Beyond The Bounds Of Sky
5 Capítulo 5 - Voo Rasante
“Habilidosos falcões escondem suas garras fora de visão”
– Don`t say lazy , K-ON.
A parte industrial da cidade ficava no relevo mais baixo, onde o trafego de caminhões e ônibus era mais intenso durante a semana. Mas em pleno sábado à tarde, as grandiosas construções tornavam a paisagem abandonada e vazia.
Em uma grandiosa avenida ficava os armazéns, grandes galpões separados por vielas escuras. Sob o teto de um deles, de concreto maciço e vários exaustores velhos, havia uma figura peculiar.
O sujeito usava um agasalho preto de moletom com o zíper aberto e as mangas arregaçadas, a luz solar imponente batendo nas costas. Sentado com as pernas cruzadas, tinha um binóculo pequeno no colo e segurava um pequeno Walk-talk azul escuro que soltava o som de estática. Suas feições esguias estavam expressando mal humor. Pressionou o botão do aparelho e o som de estática foi cortado.
— Não da pra apressar as coisas? Não é você que esta aqui esfomeado torrando no sol...
O som de estática voltou, juntamente com uma voz feminina irritada.
— Sou eu que estou perseguindo, Eduardo. Tenho que manter uma distancia segura.. E eu avisei pra beliscar alguma coisa antes de sair de casa...
Zatch bufou, tentando manter o motivo de o porque estava fazendo aquilo em mente. Arrumou o cabelo escuro que escorria até relar nos ombros, criando uma leve onda nas pontas. Os olhos castanhos de coloração amêndoa percorreram o horizonte de concreto ao relembrar dos últimos dias.
Zatch precisava de dinheiro para comprar uma replica de sessenta centímetros de uma de suas personagens favoritas de anime. Em meio ao desespero, pediu ajuda a namorada para participar de um dos serviços dela. Beatriz ficou receosa no primeiro momento, mas teve que ceder perante a insistência.
A oportunidade surgiu com o celular da moça tocando de manhã. Uma quadrilha havia atacado um parque industrial e roubado vários projetos sigilosos. A caçadora de recompensas fora acionada para capturá-los com vida. Missão relativamente fácil, tirando o fato da impaciência de Zatch.
O rapaz pousou os olhos entediados sob o pulso esquerdo, enfaixado por tiras de tecido azul. Sentia falta dos tempos de ação e ia voltar a reclamar, quando a estática falhou novamente.
— Eles estão se aproximando, posicione-se!
Com o binóculo, foi possível visualizar o carro virando a curva e se aproximando para o galpão. O rapaz se levantou, arrumando a calça cinza de tactel. Caminhou até uma das clarabóias de vidro enquanto ouvia os rangidos dos portões se abrindo. Sorriu torto, sentindo uma pequena dose da velha adrenalina voltando.
Os feixes de luz que passavam pelo vidro revelaram que todo o armazém estava quase vazio, apenas com os grandes armários de metal que guardavam as caixas de exportação para segunda-feira. Abriu a tampa e pulou no ultimo andar da estrutura, que balançou sutilmente. Zatch se agachou e passou a andar agachado até a outra extremidade, abaixo da van branca, onde quatro sujeitos armados saíram animados. Os bandidos colocaram as armas em uma mesa, duas metralhadoras semi-automáticas e uma espingarda, e começaram a descarregar as caixas de papelão enquanto conversavam sobre a empreitada. A mente de Zatch começou a trabalhar em uma velocidade furiosa. Seu primeiro passo seria deixar as armas fora de alcance dos oponentes, para depois abatê-los sozinhos ou em grupo. Não fazia diferença.
O rapaz usou seu corpo esguio e flexível para se apoiar na beirada do armário, calculando a distancia e o numero de inimigos com uma ultima olhada. Qualquer erro de calculo poderia ser fatal.
O Guardião da Chuva não se permitia ter erros de cálculo.
Soltou as mãos da beirada e se virou no ar, nos poucos segundos que tinha de queda. Quando caiu sob o teto da van o rapaz rolou para frente, minimizando o impacto nas pernas, e caiu em pé na frente do veiculo. A perícia resultou em um enorme amassado na lataria, o rompimento de todos os vidros e o barulho infernal ecoando pelas paredes. Zatch contornou a van e viu os quatro homens paralisados pelo susto, um deles havia soltado a caixa e feito os papéis escorregarem pelo ar.
-Gente, não levem pelo lado pessoal.
Um dos homens disparou para alcançar a mesa, mas as pernas de Zatch eram mais rápidas. O rapaz interceptou o homem no caminho, lhe golpeando a boca do estomago e o homem caiu batendo o corpo nos armários de ferro. Os outros avançaram, enquanto Zatch deu um chute na mesa de madeira. Ela tombou e as armas caíram no chão.
O primeiro a atacar, que era o mais musculoso e sem cérebro, tentou acertar uma seqüência de socos no alvo. O Guardião se desvencilhou de cada um de forma sutil, como se fosse feito de água. Meteu uma cotovelada no nariz do monstro, fazendo-o quebrar e deixar o brutamonte inutilizado de dor. Ao ver dois companheiros caídos em tão pouco tempo, um dos bandidos saiu em disparada para a direção contrária.
Zatch soltou um palavrão, mas ainda tinha outro inimigo para se preocupar. O adversário dessa vez parecia mais experiente no quesito de artes marciais e conseguiu bloquear dois chutes laterais do estrategista, contra atacando com uma joelhada. O Guardião da Chuva bloqueou o golpe com os braços cruzados e se projetou para trás.
O bandido avançou novamente na tentativa de executar um soco, mas Zatch já estava preparado. Desviou do soco curvando o tronco e chutou-lhe a canela fazendo o inimigo tropeçar. Finalizou com uma cotovelada no meio das costas, fazendo o ferido se estatelar no chão a milímetros da mesa.
Zatch mexeu no cabelo loiro escuro, respirando satisfeito. Fora um bom exercício.
-Francamente, Duh. — Disse uma voz de escárnio.
Ele se virou, voltando o olhar para o portão de alumínio aberto. A figura de uma mulher, arrastando um corpo pela gola da camisa.
Usava uma calça capri preta com uma blusa branca e justa com o símbolo da anarquia. Carregava a pistola prateada no coldre presa à costela esquerda e tinha um cinto preto folgado da cintura até a coxa direita, guardando uma trilha de pequenas lâminas prateadas. Ainda havia também uma espingarda apoiada no ombro com a mão livre.
-Beah, eu não falei que quinze minutos era mais do que suficiente para mim? – o Guardião da Chuva disse arqueando as sobrancelhas. A moça riu, jogando o desacordado no chão. Os olhos eram claros e o sorriso bastante singelo.
-Eu ia ficar quietinha na moto, mas – Ela apontou para o sujeito caído ao seu lado – você deixou escapar um.
O Guardião suspirou, passando a mão na franja e jogando os fios para trás. Deu dois passos em direção a namorada quando viu a expressão dela pálida e assustada. E então ele percebeu que Beatriz não o estava olhando.
Zatch se virou, no exato momento que o grandalhão levantara com a metralhadora. O sangue ainda fluía pelo nariz e ensopava a camisa, tornando o sorriso dele ainda mais diabólico.
O clique do gatilho foi ouvido junto ao berro desesperado de Beatriz. A mão de Zatch agarrou firmemente o próprio pulso esquerdo, segundos antes das balas serem disparadas.
-ROMPER O SELO!
O clarão irradiou pelo ambiente, sem cessar o ruído dos disparos. Mas Beatriz já suspirava aliviada: fazia tempo que o namorado não levava uma luta a sério.
O brutamontes ficou boquiaberto ao encarar novamente o Guardião. Todos os projéteis haviam sido repelidos: pela asa de um falcão.
Era um animal de tamanho grande, para uma ave. A plumagem era toda branca, tirando a ponta das asas e as leves penas eriçadas na cabeça que eram azuis. O bico era extremamente afiado e os olhos negros encaravam o oponente com ar de desdém. O corpo estava envolvido por uma estranha aura azul, que parecia mais água em projeção do que luz. Mas dava para sentir que era uma energia corpórea, pois “aquilo” havia parado as balas.
Zatch mantinha o braço esquerdo em posição horizontal, para que o falcão pudesse ficar encarrapitado sem problemas. O animal parecia imitar a pose do dono, deixando a asa esquerda projetada para frente, como um escudo feito de penas.
O bandido ficou estático com a cena inusitada. Ele tentou atirar novamente, mas o corpo não respondia, sentindo apenas uma ardência no ombro: havia sido atingido por uma das penas. Estava rígida como uma lamina e emanando aquela aura azul. O Guardião sorriu. O inimigo era tão patético que já fora neutralizado com uma simples investida.
Não demorou para as sirenes explodirem seus gritos furiosos pela rua e os policiais prenderem os bandidos. O chefe da equipe caminhou até o casal, encostado na moto esportiva preta e entregou o pacote para a moça. Ela agradeceu sorrindo e esperou o homem se afastar para voltar ao namorado, sentado no meio fio.
-Então, teve que lutar a sério, não? -ela sorriu, brincando com as próprias mechas castanhas que escorriam crespas para baixo do ombro.
-É – ele respondeu de forma seca. Estava com o olhar distante enquanto marrava novamente as fitas azuis no pulso esquerdo, bem apertados. Beatriz mordeu o lábios se sentou ao lado do Guardião da Chuva.
-Tudo bem, amor? — Beah entrelaçou os dedos com os dele sob o próprio colo.
-Eu só tinha me esquecido como era a sensação... -Zatch pousou os olhos no pulso esquerdo.
Um longo silêncio melancólico se instaurou. A caçadora de recompensas sentiu os dedos dele apertarem sua mão
-Vi os recados no celular... Duh, você está evitando falar com o Yure há dias..
-Ele quer uma resposta que eu ainda não posso dar. — falava mais para si mesmo que para ela.
-O reencontro, não é? -Beatriz pegou a mão livre dele e segurou o queixo do namorado, obrigando ele a encarar seus olhos claros. – Você quer ir, não quer?
-Você sabe que tenho que manter minha promessa... – Seus olhos castanhos tinham uma determinação inabalável.
É. A promessa. Beatriz sorriu de forma cúmplice.
-Acha mesmo que ele vai aparecer, Duh?
Zatch curvou os lábios em um sorriso de contemplação. Kiba podia ser muitas coisas, mas não era seu tipo esquecer-se das coisas tão rápido. Beatriz lhe deu um selinho satisfeita e se levantou, indo em direção a moto e se sentando na parte de trás. O rapaz a seguiu e subiu em cima da lataria negra, sentindo os braços da namorada enlaçando seu tronco e piscou por detrás da lente do capacete. O rapaz suspirou, colocando os óculos azuis de aviador nos olhos antes de acelerar e arrancar, atingindo velocidade rapidamente. Um voo rasante.
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