.
O desenhista fechou os olhos. A caneta voltou a brilhar.
-Duas Chamas...? Não me faça rir... Eu manipulo as seis ondas, cada qual ao meu bel prazer....Broto.
(2)
Marisa sentiu aquele aperto no peito novamente, levando a mão sob o seio esquerdo e a apertando de leve. O elo. Nos confins de seu subconsciente, conseguiu claramente ouvir sua irmã gritar de dor, no exato momento em que a estrutura do shopping se abalou levemente. Sons de explosão viam de longe, muito longe.
Mas ela não transpareceu sentimento nenhum, enquanto corria através da praça de alimentação. Não sabia se a Guardiã da Nuvem estava em seu encalço, mas precisava achar um bom esconderijo para esquadrinhar um novo plano quanto àquela mulher. Ela era sem dúvida muito poder...
Um silvo cortou o ar, obrigando a Sentinela da Névoa a se agachar enquanto derrapava com a sola do tênis no piso. A lâmina velozmente cortou o ar, enquanto o cabo da alabarda se estendia como para o infinito, e acertou com violência um dos largos pilares centrais que sustentavam o teto daquele ambiente. O metal rachou e prendeu dentro da estrutura interna.
Quando Marisa se virou, conseguiu ver Karoline deslizando sobre o cabo estendido, as pernas levemente dobradas e o corpo arqueado para frente. A arma selada sacudia furiosamente com todo aquele peso sobre si, e a rachadura no concreto só piorava, mas a Espectro Celeste aguentou firmemente. Perto do fim da extensão do cabo e já próxima de colidir com o pilar, a Guardiã da Nuvem saltou e executou um chute rotatório, visando acertar a cabeça da Sentinela da Névoa. Marisa rapidamente se agachou, e o golpe de Karoline apenas roçou nos fios mais compridos do cabelo liso e castanho.
A morena estava em rota de colisão ainda no ar, e praguejou por errar o golpe. Usando a força centrífuga que já havia empregado para derrubar a adversária, girou o corpo e se apoiou de costas para a parede. Absorveu o impacto com as palmas das mãos abertas e as solas do sapato, enquanto seus olhos castanhos fitavam raivosos a ilusionista.
A Chama da Névoa irradiou, na tentativa de um contra-ataque, mas a ilusão nem sequer conseguiu ser formada. Karoline era absurdamente mais rápida nos reflexos e movimentos.
A morena saiu daquele apoio vertical, pegando impulso, e tentou executar um soco durante sua curta queda até o solo. Marisa desfez sua investida e saltou para trás em recuo. A Guardiã da Nuvem aproveitou a falta de proximidade entre ambas e desceu o braço no cabo da alabarda. Este se partiu facilmente, deixando um toco de seu material e a lâmina metálica ainda presos na parede.
A Espectro Celeste encolheu de tamanho, voltando ao seu estado original, ainda que a ponta estivesse quebrada. Com graciosidade e leveza nos movimentos, a Vongola girou a arma selada incontáveis vezes acima da própria cabeça com as duas mãos, até parar a rotação e estagná-la diagonalmente atrás das próprias costas. Apenas os dedos da mão direita envolviam a superfície de tom lilás.
-Você é o tipo de pessoa que se esconde atrás dos oponentes como uma covarde, para derrotar-los com suas táticas sórdidas. –a lâmina enterrada no pilar começou a se desfazer, transformando-se em partículas brilhantes que sumiam em pleno ar- Odeio pessoas assim.
A Chama da Nuvem começou a se alastrar, saindo da parte quebrada da arma selada, e começou a se condensar em um reflexo arroxeado. Em segundos, uma nova lâmina se projetava ali, dando a alabarda novamente o aspecto de inteira.
-Você é pertinente Vongola. –Marisa apenas disse, ajeitando a postura. Não exibia nem sequer preocupação, naquele rosto frio e sem emoções. Aquilo apenas instigava a raiva da morena. –Estou apenas ganhando tempo aqui, você sabe. Quando seu amigo estiver liquidado, o que não demorará muito, terá chegado a sua hora.
Mas a Sentinela da Névoa não estava muito certa das próprias palavras. Por trás daquela pesada armadura de indiferença, seu subconsciente estava seriamente preocupado com a irmã gêmea. O elo acusava que ela estava sofrendo, e era angustiante estar ali sem poder fazer nada. Se fosse para ajudá-la, deveria liquidar a Guardiã da Nuvem.
De longe, não era simples. Não imaginava que enfrentaria tantos problemas em uma missão relativamente simples. Junto com Marli, eram imbatíveis, combinando estratégia e força. Mas separadas, era outra história. Marisa não tinha vasta experiência em combates individuais e corpo-a-corpo, pois sempre podia contar com a irmã para acabar com o serviço de forma rápida. Sem ela, seu poder de luta caía consideravelmente. Não podia nem sequer liberar sua arma selada.
Para piorar, Karoline era implacável. Um verdadeiro exército de uma mulher só. Não era à toa que os boatos do submundo falavam que aquela Vongola seria a mais poderosa manipuladora de Chamas em mais alguns anos.
Quando se deu conta, Karoline havia partido novamente para cima. Atacou com dois cortes diagonais, o que obrigou Marisa a saltar duas vezes. Aquela arma parecia não ter peso nenhum nas mãos da morena. Seus cabelos castanhos, escuros e cacheados, esvoaçavam conforme suas passadas violentas. Após a segunda investida, ela girou o corpo, as duas mãos deslizando para a ponta inferior do cabo da alabarda, e executou um fulminante. A ilusionista se jogou para trás, caindo sentada no chão, enquanto pedaços de ladrilhos voavam a esmo para todos os lados.
Com a lâmina fincada, a Guardiã da Nuvem vociferou:
-Cemitério das Mil Lâminas!!!
Dezenas de afiadas lâminas triangulares começaram a brotar do solo, causando fissuras muito feias, enfileiradas de forma desordenada, indo em direção a ilusionista. Marisa rolou para o lado, mas uma acabou recebendo um corte de raspão no braço.
O sangue esguichou no ar, e mal houve tempo do cérebro dela mandar a dor através das sinapses nervosas. Karoline já havia arrancado a alabarda do piso e manejado ela, fazendo novamente o cabo colorido se estender em pleno ar, quase atingindo o pescoço de Marisa em um movimento horizontal. Ela teve que se agachar, e ainda sim sentiu a atmosfera sendo rasgada próxima ao seu pescoço.
Arfou. A demonstração mais clara de medo que alguém sem sentimentos poderia demonstrar.
-Sem ilusões nada pode fazer, não é Gallardo?!
Sentiu desprezo explícito por parte da inimiga. E logo que o sobrenome da sua família foi dito em uma entonação tão carregada de ódio, veio à mente da Sentinela a imagem de sua chefe. A Rainha. Sua Majestade. Fora confiada uma missão por ela, a mulher à qual jurara servir, à qual havia desistido da própria vida e de parte da sanidade da irmã para se submeter aos seus caprichos. A única pessoa no mundo pela qual ela se permitia ter um único sentimento ainda em seu frígido coração.
Amor incondicional.
-Não preciso mais do que ilusões para derrotar você, VONGOLA!
Berrou, utilizando seu último e desesperado recurso. De uma só vez liberou uma gigantesca quantidade de Chama da Névoa pelo corpo todo, de forma tão violenta que Karoline teve que recuar alguns passos para trás. A escuridão tomou conta novamente do ambiente ao redor da Guardiã da Nuvem, que trincou os dentes e posicionou a alabarda a frente de si mesma de forma defensiva.
-Não vou cair novamente nessa mágica barata, ouviu?! –gritou furiosa, enquanto procurava pela inimiga. Seus olhos castanhos não conseguiam focalizar nada num raio de mais de 5 metros quadrados. Ela havia sumido.
E então, luzes ao seu redor começaram a se formar. Se viu dentro de um gigantesco cubo de espelhos, sua imagem refletida infinitamente pelo jogo dos vidros. Estranhamente, aquelas superfícies emitiam certa luz artificial branqueada, dando a impressão de que a Guardiã da Nuvem estivesse em um estranho mundo surreal.
Encarou sua própria imagem, enquanto lentamente girava o corpo ao redor dos calcanhares.
A voz de Marisa projetou-se ao seu redor, como se estivesse sido proferida por um amplificador.
-Sinta-se honrada, Vongola, por estar testemunhando minha técnica mais elaborada e que mais consome energia. Você ousou proferir o nome sagrado da família da Rainha de forma tão vil e banal, que me sinto na obrigação de te liquidar aqui e agora.
E então o reflexo de Marisa apareceu, ocupando o lugar da imagem da morena, segurando uma pedra. Karoline reconheceu como um pedaço do piso que compunha o chão da praça de alimentação, provavelmente proveniente das rachaduras causadas pelos ataques maciços da alabarda.
A Guardiã da Nuvem apontou a Espectro Celeste, ostentando-a com apenas uma mão, para uma das cinco imagens da Sentinela da Névoa.
-Honrada? Nem de longe. Já lutei com valentões mais durões que você, Gallardo. E essa é nossa diferença. Enquanto você se esconde por de trás de mágicas e máscaras, eu bati de frente em cada embate que travei. Por isso eu posso enfrentar qualquer coisa e qualquer um!
Marisa jogou a pedra para cima repetidas vezes, enquanto a luminescência dos espelhos se intensificava.
-É o que veremos... Vongola.
Segurou a pedra novamente na mão, projetou o braço para trás, clara tentativa de que iria arremessá-la. Todas as imagens exibiam a imagem da investida iminente, e Karoline repassou os olhos por todas elas enquanto segurava a arma de forma ofensiva.
E em alta velocidade, quatro pedras idênticas venceram a fronteira distorcida da reflexão e rasgaram o ar na direção da Guardiã da Nuvem. Sem conseguir distinguir se eram reais ou apenas ilusórias, a moça colocou o cabo da alabarda na trajetória do impacto do projétil para bloqueá-lo. Mas a pedra passou como se fosse uma projeção, assim como outras duas, e a morena sentiu a dor infligir sua omoplata esquerda. Se virou, ainda sentindo o choque pelo golpe certeiro percorrer seu corpo como uma descarga elétrica, e executou um corte diagonal enquanto a alabarda estendia seu comprimento para acertar o alvo.
A lâmina atravessou de forma fulminante o frágil espelho, estilhaçando completamente toda a superfície. Karoline logo recuou, firmando a postura neutra, esperando receber a confirmação que seu ataque havia surtido qualquer efeito.
Então, seus olhos castanhos presenciaram os cacos de vidro pararem no ar e se modificarem em novas formas, logo em seguida retrocedendo como se alguém rebobinasse a realidade. Logo, no lugar da superfície espelhada, apareceram duas. E novamente a imagem duplicada da Sentinela da Névoa, agora segurando uma pedra em cada mão.
-Mas que merda é essa? –resmungou Karoline. Movimentar o braço doía agora, devido à pedrada. Isto apenas instigava ainda mais sua raiva.
O reflexo mórbido da Chama da Névoa iluminava os olhos vazios de Marisa.
-Bem vindo ao Caleidoscópio, Vongola. Meu último trunfo, do qual ninguém jamais saiu vivo.
Uma nova revoada de pedras voaram na direção da morena, desta vez em maior número. Pressupondo que o ataque viesse da mesma direção, embora não estivesse muito certa disso, girou a arma selada em rotação para se defender. Mas as pedras lhe atravessaram como fantasmas e o braço absorveu na carne o choque dos detritos. Um deles causou um corte nas vestes e no antebraço da morena, devido ter pedaços de piso pontiagudos. A Espectro Celeste cedeu, e Karoline teve que apoiar a lâmina no chão. O sangue começou a manchar a manga do casaco branco de brim.
Os reflexos de Marisa novamente segurando mais cacos dos ladrilhos.
-Interessante o estrago que paus e pedras podem fazer, não? Por mais que a humanidade evoluía suas armas, às vezes não é necessário mais do que a simplicidade.
A Guardiã da Nuvem trincou os dentes, e a Chama da Nuvem irradiou da mão que segurava a alabarda até tomar conta da própria por completo. Mais uma vez, ela atravessou a lâmina no chão.
-Cemitério das mil Lâminas!!!
Um emaranhado pontiagudo de metal começou a brotar do piso em direção as alturas, finos, cresceram ao redor de Karoline e zuniram no ar. Causaram diversos buracos e rachaduras em todos os campos espelhados, fazendo com que uma chuva de cacos de vidro voasse para todas as extensões.
Os olhos castanhos da morena conseguiram visualizar a expressão provocante de Marisa antes que os reflexos desaparecessem em meio à destruição.
Mas novamente, parecia que o tempo estava retrocedendo. Os cacos pararam em pleno ar, modificando-se e retornando na forma de incontáveis espelhos de formas geométricas, todos exibindo o reflexo de Marisa. As lâminas materializadas por Karoline começaram a se dissolver, embora ela continuasse com a Espectro Celeste fincada ao solo rachado.
-Quanto mais danos causar aos espelhos, mais eles irão se duplicar. E potencializar as projeções. Para sua sorte, ou azar, eu tenho entulhos aqui. Isso lhe proporcionara uma morte extremamente lenta por apedrejamento. O braço está doendo muito? Ou talvez a dor no ombro lhe impossibilite...
A ferida no braço latejava, enquanto a Guardiã da Nuvem novamente se levantava e encarava todas as imagens da Sentinela da Névoa lhe observando de forma fria e inexpressiva.
E Marisa continuou sua onda de ataques. Arremessando pedras e lascas de cerâmica que compunham o piso, se multiplicavam em dezenas conforme atravessavam os espelhos. A morena não conseguia identificar qual era real e qual era ilusão, manejando a alabarda desesperadamente em movimentos exagerados e inúteis, recebendo manchas roxas e cortes por diversas partes do corpo.
Aqueles minutos pareceram se arrastar por horas. Uma pedra atingiu a fronte de Karoline e ela sentiu o mundo ficar distorcido ao seu redor, enquanto sentia algo quente lhe escorrer por entre os olhos castanhos, molhando sua franja castanha. Tentou usar a arma selada de apoio enquanto as pernas cediam, mas acabou escorregando e caindo de joelhos no chão. O corpo todo doía, e havia filetes de sangue manchando sua roupa.
A mão tremia, apoiada aberta no chão cheio de rachaduras, enquanto a outra apenas roçava os dedos na Espectro Celeste. Karoline sentia-se cansada, após usar uma grande quantidade de Chama da Nuvem. Isso era algo que consumia tanto a energia do corpo quanto a do espírito. Ainda que agora não pudesse ver, Marisa também começava a demonstrar que estava levemente ofegante. As duas estavam chegando ao limite.
-Não falta muito agora. Só deixá-la inconsciente, que você não acordará nunca mais. –a ilusionista segurava um pedaço triangular do piso, que aparentava ser extremamente afiado.
A Guardiã da Nuvem mordeu o lábio inferior, fechando os dedos em torno da arma. Em alguma coisa pelo menos ela concordava com aquela miserável: não faltava muito.
“Nada no mundo é indestrutível. Essa redoma pode estar se regenerando a cada investida, mas não tenho dúvida que é às custas da Chama da Névoa dela... Se eu puder destruir...Não, obliterar. Sim, talvez as forças dela se esgotem por completo”. Sorriu, enquanto retomava o fôlego. “Bem, as minhas já estão por um fio mesmo”.
Marisa se preparava para mais uma investida, crente que não restaria muito para que Karoline desfalecesse devido aos ferimentos consecutivos. Então, quando os projéteis reais foram arremessados e se misturaram as dezenas de cópias fantasmas provenientes das dezenas de espelhos foram arremessadas em pleno ar. Quase de imediato, como resposta, Karoline concentrou as últimas energias e ergueu a lâmina da alabarda para o alto.
-TORRE DE BABEL!!!!
A Espectro Celeste brilhou a Chama da Nuvem como uma aura quase corpórea, e Karoline girou-a ao contrário. Segurou com as duas mãos no cabo e fincou o metal afiado em uma das rachaduras do solo. Instantaneamente, quatro lâminas triangulares gigantescas ascenderam, inclinadas levemente na diagonal, e fecharam-se nas pontas. Tornou-se uma estrutura piramidal completamente blindada, ocultando a Guardiã da Nuvem em seu interior. As ilusões a atravessaram sem problemas, e os pedaços reais apenas se chocaram contra a estrutura sólida, produzindo ecos.
A Sentinela observou intrigada aquele novo movimento, enquanto o metal da estrutura reluzia as luzes produzidas por seus espelhos. Tudo ficou quieto por alguns instantes dentro da área de ilusão da Gallardo.
Seguindo da base até as pontas, ondas de energias arroxeadas começaram a se condensar acima da superfície. Dessa camada superficial, o material sólido começou a se moldar, e dezenas de finas lanças se expandiram velozmente e atingiram os espelhos, causando furos e rachaduras.
-Você ainda não aprendeu que isso não vai fun...? –questionara os reflexos da ilusionista, mas sua voz cessou. Aqueles espinhos estavam vibrando de forma estranha.
Da lateral das lâminas, agulhas de metal ainda mais finas cresceram, interligando-se umas as outras como uma imensa malha de ferro, aumentando as fissuras no espelho e esmigalhando os cacos com violência. A Chama da Nuvem pulsava violentamente, iluminando com sua coloração roxa todas as superfícies espelhadas que voavam destroçadas aqui e ali, criando um verdadeiro efeito ótico de caleidoscópio. Marisa arregalou os olhos, espantada, enquanto a energia ficava incandescente de tal forma que obstruía a visão.
“Ela...Ainda possuía essa quantidade inacreditável de Chama?!”
E tudo se resumiu a uma gigantesca nuvem de poeira, quando todas as conexões foram feitas e o sólido prisma perfeito deu lugar ao local onde jazia o complexo de espelhos.
Tudo começou a se desfazer, como se o metal das lâminas evaporasse e se tornasse nuvens arroxeadas. Karoline estava caída, tossindo fortemente, com o brasão da Nuvem em uma das mãos. O suor frio escorria deliberadamente de sua nuca.
Quando a nuvem de poeira e as lâminas foram completamente dissipadas, o coração da Guardiã da Nuvem parou por alguns segundos, sem conseguir acreditar no que conseguia ver.
Havia uma redoma gigantesca ao seu redor, os espelhos brilhantes e pequeninos em formas octogonais. Mal conseguia enxergar as imagens refletidas de Marisa, apenas parte de seus olhos escuros e impassíveis.
A voz projetada da Sentinela da Névoa, exibia sinais de cansaço.
-Fim da linha, Vongola. Você se tornou um alvo fácil para mim agora. Posso simplesmente cortar sua jugular para que jamais retorne a sair do lugar que você devidamente pertence: o chão.
Karoline tentou se mexer, mas era em vão. Estava completamente esgotada. O preço que tinha que pagar por utilizar completamente sua reserva de Chamas.
Os dedos dela se fecharam em torno do frio metal que ostentava o símbolo da nuvem. Havia sido imprudente. Pelo menos, se morresse, nunca teria que aguentar aquele olharzinho petulante de Jô significando um “eu avisei”.
E desmaiou, a mercê do golpe de misericórdia, e sua última recordação foi o som de vidro sendo partido com violência e os cacos desabando em queda livre, até pararem no ar como se o tempo fosse congelado. Um vulto se interpôs entre a ilusionista e a Guardiã ferida, mas dele apenas viu um borrão negro.
-Achei que adentrarias no combate mais cedo... Afinal eu lhe detectei desde que chegamos nesta praça. –Marisa disse calmamente. Não lhe afetava o espírito o fato de que haveria mais um cordeiro a ser sacrificado. –Posso ao menos saber o nome daquele que resolveu se juntar a Guardiã da Nuvem no momento de sua morte?
O homem ajeitou o sobretudo negro, causando o estranho ruído de choque metálico. A superfície à qual ele romperá para adentrar na redoma de ilusão se recuperou e duplicou, embora em uma velocidade muito mais lenta do que antes.
-Estive a espreita, pois esperava sinceramente não ter que interferir nesta luta. Fui ordenado assim.
O assassino da ENEO utilizava o sobretudo sobre a camiseta negra, escondendo em seu interior a infinidade de facas prateadas e estilizadas. Deixou algumas entre seus dedos, com as mãos recobertas por luvas semi-cortadas, enquanto os olhos claros marcados por lápis de olho encaravam a superfície espelhada. Em seu pescoço, reluzia uma corrente prateada de finos elos.
-Não costumo ter expectadores. Ao menos não que saíam vivos.
Ele respirou fundo. Ela não podia ver, mas havia vários cortes rasos no antebraço esquerdo do rapaz, da qual escorriam finos filetes de sangue.
-Nem foi de longe uma satisfação observar você atacar a Guardiã da Nuvem, mas como eu disse, eu sigo ordens. E pretendo agora cumpri-las a risca: você não tocará mais um dedo sequer nela.
-Ainda não respondeu minha pergunta. –voltou a questionar a voz da ilusionista, impassível de emoções.
Ele jogou os cabelos loiros para trás, deixando-os em onda até a altura da nuca. Passou a lâmina sobre a própria face, como se a frieza do metal fosse uma carícia bem vinda, uma forma de reprimir a raiva e se manter racional. Havia se auto-flagelado no silêncio, desesperado em ver Karoline sustentar a onda de ataques sozinha. Mas essas haviam sido suas ordens.
“Entendo sua preocupação, Corvo, mas meus filhotes já estão na idade de se virar sozinhos”
“Mas Nono! Você nos contratou para auxiliá-los!!! É justamente o que eu estou pedindo para fazer!”
“Auxiliar quando eles acreditarem ser necessário. Se os Guardiões querem lutar sozinhos, a ENEO não deve se intrometer”
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“Você não está pensando como um assassino contratado. E sim como um namorado, não é?”
“...”
“...Muito bem. Mande os Andarilhos, mas apenas como precaução. Vocês só podem agir em último caso. Fui claro?”
Mais claro do que isso, impossível.
-Sou o Corvo, o Andarilho da Tempestade e subordinado do Nono Chefe da família Vongola. Alguém como você já deve achar esse tipo de informação o suficiente.
Silêncio por alguns minutos. Tirando a respiração inconsciente e ferida de Karoline, os dois oponentes mantinham até o ritmo do corpo controlado.
-Eu observei o suficiente para entender o seu sistema ilusório. É tão simples que chega a ser repugnante. –o atirador de facas abriu o arco das pernas, flexionando os braços em ângulo de 45º e as facas entre os dedos. –Quando uma superfície se rompe, você automaticamente utiliza a Chama da Névoa para reagrupar os fragmentos de forma diferente, duplicando-os e aumentando o poder da ilusão...
-Sim. –ela concordou, embora não acreditasse que ele pudesse compreender o mecanismo mais do que isso. –Eu não poderia executar com essa quantidade de espelhos logo no início da técnica, pois seria um impacto muito grande no meu frágil corpo... Então nada melhor do que fazer de forma progressiva...
-Mas eu percebi como você arquejou quando a Karoline utilizou a Torre. Por mais que você tenha uma quantidade de Chamas absurda, você custa a recuperar e duplicar uma quantidade grande de danos. –Doug foi deixando caírem as facas por terra, lâminas fincadas no solo ao seu redor, causando na queda uma fugaz queima de Chama da Tempestade. Marisa apenas manteve-se na análise de seus movimentos, embora agora os vidros fossem tão pequenos que mal focavam os dois olhos semi-vivos da ilusionista. –Tudo que eu tenho que fazer é liquidar com todos os espelhos de uma vez. Eu duvido que você conseguirá levantar novamente.
-Audacioso você. –ela disse, sem qualquer emoção. –Pelo visto, você é um usuário da Tempestade. Degeneração. Acha mesmo que vai conseguir alcançar seu objetivo se nem a Chama da Nuvem daquela foi capaz?
Respirou fundo, sentindo a energia rubra lhe inflamar as veias.
A corrente de prata ficou em brasa, quando uma energia rasteira percorreu toda sua extensão como um pavio aceso.
-Romper o Selo.
Os elos se romperam e voaram pelo ar como faíscas incandescentes. Então começaram a crescer e a ganhar forma, e grasnos tomaram conta de todo o local. Doug ergueu uma duas mãos, para que um de seus pequenos pousasse tranquilamente em seus dedos.
Corvos. Uma revoada deles, um para cada ínfimo pedaço da corrente. A penugem extremamente negra, assim como o resto do corpo, davam a impressão que eram vultos fantasmagóricos e suas lamúrias criando ecos naquela redoma espelhada. Os olhos eram de um vermelho vivo, vil, como se pudesse trespassar a carne tão facilmente quanto a mais afiada das garras.
Deveriam ter facilmente algumas dúzias deles ali, sobrevoando. O espaço não era muito amplo, então eles quase se chocavam um com os outros em pleno ar, criando uma estranha valsa caótica. Marisa observou, intrigada, que as penas perdidas das aves se tornavam facas prateadas e com detalhes negros antes de cair no solo.
-Cursed for some and blessed for a few… Isto é o verdadeiro significado de beleza, não concorda? –disse o rapaz, vislumbrando seus próprios comandados, os olhos azuis brilhando delirantes. Marisa se mantinha austera.
-Isso não me impressiona.
Fragmentos afiados voaram de todas as direções, em direção ao assassino e a sua companheira caída. Doug deu um passo para trás, quase pisando sobre o corpo ferido da Guardiã, e ergueu os braços. Os corvos obedeceram e entrarem em formação de vôo, rodopiando em alta velocidade ao redor de seu manipulador com as asas abertas.
As pedras ilusórias passaram como fantasmas, enquanto os únicos fragmentos reais foram amortecidos pelos corvos. Voltaram então a esvoaçar pelo céu, soltando mais algumas penas, enchendo o chão com mais facas estilizadas.
Doug tremeu um pouco, quando foi reafirmar os pés no chão. Controlar tantas aves de uma só vez lhe consumia muito as Chamas da Tempestade. A Sentinela da Névoa percebeu tal fato, e sentiu-se mais segura de si.
-Sua defesa é impenetrável quanto a minha técnica, mas não poderá utilizá-la por muito tempo, assassino. Acho que você apenas se juntou a Vongola para morrer aqui, e em vão.
Ele cerrou os punhos.
-Hora de colocarmos um ponto final nisso, então. Os ferimentos da Guardiã da Nuvem precisam ser tratados, afinal.
-Pretende destruir utilizando suas facas? Acha realmente que conseguirá?
-Não vou destruí-los. –ele sorriu, de forma sádica. –Vou obliterá-los.
Cruzou os braços, sentindo o fluxo sanguíneo acelerar de forma forçada. As Chamas da Tempestade já lhe queimavam sob a pele, mas ele estava buscando algo mais fundo. As veias da têmpora começaram a inchar, ficando expostas e pulsantes, os olhos injetados em vermelho-vivo. Um berro brotou do fundo de sua garganta, enquanto a Chama da Tempestade começa a emanar de suas pernas até o solo, atingindo as facas que estavam espalhadas pelo chão, por condução.
Então, a energia vermelha começou a ser entrelaçada por uma onda menos densa, e mais constante. Roxa.
Doug estava extraindo Chamas da Nuvem de si mesmo, conduzindo-as pelas suas ondas de Chama Vigente. As facas começaram a serem energizadas, pulsando aquela mistura instável. Ao entender o que ele estava tentando fazer, Marisa começou mais uma rodada de ataques, mas desta vez o assassino nem se deu o trabalho de defender. Apenas se colocou como bloqueio a frente da Guardiã da Nuvem, enquanto as pedras e cacos feriam e machucavam seu corpo.
Os corvos fecharam as asas em pleno ar, comprimindo-as contra o corpo. Doug ergueu os braços como se estivesse regente uma orquestra, quando todas as facas lançaram seus feixes de pura energia sobre as aves.
“Karoline... Obrigado por me ensinar a manipular a propagação da Nuvem... De certa forma, sinto como se tivesse uma parte de você, agora.”
-Fallen Sorrows.
Os pássaros abriram as asas simultaneamente, disparando uma chuva de incontáveis facas em direção a toda superfície espelhada que cobria a redoma. Fincaram em incontáveis superfícies. Se cada pássaro antes deveria ter alguma dúzias de facas em sua penugem, com a Chama da Nuvem elas simplesmente triplicaram de número. Fincaram-se no espelho, enquanto Doug se limitou a se jogar no chão e se cobrir junto de Karoline com seu longo sobretudo.
Uma explosão gigantesca varreu completamente a praça de alimentação, arremessando mesas e cadeiras para todos os lados. A própria Marisa correu para trás uma pilastra e se encolheu, quando viu que as turbulentas Chamas da Tempestade iriam causar um mini-cataclisma. O assassino sentiu as costas assarem, mas agradeceu por seu sobretudo feito sob medida ter sido feito com material anti-chamas bastante resistentes.
Labaredas ganharam as alturas, atingiram até mesmo o teto.
Quando a explosão cessou, o chão estava completamente enegrecido. O Andarilho sentia partes das pernas queimadas, mas nada tão sério, e ficou aliviado por ver que havia conseguido proteger a jovem inconsciente do golpe de largas proporções. Não havia sobrado qualquer resquício da redoma de vidro, e pequenos rastros de chamas se consumiam em cantos isolados.
O rapaz nem esperou a confirmação do estado da adversária. Levantou-se, ignorando as dores, e tomou a namorada ferida nos braços. Percebeu que, mesmo sem consciência, ela segurava firmemente o brasão da Nuvem. Sua arma selada.
-Você é tão cabeça-dura quanto o cachorro do seu irmão. –sussurrou, passando um dos dedos sobre o rosto dela, marcado pelo sangue seco.
-Acha que acabou?
Ele ficou com a expressão taciturna enquanto se virava. A corrente novamente se materializara ao redor do seu pescoço, após ele usar uma quantidade enorme de Chama da Tempestade. Com dificuldade, Doug segurou a namorada junto ao próprio corpo com o braço direito, enquanto o esquerdo se embrenhou no meio das próprias vestes e sacou um par de facas prateadas.
Marisa o encarava, arfando. As roupas estavam chamuscadas, e alguns locais exibiam queimaduras e raladuras, mas nada que a impedisse de lutar. Seu semblante era de cansaço, mas continuava inóspito e desafiador.
-Acho que estamos em condições quase iguais. –ele respondeu entre dentes, quando viu que ela juntava as duas mãos abertas, deixando um espaço entre elas, e começava a acumular a Chama da Névoa.
Então, uma das paredes laterais desabou, desviando a atenção de ambos. Um sorriso surgiu de orelha a orelha na face do jovem assassino.
-Oooooou será que não?
Era um cupcake metalizado gigante.
Melhor dizendo, uma armadura robótica em laranja vibrante na forma de um cupcake. Tinha quase o tamanho de quatro homens adultos, braços enormes e uma cereja no topo. Uma cereja com cara de enfezada, fazendo a alusão que aquilo fosse à cabeça do estranho mecha.
Em um dos ombros do gigante, Lee estava de braços cruzados e rindo de forma espalhafatosa, com as roupas transformadas em uniforme de general e segurando a caneta transformada em uma varinha. Continuava usando aqueles estranhos óculos de lentes triangulares.
-BWHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA SINTA A FÚRIA ULTRA FUCKIN’ DONUTS POWER DO MEU CUPCAKE DO DESTINO...!!! Com recheio de frutas vermelhas. –ele ergueu o polegar e sorriu, os dentes extremamente brancos reluzindo as luzes de emergência do prédio. Doug suspirou, baixando as facas e voltando a segurar Karoline de forma mais apropriada. Com o Andarilho mais forte de toda a ENEO presente, ele não precisava mais se preocupar em lutar.
Mas os olhos claros do atirador de facas perceberam que a inimiga não prestava atenção naquela aberração blindada, tampouco no outro usuário da Névoa. Ela havia percorrido alguns passos em direção a uma outra garota caída, idêntica a si própria, coberta de ferimentos e hematomas. Deveria estar em estado crítico.
A Sentinela da Névoa se abaixou ao lado de sua duplicata. Segurou o rosto da desacordada com a palma da mão e, embora o rosto continuasse inexpressivo, os olhos escuros dela pareciam ter recuperado vida.
-Minha pequena... Pelo visto você se esforçou tanto... Não merecia acabar assim. Melhor irmos. –ela voltou o olhar para a dupla da ENEO, que agora estava disposta lado a lado.- Já cumprimos nosso serviço para a Rainha.
E a escuridão palpável lhe envolveu, junto da irmã, após uma insinuação no ar de Chama da Névoa. A massa disforme e escura então começou a flutuar e a ganhar os céus, saindo pelo imenso buraco que a explosão causada pelo atirador de facas. Mas nenhum deles fez qualquer coisa para impedir a fuga.
Assim que elas sumiram, o robô começou a se dissipar, e Doug visualizou que ele carregava um grande barril nas costas. O barril também se desfez, e o Guardião da Névoa catatônico caiu no chão completamente estatelado. As roupas do desenhista voltaram ao normal, e os óculos desapareceram, e seu furão no estado original retornou a ocupar o ombro do dono.
Doug e Lee se entreolharam.
-Cumpriu as ordens?
-Agi apenas quando vi que ele não tinha mais condições de lutar. –respondeu o grandalhão com a voz grave, fazendo sinal de positivo com a cabeça. –Conforme as ordens do Nono. Você fez o mesmo acredito.
O loiro apertou a morena contra o próprio corpo. A respiração ainda era entrecortada, mas ao menos ela não parecia estar com ferimentos tão graves.
-Temos que levá-los de volta a Torre do Vigia. Os outros nos encontrarão lá. -e passou a andar em direção à saída do shopping. –Temos de nos apressar... As autoridades vão aparecer em questão de minutos, agora que a ilusão daquela mulher foi destruída... E se for como o Guardião do Trovão falou, é bem capaz da FEAR aparecer para nos prender.
Não havia mais o que dizer. Lee pegou o jovem ilusionista como um saco de batatas e o colocou no ombro, fazendo piada pelo peso não significar nada para ele. Partiram se embrenhando nas sombras, cientes de que haviam completado o serviço que fora ordenado pelo Nono Chefe da família. Doug poderia respirar aliviado agora, ainda que Karoline fosse quase lhe matar quando acordasse.
Mas algo, como um sussurro diabólico, os deixava levemente inquietos.
As últimas palavras da Sentinela da Névoa.
“Já cumprimos nosso serviço para a Rainha.”
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