Beyond The Bounds Of Sky
13 Capítulo 13 - Abalo Sísmico
Slan gritou um palavrão, assim que o gigantesco paredão de chamas crepitantes se materializou a sua frente. Daniela deu um passo para trás, assustada. Do outro lado, a família Vongola preparava sua investida.
-Ricardo, me ajude com ele aqui! –ordenou Dudu, que foi prontamente atendido. O pugilista ajudou o Chefe a colocar o Sucessor mais confortável no chão. Ele estava com o próprio brasão nas mãos.
-Suas ordens, Décimo. –Karoline, assim como todos os guardiões, sentia-se na obrigação de lutar. Deviam isso ao Yure.
O arco-íris de energia que girava ao redor da urna havia desaparecido por completo, dando a ela um aspecto medíocre. Rapidamente, Zatch e Jô já estavam com a posse de suas armas seladas.
-A ilusão nos dará algum tempo... –Dudu observava com angústia o paredão de fogo, criado pelo olho vermelho amaldiçoado do Guardião da Névoa. –Vamos aproveitar e sair daqui o mais rápido possível. Cada minuto que se passa aqui torna mais difícil de se salvar a vida do Yure.
Karoline apertou o punho firmemente, concordando com a cabeça. Por mais que lhe repudiasse a idéia, era a única solução plausível. Kiba ajudou Ricardo a levantar o Sucessor enquanto o Guardião do Sol havia criado uma das luvas e tentava recuperar o ferimento com a ativação da Chama do Sol.
-Darei cobertura à fuga de vocês. –Zatch fez um movimento com a cabeça indicando a pesada porta de ferro. Girava a corrente do brasão de forma rápida. –Assim que puder, também sairei correndo daqui...
Karoline abriu a boca para dizer algo, mas o irmão mais velho lhe segurou a mão e a puxou para a saída. Ricardo pegou o companheiro desfalecido nos braços, a luva branca envolta de aura dourada sob o ferimento do peito, e também tomou a rota de fuga. O Chefe ficou observando a silhueta do Guardião da Chuva, que estava de costas.
Sua serenidade se espelhava a um grande e silencioso lago. Bastava apenas uma pequena oscilação de sua parte para criar-se uma onda gigantesca. Para o Guardião do Céu não havia dúvidas: era o estrategista mais brilhante que todos já haviam conhecido.
-Também temos que ir, Chefe. –Göbel colocou a mão sobre o ombro de Dudu, o trazendo de volta a realidade. Ele assentiu e ambos saíram da cena do combate.
Os olhos castanhos de Zatch encaravam o paredão ilusório de chamas de forma impassível. Outra pessoa se posicionou ao seu lado, fazendo o rapaz bufar irrequieto.
-De todos os infelizes que poderiam me ajudar, justo você resolveu ficar aqui?
Jô deu os ombros em resposta, o olho vermelho brilhando a meia-luz do sol.
-Você pode reclamar o quanto quiser, mas somos a melhor combinação para esta situação. Ou você se esqueceu da última batalha em que combatemos juntos?
-Que seja... Só não fique no meu caminho. –resmungou o estrategista. A barreira de chamas começou a se desmaterializar, mostrando os três inimigos com olhares atônitos.
Lá fora, o tempo corria alucinadamente.
Foi só abrir o portão e Sara estava ali, sem entender o que estava ocorrendo. Seus olhos se arregalaram de aflição ao ver Yure, desacordado e encharcado de sangue, sendo carregado pelo pugilista. Kiba tratou rapidamente de reaver a própria espada, que jazia em pé encostada na motocicleta negra.
-Ricardo! O que aconteceu com ele? –era evidente o desespero na voz da loira.
-Explicações depois, nós temos que sair daqui o mais rápido possível!!! –rebateu o Guardião do Sol, entrando no apertado banco de trás do conversível. Karoline sentou-se ao lado, deixando o enfermo sob seu próprio colo e o de Ricardo. Dudu e Göbel chegaram logo após, enquanto a Doku Sasori colocava as duas mãos na cabeça.
-Meu carro virou locação agora?! Como vocês querem meter todo mundo ai?
-O transporte do ferido é nossa prioridade, portanto Ricardo deve estar a bordo para tentar curar a ferida com a Chama do Sol. Sugiro que Karoline vá também, como suporte. Vá também Décimo e arranje um esconderijo seguro...
-E quanto a vocês, Göbel? –o chefe Vongola questionou, entrando rapidamente na porta do carona. Sara já estava em seu assento, girando a chave e acordando o motor com seu ronco raivoso.
-Eu tenho meus próprios meios de locomoção, Dudu... Não posso dizer o mesmo deste inútil aqui... –o rapaz inclinou a cabeça para o lado, indicando o espadachim. –Se me permite chefe, eu tenho uma dica para vocês se refugiarem: a Torre do Vigia...
Todos os presentes lúcidos arregalaram os olhos, extasiados. Até Kiba, que estava reclamando sem parar pelas provocações do Guardião do Trovão, emudeceu. Göbel sorriu de forma sarcástica e foi até Dudu, lhe entregando uma fina caixa aveludada. O Guardião do Céu passou os olhos sob a superfície, encontrando ali o brasão da família pintado em branco. Pegou o embrulho com as mãos trêmulas, tamanha sua importância.
-É... O conteúdo da urna... –sibilou Karoline.
-Eles levaram o conteúdo da urna! –Daniela gritou, os olhos cheios de fúria. Os três integrantes da família Gallardo encaravam a fina linha de defesa Vongola. A grande caixa também estava ali, com a tampa tombada para o lado, aberta.
-Covardes malditos... –Slan bateu a lança com força no chão, causando um enorme fissura. –Então aquela barreira não passava de um truque, uma ilusão!
-Isto é óbvio. Eu senti claramente a presença de Chama da Névoa... –Vanessa respondeu ainda com sua expressão de puro desinteresse, o tom sereno comparado aos colegas. Eles encararam a Sentinela do Sol incrédulos.
-Por que você não nos falou nada, cérebro de Guaxinim? –os olhos da loira estavam em combustão.
-Porque nenhum de vocês dois perguntou, língua de cobra.
Slan suspirou, enquanto as duas desatavam uma discussão.
Jô e Zatch continuaram ali parados, observando a cena.
-Olhando deste ângulo, eles não parecem perigosos.
-Mantenha o foco, Jô. –os olhos do estrategista estavam analisando os oponentes, enquanto ele frisava a expressão. –Um descuido e poderemos não ter tanta sorte quanto o Yure.
O ilusionista ficou estático, concordando com a cabeça. As duas pararam de discutir e se viraram uma de costas para a outra, com as caras fechadas. Slan deu dois passos para frente e apontou a lança para a dupla Vongola.
-Onde eles foram?!
-Essa é uma boa pergunta.... Mas provavelmente em algum lugar bem longe daqui. –Jô sorriu zombeteiro, cheio de sarcasmo nas palavras.
O Sentinela do Trovão cerrou os dentes e avançou, a lança de justas cheia de energia verde-esmeralda eletrizante. Atirou a arma na direção da dupla como um míssil. Os dois saltaram para lados diferentes, enquanto Daniela e Vanessa percorreram os flancos com as armas em punho.
Zatch se apoiou em uma das pilastras e deu um segundo salto, esquivando-se por um triz de mais uma chuva de agulhas flamejantes. O ilusionista caiu no chão e rolou, enquanto a Sentinela do Sol girava a corrente em alta velocidade. Quase no mesmo instante, centenas de serpentes se amontoaram aos pés da mulher. Ela encarou Jô com uma expressão desdém.
-Suas ilusões não funcionam contra mim, Vongola. Eu sou sensitiva quanto a Chamas que me cercam...
Ele soltou um palavrão, o olho vermelho envolto das brumas índigo. Voltou sua atenção para o Guardião da Chuva, que havia aterrissado próximo de si.
-É bom ter um plano, Chuva.
Zatch não respondeu, a mente trabalhando rápido demais...
-Eles ficaram bem? –Karoline questionou, os cabelos castanhos sendo arremessados ao vento.
-Você poderia se preocupar conosco nesse exato momento... –ralhou Kiba, com os dentes trincados pelo esforço.
O pequeno conversível corria pelo asfalto em alta velocidade, a traseira rebaixada pelo excesso de peso. Não era para menos: aquela era a primeira vez que a Doku Sasori exigia tanto do veículo. Ela dirigia com Dudu ao seu lado, evitando ao máximo oscilações e os buracos devido ao estado delicado de Yure. Ricardo e Karoline estavam apertados no pequeno banco traseiro, com o Sucessor ferido sobre o colo de ambos. A mão pesada do pugilista estava repleta de brilho dourado, irradiando a Chama do Sol sobre o ferimento. Mas por mais que ele se esforçasse, só estava conseguindo estancar o sangramento. A Guardiã viu o nervosismo do amigo em seus olhos azul-claros.
-Ricardo...
-Esse ferimento não é comum... É algo que está além das minhas capacidades!
-Chamem nosso especialista então!!!
Karoline e Ricardo viraram o rosto para trás.Kiba estava de joelhos sobre o porta-malas, os dois braços entendidos e as mãos agarradas ao banco. O vento sobre si estava bastante forte, a franja ondulada do cabelo lhe tapando os olhos. A katana estava dentro da bolsa comprida (com um visível remendo, por culpa da caçula), com a alça em volta das costas do espadachim.
-Especialista? Você não está querendo dizer o... –a confirmação do pugilista do Sol veio quando o Guardião da Tempestade abriu um largo sorriso.
-Que saco vocês... Estão realmente empenhados em chamar todo mundo para a festinha. –Sara suspirou, apertando as mãos no volante. Foi quando sua atenção se prendeu a algo se mexendo no retrovisor. –É... Pelo visto teremos alguns penetras.
O Chefe, que estava absorto em seus próprios pensamentos para montar os planos de contra-ataque, foi desperto pelo comentário da loira e virou a cabeça para trás.
-Cacete.
Um imenso caminhão negro apareceu, seguindo o veículo de fuga em alta velocidade. E desta vez, o inimigo não parecia estar afim de se manter as escuras. Por mais que a diferença de velocidade fosse medíocre,o gigante de ferro ia se aproximando pouco a pouco do alvo.
-Você não pode aumentar a velocidade?! –Karoline berrou para a motorista. Em resposta, ela balançou a cabeça negativamente.
-Qualquer aumento de aceleração ou impacto mais brusco pode ser fatal para o Yure...
O Chefe assentiu, entendendo o risco que todos estavam correndo. Sua mão segurou o brasão escondido pela camisa, pronto para libertar a arma selada, quando Kiba tirou a bolsa das costas e entregou para Karoline.
-Mana, tire minha espada daí, por favor...
-O que você pensa em fazer, aniki? –ela perguntou em tom de bronca. O espadachim passou a mão nos cabelos, os tirando do próprio rosto.
-Alguém precisa ficar aqui e mandar o caminho pelos ares, ora essa! –Kiba olhou pelo retrovisor, seus olhos encontrando os castanhos da Doku Sasori e recebendo seu aval para continuar o plano. –Sara, deixe eles se aproximarem mais um pouco. Eu irei interceptar o caminhão.
-Eu posso cuidar disso, Tempestade. –Dudu disse, de forma autoritária. A Guardiã da Nuvem entregou a espada para o irmão mais velho.
-Fica frio, Chefia. Você deve se assegurar que o conteúdo da urna e o Yure cheguem em segurança à Torre do Vigia. O resto de nós, fará o que terá que ser feito... Proteger a família a qualquer custo. –o rapaz respirou fundo, os olhos azul-esverdeados perdendo o brilho, e ficando tão afiados quanto uma lâmina. O espadachim então trocou a posição para agachado, as pernas flexionadas prontas para o salto. Uma das mãos ainda segurava o banco, enquanto a espada ficou apoiada no ombro. –Esse é o desejo que queima em meu coração.
Antes de receber ordens para se manter parado, o Guardião da Tempestade saltou, dando um mortal de costas no ar, se deixando levar pela inércia. A lâmina da espada foi coberta por uma gigantesca aura vermelha pulsante. O caminhão ia se aproximando, mas o espadachim estava com a mente vazia. Já sabia o que fazer.
“Garou Ryu: Presas da Lua Crescente”
Ele bradou a arma de cabeça para baixo, como se estivesse cortando o ar. No movimento, a Chama se desprendeu da katana na forma de uma lâmina gigante e se chocou com o caminhão. Os dois ocupantes da cabine saltaram para fora do veículo, no exato momento em que a armação de metal era rasgada ao meio. Os cacos de vidro voaram pelo asfalto enquanto Kiba golpeava o alvo, para diminuir o impacto da desaceleração desenfreada. Como resultado, o rapaz apenas resvalou e caiu na estrada rolando com poucos danos. A carreta dançou sinuosamente, batendo em um muro e tombando para o lado como uma centopéia bêbada.
O conversível vermelho se tornou apenas um ponto disforme no horizonte.
Kiba ficou sentado no asfalto, a roupa toda suja de poeira e a espada reluzindo ao sol. Pegou a borda da camisa e a levantou parcialmente. As faixas brancas do curativo, que envolviam o torso do espadachim, iam mostrando vagarosamente uma pequena mancha vermelha. Ele bufou, irritado.
-Kamila, você só pode estar de sacanagem comigo... –as palavras de advertencia da ruiva rodopiaram em sua mente. Mas tirando os poucos pontos abertos e algumas escoriações nos braços, o Vongola estava pronto para descer a espada em cima dos inimigos.
E ele não esperou muito. As portas duplas da carreta foram abertas e várias pessoas saíram, algumas aturtidas e feridas, se espalhando pela estrada.
-Maldito moleque Vongola! –a frase se repetia em diversas bocas enquanto os sujeitos se armavam. Ternos pretos, armas brancas e posição impecável de combate. Eram muito diferentes dos inimigos que o Guardião da Tempestade estava acustumado a enfrentar.
Havia um dentre eles que se destacava. Cabeça raspada, musculos que pareciam de ferro e com uma maça gigantesca nas mãos. Provavelmente, era o líder.
-Coragem sua, ficar para trás para ganhar tempo pelos seus amigos.
-Ganhar tempo? Acho que você entendeu errado, meu chapa. Nenhum de vocês vai sair daqui. –Kiba rebateu, os olhos extremamente sérios. Para sua surpresa, o oponente começou a rir. A Tempestade cerrou os dentes. –Devo encarar isso como uma provocação?
-Pode botar a banca que quiser, mas um moleque é apenas um moleque. Você é realmente ingênuo...
O espadachim apertou os dedos no cabo da espada de duas mãos até as juntas ficarem brancas, enquanto os inimigos se alinhavam atrás do líder. Kiba estava sentindo o sangue fervilhando nas veias. Isso não podia ser um bom sinal.
-Economize palavras. Aonde você quer chegar?
-Garoto, acha mesmo que somos como vocês? Nós somos apenas um dos contigentes sob as ordens do Sentinela Slan. –as pupilas do espadachim se contraíram. Seu coração fraquejou por um segundo. O homem abriu um largo sorriso. –Somos uma legião e os esmagaremos como formigas... Do que adianta herdar o lendário nome Vongola se vocês agem como amadores?
Uma onda de risadas de escárnio irradiou pela arena improvisada. Kiba se manteve estático, a katana apoiada no ombro e a face voltada para baixo, as mechas escuras lhe encobrindo os olhos.
-Acabem com ele, rapazes.
As diversas armas começaram a brilhar ns variantes de cor vermelha, azul e verde. A própria maça ostentava uma Chama do Trovão vibrante.
-Portadores de Chama, então. –Kiba se pronunciou, apenas mexendo os lábios mecanicamente. Na sua época, pouquíssimas pessoas poderiam manipular as sete ondas de energia. O rapaz estava preocupado: aquela não era uma situação que deveria se sustentar por muito tempo. Poderia derrotá-los apenas com sua espada, mas precisava se juntar ao resto da família o quanto antes. –Eu estou realmente surpreso.
Os combatentes oscilavam de um lado para o outro, esperando ordem para iniciar o embate. O comandante arqueou levemente a sobrancelha.
-Surpreso? Por nossa força?
O espadachim não respondeu de imediato. Como em uma explosão, seu corpo foi envolvido completamente pela Chama da Tempestade, uma enorme pira subindo aos céus.
-Exatamente. Se esta é sua força real, é a sua legião que vai ser esmagada como formigas...
A inquietação acabou, sendo transformada em uma tensão e um início de pânico. Eles haviam perdido completamente a moral. Até o líder emudeceu. Kiba levou a mão livre ao brasão de bronze metálico. Podia sentir a energia fluindo, a katana como uma extensão do seu corpo...
-E então, é bom você ter um plano agora. –o ilusionista frisou a última palavra, costa-a-costa com o estrategista. Estavam arfando, com alguns machucados, finalmente cercados pela tríade adversária. Mas pela expressão concentrada de Zatch, era óbvio que ele havia bolado algo.
O Guardião da Chuva sorriu, de forma sarcástica, levando a mão ao entebraço enfaixado com tiras azuis. Ali, estava escondido seu brasão. Jô repetiu o gesto, sentindo a chama da Névoa se concentrar no pingente de bronze.
-Me acompanhe. Não quero ter mais um inútil para dificultar a batalha. –o estrategista suspirou, como se não esperasse muito que o outro rapaz o ajudasse. Jô revirou os olhos, sem dar o trabalho de responder aquilo.
Slan e Daniela se entreolharam, assentindo mutuamente que era hora do golpe final. Vanessa bocejou, a face ainda exprimindo o máximo de tédio que conseguia, no exato momento em que o trio Gallardo energizou suas armas.
-Romper o selo.
Zatch, Jô e Kiba liberaram suas armas mutuamente.
A Sentinela do Sol arregalou os olhos, quando sentiu três poderosas ondas de chamas rugirem. Duas estavam ali, na sua frente, e a outra era um eco distante como um clarim em meio a uma tormenta.
Um sorriso prazeroso se formou em seus lábios.
-Interessante... Realmente interessante.
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