Beyond The Bounds Of Sky
18 Capítulo 18 - Chagas
O tempo estava nublado no lado de fora, com uma fina garoa caindo dos céus. A temperatura havia despencado em comparação do dia anterior, como se tentasse amenizar os ânimos tensos da cidade. As grandes janelas da casa mostravam a parte de trás do pequeno jardim, onde alguns passarinhos descansavam preguiçosos dentre as árvores de galhos escassos. Uma pequena televisão estava ligada sobre o balcão alto que cortava a cozinha ao meio, mostrando mais um daqueles arrastados programas de dona-de-casa matinais. O som da frigideira chiava baixinho, quando um muxoxo audível ecoou pela cozinha.
-Você quer desamarrar essa cara ou ta difícil? Nem está mais inchado isso daí. –disse a voz calma e serena, antes de erguer a xícara de café para um gole.
-Você me deu um murro na cara e quer que eu fique sorrindo? Ainda mais na situação em que estávamos. –a outra voz rebateu rabugenta, terminando a frase com um muxoxo.
Karoline suspirou. O irmão mais velho sempre ficava de mau humor quando acordava cedo, mas naquela manhã parecia estar pior do que nunca. Ainda havia resquício do golpe de misericórdia que havia derrubado o espadachim, uma fina linha roxa debaixo do olho direito, e se sentia culpada pelo que havia acontecido.
Repassou a cena do ocorrido na cabeça mais uma vez.
Zenáculo havia derrubado o Guardião da Tempestade com um movimento surreal e a morena se desesperou, partindo para uma investida de interceptação. Além de ter sido frustrada, o golpe do Cavaleiro conseguiu abrir completamente a guarda da jovem, e estava pronto para desferir um golpe que certamente iria causar um estrago dos grandes.
Então o grito do Tempestade ecoou pelo salão, e o clarão vermelho ofuscante se mesclou aos zunidos que rasgaram o ar. O Cavaleiro do Priorado, com os olhos treinados por anos de lutas a fio, rapidamente identificou a investida e saltou para o lado bruscamente. Esquivou por pouco das lâminas cintilantes e prateadas que alvejaram a parede da câmara circular.
A Guardiã da Nuvem se recompôs e se virou, mexendo os cabelos castanhos levemente com o movimento, e observou o inesperado salvador. Por outro lado Kiba, se levantando em um salto e apertando o punho da espada, vociferou ensandecido.
Kamila apenas se mantinha encostada na parede com os olhos arregalados, tentando assimilar a situação.
-VOCÊ!!! –a lâmina da katana se arrastou pelo chão criando um rastro de faíscas, enquanto o espadachim Vongola atravessava a distância entre si e o recém-chegado a largas passadas. –DEEEESGRAÇADO!!!!
A espada foi erguida na diagonal, de forma ascendente, e violentamente colidiu com as facas de dois gumes que estavam cruzadas. O simples impacto dos metais criou uma forte rajada de vento, tamanha a pressão das forças colidindo entre si.
O homem era jovem, e segurava duas facas prateadas entre os dedos de cada mão coberta por luvas negras. Usava vestes escuras, um fino casaco de barra longa sobre uma camisa branca com estampa de uma caveira adornada de rosas negras, juntando a calça e os sapatos lustrados. Com a pressão da investida a barra do casaco foi arremessada para trás, revelando o brilho de incontáveis lâminas escondidas no interior da vestimenta. Ao redor de seu pescoço havia uma corrente dando duas voltas, com elos super finos, e dois brincos distintos na orelha direita: uma pedra vermelha com um spike na outra ponta e uma argola.
Tinha a pele clara, agravada pela provável falta de exposição ao sol, e o cabelo era levemente ondulado indo até a altura da nuca, se dividindo na altura central da cabeça. Os olhos eram de um azul gélido, estando escondidos parcialmente atrás de um pequeno óculos de lentes quadradas e vermelhas com o aro negro. Um sorriso de escárnio, e com um toque de estranha felicidade, surgiu naquele rosto já familiar para os Vongola.
-Oi cachorro.
-CACHORRO É O CACETE!!!
Kiba forçou ainda mais a espada contra o inimigo, na tentativa de derrubá-lo. O inimigo fora obrigado a colocar o pé para trás e curvou um pouco o corpo para agüentar o tranco. As armas e os braços de ambos tremiam violentamente pelo esforço, mas nenhum dos dois desviava o olhar.
Era o contraste da fúria contra o sarcasmo.
Zenáculo parou de girar suas lâminas e remontou o sabre que estava utilizando. Karoline se recompôs da surpresa, enterrando a alabarda no chão, enquanto Kamila se aproximou da amiga rapidamente.
-Como ele nos achou? –a ruiva disse com a voz entrecortada pela respiração. Só observar a luta entre os amigos contra o Cavaleiro já havia colocado adrenalina no seu sangue. O ataque surpresa apenas havia piorado o processo.
-Boa pergunta. Mas não poderia imaginar pior cenário possível. –A Guardiã da Nuvem respirou fundo e jogou o cabelo para trás, massageando as próprias têmporas.
-O que você quer dizer com isso? –Kamila ficou observando a morena por alguns segundos. Fora o tempo necessário para que Kiba e o estranho se separassem e começassem a trocar ataques velozes e manobras arriscadas de defesa. O oponente era rápido e preciso devido às facas, mas não podia se descuidar em abrir a guarda já que a força do espadachim da Tempestade era tremenda mesmo estando ferido. Estavam praticamente com as forças equivalentes. Passando esses extensos segundos, a moça arregalou os olhos castanhos. –P-pera aí!!! Você não contou pro Kiba?!!!
-A gente mal conversou desde que nos reencontramos... Bem... Eu queria preparar ele psicologicamente primeiro... Sabe como é... –e, como nas raras ocasiões que isso ocorria, Karoline baixou o olhar sem graça para o chão e coçou a bochecha com o indicador, sem saber o que dizer.
Kamila tapou o rosto com as duas mãos e balançou levemente a cabeça de um lado para o outro. Aquilo era um desastre.
Os dois combatentes se separaram. O homem executou um mortal para trás, enquanto atirava as quatro facas que possuía nas mãos na direção de Kiba. O Guardião da Tempestade neutralizou todas com a prancha da katana, fazendo com que os projéteis rodopiassem no ar e caíssem fincados no chão ao seu redor.
O sangue escorria dos pontos abertos e sua respiração estava pesada, as mãos ainda tremiam levemente pela dor das queimaduras. O cabelo castanho escuro do rapaz estava colado na testa, tornando as mechas l encaracoladas em fios grossos e pesados, devido ao suor. Mas seus olhos azul-cinzentos ainda queimavam aquela raiva toda.
-Que bom que desta vez estamos tendo uma luta razoável. Pelo jeito você realmente virou um espadachim, cachorro.
-Eu treinei muito pra quebrar ao meio pessoas como você, sua galinha maldita. Ainda tenho algumas cicatrizes daquele joguinho maluco.
Doug, o Corvo, riu ruidosamente enquanto levava a mão até o interior do casaco e pegava duas facas. Era um assassino, o mais letal dos sete integrantes que compunham a ENEO, o Esquadrão do Espectro Negro. Eles, que estavam tão intimamente ligados aos primórdios da 10ª geração.
Foram os primeiros a tentar aniquilar os jovens que viriam a ser os novos Guardiões, ainda que nem eles mesmo soubessem na época. Doug ficara encarregado de acabar com a vida de Kiba, quando ele ainda era conhecido por Igor. Mas ao invés de matá-lo, preferiu caça-lo como um animal... E se surpreendeu com a força de vontade daquele moleque aparentemente comum, que tinha sua idade.
Mas agora não era mais um garoto que estava a sua frente. O assassino estava encarando um Cavaleiro do Priorado....
Que, sendo apenas um insignificante detalhe, era seu cunhado.
Kiba segurou a katana com apenas a mão direita, e levou a outra sobre o ferimento recém-aberto.
-Então você realmente se tornou um Cavaleiro. Meus parabéns. –Doug fez uma mesura irônica e exagerada. –Embora continue o mesmo cabeça dura e metido a machão, de sempre.
O Guardião da Tempestade bufou de forma audível.
-Estive esperando por anos pelo momento em que iria me vingar de você, sua galinha de macumba maldita... –teve que parar de falar por um momento, pela falta de ar nos pulmões. O oxigênio parecia mais pesado do que de costume.
Um leve brilho arroxeado e a alabarda de Karoline voltou a ser apenas o pingente e a corrente que usava no pescoço.
-Melhor eu ir lá, antes que eles se matem.
-É. –Kamila respondeu, colocando a mão no peito.
E a Guardiã da Nuvem pôs-se a caminhar em direção aos dois. Doug desviou o olhar para ela e acenou, com um sorriso no rosto. Por algum motivo, o espadachim não gostou nada daquele sorriso.
-Ei, não tire o foco de mim, sua penosa. Eu vou te cortar ao meio agora.
Ele colocou a espada na diagonal e deu uma leve guinada na lâmina, fazendo ela reluzir as luzes opacas do Salão Circular. Então a Chama da Tempestade se acendeu, tomando conta da arma. A aura vermelha, tão instável e violenta quanto labaredas selvagens, refletia a luz nos olhos azul-cinzentos de Kiba.
-Como quiser... Vamos ver até quando você agüenta até cair arrebentado no chão de novo, desta vez...
Doug passou a girar as facas entre os dedos, e um reflexo vermelho também da Chama da Tempestade reluziu nas lâminas. A Guardiã da Nuvem apressou o passo.
-Ei vocês dois, parem com isso agora! –ralhou a moça com a voz agressiva, mas não recebeu atenção. Kiba arqueou o corpo e segurou a empunhadura da espada com as duas mãos, preparando uma das técnicas do estilo Garou Ryu. Doug travou as facas entre os dedos e abriu o arco das pernas, preparando o salto. Karoline fechou o punho e se projetou para correr.
Homens, criaturas estúpidas.
Quando eles estavam prestes a atacar, a Guardiã da Nuvem deu um salto. Combate corpo-a-corpo não era seu forte, mas sabia como dar um chute aéreo como ninguém. Sua bota direita acertou em cheio o peito de Doug, que desavisado foi arremessado brutalmente como uma parede. Kiba, que já estava em rota de colisão brandindo a espada, arregalou os olhos quando viu a irmã pousar agachada próximo onde o oponente estava. O rapaz começou a brecar as passadas apressadas e baixou a arma, desarmando de vez o golpe.
-Karol, mas qu...
Tarde demais. Ela se virou e projetou o braço para trás. Um soco direto no olho do irmão mais velho. Como o rapaz ainda estava diminuindo a velocidade, quando recebeu o golpe possuía apenas uma das pernas apoiada no chão. Isso foi suficiente para ele rodar no ar e cair inconsciente no chão.
A morena parou, ainda com o punho cerrado erguido. Piscou o único olho descoberto três vezes, pausadamente, intercalando o olhar entre o Guardião da Tempestade estatelado no chão e o assassino jogado contra uma parede.
-Hm... Acho que peguei pesado. Mas eu disse que eles deveriam parar.
Então o som de palmas ecoou pela grande câmera, e Karoline se virou. Era o Cavaleiro do Priorado que a estava ovacionando. Kamila rapidamente correu até o amigo, para ver se ele estava com algum ferimento grave... Além do gigantesco hematoma causado pelo punho da irmã.
-Então, é verdade. Eis a predestinada a ser a mais poderosa entre os Sete. Karoline, da Nuvem.
-Vai nos enxotar daqui agora, Zenáculo? –ela disse com a voz séria, fazendo um movimento com a cabeça para que a franja cobrisse o tapa-olho. As mãos estavam cerradas com força junto aos quadris.
O homem sorriu para ela, de forma calorosa. A primeira vez, até então.
-Minha cara, desde o momento em que vos vi a frente de minha porta, hoje, eu decidi ajudá-los. Se fiz todo este teatrinho aqui embaixo, é porque queria ver até onde meu pupilo evoluiu em três anos, e sabia que desta forma é que ele me demonstraria sua real capacidade. Ainda que o jovem Vongola esteja longe do caminho da perfeição em seu estilo de espada, estou muito orgulhoso de ver a mesma garra e determinação que o conduz em um combate... Algo muito arriscado, você diz, posso ler isso em seus olhos. –Karoline, que estava pronta para cortar as palavras do Cavaleiro, corou levemente ao ser precipitada. –E é, de fato.Mas este é o estigma de seu irmão, minha jovem, algo que ele terá que carregar como fardo e benção até o fim de seus dias como Cavaleiro... Sejam eles providos de um descanso para a espada ou para o corpo.
Kamila observou o pequeno monólogo daquele homem bastante intrigada. Estava a par de muitas coisas ocultos que ocorriam no mundo, mas pouco sabia sobre o Priorado de Cavaleiros ou o Panteão de Nox. Suas informações se limitavam ao que qualquer pessoa culta sabia até então: era uma ordem secreta de cavaleiros, que mantiveram sua promessa de honra e fidelidade aos estilos e formas de esgrima desde sua queda na Idade Média. Era muito difícil identificar um membro, embora eles possuíssem gestos e sinais secretos entre si, e mais difícil ainda ingressar na ordem. A ruiva lembrou da época que Kiba havia dito que seria um espadachim e sumiu por quase um mês inteiro. Quando retornara, falara apenas que havia arranjado um tutor para lhe ensinar a esgrima, e que agora havia uma forma de lutar para defender a recém-criada Décima Geração.
-Sua cortesia como sempre é algo exuberante.
Os três se viraram e Doug havia se juntado a roda de conversa. Batia com as palmas das mãos, encobertas com as luvas negras, nas vestes e isso soltava um bocado de poeira pelo caminho. Quando o assassino chegou próximo a Guardiã da Nuvem, lhe tomou um dos pulsos e beijou-lhe as costas da mão, com um sorriso no rosto. Karoline rapidamente dobrou o braço junto a si e reclamou baixinho, deixando o olhar da íris castanha ir de encontro ao solo.
-Este é novo para mim. –disse Zenáculo, enquanto Kamila também se prostrou de pé.
-Sou Douglas, o Corvo. –o rapaz rapidamente se adiantou e estendeu a mão para Zenáculo. O outro braço envolveu o ombro de Karoline, puxando-a para perto de si, e desta vez ela se deixou levar.
O Cavaleiro arqueou uma sobrancelha enquanto cumprimentava o recém-chegado.
-Já ouvi esse nome em algum lugar... Não foi você que...
-Sim. Sou eu. Eu quase matei o cach... –ao sentir um beliscão forte da Guardiã da Nuvem no braço, ele trocou a arrogância pelo tom mais amigável- o Kiba, no passado. Antes de ele começar a treinar com vós, Cavaleiro.
-Hm... Sabia. Então por isso que ele voou pra cima de você e esqueceu completamente nossa luta... Meu discípulo precisa aprender a ter foco. –o homem com bastante orgulho, enquanto observava Kiba cruzando os braços. O gesto deixou o corte que a morena havia feito em seu antebraço bastante visível.
-Zenáculo, me perdoe pelo ferimento... Mas... Eu realmente também tinha entrado no jogo. –Karoline não sabia onde enfiar o rosto, envergonhada. Havia se deixado levar, transformando a pequena prova de Zenáculo em uma luta realmente séria.
-Não peça desculpas. Se o Corvo não tivesse aparecido, certamente eu teria lhe retalhado. Era um combate real, em todos os aspectos. –as palavras saíram da boca do homem com leveza em meio a um sorriso, mas soaram sombrias para a ruiva.
Então a Guardiã da Nuvem virou o rosto para Doug, encarando-o severamente com o olho castanho.
-O que me leva a perguntar, Douglas, o que você está fazendo aqui?
Ele estava pronto para responder, quando o Cavaleiro ergueu o braço autoritário. Em imediato, os três jovens se viraram para ele.
-Creio que precisam descansar, todos vocês. Seus semblantes acusam que passaram por provações duras hoje, e alguns ferimentos precisam ser tratados. Seja o que for, pode esperar até amanhã, não estou certo?
Karoline piscou fortemente algumas vezes, voltando a realidade temporal. Estava sentada junto com Kiba no balcão, em altas banquetas de madeira, com um farto café da manhã a sua frente. A morena estava com os cabelos presos na nuca com uma piranha transparente, deixando apenas a franja escondendo o olho direito, por estar sem o tapa-olho.
O espadachim estava com o peito nu, por ter destroçado a camisa por completo antes de iniciar a luta contra o próprio mestre. Os curativos estavam com bandagens novas, o torso parcialmente envolvido e ambos os punhos junto das mãos. Comia emburrado um pedaço de torrada com geléia de morango, sobre as atenções da caçula ainda segurando a xícara de café.
-Os ferimentos estão melhorando?
As íris azul-cinzentas, quase escondidas pelos olhos semi-cerrados, percorreram lentamente a linha do horizonte até o canto da vista.
-Ainda dói um pouco. Mas sem alguém com a Chama do Sol por perto, sou obrigado a que eles cicatrizem de forma normal. –respondeu Kiba, rabugento.
-Eu me pergunto como você acabou se machucando pouco em apenas dois dias. –Karoline revelou, baixando levemente a cabeça enquanto respirava um pouco do aroma exalado pelo café.
-Não sei, acho que o escritor é meio masoquista... –resmungou baixinho.
-O que você disse, aniki?
-Eu disse que esse é o preço que se paga por ser um dos caras da linha da frente, hora essa. –e tratou de devorar em poucas mordidas o resto da torrada.
Zenáculo se aproximou, usando um avental roxo-berrante estampado, um chapéu de cozinheiro e uma luva em forma de jacaré. Carregava consigo uma pratada de waffles, que deixou sobre a bancada de mármore ao lado da cafeteira. A estampa se consistia de um ovo vestido de lutador de caratê.
-Os outros dois ainda não desceram? –os irmãos responderam balançando as cabeças em conjunto. O Cavaleiro respirou fundo e retirou a luva, colocando-a sobre outra parte da bancada. –Deixe me ver o olho, Kiba.
O Guardião da Tempestade encarou o mestre por alguns momentos.
-E ai? Ainda ta muito ruim?
-Bem, ontem parecia que você tinha sido atropelado por um carro. Hoje parece que só levou um murro mesmo. –o rapaz olhou para a irmã de soslaio e anuiu os ombros. Zenáculo então desatou o avental e retirou o chapéu, deixando-os em uma pequena arara que dava acesso ao corredor da casa. –Irei me aprontar para o trabalho, mas por favor, sintam-se a vontade.
E se distanciou, atravessando o portal, deixando os irmãos sozinhos no aposento. Em contrapartida, o som de passos descendo as escadas foi ouvido. E logo era Douglas quem aparecia, carregando o que parecia ser um notebook nas mãos.
O Guardião da Tempestade baixou a mão até abaixo do limite da bancada e cerrou o punho. Ainda achava absurdo a idéia desse estranho cessar fogo com aquele maldito atirador de facas da ENEO, mas sua irmã fora convicta ao comunicar que o Corvo agora era um aliado. Só porque devesse esfriar os ânimos, não significa que estava completamente a favor do assunto.
Mas aqueles eram momentos de crise.
O loiro estava sem o casaco de barra longa de outrora, mas continuava com as luvas pretas. Sentou-se ao lado de Karoline e murmurou um bom dia para ela, e a mesma o correspondeu. Depois virou o rosto para Kiba e sorriu, fazendo com que o espadachim quase rosnasse por levar aquilo como uma provocação. Como se tivesse se contentado com a recepção calorosa, ele abriu ainda mais o sorriu.
-Com licença, meus caros... –o assassino começou a empurrar e a locomover vários utensílios e condimentos do desjejum para o lado, abrindo espaço na bancada.
-Não acha que você deveria se alimentar primeiro? –Karoline disse arqueando a sobrancelha, remexendo levemente na franja que lhe encobria um dos olhos.
-Temos assuntos mais urgentes no momento. –ele respondeu secamente.
Abriu o notebook sobre a mesa e o girou, deixando com que a tela ficasse virada para todos os três. Kiba se limitou a olhar desconfiado para aquela máquina fina e com detalhes elegantes em cromado. Reconhecia o símbolo da ENEO (uma balança onde os pratos equilibravam um crânio e um livro) grifado em dourado no console, na parte contrária ao monitor, mas o espadachim não se manifestou. Embora a contragosto, instigava-se a perguntar até onde iria tudo aquilo.
-Estamos online. –a voz de Douglas rasgou o silêncio do ambiente, enquanto com o clique de um dos botões fez o computador ligar.
Do outro lado da tela, uma voz respondeu, remasterizada pelos alto-falantes. Uma voz conhecida, que de certa forma deu algum alívio aos Guardiões.
-Parece que alguém não teve uma boa noite de sono esta noite.
Era Zatch, sentado em uma grande cadeira estofada. Podia-se ver ao seu lado uma grande mesa em meio círculo abarrotada de teclados e algumas telas, assim como paredes escuras e gastas servindo de plano de fundo do outro lado da sala. O rapaz usava uma camiseta branca folgada e uma bandana vermelha com alguns detalhes brancos amarrada na cabeça. Ela puxava todo o cabelo castanho-vime dele para trás, para trás da orelha. Em seu braço, as bandagens azuis continuavam a circular o membro,escondendo a corrente com a arma selada da Chuva.
Kiba arregalou os olhos, sem conseguir acreditar em primeiro momento, e encarou Douglas. O mesmo respondeu apenas erguendo as mãos. Karoline por outro lado, se estava surpresa, pouco representou: se limitou a apoiar o cotovelo na bancada e a palma no pescoço, curvando levemente o corpo.
-Onde você está, Chuva? –a sobriedade e a seriedade de sua voz trouxeram os olhos azul-cinzentos de Kiba de volta a tela.
-Na Torre do Vigia, assim como todos os outros Guardiões. Estamos seguros por aqui...
-E o Yure? Ele está bem? –o espadachim da Tempestade atropelou as palavras do amigo, e o estrategista se limitou a fechar os olhos e fazer uma pausa no raciocínio antes de continuar.
-Chamamos o Doc e conseguimos tratar do ferimento. O quadro está estável e ele se recupera, ainda que seu estado ainda seja muito delicado. O estamos mantendo em coma induzido, pelo menos até as próximas vinte e quatro horas.
Agora foi a vez de Karoline fazer as perguntas.
-Movimentação dos nossos inimigos. Algum relatório em especial?
-Quando estávamos próximos do perímetro da Torre, Dudu interceptou a maioria de nossos atacantes, ao qual bateram em retirada por fim das contas. Os scanners instalados aqui mesmo não verificaram nenhuma atividade próxima desde o entardecer até agora de manhã. E pelo visto os batedores pararam de circular as ruas. Embora o incidente de ontem... Foi o suficiente para deixar as coisas aqui bastante tensas.
Karoline e Kiba se entreolharam, sem entender. Douglas se levantou indo pegar uma caneca próxima a pia para se servir de café. Os irmãos voltaram a encarar a tela, tenebrosos.
O rosto de Zatch assumiu feições pesarosas. Ele fechou os olhos e começou a apertar o laço que amarrava a bandana na altura da nuca. Era um hábito seu: achava mais fácil dar más notícias de olhos fechados. Podia seguir a linha de raciocínio de forma clara e seca, sem precisar assumir uma postura cautelosa ao encarar as pessoas que recebiam as notícias.
-Ontem à noite... – começou assim, seguindo uma longa pausa para uma breve meditação. Estava ponderando a forma mais precisa de repassar a informação. –o prédio da família Cavallone caiu por terra após uma explosão. Aparentemente o ponto de fissura ocorreu no local onde era a sala de Casagrande e... Bem. Ele está morto. Indícios revelaram que ocorreu um poderoso foco de Chama no local, e Göbel foi até lá investigar. Acabou se deparando com uma célula do governo que combatem usuários de Chamas, e pelo jeito agora estamos sendo acusados pela destruição até segunda ordem.
A cada frase proferida pelo Guardião da Chuva, parecia que o mundo ia caindo despedaçado nas costas dos irmãos Vongola. A morena deixou a mão deslizar do próprio pescoço e cair sem forças na bancada, o olho castanho vidrado na tela em meio a sua expressão de espanto. O rapaz por outro lado apoiou os dois braços na superfície e passou uma das mãos nos cabelos encaracolados, deixando a cabeça pender ao chão.
Nenhum dos dois era realmente próximo de Casagrande, mas sabiam o quanto ele havia ajudado a família nesses anos todos. Mantiveram-se em silêncio por um curto período de tempo, enquanto o estrategista voltava a abrir os olhos. O assassino, de pé e um pouco afastado, encarava a caneca listrada em suas mãos enquanto mexia vagarosamente o café com uma pequena colher.
O Guardião da Tempestade foi o primeiro a dissipar aquele clima mórbido, dando um murro na mesa, ignorando a dor dos ferimentos no punho.
-Agora eu realmente to puto. Vamos acabar com a raça deles!
Karoline se limitou a deixar o tronco ereto e a cruzar os braços. Agora, que ela realmente havia sentido as asas da morte tão próximas de si e daqueles por quem ela vivia, conseguia entender o quão delicada estava a situação.
-Aniki tirou as palavras da minha boca. Não podemos deixar isto ficar impune, temos que agir imediatamente. Quais são as ordens do Chefe, Zatch?
A imagem do rapaz ergueu levemente os ombros, demonstrando clara incerteza.
-Não falo com Dudu desde ontem à noite, Karoline. Creio eu que ele deixou a Torre para o funeral que será hoje... Ele parecia realmente arrasado. Acho que é totalmente compreensível: primeiro o ferimento quase fatal do Yure, agora o ataque fulminante sobre uma de nossas famílias aliadas... Antes de mais nada, melhor reunir todos os sete aqui na Torre do Vigia.
Kiba ergueu o indicador para cima, com um olhar de dúvida.
-Sem querer ser insensível quanto a tudo que está ocorrendo...Mas.. Isso não explica o fato do por quê a penosa está aqui. –e com um gesto com o polegar, o espadachim indicou o assassino que estava logo atrás de si.
O Guardião da Chuva observou algum tempo a silhueta de Doug antes de responder.
-Ontem a noite, logo após recebermos a informação da destruição das instalações da família Cavallone, o assassino – e ele fez menção com o olhar para o Corvo.- chegou a Torre do Vigia. Acredito-me que vocês tiveram a mesma recepção que nós e logo se viram preparados a enfrentá-lo. Mas então, veio a primeira surpresa que mais se aproxima de agradável nesses dias...
-Acho que posso explanar este ponto melhor que você, caro Guardião da Chuva.
O assassino se posicionou atrás do monitor do notebook e pousou a caneca listrada ao lado do computador. Apoiou as mãos abertas nas bordas da bancada e deixou o corpo se sustentar pelos braços. Fitou os olhos claros primeiro em Karoline, que desviou o olhar e passou a encarar a própria xícara, e depois para o irmão mais velho dela. Na verdade, ele era o único que precisava de respostas por ai.
-Como é de conhecimento geral, a ENEO começou suas operações como uma organização de mercenários de elite, bem treinados, e que exigiam quantias altas de dinheiro por seu trabalho. Sendo que um desses serviços foi os de eliminar completamente a Décima Geração da família Vongola, na época que pouquíssimas pessoas conheciam os escolhidos... -Kiba se remexeu na cadeira, irrequieto. Afinal Doug quase o matará naquele encontro fatídico. O rapaz ignorou o Guardião da Tempestade e continuou. –Após nossa primeira investida, preparamos uma nova onda de ataques... Estávamos prontos para acabar com o serviço de forma limpa e precisa. Então, fomos contatados pelo Chefe da Nona geração...
-Nono?! O NONO?! –o espadachim teve que se segurar para não cair da cadeira espantado, aos berros. Afinal, ele era um dos figurões dentro do submundo e possuía grande influência. E, ainda que fosse o bem-feitor da nova geração, raramente metia-se em seus assuntos internos.
Foi uma das condições dos Anciões, ao deliberarem as armas seladas.
Karoline esticou o braço, revirando o olho castanho, e segurou o irmão pelo ombro para que ele não acabasse caindo do banco. Quando os ânimos esfriaram, o Corvo continuou seu monólogo.
-Financeiramente, é muito mais vantajoso termos um bom pagamento fixo do que trabalhos em paralelo. Claro que aceitamos a proposta imposta por ele, e nos tornamos uma célula sob suas ordens diretas.
-O que realmente é muito astuto, por parte do Nono. –Zatch aproveitou a deixa para complementar o raciocínio.- O Conselho de San Dracone, formado pelas três mais poderosas entidades do Submundo, deixou claro que não poderíamos ter qualquer auxílio da geração anterior. Tecnicamente, a ENEO não faz parte da Vongola...
O Guardião da Tempestade franziu o cenho e encarou o assassino com os olhos azul-cinzentos. Claramente, não estava muito convencido.
-E podemos confiar nessa lorota toda?
Para a surpresa do rapaz, fora sua própria irmã que respondera a pergunta.
-Aniki, a ENEO realmente está do nosso lado. Falo isso porque... –ela hesitou por um momento e Kiba arqueou uma sobrancelha. –já venho recendo auxílio deles há algum tempo. Não esqueça também que estamos em tempos de crise.
-Tenho uma última notícia a relatar e sugiro que o Corvo escute também... Porque eu e os outros Guardiões só fomos comunicados sobre tal fato hoje de manhã.
Doug deu a volta na bancada e encostou na bancada um pouco atrás de Karoline, intrigado. Os Guardiões Vongola presentes também tomaram atenção ao monitor.
-Devido aos últimos acontecimentos, desde nossa aparição quase indesejada aqui na Torre do Vigia e o envolvimento do Yure na batalha contra os Gallardo, os Sucessores reivindicaram uma reunião de emergência. E parece que vai ser bastante grave. O Sucessor da Chuva nos disse que podemos utilizar esse lugar como refúgio até a data da reunião, mas que isso não diminui o fato de termos cometido uma falta grave em adentrarmos em seu território.
-Medidas desesperadas para tempos desesperados. Eles não conseguem enxergar isso? –Karoline rebateu irritada, embora fosse algo completamente em vão.
Novos passos ecoaram pela escada e Kamila adentrou na cozinha, arrumando os longos cabelos em um rabo de cavalo. Os olhos ainda estavam inchados pelo sono, e os passos incertos.
-Dia... –murmurou, puxando uma banqueta próxima e esfregando os olhos com as mãos.
-Reforço apenas que venham para cá o mais rápido possível. Precisamos nos reagrupar... Vejo você mais tardes, Vongola.
E a tela ficou azul, provavelmente Zatch havia desconectado do outro lado da chamada. Karoline respirou fundo e passou uma das mãos no cabelo, enquanto Kiba se levantou e espreguiçou os braços. A ruiva observou ambos em silêncio, constatando temerosa que um estranho pesar envolvia os irmãos. O espadachim saiu sem dizer uma palavra, e Kamila logo voltou os olhos castanhos para Doug.
-O que eu perdi, estando lá em cima?
Mal Kiba atravessou o arco da porta e percorreu o corredor, que ficava em paralelo com a escada que dava acesso ao andar superior. Ali, ouviu sua voz ser chamada e se aproximou dos primeiros lances. Zenáculo estava sentado no quarto degrau, e ajeitou a gola da blusa social branca que usava para ir trabalhar. Ao seu lado, a pequena pasta preta com fivelas douradas.
-Já estamos de partida, Mestre. E obrigado mais uma vez pela estadia.
O espadachim fez uma leve mesura, e o Cavaleiro apenas balançou a cabeça em mérito ao agradecimento.
-Embora não seja correto, sempre irei auxiliá-lo quando precisar, Kiba. Mas não esqueça que deves sempre tentar resolver seus problemas sozinho, se quiser realmente evoluir dentro do caminho que criaste. –o espadachim anuiu os ombros e baixou a cabeça, como se tivesse recebido uma bronca. Sabia que o Cavaleiro tinha razão, mas como se tratava da segurança de sua família o rapaz preferia não arriscar. –Mas não é sobre este assunto que eu gostaria de falar com você. Eu ouvi parte da conversa de seus amigos ali na cozinha e... Bem, tem uns boatos interessantes que acho que você deveria saber.
Boatos? Ergueu o rosto e encarou o mentor com os olhos azul-cinzentos com um brilho de curiosidade e um leve temor. Os contatos que o Priorado possua para se obter informações eram espalhados por diversos cantos do país, alguns até mesmo fora dele, mas ele não imagina a conexão entre eles e o conflito com a família Gallardo.
O Guardião da Tempestade cruzou os braços, esperando respostas.
E então Zenáculo começou a falar, pausadamente.
O céu cinzento parecia modificar os tons de toda a paisagem, enquanto as finíssimas gotas de chuvas carregadas pela leve brisa batiam com força nas paredes de vidro. Eram tão claras que não havia necessidade de qualquer uso de luzes artificiais. O espaçoso e luxuoso quarto estava impecável, enquanto a hóspede mantinha-se sentada em uma poltrona confortável. A sua frente se estendia uma pequena mesa disposta com porcelanas e pratarias, junto a um bole delicado de café.
Usava uma blusa azul sem mangas de malha fina, junto a uma calça de linho branco e os pés descalços. O longo cabelo liso estava preso em um rabo de cavalo, deixando a franja comprida cair levianamente sobre o rosto. A pulseira refletia a luz de tons sóbrios, enquanto ela fazia uma expressão delicada de tédio. Slan mantinha-se prostrado atrás da Chefe, o terno negro de risca giz impecável junto a gravata branca. Estava com as mãos unidas a frente do abdômen, compenetrado.
Vanessa e Daniela estavam ausentes, tentando colocar ordem nos esquadrões e avaliar as baixas. A Sentinela da Tempestade trincou os dentes, mas teve que guardar todos os palavrões e réplicas no fundo da garganta. Nem ela mesma tinha coragem de contrariar as palavras de Letícia.
A porta do quarto se abriu, e uma silhueta entrou. Uma jovem magra, esguia e relativamente alta. Caminhou até a frente da comandante da família Gallardo calmamente, a expressão vazia, como se não tivesse uma fagulha de vida em seu interior.
Os olhos eram escuros e amendoados, os contornos do rosto suaves e os lábios pintados de um turquesa doentio. O cabelo liso escorria até o meio das costas, tendo um dos lados jogado atrás da orelha revelando o brinco em forma de losango feito de hematita. O outro deixava cair sobre o rosto, uma mecha arroxeada e trançada com fios de barbante vermelhos. Usava um pulôver listrado em preto e branco com a gola alta, cobrindo completamente o pescoço. A calça negra era colada junto as pernas, terminando em elegantes botas de couro cano curto.
Dobrou um dos joelhos e se prostrou diante de Letícia, mas sem desviar o olhar apagado da superiora. Parecia que não havia sentimentos dentro daquele coração, apenas sombras.
-Minha Rainha. –a voz tremeluziu no ar sem qualquer alteração de tom.
Letícia sorriu. Finalmente um subordinado naquela família de incompetentes que ela realmente tinha apreço.
-Marisa, fico feliz que pode atender meu chamado o mais rápido possível.
-É minha função, assim como minha maior alegria. –ela disse mecanicamente com a mesma postura.
Eram próximas. A Sentinela da Névoa conhecia a chefe desde quando ainda eram pequenas, quando a convocação de Letícia lhe tirou de seu seio familiar e a jogou nas entranhas e crueldades do submundo. Sendo tão ligada a amiga, Marisa seguiu-a com devoção, mesmo que isso a tenha levado a caminhos obscuros... E a quase completa perda da sanidade.
-Onde está sua irmã? –perguntou Letícia.
-Preparando nosso quarto, minha senhora. A viagem foi bastante cansativa, e sabes o quanto me fere andar disposta sobre a luz do astro solar...
-Compreendo. Assim que estiv...
Batidas interromperam a conversa. Marisa se levantou calmamente e virou em direção da porta.
-Eu disse aos Sentinelas que não gostaria de ser incomodada. –repreendeu friamente a mulher o Sentinela do Trovão. Ainda que ela não tivesse virado o rosto, ele sabia que era algo voltado para ele.
Slan estralou os dedos de forma ameaçadora e caminhou até a porta. Mas antes que ele estivesse na metade do percurso para alcançá-la, alguém a abriu. Letícia arqueou a sobrancelha, e o sorriso pela chegada de Marisa se desfez por completo.
Era uma moça, com a mesma idade da Sentinela da Névoa e da Chefe Gallardo, que irrompeu o ambiente em passos pretensiosos. Usava um corpete negro com os fios trançados em branco e sem alças, deixando mais marcado as curvas sinuosas da moça. Suas mãos, ao qual possuía uma pele branca e virgem da exposição ao sol, estavam cobertas por luvas brancas de tecido fino que iam até próximo. Usava um shorts curtinho que cobriam-lhe até metade das coxas, ligados as longas botas plataforma cheia de fivelas prateadas por suspensórios. Mantinha oculto atrás do corpo um pequeno embrulho, enquanto parecia não se importar de sua presença estar sendo completamente inconveniente.
Seu rosto tinha traços angelicais. Não ferozes e sedutores como de uma mulher, mas puros e delicados como de uma moça. Seus olhos eram de um verde cristalino, tendo o brilho intensificado pela sombra que ela usava em volta. Havia sardas próximas ao nariz, parecendo formar esquecidas constelações, enquanto o rosto era moldado pelos cabelos tingidos de um azul escuro profundo, praticamente preto, que escorriam da sua face e terminavam as pontas com leves voltas em torno de si mesmo, escondendo parte do busto da forasteira. As outras mechas que desciam da testa eram cortadas, mais curtas, formando o mesmo efeito cascata próximo as têmporas.
Em seu pescoço, havia uma gargantilha de couro, justa. Ao meio, uma pequena jóia que parecia antes ter sido um broche, incrustada com uma bela safira. Foi ao reconhecer aquela pedra que as feições de Letícia tornaram-se ameaçadoras.
-O que significa isso? –e não precisou mais do que essas palavras para que Slan levasse a mão à corrente que possuía e Marisa ao brinco de hematita. A estranha apenas sorriu, contudo, como se tivesse total controle da situação.
-Não a necessidade de agressões, eu garanto. Estou aqui para fazer uma proposta...
-Quem é você, e o que faz com a arma selada que pertencia ao Sentinela da Chuva da Gallardo, Phillip?
Um sorriso se formou nos lábios da moça, em um vermelho sutil. Um anjo vindo das trevas.
-Ele está em minha posse agora, Letícia Gallardo. E é justamente sobre isso que vim conversar... Creio que seu Sentinela ficará impossibilitado... Provavelmente para sempre... De cumprir suas funções. Logo que a vaga abriu, estou aqui para cumprir o papel, visto que também possuo sua arma selada e manipulo com muita eficiência a Chama da Chuva.
Slan estava pronto para mandar aquela insignificante baixar o tom, pois sabia que sua Chefe não tolerava pessoas geniosas. Mas a reação dela foi diferente: apenas ergueu a mão para que ele se calasse.
-Silêncio. Quero ouvir o que está senhorita tem a dizer... Ou é suficientemente estúpida para ser tão confiante, ou realmente tem algo interessante a mostrar... Você está me induzindo acreditar que derrotou um dos meus homens, mas quero provas.
O som do metal quicando no chão ecoou pelo quarto. A moça despejara o conteúdo do embrulho todo ao solo, revelando fragmentos do que já fora uma arma de esgrima. O Sentinela do Trovão ficou com os olhos arregalados, incrédulo, enquanto Marisa simplesmente encarou tudo com indiferença.
Mais uma vez, o sorriso se instaurou nos lábios de Letícia. Um tanto cínico.
-Vejo que alguém andou fazendo o dever de casa. –a outra garota sorriu, satisfeita. –Qual seu nome, minha nova Sentinela da Chuva?
A moça curvou o corpo, em uma mesura exagerada, erguendo uma das mãos para trás. Seus lábios ainda estavam curvados de forma febril, se deliciando com aquele momento. Conseguira... Agora estava próxima do seu objetivo.
-Jéssica, mon patron...
Notas finais
Mon patron: Minha chefe.
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