Beyond The Bounds Of Sky
6 Capítulo 6 - Respostas
“De volta do luto, eu peguei as malas. Estive fora por muito tempo”
– Back in Black , AC/DC.
A rodoviária estava com um fluxo de pessoas reduzido, mesmo para o final de semana. O burburinho baixo das pessoas se arrastava para todos os cantos, sendo acompanhados pelas badaladas de um enorme relógio de aspecto antigo, de proporções quadradas e ponteiros de bronze.
Zatch olhou as horas de relance, os braços cruzados enquanto estava montado na motocicleta. Já havia se cansado de ver os ônibus chegando, os viajantes reencontrando parentes e as despedidas emocionadas. O céu negro apenas piorava o tédio do rapaz, enquanto a noite arrancava vagarosamente.
Começou a lembrar do passado, fragmentos que iam e vinham no mar da subconsciência.
As batalhas, as brigas, a alegria de viver em uma fraternidade. Haviam se tornado sem duvida uma família, explicando como pesarosa fora a separação.
O guardião conseguia lembrar perfeitamente de cada detalhe daquela noite, como seu assombro pessoal. As lágrimas raivosas de Karoline, Ricardo inconformado esmurrando a mesa, Göbel se fazendo de indiferente para analisar a situação... Era uma valsa caótica de sentimentos. Apenas uma pessoa mantinha a serenidade profunda, reprimindo as próprias dúvidas e sentimentos.
A única pessoa que confiara plenamente na decisão de Zatch, sem precisar de motivos ou explicações.
Kiba, o Guardião da Tempestade.
A silhueta atravessou um dos arcos de concreto, que davam a saída aos terminais. Andava de forma despreocupada, carregando uma grande mochila de acampamento verde cheia de fivelas em apenas uma alça. Na mão esquerda carregava uma estranha bolsa preta, fina e comprida fechada na ponta por um fio de nylon. A camisa era de manga comprida com grandes listras intercaladas de verde e branco, com a gola social levantada para cima e um dos botões que ficava perto do pescoço estava aberto. A bermuda comprida de jeans escuro e o tênis de trilha marrom completavam o traje.
Zatch arqueou a sobrancelha, incrédulo. Como alguém poderia continuar tão igual após três anos. Os olhos azuis continuavam com uma expressão de cansaço, agravada pelas leves olheiras arroxeadas. Os cabelos castanhos pareciam ondas se rebelando para todos os lados e o sorriso continuava de um sossego de dar raiva... Espera. Havia um... Brilho metálico?
O sujeito estacou a poucos passos do outro guardião. Estavam abaixo de um poste de luz em pleno estacionamento, sendo iluminados pelo feixe de luz amarelado. Zatch riu:
-O que é isso na sua orelha?
-Ah, sabe como é. Chamam isso lá no sudeste de ‘brincos’. –a voz revelou o forte sotaque, enquanto falava das duas pequenas argolas prateadas que estavam dispostas lado a lado na sua orelha esquerda. Ali na luz, dava para se ver que sua pele estava mais morena do que antes. –E você, olha que bela moto. Você achou esse brinquedinho em uma caixa de sucrilhos, não foi?
Zatch e Kiba trocaram sorrisos. Depois apertaram as mãos com um ar de nostalgia.
-Eu falei que estaria aqui pra te infernizar. –Mesmo o sotaque não pode tirar o peso das palavras dele. Zatch assentiu: mesmo sem querer admitir, estava feliz de revê-lo. –Vim cumprir minha promessa.
O Guardião da Chuva tirou o celular do bolso, escorando o tronco na moto, procurando o número de contato do Sucessor do Sol. Olhou de relance o amigo colocando as bagagens no chão enquanto se espreguiçava.
-Sua espada? –disse, apontando para a bolsa fina e comprida, levemente arqueada. Quando viu Kiba confirmar com a cabeça o rapaz analisou por cima. –Parece maior do que eu me lembrava...
-É outra. Minha antiga se estraçalhou ano passado. Uma longa história que pode ser deixada para outra hora.
Zatch concordou e discou para o número do Sucessor. Apertou um botão em seguida para que a ligação ficasse no viva-voz. Entre os tons de chamada que bipavam, a voz do rapaz foi ouvida novamente.
-Kiba, tenho que lhe fazer uma pergunta.
O moreno arregalou os olhos, sem entender. Mas antes que qualquer um dos dois pudesse falar, o outro lado da linha atendeu.
-Estava esperando sua ligação Guardião da Chuva. A tempestade está aí com você?
Os dois se entreolharam surpresos, enquanto Zatch cerrava os dentes: Beatriz devia ter contado.
-Estou aqui. –Kiba respondeu quase que de imediato.
A voz do outro lado soltou uma sonora risada.
-O sotaque mudou realmente sua voz. Se está aí, Kiba, significa que você e o Zatch decidiram participar da reunião.
O espadachim havia prometido ao melhor amigo. Iria voltar, no dia em que a família estivesse reunida, não importasse em que lugar do globo ele estivesse.
-De qualquer forma, -continuou Yure após minutos de conversa inútil. –agora os Sete estarão de volta. Nos vemos em breve.
A linha ficou muda e o silêncio só era quebrado pelo som pesado dos motores a diesel. Kiba pegou novamente as bagagens e suspirou.
-Bem, vou andando. Preciso achar um hotel para me instalar durante esses dias...
-Fique lá em casa. Você não tem noção de como eu acumulei jogos novos em três anos. –Zatch atacou no ponto fraco do melhor amigo. Os olhos azuis brilharam de excitação, enquanto arremessava a mochila para o motoqueiro. O Guardião da Tempestade colocou a bolsa preta apoiada no ombro e se virou de costas, indo na direção oposta do outro rapaz. –Onde você vai, Kiba?
O espadachim virou parcialmente o rosto e sorriu, antes de se embrenhar na escuridão da noite.
-Desculpe, mas preciso ir ver alguém antes de mais nada...Espero voltar com as mãos inteiras pra ainda poder segurar um controle.
-Kiba! –Zatch gritou, vendo a silhueta do amigo ficar disforme enquanto se distanciava. Precisava saber, confirmar se o seu pior lamento havia se concretizado. –Você ficou chateado, por ter confiado em mim sem nunca saber do motivo da minha decisão?!
Não houve resposta em palavras, tirando que o outro guardião havia parado de caminhar. Ergueu o braço e começou a balança-lo, com apenas o dedo indicador levantado
A resposta era não.
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