Beyond The Bounds Of Sky

19 Capítulo 19 - Sem retorno


Bem aventurados sejam aqueles que amam essa desordem

Nós viemos a reboque, este mundo é um grande choque

Mas não somos deste mundo, de cidades em torrente

De pessoas em corrente

-Múmias \\ Biquini Cavadão

A chuva fina caía junto aquela brisa gélida, enquanto os carros atravessavam a avenida de paralelepípedos em baixa velocidade. Para muitos era apenas mais uma manhã monótona de trabalho, mas havia algo diferente no ar. Enquanto algumas pessoas percorriam apressadas as calçadas encobertas por seus guarda-chuvas de cores sóbrias, outras mantinham-se reunidas debaixo dos toldos e fachadas das lojas esperando em vão que o tempo melhorasse. Entre olhares entediados e o som das gotas de água se indo de encontro ao solo, trocavam-se palavras contidas e com certo receio sobre a grande tragédia da noite passada: a queda do edifício Cavallone, sede de um dos mais influentes conglomerados de empresas daquela região do estado.

A mídia local ocupava um grande parte de sua grade de programação bombardeando sempre com as mesmas notícias e o progresso das equipes de resgate.

-Especialistas do Corpo de Bombeiro constataram que a provável causa da destruição das instalações foram causadas por uma falha no sistema de calefação somada a um curto-circuito em um dos painéis elétricos q...

-Besteira... –bufou Jô, virando-se para o lado e perdendo a atenção do noticiário da manhã que estava sendo exibido em um pequeno televisor próximo ao teto. Os olhos castanhos se voltaram para a movimentação na rua, enquanto o Guardião da Névoa tamborilava os dedos sobre a superfície da mesa circular.

Não lhe estava agradando muito a idéia de estar ali, naquele café meio abarrotado no centro da cidade, mas fora designado para aquilo. Em meio a toda aquela crise, seria muito descuido deixar que o Chefe transitasse sozinho em meio as ruas. E embora fosse arriscado, nenhum dos Guardiões presentes na Torre do Vigia tinha argumentos para que Dudu não fosse ao funeral de Tiago Casagrande.

-É algo que eu preciso fazer... –encerrou a conversa em um tom seco, enquanto arrumava a gravata em volta do pescoço. O céu mal tinha clareado quando o Guardião do Céu e seu subordinado partiram do refúgio. O ilusionista apenas acompanhou o Décimo até a entrada do crematório, se deslocando depois para os quarteirões próximos. Ficaria assim, mais fácil detectar a presença de qualquer inimigo. Foi deste modo que ele acabou naquela pequena cafeteria, sentado em uma mesa próxima a entrada, com um imenso copo de chocolate quente a sua frente.

Bocejou de forma audível, colocando o punho fechado a frente da boca e arqueando levemente as costas. Queria que o tempo percorresse mais rápido, porque aquela atmosfera estava realmente opressiva. Jô então tentou perder a atenção junto aos pedestres na rua, que eram escassos devido ao tempo ruim.

Ficou devaneando até seus olhos castanhos encontrarem algo que lhe era digno de atenção.

Havia uma pequena banca de flores do outro lado da rua. Madeira rústica, uma pequena cobertura feita de lona listrada e uma simpática senhora conversando com um rapaz que lia um jornal. Próximo à uma prateleira de violetas, estava uma jovem moça segurando um guarda-chuva azul. Usava um casaco jeans cinzento, com os botões fechados, junto a uma calça da mesma cor e um par de botas curtas e finas. O capuz estava descoberto, revelando parte do cabelo castanho comprido que estava escondido sobre as vestes.

Uma jovem, comum, como tantas outras daquela cidade em primeira vista. Mas algo nela atraía o ilusionista. Não sabia dizer o que, apenas que não conseguia tirar os olhos dela. Aos poucos o som da chuva foi se afastando, junto com qualquer outro ruído do que estivesse próximo ao Guardião da Névoa.

Observou os dedos delicados roçarem nas pétalas das flores, enquanto uma das mãos ainda segurava o guarda-chuva. Aparentemente, a estranha estava concentrada na tarefa de levar alguma das flores.

Ela se curvou levemente para o lado, assim Jô pode observar alguns traços do seu rosto. Os olhos amendoados e escuros, bastantes expressivos, o nariz levemente estreito. O cabelo era jogado para trás de uma das orelhas, revelando o brinco de hematita em forma de losango, enquanto as outras mechas caíam sem qualquer cuidado sobre parte da face. No alto daquele mar castanho, havia uma pequena presilha de caveira.

O rapaz não pensou duas vezes. Virou o resto de chocolate quente que tinha no copo de uma só vez, o líquido passando como labaredas revoltas pela garganta, e colocou uma nota de dez sobre a mesa. As garçonetes que ficassem com o troco, ele não estava nem ai.

Não podia perder aquela chance.

Jô levantou-se em um salto da mesa e percorreu o estreito caminho dos outros clientes até o lado de fora. Observou, ainda dentro da cafeteria, que a moça já havia escolhido as flores e estava com uma pequena bolsinha para pagar a velha senhora. O Guardião da Névoa imediatamente pôs a aumentar o passo, atravessando o meio de uma roda de conversa enquanto ouvia xingamentos atravessados, e seu pé alcançou o calçamento. A chuva quase de imediato começou a deixar úmido o seu cabelo castanho, assim como a marcar sua roupa com pequeninos pontos, enquanto ele se aproximava cada vez mais do meio fio. Neste exato momento, a estranha sedutora já estava saindo de perto da barraca de flores protegida por seu guarda-chuva azul, com um ramo de violetas na mão livre.

Uma lufada de vento passou, gelando as maçãs do rosto do ilusionista, no exato momento em que a jovem se locomoveu alguns passos para frente em seu trajeto.

Os olhares se cruzaram por um breve momento.

Jô sentiu algo se revirar no fundo do estômago, ao mesmo tempo em que seu peito acelerou com um calor incomum. Gaguejou algumas palavras, estendendo o braço, tentando pedir para que ela não sumisse de sua vista. A moça em resposta apenas sorriu, e fez um leve aceno com a mão que segurava os ramos de flores. Tudo se passou em breves instantes.

Um ônibus circular enorme passou pela rua, fazendo subir a água de algumas poças, justamente na frente do Guardião da Névoa. O barulho do motor lhe confundiu a audição e a grande carroceria lhe obstruiu a visão. Quando o automóvel passou, a jovem não estava ali. Tinha simplesmente evaporado.

Jô recolheu a mão próximo junto a si, fechando os dedos sobre a palma, confuso. Estaria enxergando coisas? As pessoas ao redor de si transitavam como se nada tivesse acontecido, apenas reclamando que aquele rapaz estava no meio do caminho da calçada. A senhora da banca continuava a conversar com o jovem que lia o jornal, enquanto a chuva mantinha-se a cair. Teria sido aquilo real, ou as ilusões das quais ele sempre se vangloriava agora estavam se voltando contra ele...? Mas aquele sorriso era tão lindo....
E aquela sensação era tão real.

Karoline adentrou na sala ajeitando o casaco de brim branco, sobre a camiseta listrada em negro e roxo, impaciente. Após chegar com os outros junto a Torre do Vigia, tratou logo de arranjar roupas limpas e tomar um demorado banho. Voltar a ter a velha expressão impassível e o jeito de durona sempre era mais fácil após um momento relaxante.

Ao chegar, ao que parecia ser antes um quarto de triagem junto a ala farmacêutica do complexo, encontrou Ricardo colocando uma bolsa térmica sobre a costelas do Guardião da Tempestade imóvel sobre uma maca. Os olhos fechados e a respiração tranqüila denunciavam que ele estava dormindo. Havia outras duas bolsas iguais aquela, uma sobre cada pulso do espadachim. A Guardiã da Nuvem reconheceu de imediato o método de cura utilizado pelos usuários de Chama do Sol, que condensavam sua energia em acessórios como aqueles para cicatrizações mais duradouras e eficazes. Provavelmente após passar aquilo, Kiba não teria qualquer resquício dos ferimentos.

-Começou agora? –como sempre, Karoline não precisava de rodeios para chegar ao ponto em que queria em uma conversa.

O pugilista assentiu com a cabeça, ajeitando os óculos que ficavam a frente dos olhos claros. Usava uma camiseta pólo bege, os três botões perto da gola abertos, junto à calça de tom claro.

-Iniciei o procedimento já faz muito tempo. Mais meia hora e creio que tudo estará terminado. Estava colocando a última carga de Chamas do Sol nas bolsas de ativação agora, aliás.

A jovem atravessou a distância da porta até a maca em passadas decididas. Os cabelos encaracolados, novamente soltos, balançavam conforme o movimento do corpo da Guardiã da Nuvem, enquanto a franja castanha quase ocultava o olho direito vedado pelo tapa-olho negro. Chegou próxima ao irmão mais velho e se sentou na beirada do estrado duro. Fez um cafuné nos cabelos rebeldes e escuros de Kiba, suspirando aliviada. Ali, era uma das poucas oportunidades em que ela não precisava se preocupar com as atitudes impensadas do Cavaleiro.

-Você por um acaso viu as marcas na mão dele? São similares ao cabo da Lâmina da Tormenta, Karoline... –a voz serena de Ricardo quebrou o silêncio, enquanto ele cruzava os braços e observava a companheira de armas. –Pelo visto, ele ainda não dominou a arma selada completamente.

Ela não respondeu, deixando um vácuo de alguns minutos na conversa, o que fez o Guardião do Sol inspirar fundo. Ele segurou firme no ombro dela, ainda que a mesma continuasse com o olho voltado ao irmão.

-O Igor está se arriscando muito lutando deste jeito, você sabe disso melhor do que ninguém.

Imediatamente, a morena se levantou e retirou a mão de Ricardo de si de forma gentil, mas firme. O encarou, já que a diferença de tamanho entre ambos não era muito grande.

-Sim, eu sei melhor do que ninguém. Como sei que temos um companheiro em estado crítico em um quarto próximo, estando em meio a uma guerra declarada. Se em meio a esse contexto meu irmão mais velho se acha apto a lutar, não serei eu que irá impedi-lo. –ela frisou o olhar, quando pronunciou as últimas palavras.- E nem você, Ricardo.

O boxeador se limitou a ajeitar os óculos junto do nariz novamente, passando depois a mão sobre os cabelos curtos e arrepiados. Sabia o quanto a Nuvem era irredutível, e realmente aquilo poderia se tornar uma discussão ferrenha afinal ele era muito cabeça dura. Mas quanto aquele ponto, ele também concordava com a jovem Guardiã.

-Eu confio em seu senso de julgamento, e sei que é preciso muito mais do que um punhado de queimaduras para impedir o Igor de fazer alguma coisa. Minha real preocupação... É que isso chegue ao conhecimento de outras pessoas.

As feições de Karoline tomaram a forma de surpresa. Sua voz se tornou ainda mais dura e categórica, com isso.

-Aonde você quer chegar?

-Que ele pode ser afastado do cargo de Guardião, caso este fato seja descoberto...

O tom fantasmagórico empregado por Ricardo baixou a temperatura do ambiente, porque a jovem teve um súbito frio na espinha.

-Dudu não faria isso... –sibilou ela, com convicção na voz.

-Sozinho não. –ele cruzou os braços, com os músculos tensionados, deixando os tendões visíveis. –Mas, com os argumentos certos, ele pode ser convencido. De novo.

Karoline cerrou o punho, nervosa. Estava começando a entender onde o amigo queria chegar. E isso a apavorava.

-Você... Realmente acha que o Zatch... Faria isso com o Kiba? Por Deus, Ricardo, ele é o melhor amigo dele!!! Eles são quase u...

-Uma família? –cortou rapidamente Ricardo, com um olhar incisivo. A morena engoliu em seco, sem saber como replicar.

Kiba fez um muxoxo em meio ao seu sono tranqüilo, se remexendo um pouco. A irmã olhou para o lado pelo canto dos olhos, temerosa de que ele pudesse estar ouvindo as insinuações, mas se tranqüilizou quando o viu completamente apagado.

-O Aniki te partiria em dois se escutasse você falando isso... É uma acusação muito séria.

— Você pelo visto, não parece ter a mesma opinião. Vamos ser francos aqui: Karoline: como todos nós, a integridade da família está acima de tudo para o Zatch. O que nós difere dele é que não levamos tudo até as últimas conseqüências... Ele é um gênio, o estrategista mais brilhante que todos nós conhecemos... Mas é frio e calculista. Se souber dessa fragilidade do Kiba, pode ter certeza que ele vai pedir de imediato o seu afastamento... Quem dirá sua desistência do cargo de Guardião da Tempestade.

A Guardiã da Nuvem ficou estupefata, como se tivesse recebido uma bofetada na cara. Em um ato sem pensar, ergueu o braço e segurou firmemente a gola da camisa do pugilista, puxando-o levemente para baixo com força.

-Por um acaso aquela doninha loira andou adubando essa plantação de asneiras que você tem na cabeça, Sol? Eu nunca ouvi tanta merda acumulada junta desde que o Göbel ficou bêbado ao cair no tonel de chopp! –as palavras ferinas ditas entre dentes por Karoline fizeram a expressão de Ricardo também se tornar raivosa –Não permitirei que ofendas a conduta de outro Guardião de forma tão leviana na minha frente!!!

-O fato de você estar irritada me faz acreditar que... Suas idéias também estão tencionadas nessa direção, garota. –o rapaz respondeu de forma ríspida e bruta. -Ela fraquejou o aperto, e ele se afastou, ajeitando a gola da camisa. Ricardo estava tão tenso quanto a amiga, naquele momento. –Eu repito o que eu disse: ele é frio e calculista. Por mais que ele e Kiba sejam amigos de longa data, eu não duvido que ele sacrifique isso pelo “bem maior”... Ou você se esqueceu que foi idéia dele separar a família, sem se preocupar com os sentimentos de todos?Você mesma falou, Guardiã. Estamos em um momento crítico... Kiba pode ser substituído por qualquer usuário da Tempestade... Até mesmo pelo próprio Corvo da ENEO...

A atmosfera densa tomou conta do quarto. Ambos os Guardiões se encaravam com firmeza, e não havia necessidade de palavras. Estava implícito que, embora não conseguissem acreditar, havia temor pelo espadachim da Tempestade... Ainda que possuísse uma concentração de Chamas gigantesca em seu corpo, não havia grande valia se a própria degeneração característica da energia causasse danos ao usuário. Sem a Arma Selada, não havia como Kiba cogitar qualquer possibilidade de enfrentar a família Gallardo.

A Guardiã da Nuvem entreabriu os lábios para pronunciar algo, quando a porta abriu com uma sutileza rápida e precisa, projetando uma sombra sobre o piso do quarto.

-Como ele está?

A voz serena e quase frígida de Zatch trespassou como uma lâmina a atmosfera pesada, como se jogasse todo o seu peso nos ombros do pugilista e da morena. Eles viraram os rostos e encararam a expressão taciturna, logo abaixo da bandana vermelha que o estrategista havia amarrado na cabeça. Não conseguiam mais enxergá-lo com os mesmos olhos agora... Parecia que ele não era mais um membro da família, um integrante do bando...

Parecia mais uma ave de rapina, que analisava tudo e todos com os olhos clínicos e ameaçadores.

Ricardo tomou a palavra, ajeitando o óculos a frente dos olhos azuis.

-Está no processo final de recuperação. Estará novo em folho em meia hora, tenho certeza. O sono induzido é um dos efeitos colaterais da cura pela ativação do Sol, por desgastar demais a energia do corpo.

O Guardião da Chuva ficou em silêncio, erguendo a mão levemente e coçando o queixo. Karoline sentiu o ar lhe escapar dos pulmões, quando percebeu que os olhos castanhos analíticos de Zatch estavam sobre os ferimentos de seu irmão mais velho. Rezou, no âmago mais profundo de sua mente, que ele sequer desconfiasse de alguma coisa. Porque ela sabia: o rapaz iria descobrir tudo, se apenas partisse de um mínimo detalhe.

Por mim, o estrategista apenas coçou o queixo.

-Deixe-o descansar então. O Décimo está para voltar a qualquer minuto. Vamos nos manter reunidos até que ele retorne com as novas ordens... Com a morte de Casagrande, o estado do Yure e a reunião dos Sucessores, precisamos tomar medidas cautelosas. Vamos...

E se virou, sem olhar para trás, colocando as mãos no bolso da calça escura de brim que usava, com um cinto com fivela de uma águia. Usava uma camiseta branca sobrepujada por uma camiseta aberta, quadriculada em branco e vermelho escuro. Karoline e Ricardo se entreolharam, e a morena mordeu o lábio inferior.

-Nenhuma palavra sobre isso.

-Pode me explicar porque você está andando de um lado para o outro desse jeito? –Göbel não conseguia se concentrar na leitura do jornal que tinha em mãos, enquanto estava sentado em um dos bancos do refeitório, jogando a publicação sobre a mesa e esfregando uma das mãos junto a própria têmpora. A movimentação do Guardião da Névoa estava lhe dando nos nervos.

O ilusionista andava de um lado para o outro de forma quase frenética, com uma das mãos na cabeça e o tronco levemente curvado. Seus olhos não se focavam no que havia à frente, mas sim na imagem da misteriosa e encantadora miragem que havia encontrado pela manhã. Estava com ela na mente desde que retornara com Dudu para a Torre do Vigia, o que permitiu uma viagem de completo silêncio entre os dois amigos.

Jô se virou, ainda visivelmente aturdido.

-Eu... Eu acho que to apaixonado, cara.

O Guardião do Trovão apoiou o cotovelo na mesa, a palma da mão ainda apoiando a cabeça. Sua expressão demonstrava qualquer indiferença sobre a constatação.

-Outra stripper? –perguntou, seco.

O ilusionista fingiu uma risadinha irritante, ficando com um rosto sério em um lampejo de pouquíssimos segundos.

-Haha, muito engraçado. Estou falando sério.

-Eu sei que é sério. Por isso estou perguntando se é outra stripper. –rebateu Göbel, com sua sutileza de martelo habitual. Jô o fuzilou com os olhos.- Ta, vou mudar o foco da pergunta. Quem é?

-Eu não sei... Encontrei-a numa das ruas do centro da cidade hoje, comprando flores. Nunca a vi na vida mas...Foi só bater o olho e um sentimento estranho tomou conta de mim. Agora não consigo tirá-la da cabeça.

-Você é precisa é tomar uns chutes, isso sim. –resmungou o Guardião do Trovão para si mesmo, fechando os olhos por trás das lentes dos óculos esportivos de grau.

Zatch, Ricardo e Karoline entraram no ambiente logo em seguida. O estrategista estava com a mesma expressão fria a analítica de sempre, enquanto um observador minucioso conseguiria perceber a aura de nervosismo sobre a morena e o Guardião do Sol.

-Onde está o chefe, cabeça de fumaça? –questionou o Guardião da Chuva, enquanto sentou sem qualquer formalidade em um dos grandes bancos largos de madeira, colocando ambos os braços apoiados sobre a mesa e as pernas para fora.

-Foi tirar o terno da cerimônia. Não falou quase nada desde que retornamos.

-Compreensível. –comentou Zatch.

-E o que vocês dois estavam papeando ai? –Ricardo se recostou em uma das mesas com os braços cruzados, enquanto Karoline subiu na mesma e se sentou sobre a beirada, com os pés no banco.

Antes que o ilusionista cogitasse a possibilidade de responder, Göbel já saiu atropelando.

-Jô está apaixonado.

A segunda pergunta veio de forma automática.

-Outra stripper? –a Guardiã da Nuvem e o Guardião do Sol perguntaram em sincronia, se entreolhando perplexos logo em seguida por pensarem ao mesmo tempo.

A exclamação do Guardião da Névoa foi acompanhada de gestos repetitivos com os braços, um misto de indignação e embaraço.

-Mas que merda!!! Tem que lembrar essa história TODA VEZ QUE EU FALO DE UMA GAROTA?! Eu estava bêbado!!!

-Você viajou até a fronteira do Paraguai... –começou Karoline, arqueando a sobrancelha do único olho descoberto.

-Entrou em uma boate e pediu que uma cabra realizasse a cerimônia religiosa entre você e a “moça de bem”... –continuou Ricardo, ajeitando os óculos de grau a frente dos olhos com o dedo indicador.

-Em alguns países isso é permitido. -Zatch, com os dois cotovelos ainda sobre a borda da mesa ergueu as mãos para o alto, dando os ombros.

-É permitido também acordar no outro dia de manhã com o suposto “padre” na cama? –Göbel perguntou, embora já soubesse a resposta.

Jô por fim desmoronou no mesmo banco que o estrategista estava sentado, enterrando a cabeça entre os braços e choramingando de forma cômica.

-Cara, eu odeio vocês. Do fundo do meu coração.

O grupo todo, até mesmo o Guardiã da Névoa, começaram a rir. Talvez essa fosse a maior força que a família Vongola tinha: qualquer boa piada conseguia fazer os problemas desaparecem, ainda que por breves momentos.

Então, uma presença ameaçadora tomou conta do ambiente, quando uma silhueta se projetou abaixo do arco da porta.

-Espero... Que a piada seja realmente boa.

As risadas cessaram de imediato, e todos os Guardiões se voltaram ao dono da voz. Seu era olhar severo e recriminador, completamente diferente do habitual.

Dudu estava com os braços cruzados, as mangas da camiseta social branca dobradas até a altura do antebraço. A gravata negra estava frouxa, em volta do pescoço com alguns botões da gola abertos, mostrando a reluzente corrente de metal da arma selada. A única mudança que fizera na vestimenta, ao chegar ao refúgio, fora colocar uma calça negra de brim e um tênis esportivo. Ao ver que sua frase não obtivera resposta, refez a afirmação com o mesmo tom.

-Espero que a piada seja realmente boa, já que vocês conseguem rir em meio a toda essa situação em que nos encontramos. Um aliado morto, outro com ferimentos graves, e vocês ai se divertindo.

Karoline frisou o olho castanho remexendo levemente a cabeça, fazendo a franja encobrir quase por completo seu tapa-olho. Ricardo descruzou os braços e ficou em posição de sentinela, e Jô se endireitou na cadeira com um olhar abobalhado.

Nenhum deles reconhecia o próprio chefe, tampouco o próprio amigo.

Zatch se obrigou a respirar fundo e engoliu no âmago do seu ser aquela resposta ríspida do Guardião do Céu. O momento não era propício para discussões.

-Décimo. –disse de forma seca, levantando-se. Bateu o punho fechado contra o lado esquerdo do peito e em seguida ergueu o braço na diagonal. O sinal da família. Todos os outros imitaram o Guardião da Chuva, alguns com visível contragosto.

Dudu lentamente adentrou no ambiente, recebendo os olhares dos seus subordinados. Sua postura estava completamente diferente do habitual, assim como sua aura: estava mais rígido, sombrio. Não era mais o jovem desleixado que sempre encarava as situações na brincadeira ou com otimismo.

Era um homem com uma sede insana por justiça.

-Onde está o Tempestade? Acredito que seja necessária a presença de todos vocês aqui.

-Meu irmão está se recuperando de alguns ferimentos, chefe. Tivemos combates árduos ontem. –a morena se adiantou, baixando o olhar enquanto falava com o rapaz. Sabia que, se o encarasse nos olhos, poderia acabar retribuindo-o com uma expressão raivosa. Não podia evitar sentir nervoso por ver aquele comportamento estranho do líder dos Vongola, mas sabia o inferno que ele deveria estar passando.

Dudu era um grande amigo de Casagrande. E estava carregando o peso de ser responsável por colocá-lo no meio desta guerra absurda. Se a Vongola não fosse tão pequena, se ele não fosse tão fraco... Talvez não precisasse ver os flagelos de todo aquele conflito.

Estes pensamentos obscuros assolavam a mente do rapaz.

-Todos tivemos, Karoline. Mas espero que ele esteja em condições de lutar o mais rápido possível. Como eu disse, não podemos nos dar ao luxo nas atuais condições.

Ricardo olhou de relance para Zatch, que mantinha sua habitual expressão serena e indecifrável. Será que ele havia percebido o real estado de Kiba? Se tivesse notado, o pugilista temia pelo espadachim.

O estrategista virou o rosto e encarou o Guardião do Sol. Fez um leve movimento com a cabeça, questionando o porque estava sendo observado, mas Ricardo se limitou a olhar para o lado a espera das palavras do chefe.

Foi nesse momento que passos ecoaram pelo corredor, e Guilherme adentrou no recinto com uma marcha pesada. Atravessou sem dizer uma palavra por entre todos os Guardiões, que o encararam estupefatos. O Sucessor da Chuva se dirigiu até a grande tela de LSD em uma das paredes, e retirou do bolso um pequeno dispositivo com um cabo de entrada do bolso do casaco camuflado que ele usava. Conectou o aparato junto à parte de trás do televisor e se voltou ao resto das pessoas que se encontravam ali. A faixa de costume não estava na sua testa, mostrando a repicada franja de seus cabelos loiro-queimados.

-O que está acontecendo, Sucessor? –Dudu se virou, falando de forma respeitosa com o militar. Ainda assim, era fácil detectar traços de repreensão em sua voz. –Sei que estamos aqui de favor em seus domínios, mas esta é uma conversa que eu gostaria de ter em particular com os meus subordinados.

Subordinados. Karoline segurou um dos braços na altura do cotovelo, olhando para o lado. Eles haviam sido rebaixados para apenas isto? Talvez houvesse uma verdade tenebrosa nas palavras de Ricardo: talvez, o Décimo poderia realmente afastar Kiba pelo simples fato de ele não dominar sua própria arma selada.

Guilherme estava com um olhar de poucos amigos, mas soube retirar educação do fundo da garganta para responder aquela pergunta.

-É um assunto ligado a sua família, Vongola.

Apertou um botão e a tela acendeu, primeiro exibindo um negro profundo. O homem se afastou, enquanto a imagem começava a tomar forma e cores. Todos ficaram vidrados naquela projeção, sentindo uma espiral de emoções. Medo, surpresa, curiosidade, raiva, transtorno, valsavam em meio ao coração de toda a família em um ritmo caótico e frenético.

A mulher falou por fim, com uma voz calma. Seu timbre era forte, embora fosse suave e envolvente. Era a voz de uma conquistadora.

-Finalmente estou tendo a oportunidade de conhecê-los... Família Vongola.

Os cabelos tingidos de um vermelho profundo escorriam pelos dois ombros, escondendo parte da blusa decotada negra. Usava também uma parca bege, o capuz tendo uma tira felpuda e cinzenta nas pontas, dando a impressão que era uma roupa de inverno rígido. O que era estranho, já que a roupa por baixo era justa e mostrava parte do abdômen. A calça era branca, com duas botas de camurça marrom e de bico fino, onde ela cruzava as pernas estando sentada no que parecia um grande trono vermelho com detalhes prateados já gastos. Como o foco da câmera estava sobre a ruiva, não se podia identificar de onde ela falava.

-Você... –Dudu apenas grunhiu a palavra, as feições do rosto talhadas pela raiva melancólica. Parecia que havia envelhecido quase dez anos nas últimas vinte e quatro horas. Como se o peso do mundo desabasse sobre o jovem rapaz, obrigando-o a virar de fato o chefe de uma família.

Ela ignorou a presença do outro chefe, e todos perceberam que seus olhos estavam transitando pelos presentes. Aquilo era uma transmissão mútua... E a primeira vez que os Vongola conheciam a face bela e letal de sua maior ameaça.

-Hum... Só consigo ver seis... Não eram sete Guardiões? A menos é claro, que infelizmente um de vocês tenha se machucado gravemente... Ou até morrido. Tempos difíceis não?

A mulher piscou, com um sorriso debochado. Uma clara provocação. Dudu deu um passo pesado no chão, visivelmente irritado com tudo aquilo. Ainda que não estivesse visível, podia sentir a instabilidade de sua Chama do Céu tomar conta do seu corpo.

-Então, devo supor que você é a chefa da família Gallardo? –a voz do rapaz estava entre a raiva e a cautela. Quando a moça confirmou com um leve menear de sua cabeça, todos os Guardiões assumiram posturas ofensivas. Finalmente, podiam ver o rosto daquela que lhes causara tanta dor.

-Letícia Gallardo, da Quarta Dinastia. Acalmem-se todos, vocês parecem... Tensos demais... –o sorriso dela apenas se alargou.- Eu vim apenas conversar, acalmem-se.

Manter a calma? Aquela vadia só podia estar de brincadeira. Karoline passou a mão rapidamente pela franja, irritada, deixando que ela ocultasse seu tapa-olho que ostentava em seu olho direito.

-Primeiramente, eu vim parabenizá-los. Estou de fato impressionada por estarem vivos até aqui... Um feito que acho notável... E uma estratégia brilhante, já que vocês sacrificaram tantos peões pelo caminho...

Uma provocação clara, e Dudu estava caindo nela. Iria começar a gritar e a perder o controle, quando uma coisa inédita ocorreu.

-Jô, Ricardo. Tirem ele daqui.

Os dois se entreolharam, enquanto Zatch se aproximava do telão. O rapaz colocou as mãos no bolso, e encarou a inimiga. O Guardião do Céu se voltou para ele, primeiramente com os olhos arregalados, depois voltando a sua fúria incontida. O Sucessor ali presente apenas observava, com os braços cruzados, a toda aquele pandemônio.

-O que significa isso, Guardião da Chuva?! Uma conspiração?!

-Você não está em seu juízo normal, Dudu. O que aconteceu a Casagrande e a Yure lhe afetou demais o discernimento. Todos nós sempre o respeitamos muito por ser um chefe diferente, por sempre ouvir o próprio coração e jamais questionamos isso. Mas, infelizmente, agora é o momento de trancarmos nossos sentimentos. E não está conseguindo fazê-lo.

A voz calma e ponderada de Zatch atingiu Dudu como uma chuva gélida, que lhe atingiu os ossos e seu consciente. O jovem chefe apertou as mãos fechadas ao redor do corpo com violência, tanto que elas acabaram por tremor compulsivamente. Sua mente estava nublada e completamente confusa.

-Isto é traição!!! –berrou em plenos pulmões para o Guardião da Chuva.

-Dudu... –sibilou Karoline, com tristeza no olhar.

Letícia apenas observava, apoiando um dos cotovelos no braço do trono, segurando o queixo com a palma da mão. Estava se deliciando com aquela cena.

-Chame do que quiser... –o estrategista deu os ombros, fechando os olhos e se virando de costas para Dudu.

O Guardião do Céu rugiu, e em um movimento precipitado venceu a pequena distância que o separava do suposto “traidor” e lhe tentou dar um murro no rosto. Zatch, ainda que de olhos fechados, facilmente se agachou e deixou o braço de Dudu passar veloz por cima de si.

-Desculpe... –murmurou calmamente o Guardião da Chuva, sem qualquer traço de irritação na voz.

O movimento seguinte foi incrivelmente rápido, façanha que apenas o estrategista poderia executar dentre os Vongola. Ele apoiou a palma da mão no chão, girou o corpo e ergueu a perna direita em movimento. O calcanhar atingiu em cheio o flanco desprotegido do chefe, direto no perfil, fazendo com que ele se desequilibrasse pela força do impacto e caísse no chão, zonzo. O mesmo movimento limpo fez com que Zatch voltasse a ficar de pé, ajeitando o nó que prendia a bandana vermelha em sua cabeça.

-Zatch!!! –berrou Ricardo, pronto para ir retalhar a ação do Guardião da Chuva, mas Jô logo se prontificou a se colocar no caminho entre os dois. Seu olho amaldiçoado reluzia em vermelho, em uma expressão de tristeza.

-Me ajude a carregar nosso Chefe daqui, Sol. –o ilusionista pediu. Ricardo tentou avançar o cerco, mas o Guardião da Névoa firmemente segurou o loiro pelos ombros. Ainda que Ricardo tivesse muito mais força física, graças aos seus músculos torneados pelo seu treinamento de boxeador, ele deixou de forçar ao ver a cumplicidade nos sentimentos do amigo. Também não estava nada contente com tudo aquilo. –Por favor.

O Guardião do Sol se afastou brevemente, ajeitando os óculos de grau a frente dos olhos claros.

-Tudo bem.

Ambos então foram até Dudu, que estava zonzo e balbuciava palavras sem sentido no piso frio. O pugilista lhe segurou o tronco firmemente, deixando que Jô apenas segurasse as pernas sem fazer esforço nenhum. Saíram do recinto, em silêncio, enquanto Zatch voltava sua atenção para a chefa da família Gallardo.

-Como pode ver, nosso chefe não se encontra no momento. Mas eu vou responder por ele.

Karoline segurou a respiração profundamente, enquanto Göbel novamente pegou o jornal para ler. Para ele, toda aquela situação estava sendo problemática demais. Ambos, de algum jeito, pactuavam em silêncio que aquele era um momento que não deveriam se intrometer.

Letícia gargalhou de forma audível, colocando uma das mãos sobre o abdômen. O estrategista não esboçou qualquer reação, apenas colocou parcialmente as mãos no bolso da calça e ficou esperando que ela se pronunciasse novamente.

-Interessante... Não esperava uma pessoa no seu nível, no meio de tantos perdedores. Você deve ser Zatch, Guardião da Chuva, aquele que montou a tática que neutralizou três dos meus sentinelas ao mesmo tempo.

-Eu apenas faço o meu trabalho.

A ruiva sorriu.

-Não quer se juntar ao lado vencedor, meu caro? Pode sair ganhando muito mais...

-Já estou do lado vencedor, desculpe. Acho que é você que deve reconsiderar as coisas por aqui. -Ela olhava Zatch com um interesse tático. Via ali uma potencial arma de guerra para sua família. Ajeitou a comprida franja, que quase cobria completamente a face esquerda de seu rosto. –Você disse que queria conversar. Estou esperando para ouvir sua proposta de rendição.

O silêncio se seguiu, sendo quebrado apenas por uma risada recorrente do Guardião do Trovão. Aparentemente, a tirinha do dia estava muito engraçada.

-Estou aqui para entrarmos em um acordo. As sete armas seladas Primordiais de Firenze, junto ao conteúdo misterioso da urna, pelas suas vidinhas miseráveis. Se minha exigência for cumprida, prometo não voltar a tocar em sequer um fio de cabelo de vocês ou seus conhecidos.

Letícia apoiou as mãos sobre o trono, esperando uma resposta, ainda sorrindo. O rapaz passou a mão sobre a cabeça, retirando o pedaço de tecido vermelho, exibindo o cabelo castanho jogado completamente para trás, caindo sobre a nuca e indo quase os ombros. Começou a falar, enquanto frisava os olhos lentamente.

-Está desistindo deste jogo logo no começo, Gallardo? Eu esperava mais de você, honestamente... É isso que você quer? –ele desatou a faixa azul que envolvia seu antebraço, deixando a corrente negra atada ao brasão da Chuva se desprender e ficar suspenso no ar. Um vislumbre de interesse surgiu na face da ruiva foi o necessário para deixar o estrategista satisfeito.

Baixando o braço, a arma selada deslizou até o dedo indicador que Zatch deixou estendido, e logo passou a rodar em alta velocidade. As chamas azuis da chuva irradiavam fracamente ao redor dos elos e logo reconheceu o que ele estava fazendo.

Do outro lado da tela, uma aura alaranjada e brutal começou a tomar conta da líder da família Gallardo. Os olhos castanhos de Letícia apenas demonstravam que o estrategista havia conseguido alcançar seu objetivo.

Provocar a ira da inimiga.

-Devo encarar isso como uma recusa a minha proposta, Vongola?

-Deve encarar isto como uma declaração de guerra, Gallardo. –com um movimento rápido, o rapaz puxou a corrente e segurou o brasão na palma da mão. Zatch então mostrou o emblema da Chuva. –Você quer? Venha pegar...

A Chama do Céu cessou imediatamente, enquanto a mulher levou uma das mãos próximas ao rosto e começou a encarar as próprias unhas.

-Eu não, to com preguiça. –murmurou, com a voz arrastada. Logo em seguida, sua atenção se voltou novamente para o Vongola. Ostentava desafio. –Vocês viram a meu encontro... Se não quiserem ter mais arranha-céus derrubados como castelos de areia nesta maldita cidade...

A conexão foi cortada de imediato, deixando as últimas palavras de Letícia pairando no ar. Göbel já havia largado o jornal, e agora estralava os dedos envolvidos nas luvas de motoqueiro.

-Você acha que ela pode estar blefando?

-A esta altura do campeonato, ela não precisa mais blefar. – Zatch se virou, encarando os últimos Guardiões presentes. Colocou a bandana em um dos pulsos, voltando a enrolar a corrente no antebraço e cobri-la com as bandagens azuis.

A Guardiã da Nuvem observava Zatch com certo desprezo, fuzilando-o com o único olho castanho que possuía visível.

-Onde você estava com a cabeça? Fazer toda esta cena na frente de nossos adversários, atingir o próprio chefe com um chute!!! Eu concordo que Dudu não está em condições, mas você não precisava ser tão extremo?!

-Eu fiz o que era necessário, Karoline...

-Você fez o que sua cabeça acha necessário, para variar!

-E minha cabeça não precisa ficar suas lamúrias, Guardiã da Nuvem. Com licença.

Antes que a morena continuasse a discussão, rapidamente o Guardião da Chuva se retirou do refeitório. Ela bufou e deu uma forte pisada no chão, cruzando os braços sobre o peito. Göbel se levantou e pegou o periódico, o enrolando na forma de tubo e apoiando-o no ombro.

-Não te irrita? Ele sempre age como se criasse as regras, como se tudo fosse baseado em códigos e equações... Desbancar Dudu desse jeito, nessa situação... Na frente daquela mulher... –as pupilas caminharam para o canto dos olhos, junto a palavras pesarosas. –Eu sei que a situação do chefe não está das melhores mas...

-Uma coisa eu concordo. Ele fez o que era necessário, Karol. –e, o que não era muito de seu feitio, Göbel acabou por dar um tapinha amigável nas costas da amiga. –Aquela mulher, claramente, estava fazendo aquilo para provocar o Dudu... Nos provocar. Se não fosse o jeito como aquele cara lida com as coisas, e devo admitir, estaríamos perdidos.

Ela se virou e articulou com os braços, aumentando um pouco o tom de voz.

-Não te preocupa ele sempre agir de forma racional? Veja só o que ele fez com o nosso pro chefe!!! O que ele poderá fazer a seguir?!

O Guardião do Trovão levantou os ombros, fazendo uma expressão de indiferente. Por mais que Karoline não concordasse, ele tinha que ser sincero.

-Pouco importa quem está na frente da Vongola. O que importa é que ela continue existindo. Desculpe, garota, mas é isso que eu penso. –caminhou até ela e lhe colocou a mão sobre o ombro, encarando-a por de trás das lentes do seu óculos de grau esportivo. Depois caminhou para a saída, sendo seguido pelo olhar atônito da mais jovem Guardiã.

Na história, aqueles que carregavam o emblema da Nuvem sempre eram conhecidos por agir sobre os seus próprios meios, sem ter que prestar contas a ninguém. Karoline se sentia assim em alguns momentos perdida e afastada do pensamento de todos. Sempre fora a mais nova, e isso lhe resgatou a memória o tempo em que os mais velhos sempre a protegiam. Admirava-os, até o dia em que a família foi partida... E foi naquele ponto que começou a perceber o quanto seus ideais se diferenciavam dos outros.

Como poderia Zatch fazer aquilo? O que significava uma família e seu bem estar? O que realmente mantinha ela ligada a eles?

-Sobre que méritos estão construindo este legado...?

Murmurou a pobre alma, apoiando-se vagamente na armação de madeira do portal, antes de sair com o olhar entristecido

O Sucessor da Chuva, ignorado completamente junto ao decorrer dos fatos, continuava encostado na parede com os braços cruzados e apoiando a perna. Sua expressão ainda era severa impassível, sem qualquer sentimento de pena pelo que a família Vongola estava passando.

-E as engrenagens do destino finalmente começam a se mover...

Ao seu lado, uma centelha de aranhas luminosas irrompeu da parede, jorrando em cascata e se dissolvendo no chão. Mariana abriu levemente a capa com as duas mãos segurando suas bordas, enquanto capuz mantinha seu rosto como de praxe levemente encoberto.

-Você está se divertindo com esta situação toda, não está? –o militar perguntou em um tom seco.

-Mas é claro... Cada vez mais posso ver as linhas dos acontecimentos se conectando para o que foi predito... Em breve, o verdadeiro significado das Sete Primordiais será revelado, assim como a verdade sobre os Vongola. Se bem que, está ocorrendo mais cedo do que a Julia esperava... Acho que é isto que está tornando toda está situação tão envolvente...

Guilherme respirou fundo.

-Eu não me importo com o que vai acontecer com esses moleques, mas não podemos deixar que o Legado caiu nas mãos da corrupta família Gallardo. Será anos e anos de treinamento e dor sendo ignorados por um bando de patifes...

-Não podemos ajudar de forma nenhuma, contudo. Faz parte das regras do Conselho- sibilou Mariana, divertida. –Terás que fazer o que todos nós estamos fadados e condenados a aceitar: deixar que as marés dos acontecimentos de carreguem.

O Sucessor da Chuva se afastou da parede caminhando, enquanto retirava uma longa faca de caça de uma de suas botas militares.

-Seu papo taoísta não funciona comigo, Mariana.

Os lábios dela se curvaram em um sorriso, enquanto o capuz se ergueu levemente, demonstrando aqueles penetrantes olhos com íris brancas. Sem qualquer traço de vida mundana.

-Funciona com todos, meu caro.