Beyond The Bounds Of Sky

14 Capítulo 14 - Assalto Blitzkrieg


Doutrina militar que se caracteriza por atacar o inimigo de surpresa em uma investida rápida e brutal, não deixando espaço para o mesmo se organizar

O uivo cortou o céu furiosamente.

O espadachim continuava ali parado, a espada longa ainda apoiada sobre o ombro. A Chama de coloração vermelha e insaciável havia desaparecido, mas os combatentes da família Gallardo continuaram sem reação após a liberação da arma selada da Tempestade. Haviam emudecido, quando viram o pingente se tornar vermelho rubro, se consumir em uma micro-explosão de energia e desaparecer, dando lugar aquela fera terrível.

Ao lado de Kiba havia um enorme lobo de pelagem negra e olhos vermelhos como rubis, os dentes brancos e afiados parcialmente a mostra. Estando sentado sobre as duas patas, dava quase a altura do Guardião da Tempestade ereto. Seus pêlos pareciam criar um mar revolto de trevas, encrespando em algumas partes, se movimentando ao vento como se tivesse vida própria.

Burburinhos começaram a surgir em pontos isolados do batalhão, mas foi apenas o comandante erguer uma das mãos para que cessassem por completo. Os olhos do brutamontes estavam frisados, como se ele estivesse se deparando com algo que esperasse por anos.

-Então esta é uma das Primordiais. Sem dúvida pode alcançar o 2° Grau na escala de Firenze...

O garoto de cabelos crespos arqueou as duas sobrancelhas, sem entender nada. Mas não era hora para uma conversa amigável. Tinha que parar de perder tempo imediatamente ali. Ele abriu o arco das pernas, mudando a postura e segurando a espada em ângulo de 45° com as duas mãos. Todo o contingente se agitou, reconhecendo claramente aquela como uma postura de ataque.

-Desculpe não sentar e bater um papo, mas infelizmente estou com pressa hoje... –a voz cheia de sotaque saiu meio zombeteira, ainda que o Vongola estivesse com a expressão estritamente séria. O Comandante fez uma leve mesura, e levantou o braço de forma autoritária.

-Rapazes, acabem com o moleque.

Ainda que tivessem visto o poder e o se intimado com o grande lobo, a horda soltou um berro de batalha e avançou rapidamente contra Kiba com armas de punho. Os olhos azul-esverdeados do rapaz percorreram a linha que compunha a primeira leva de inimigos, analisando quantos golpes seriam necessários para abater cada um.

Haviam três grandes problemas.

Não tinha tempo para fazer movimentos precisos e seguros. Por mais que iria comprometer sua defesa, o rapaz deveria atacar incansavelmente para derrubar todos em tempo recorde. A família poderia estar em perigo, se os comentários sobre a quantidade de legiões ostentando a bandeira Gallardo fossem verdadeiros.

O segundo era ferida que tinha no tronco. Kamila havia suturado os pontos, mas o advertiu que deveria ficar sem movimentos bruscos ou treinos por alguns dias. Mas estando diante do primeiro problema, não poderia se conter. Estava ciente de que poderia abrir a ferida e comprometer grande parte dos movimentos, porém estava disposto a correr esta aposta de alto risco.

E o terceiro problema em si era sua própria arma selada, ao qual ele chamava de Okami. Mesmo após dois anos em posse, o rapaz nunca fora capaz de controlá-la e extrair cem por cento de seu potencial. Os efeitos colaterais disso iriam agravar ainda mais os outros problemas.

A lâmina de um machado veio em direção ao ombro do rapaz. Kiba bufou, erguendo a katana e bloqueando o golpe com maestria perfeita.

Nunca fora bom em raciocinar em combate, deixava este quesito para os outros Guardiões (principalmente Zatch, com sua mentezinha perversa). Não iria começar a fazer isso agora... Atacar sem piedade, nunca descansando.

Essa era uma conduta que ele conhecia muito bem.

Forçou a arma para frente, desestabilizando a postura do portador do machado e o fazendo tropeçar alguns passos para trás. Uma manopla tentou acertar o rosto de Kiba, mas ele girou o corpo e esquivou, dando na sequência um corte horizontal no peito do adversário que resultou na arma arremessada longe. O Guardião da Tempestade recuou dois passos, quando mais dois indivíduos tentaram partir para cima.

Então o imenso lobo negro avançou em um salto,o som rouco de fúria brotando da garganta. As duas enormes patas cheias de garras atingiram em cheio o tronco dos infelizes, causando cortes feios e os derrubando com força absurda. O Vongola aproveitou e pegou impulso nas costas do animal, ganhando alguns metros no ar e girando a katana. A lâmina começou a irradiar espectros vermelhos turbulentos.

-Garou Ryu: Presas da Lua Crescente!!!

Diversas pequenas lâminas em formas de meia-lua choveram para cima dos homens armados, sendo disparadas por cada giro de eixo da espada. O lobo continuou sua investida furiosa com mordidas e saltos que retalhavam o que viam pela frente.

Em cinco minutos, já se amontoavam feridos no chão.

Kiba observou o grupo que havia restado, ainda era composto por muitos combatentes. O próprio Comandante estava entre eles, mais afastado da linha de frente, sem nenhum traço de desespero ou preocupação. Muito pelo contrário: parecia até estar se divertindo

-Garou Ryu, o Caminho do Lobo. Então esse é o estilo que consiste em uma onde de ataques implacáveis que nunca terminam.

-Fez seu dever de casa, sabendo sobre meu respeito. –o Guardião da Tempestade rebateu ríspido, não gostando da idéia de que havia sido investigado pelo inimigo. O homem riu em contrapartida, grave como um trovão, como se imaginasse os pensamentos do espadachim.

-A culpa é sua por ter se mantido em evidência, moleque. Acha mesmo que seus atos do Sudeste passariam despercebidos? Ainda mais depois qu...

-Chega. –desta vez, a espada inteira sucumbiu pela violência da Chama da Tempestade, ficando com aquele vermelho incandescente em toda sua extensão. O lobo também se preparou para a investida, rosnando e mostrando as presas letais.

Kiba estava realmente começando a ficar irritado.

Avançou, deixando a espada na lateral do corpo, e investiu no primeiro homem com um golpe ascendente. O lobo rodeou o mestre e também atacou, pronto para executar uma mordida fatal.

Ambos os golpes foram neutralizados perfeitamente. Em um movimento friamente calculado, o sujeito que estava ao lado de um dos atingidos ergueu sua alabarda envolta de Chamas da Tempestade e atacou, abrindo brecha para que outro homem tomasse a frente e tentasse acertar o espadachim com uma cimitarra longa e curva. Kiba escapou com dificuldade dos dois golpes, mas não pode evitar de ser atingido no estômago pela maça pesada e maciça com a Chama do Trovão.

Eles tinham sincronia perfeita e estavam em um nível muito superior aos outros oponentes.

O Guardião da Tempestade recuou ofegante, sentindo o sangue encharcar as bandagens por debaixo da camisa. O grande animal negro também se afastou após levar vários golpes, ficando com vários cortes de onde exalava fracas e constantes ondas de energia vermelha.

-Então, acho que agora você está levando a luta a sério. –Kiba tentou parecer confiante, embora a ferida estivesse latejando de forma incômoda.

-De fato, você acabou com eles mais rápido do que eu previa... –ele indicou com a cabeça raspada a direção do amontoado de feridos. –Mas não pense que terá a mesma sorte conosco. Eu e meus subordinados mais próximos somos antigos combatentes dos fuzileiros, garoto. Quando o assunto é batalha em equipe, somos inigualáveis.

Os homens distribuíram risadas de escárnio e sorrisos maldosos. O espadachim voltou a segurar a katana como fizera no início do combate, quando ouviu um grunhido ao seu lado. O lobo o encarava, com cara de poucos amigos.

-Tudo bem. Vamos dar a eles uma luta realmente séria.

O lobo concordou com a cabeça, e a Chama da Tempestade começou a engoli-lo e o deixou deformado, como um grande amontoado de energia. Os oponentes observavam curiosos, enquanto o Comandante estava achando graça. O amontoado de luzes e massa vermelha expandiu, indo em direção a katana do rapaz e a envolvendo como uma praga que devora tudo.

-Está é a verdadeira forma da minha arma selada. -Kiba falou sério, os olhos refletindo a luz rubra. –Lâmina da Tormenta.

O brilho se desfez e não havia mais uma katana ali. Para ser mais preciso, em seu lugar, havia uma gigantesca lâmina unilateral, terminando em uma ponta triangular. Era bastante grossa e não havia resguardo ou empunhadura. Ao invés disso, havia uma fenda na parte de trás da base onde passava um cabo cinzento, envolto de tecido negro. As duas mãos de Kiba seguravam esta estranha arma por ali.

Após alguns segundos de contemplação, ouve risada pela parte do oponente.

-Acha que nos vencera usando uma arma tão... Pitoresca? Ela no mínimo deve estar com o peso triplicado de uma espada comum, sem contar que os pontos para defesa ficaram seriamente prejudicados. Garoto, seu cachorro era mais útil para você no momento...

A alabarda e a cimitarra, empunhadas por seus respectivos donos, avançaram em direção ao Guardião que se manteve parado. Iria ser um golpe em conjunto, e provavelmente mortífero. Então o espadachim se movimentou.

Apesar do tamanho grotesco da arma, ela se movimentou no ar como se não tivesse peso algum. Mas a Lâmina da Tormenta tinha. E era elevado. Bastou dois cortes diagonais descendentes para que os dois homens despencassem no chão, as armas seriamente danificadas.

-O peso realmente é muito maior... E é claro que a pressão dos meus golpes também aumentou drasticamente. Ataquem todos de uma vez, ou não terão a mínima chance. –a voz estava fria, mas quem fizesse uma observação detalhada no rosto do espadachim, veria que ele estava fechando levemente o olho esquerdo por causa do esforço. –Meu próximo movimento será o último.

O Comandante não pensou duas vezes. Estava farto daquele moleque insolente pensar que poderia derrotar seus homens e ele, que haviam sobrevivido a inúmeras batalhas e missões perigosas. Bradou a maça e ordenou aos berros, desta vez correndo junto dos seus comandados em direção aquele atrevido.

Os pulmões da Tempestade se inflamaram, quando ele respirou fundo. A Chama vermelha e destrutiva tomou conta completamente da gigantesca lâmina. O braço esquerdo do rapaz tremeu levemente.

E ele partiu para se encontrar de frente com todas aquelas armas em riste. Colocou os braços para trás, deixando a arma na horizontal quase encoberta pelas costas. Para o movimento dar certo, teria de executá-lo no momento correto.

Foram poucos segundos. As armas da Gallardo brilhavam em suas Chamas de diversas cores, prontas para dilacerarem e esmagarem por completo os membros do espadachim. Quando estava isto estava prestes a acontecer, ele fechou os olhos.

Garou Ryu...

O tronco girou e ele ergueu um dos pés, para executar a volta em 360°.

Uivo da Lua Cheia.

Com o movimento rápido, a energia se desprendeu, liberando um gigantesco tornado vermelho e expansivo em volta do rapaz. Os oponentes nem tiveram tempo de defender ou terminar de executar o ataque, pois a força do golpe fora tão violenta que uns foram arremessados para longe. Os mais azarados porém, acompanharam o ciclo ascendente da Chama da Tempestade, sendo elevado pelas ondas e tendo as partes atingidas completamente queimadas ou corroídas.

A propriedade degenerativa da Tempestade com o golpe mais poderoso do estilo Garou Ryu.

Não havia como ficar de pé depois de receber um choque desses.

Após ver todos os oponentes espalhados por todos os cantos do asfalto, Kiba caiu de joelhos ofegante. Largou a lâmina, que na sua frente e em um flash se transformou novamente na katana longa e no medalhão com o símbolo da Tempestade. O rapaz de cabelos crespos respirava de forma irregular, as mãos caídas e tremendo. Manteve os olhos fechados, tentando ignorar a dor, sabendo o que encontraria se olhasse em direção ao próprio colo.

Até a altura dos punhos, havia marcas do cabo da espada e cortes causados pela própria chama de Kiba. A Lâmina da Tormenta ampliava tanto a onda já descomunal do espadachim, que nem ele tinha condições de controlá-la da forma devida. Como resultado, ocorria as marcas. Ainda mais usando tanta força em apenas um movimento.

Não iria conseguir empunhar a espada na próxima meia-hora, no mínimo. Mas pelo menos, todos os inimigos haviam sido nocauteados.

-Desgraçado.

Ao menos era o que o Guardião da Tempestade, até abrir as pálpebras e encarar com seus olhos azul-esverdeados o Comandante de pé, sem ferimento nenhum. Ele havia ordenado o ataque, mas reduzido a marcha na hora da corrida. Ficou afastado, observando seus companheiros voarem para várias direções.

Kiba bufou, não conseguindo acreditar naquilo.

-Você é um covarde...

-Eu prefiro o termo precavido. –os dedos se apertaram em torno da maça. –E como prêmio por isso, irei esmagar sua cabeça e...

Antes que ele pudesse terminar a frase, algo em altíssima velocidade se chocou contra ele, fazendo o ganhar altura e rolar pela estrada inconsciente. Fora tudo como um borrão e Kiba ficou boquiaberto, ao ver do que se tratava.

-Eu falei que era uma boa idéia instalar essas grades de trilha... –disse Kamila satisfeita, tendo que apertar os olhos para ver o quão longe havia arremessado o Comandante.- Mas pena que o paquiderme era enorme. Amassou a armação de metal quase que completamente...

A caminhonete prata estava ali parada, com as marcas de pneu no asfalto pela brecada súbita. A grade de metal negra com faróis, ao qual Kamila havia saído do encontro mais cedo para instalar, estava com sérios danos no centro, mas a ruiva fingiu não ligar para isso. Ao menos até toda essa batalha maluca passar. O Guardião da Tempestade começou a balbuciar surpreso.

-Como voc...

-Aniki, seu imbecil!!! Eu sabia que não deveria deixá-lo sozinho!!! –Karoline berrava do banco do carona. Pelo visto, havia chamado a amiga para dar suporte, sendo deixada no meio do caminho. –Eu viro as costas por cinco minutos, e você já resolve explodir caminhos e ensinar pessoas a se lançarem para o espaço... Entre logo aqui, seu desmiolado!!!

Kiba se segurou como pode, mas não pode de evitar de cair no chão rindo após os comentários sem sentido da irmã. Essa cumplicidade de ambos era comum, embora geralmente sempre acabava com ele apanhando por suas “idéias nada convencionais”. Com bastante esforço, e sentindo as mãos arderem quando pegou a espada e o brasão, se dirigiu para a parte de trás do carro e pulou na caçamba. Kamila não demorou para acelerar e girar o volante, fazendo o carro rodar em 180° e disparar pela estrada, deixando para trás o campo de batalha. A ruiva judiava do acelarador, encarando a Guardião da Nuvem pelos cantos dos olhos.

-Para onde estão levando o Yure, Karoline?!

Ao ver a morena mordendo o lábio inferior, pressentiu algo ruim. Depois de ouvir as palavras dela, pressentiu algo péssimo.

-Para a torre do vigia.

Zatch revirou os olhos por de trás das lentes de aviador. Jô estava no carona da moto, rindo sem qualquer preocupação mesmo depois de passar do ponto de inconveniente para irritante.

-Eu nem acredito que eles caíram em um plano tão...Tão...Tão...Ridículo!!!

-Foi meu plano, portanto, não foi ridículo. –a conversa ocorria aos berros, enquanto a moto negra atravessava as ruas como uma ave de rapina.

O ilusionista calou-se, repassando os acontecimentos desde o momento em que haviam liberto o selo.

Estavam no meio do galpão.

Zatch, com seu grande falcão de olhos afiados empoleirado no ombro, e a mente maquinando e acertando os últimos detalhes friamente da estratégia que havia criado conforme os dados levantados durante o combate.

Jô se mantinha ao seu lado, com uma pequena e preguiçosa raposa junto a sua perna esquerda. A pelagem era branca, com os olhinhos em formas de fendas que pareciam estar fechados, a cauda felpuda balançando de um lado para o outro e uma grande gema índigo cravada no centro da testa.

Slan e Daniela estacaram e recuaram um passo para trás após a explosão de luzes. Vanessa se manteve ali, encarando as duas armas seladas em sua forma primária, com um estranho desejo compulsivo nos olhos.

-Esta raposa é sem dúvida a sua cara, como sempre. –o estrategista cortou o silêncio, movimentando a cabeça para o lado levemente, fazendo o cabelo sair da frente dos olhos.

Jô se virou para ele e, embora o olho amaldiçoado vermelho ainda estivesse ativo, ele se virou para o outro Vongola com uma expressão de alegria incontida. Mais apropriada para um papo de bar do que uma luta de vida ou morte.

-Ela tem um carisma incontestável?

-Não. É tão molenga que chega a me dar convulsões.

Jô suspirou, fingindo estar chateado. Slan trincou os dentes, enquanto Daniela fez uma expressão de puro ódio com seus traços delicados.

-Patifes... Acham que isto daqui é brincadeira? –e antes que qualquer um dos companheiros a impedisse, fez voar dezenas de agulhas escarlates sobre ambos. A atitude impensada quase ferira Vanessa, mas ela pouco se importou, devido a seu transe atípico. Cada um dos Guardiões saltou para um lado, enquanto as armas os acompanhavam e se permutavam na trajetória.

A Chuva caiu deslizando, com as pernas em arco, ainda que as armas já estivessem em mãos. A corrente prateada brilhou com a luz precária do galpão, enquanto ele segurava ambas as extremidades que se consistiam em duas pequenas foices, com formato de garras de falcão. Uma Kusari-Ganma, com o nome de Mergulho Súbito.

A Névoa por outro lado caiu sem dificuldade após executar dois mortais, segurando um enorme báculo branco. Na extremidade superior havia um círculo, com duas lâminas inversas e retorcidas nas laterais, e na inferior uma ponta de lança com a mesma cor da gema da raposa. Era a Vertigem Híbrida.

-A quanto tempo, velha amiga. –Jô sorriu com um ar de nostalgia, encarando a própria arma. Quem tivesse o ouvido bastante apurado, poderia ouvir um pequeno grunhindo de felicidade proveniente da raposa. Zatch nada disse, apenas segurando parte da corrente na mão direita e girando uma das foices no ar.

Todos os cálculos e probabilidades haviam sido computados em seu cérebro. Mesmo suicida, os fatores estavam favoráveis para eles. A soberba do Trovão, a impaciência da Tempestade e agora o estranho comportamento do Sol seriam a ruína da família Gallardo naquele combate.

Etapa Um. Começar.

O ilusionista apenas observou o estrategista correr em arco, rodeando os oponentes, e tratou de copiá-lo. Haviam tido diversas missões juntos, o que tornara a resposta de um para ação do outro como um ato quase automático. Jô analisou os sinais quase imperceptíveis que Zatch havia feito no inicio da corrida e sorriu: reconheceria o velho código das Sombras que haviam inventado em qualquer situação. Bastou três sinais e o Guardião da Névoa já sabia que rumo levar.

Era um plano arriscado, frio e que era baseado totalmente em observações e suposições. Típico do Guardião da Chuva.

A reação de Daniela foi rápida, assim como as agulhas finas e destrutivas que se projetavam para fora do cano de sua arma que voavam em direção as paredes do galpão. O passo de Zatch era apertado, sentindo o calor e o chiado das Chamas diminutas da Tempestade quase em suas costas. Slan tentou interceptar a corrida de Jô, investindo com uma estocada. A névoa então girou o báculo em meia-volta, o olho vermelho envolto por um espectro índigo, fazendo centenas de serpentes rasgarem o ar com suas presas venenosas em direção ao Sentinela do Trovão. Mesmo que fossem ilusões, o homem teve que diminuir o passo por uma fração de segundos pela surpresa, dando tempo para que o ilusionista se projetasse para o lado e esquivasse da empalada.

Vanessa continuava estática, intercalando os olhares entre ambos os lutadores da Vongola. Um sorriso diabólico se curvou em seus lábios, enquanto pequenas risadas sinistras serpenteavam por sua garganta.

O Guardião da Chuva saltou em uma das paredes, esquivando desta vez de uma potente rajada de energia vermelha, e arremessou uma das correntes em uma das pilastras. O metal ricocheteou e envolveu a estrutura de concreto, prendendo-se fixamente. Zatch deu um puxão, sendo arremessado para frente em movimento de pêndulo. Com outra força do braço, desprendeu a corrente e a foice, sendo projetado para o centro do galpão a vários metros do ar. A loira sorriu, engatilhando o canhão.

No ar ele não tinha escapatória.

O rapaz, não mudou a expressão, as duas mãos segurando os elos prateados quase na metade. Então a energia azul e pacífica se alastrou pela estrutura da Kusari-Ganma como uma onda, tornando-a incandescente. Ele começou a girar os pulsos, fazendo as foices rodarem em alta velocidade.

-Lâminas de Rapina!!!

Uma chuva de lâminas de Chama da Chuva, em forma de penas sólidas e retas, caiu sobre os três Sentinelas. Daniela teve que conter o tiro no último segundo, realizando várias acrobacias para tentar escapar, embora vários projéteis lhe causassem pequenos arranhões. Slan repelia-os com a lança, enquanto Vanessa apenas movimentou sua arma no mesmo movimento de hélice que Zatch estava executando, criando um escudo dourado.

Etapa um completada com sucesso.

Etapa dois. Começar.

O fato é que a atenção de todos se voltaram para o Guardião da Chuva. Era um ataque espalhafatoso, que estava lançando lâminas para todos os lados sem uma mira realmente especifica e com Chamas tão fracas que não conseguiriam atordoar nada. Mas estava tudo indo conforme o plano.

Jô se manteve oculto perto de uma pilastra, deixando o círculo que o báculo ostentava enquadrando o próprio olho amaldiçoado. A Chama da Névoa começou a se acumular, criando um olho de raposa distorcido, fantasmagórico. O ilusionista sorriu, enquanto via os oponentes se defendendo do golpe como podiam. Seu olho vermelho reluziu, quando ele começou a cumprir sua parte do plano.

-Logos: Insônia.

O olho de raposa se expandiu, soltando um guincho fino de horror e se comprimiu, desaparecendo no ar. O rapaz sorriu, pois estava feito.

Zatch caiu no chão agachado, segurando uma foice em cada mão e com a corrente de prata lhe circulando as costas. Os olhos castanhos observaram os oponentes sem qualquer traço de emoção, vendo as pequenas fissuras criadas por seus golpes no chão maltratado pelo tempo.

-Meu vestido!!! Olha o que vocês fez!!! –vociferou a Sentinela da Tempestade, observando os vários rasgos nada discretos feitos em sua roupa de vermelho fino. Slan levantou a lança novamente em posição de ataque,e enquanto Vanessa encarava Zatch com uma expressão de cobiça quase sufocante.

-É uma pena que minha mira tenha ficado terrível nesses últimos anos... –ele mentiu, sem qualquer traço de emoção da voz.- Não concorda, Jô?

O ilusionista saiu do seu esconderijo das sombras, caminhando calmamente ao lado do companheiro de combate, com um sorriso de vitória e deboche na expressão divertida.

-Está péssimo. Sem dúvida nenhuma.

O som de recarga, proveniente do canhão da serpente, ecoou pelo ambiente. A eletrecidade verde proveniente da Chama do Trovão começou a serpentear pela lança do Sentinela, enquanto pequenos pontos dourados começaram a surgir nos dedos de Vanessa.

Daniela observou a outra Gallardo, franzindo o cenho. Slan acompanhou o olhar, os braços ficando com os músculos tensionados.

-Finalmente acordou para a batalha. –ele disse em um tom seco.

-Eu quero esses dois para mim... São espécimes ótimos. –a voz dela tinha um certo toque de loucura.

Jô então estendeu o braço, abrindo a palma da mão e deixando os cinco dedos bastante afastados um dos outros. O olho amaldiçoado pareceu entrar em combustão, pois a energia espectral da Chama da Névoa começou a tremular violentamente.

-É uma pena que tenha se juntado a nós tão tarde, minha cara. Nós vencemos este combate. –Zatch disse calmamente, sem alterar a expressão. Daniela riu em alto em bom som, em sinal de escárnio, enquanto Vanessa e Slan encararam aquele comentário como palavras vazias.

-Não fale o que não conseguirá cumprir, Vongola. Você mal conseguiu encostar em nós e já está ofegante. Imagine então tentar nos derrubar...

-Não vamos derrubá-los, e sim incapacitá-los. Desculpe, mas este é o xeque-mate desta luta... Jô, acabe logo com isso.

Um largo sorriso apareceu no rosto de ilusionista.

-Ah, será um prazer.... Logos: Pesadelo.

O braço se contorceu, em espamos furiosos, e começou a mudar de cor enquanto se esticava. Em poucos segundos, uma imensa besta reptílica de corpo esguio voou como uma bala na direção de Vanessa, guinchando de forma estridente. Ela manteve-se parada, arqueando as sobrancelhas.

-Ilusões, de novo? És tolo, Guardião da Névoa. Já não o disse que sou sensitiva quanto a Chamas e posso identif....

Ouve um estalo, como de um chicote, e a criatura que outrora fora um membro de Jô se enroscou fortemente no pescoço da Sentinela. Ela arregalou os olhos, largando a arma e tentando retirar o aperto sufocante enquanto o ar lhe era expulso a força dos pulmões.

Sim, as ilusões de Jô não a afetavam porque ela poderia reconhecer uma imagem criada pelo espectro da Chama da Névoa, que tinha como propriedade enganar o inimigo e a sua percepção. Então, a única saída seria distorcer os sentidos de Vanessa com uma ilusão sem que ela percebesse.

Zatch então montou a distração. Seus ataques repetitivos e sem direção aparente retiraram o foco dos oponentes do ilusionista, que pode aplicar sua técnica (semelhante a um sonar, com um de espectro índigo quase invisível que perpetuava no ar como onda) em todos os três da família Gallardo ao mesmo tempo. Claro, eles não poderiam perceber que a investida havia sido feita. Por isso o Guardião da Névoa se posicionou de uma forma que ficasse quase no ponto cego dos oponentes, mas visível pela visão periférica. Ainda que não percebessem, suas córneas seriam atingidas pela “Insônia”.

Zatch deu outro puxão na corrente, mascarada pela ilusão de Jô, apertando ainda mais o enlaço que sufocava a mulher. Para Slan e Daniela, eles viam a cena como se o braço de Jô havia se transformado em uma besta sinuosa. Não conseguiam entender como uma ilusão havia tomado forma, e isso os deixou completamente sem ação. O orgulho do homem sumiu, assim como as risadas da loira cessaram.

-Acho que nos despedimos por aqui. O efeito passará depois de algumas horas. Até lá, espero que reflitam em não se meter conosco novamente. Se o Yure realmente quisesse tirar a vida de vocês, vocês não teriam visto nem o primeiro tiro. –o Guardião da Chuva disse rapidamente, enquanto uma onda de Chama da Chuva percorreu sua corrente, atingindo a Sentinela do Sol em cheio e a nocauteando quase instantaneamente pela intensidade da energia.

Jô acenou com a mão que segurava o báculo, mexendo-a de um lado para o outro sorridente. Em segundos, a escuridão tomou conta do ambiente para Slan e Daniela, e eles se viram em volta de imagens terríveis e tão assustadoras que destruiria a moral de qualquer soldado comum em segundos.

-Nós veremos de novo, Vongola. –Daniela disse, enquanto caia de joelhos, os olhos queimando com aquelas imagens infernais.

-Espero, para o seu bem, que isso não volte a se repetir. –Zatch disse, em um tom seco, antes dos dois saírem em disparada do balcão e fugirem na moto do Guardião da Chuva, para reencontrar os companheiros.
Que, sem dúvida, deveriam estar em apuros.