Beyond The Bounds Of Sky
24 Capítulo 24 - Missão noturna: Ápice
A Rainha de Gelo
“E quando ela está enfurecida, ela acaba com tudo que é vivo”
Ice Queen – Within Temptation
O ar ainda estava frio devido às correntes de vento que haviam afastado a chuva para longe. Elas golpeavam-lhe a face enquanto ele atravessava o céu em alta velocidade. Tinha que manter os olhos semi-cerrados e, eventualmente, desviar de um prédio e outro, mas não demoraria muito agora.
O ódio o consumia por dentro, queimando tão ardente quanto o foco de Chama do Céu que estava ostentando na testa. Os punhos cerrados estavam colados na lateral do corpo, vestidos com as luvas de goleiro que eram parte de sua arma liberada, e as chuteiras estilizadas eram as que liberavam a propulsão para o vôo.
Em sua mente, um turbilhão de memórias.
Yure, aquele que lhe havia ensinado tanto.
“Só você pode uni-los de novo, Décimo.”
Casagrande, morto apenas por salvaguardar a Décima Geração Vongola.
“Bem vindo de volta.”
Zatch, aquele que o apunhalara pelas costas.
“Eu estou conseguindo, embora fosse você que deveria estar aqui em meu lugar. Estando assim, você apenas está contribuindo para a vitória dos Gallardo. Sinto muito, velho amigo, mas não posso deixar a Vongola cair assim.”
E é claro, a responsável por tudo isso...
“Primeiramente, eu vim parabenizá-los. Estou de fato impressionada por estarem vivos até aqui... Um feito que acho notável... E uma estratégia brilhante, já que vocês sacrificaram tantos peões pelo caminho...”
-Gallardo. –rosnou para si mesmo, antes de aumentar a combustão de Chamas alaranjadas do Céu e rodopiar, ganhando mais aceleração.
Uma Hora antes...
Dudu mantinha-se estático enquanto estava deitado sobre a maca, na penumbra da enfermaria. O corpo estava completamente suado, provável efeito colateral do supressor de Chama. Sua pele queimava e seus membros pareciam não ter sustentação.
Ainda assim, seus dentes estavam trincados de raiva. Seus próprios Guardiões o haviam traído, seus amigos. E Karoline por tantos anos havia lhe avisado sobre o estrategista da Chuva e suas manobras...
Separar a família por segurança?
Palhaçada. Por quanto tempo estaria ele planejando esse golpe de Estado para tomar o controle?
Mas a única pessoa que ele realmente queria estraçalhar com as próprias mãos era Letícia Gallardo. Aquela vaca. Assassinara Casagrande em meio a um espetáculo perante toda a cidade, em ato de pura provocação. Debochara, ainda, de tudo como algo banal, sendo este o maior combustível para seu ódio.
Mas nada podia fazer naquele momento. O supressor de Chama, artigo emprestado dos Sucessores, o qual estava preso ao seu pulso, esvaíra por inteiro suas forças, lhe reservando apenas seus maiores tormentos.
Porém, o silêncio foi quebrado de súbito na forma de ecos. Iniciaram-se discretos e quase imperceptíveis, até se aproximarem e tomarem a forma sonora de audíveis passos.
E vinham eles acompanhados de um gélido e doce assovio. Uma canção.
A porta se abriu rangendo e Dudu lentamente virou o rosto. O corredor iluminava a silhueta feminina com roupas justas e brancas, saia colada e botas de cano longo. No alto da cabeça, o chapéu de enfermeira dava um toque especial ao conjunto da obra.
-Eu... Já vi essa cena... Num filme.
A mulher riu e o Chefe da família Vongola imediatamente reconheceu aquele timbre cruel: era a algoz de Yure.
-Confesso que sempre achei esse trecho um charme. –ela complementou, segurando o que parecia ser uma seringa entre os dedos.
-Você é uma das Sentinelas... –a raiva crescente do Guardião do Céu quase morria em sua garganta, dada a fraqueza que estava sendo submetido.
Enquanto se aproximava, com passos que faziam seus quadris dançarem, a mulher de cabelos loiros e olhos castanhos muito vívidos exibia um sorriso de glória, o piercing em seus nariz era de uma pequena pedra brilhante.
-Eduardo “Dudu”, o líder da Décima Geração, traído por seus próprios companheiros. E tão patético que até eu –e ela deixou uma ênfase particularmente nojenta nesta última palavra.- sinto pena.
Ele nem sequer se deu o trabalho de retrucar. Apenas cerrou a mão esquerda com tanta força que sentiu os dedos doerem e voltou a encarar o teto.
-Já sabe o que eu vim fazer aqui, não?
Dudu respirou fundo, fechando os olhos. É claro que ele já imaginava.
-Termine seu trabalho rápido, assassina. –sentenciou por fim.
Esperou o golpe derradeiro. Iria ele ser mais uma das vítimas da cruel campanha de Letícia Gallardo.
As pernas de Daniela a levaram para o lado da maca. Seus dedos de unhas meticulosamente cuidadas e pintadas envolveram o pulso inerte do rapaz, torcendo-se ao redor dele com força.
O rapaz sentiu a frieza metálica roçar em sua pele. Questões “Como a Sentinela havia entrado ali”, “se seus amigos estavam bem” ou “o que os Sucessores fariam a Yure” tornaram-se irrelevantes. Tudo que sobrara ao Chefe, agora no fim da vida, era uma torrente de escuridão e desgosto.
Não teria a chance de...
Click.
Abriu os olhos subitamente surpreso e ergueu o braço. A marca do grilhão ainda estava sobre a pele, mas o Supressor de Chama caíra ao seu lado no colchonete duro. Como se tivesse liberado uma barragem, um fluxo bruto de força e poder foi se alastrando por cada membro e sistema do seu corpo.
O Vongola sentou-se, ainda aturdido. Massageou o pulso que antes estava preso, enquanto seus olhos marrons ficaram vidrados nos próprios pés.
Daniela começou a bater o pé, deixando a chave de liberação que acabara de utilizar na pequena cômoda que havia no local. Quando se virou novamente para o rapaz atarracado e de estatura baixa, ele estava encarando-a de volta com uma expressão que mesclava raiva e dúvida.
-O que significa isso?
A Sentinela da Tempestade abriu um largo sorriso. Desde que recebera essa enfadonha missão de Letícia, não tinha dúvidas que esta seria a parte mais interessante de toda a história.
-Eu posso claramente ver no seu rosto o que você mais quer: vingança. Está sedento por destruir aquela que feriu sua família... Posso ser cruel e sádica, você sabe, mas não a nada na vida que eu entenda mais do que desejos mundanos...
Dudu cerrou os punhos.
-Que ato nobre, vindo daquela que quase assassinou o Sucessor do Sol com aqueles estilhaços da Tempestade. –retrucou. A loira revirou os olhos, como se tivesse ouvido uma piada de mau gosto.
-Ora, vamos, eu estava apenas seguindo ordens. –divertiu-se ela.- Vai realmente perder seu tempo com um simples peão, quando seu verdadeiro alvo encontra-se lá fora?
Silêncio momentâneo.
-Isto fede a armadilha...
-E, apenas por isto, deixará esta chance escapar?
Daniela levou a mão a um dos bolsos da saia e retirou dali algo prateado e reluzente. Prendeu a corrente entre os dedos e deixou que ficasse pendente no ar. Como um pêndulo, estava o brasão de armas da família Vongola.
Aquela era a arma selada do Céu.
-Como você a conseguiu? –perguntou o rapaz em assombro.
-Você perde tempo com coisas tão irrelevantes... –a Sentinela sorria. Jogou a jóia no ar, e foi fácil para o Guardião interceptá-la.
O simples contato da pele com o metal desencadeou o clarão. As luvas de goleiro negras com dois grandes “X” brancos nas costas das mãos, as chuteiras estilizadas de futebol, a Chama do Céu queimando no centro da testa.
Os olhos de Dudu haviam se tornado alaranjados como âmbar, assim que ele entrou no modo Impulso Sísmico.
-Belos olh...
Daniela começou a falar, mas foi quase imediatamente sufocada. O Chefe Vongola fez um movimento insanamente veloz, agarrando a loira pelo pescoço e a jogou contra a parede. Mesmo sendo alguns centímetros mais baixo que a mulher, facilmente a prendeu contra o concreto com apenas um braço estendido.
Mesmo em meio à dor e com a respiração obstruída, ela deixou o sorriso emoldurado pelas mechas loiras desarrumadas.
-Quando eu acabar com a Rainha, irei atrás de todos os seus peões.
E a soltou, deixando-a desfalecer com as pernas trêmulas. A mulher levou a mão ao pescoço, tossindo, enquanto apoiava as costas na parede.
O Chefe Vongola se virou e caminhou até uma das paredes do quarto da enfermaria. Podia sentir novamente o fluxo de energia tomando conta de seu corpo. O punho cerrado foi tomado pela Chama alaranjada, que bruxuleava violentamente no ar.
Deu um murro na parede, liberando toda aquela energia concentrada de uma vez. Foi mais do que suficiente para abrir um enorme buraco na estrutura de concreto. A Sentinela da Tempestade observou o rapaz atravessar o arco destruído, até sair para a área externa e levantar vôo, ganhando altitude graças à propulsão das Chamas liberadas das solas do par de chuteiras.
A mulher bateu as mãos por toda a roupa, ajeitando a blusa e em seguida tentou arrumar o cabelo desalinhado. O pescoço ainda estava dolorido, e isso pedia uma bebida forte para fechar a noite.
O chapéu de enfermeira ficou caído em um canto monótono do chão próximo à maca, mas ela nem se deu o trabalho de pegá-lo. Sua parte na missão estava terminada, tudo que deveria fazer agora era dar o fora dali o mais rápido possível.
Resoluta, saiu do cômodo em penumbra e novamente chegou ao corredor iluminado pelas luzes fosforescentes. Olhou para os dois lados, sobressaltada, e apenas encarou as duas direções vazias. O silêncio denunciava que não havia ninguém nas proximidades.
A loira começou, então, a correr, retomando a direção que havia percorrido para chegar ao cativo. Acompanhou a fileira de portas do pavilhão da enfermaria à sua direita, rapidamente alcançando o final da linha e deparando-se com uma curva. Quando mudou a trajetória e adentrou nela, sentiu o coração disparar de surpresa. Travou a corrida sentindo um incomodo notável por ter que travar o pé dianteiro, calçando aquelas botas de salto, contra o piso.
Obstruindo sua passagem, estava a silhueta de uma mulher, alguns centímetros menor que a própria Sentinela. Usava uma longa capa com capuz, este grande o suficiente para lhe ocultar quase por completo o rosto. Apenas seus lábios, pintados de um tom vermelho vivo, e mechas de seu cabelo encaracolado e marrom eram visíveis. A capa estava fechada até a altura do peito, revelando que ela usava uma bata branca junto a uma calça negra folgada com sandálias de couro branco. Pulseiras de metal dançavam folgadas em ambos os pulsos.
-E então? –sibilou a mulher de cabelos castanhos. Como era impossível ver a expressão de seus olhos, os lábios tinham algo de misterioso.
Em primeiro momento, Daniela se assustou. Por rompante, quase ativara sua arma selada do atributo da Tempestade. Mas ao ver que se tratava da Sucessora da Névoa, a loira bufou e arqueou uma das sobrancelhas.
-Pensei que havíamos deixado claro nas negociações que você não iria interferir nas minhas ações dentro da Torre do Vigia. Você foi paga para isso.
Mariana não esboçou qualquer reação brusca quanto às palavras da Gallardo.
-Estou apenas verificando se o serviço que ofereci foi satisfatório.
-Está verificando é se vai receber seu pagamento. – retrucou Daniela. A ilusionista ergueu as mãos e os metais se chocaram produzindo pequenos ruídos, em um movimento de contestação. Isto abriu margem para a Sentinela continuar falando. –Você é lasciva, Sucessora. Não se preocupe quanto a isso, o dinheiro já foi depositado na conta que você indicou.
Mariana fez um gesto com a cabeça em agradecimento.
-Continue nesta direção até o final da ala leste. Um carro negro a espera junto aos limites da propriedade... Não se preocupe – a ilusionista ergueu a palma da mão aberta antes que fosse interrompida. –eu encobrirei seus rastros com minha ilusão. Apenas vá.
Daniela ficou com um olhar introspectivo. Aquela mulher sem dúvida era perigosa demais. Podia ser cometida em atos, movimentos e expressões, mas isto só tornava mais ameaçadora e densa aquela aura assassina que emanava. Mesmo a loira, que sentia tanto prazer em ferir os outros, se sentia subjugada por algum motivo... Seria esta parte da Transfiguração Reversa da Sucessora da Névoa?
Sons explodiram no corredor por onde a loira havia passado, libertando-a de seus devaneios. Alguém estava correndo naquela direção com passadas rápidas e pesadas, sem dúvida para encontrá-la.
A Sentinela mordeu o lábio inferior quando olhou por trás do ombro. Havia sido descoberta. Quando retomou novamente a atenção para a Sucessora, a mulher com a capa havia dado um passo para o lado liberando o caminho.
-Vá.
Daniela não pensou duas vezes. Respirou fundo e voltou a correr o máximo que as botas altas lhe permitiam. Atravessou ao lado de Mariana, nem se dando o trabalho de encará-la mais uma vez. Ainda que não pudesse ver os olhos da ilusionista, sentia como se ela estivesse monitorando cada passo seu... Acuada.
Mordeu novamente o lábio inferior, baixando o rosto e aumentando o passo. Aquela Sucessora era diferente de outro que havia quase matado... Ela não era do tipo que pensaria duas vezes em se livrar de um incômodo em seu caminho.
Bastou a Sentinela se afastar mais alguns passos e a mulher encapuzada gesticulou a mão para cima, o braço liberando uma quantidade aterradora de Chama da Névoa. A energia índigo e de aspecto esfumaçado começou a contaminar todo o ar, formando em poucos segundos uma parede de névoa densa. Era impossível visualizar com clareza o que atravessava aquele corredor.
Momentos depois, o Sucessor da Chuva apareceu, fazendo o contorno da curva do corredor. Ao se deparar com a outra mulher, ele estacou com uma expressão de espanto. Usava a mesma indumentária militar de antes, calças camufladas em cinza com as botas de couro, camiseta preta com as placas de identificação junto com o pequeno chocalho com detalhes azuis ao redor do pescoço. Apenas a faixa negra não estava em sua testa, tapando os cabelos loiro-queimados.
O homem bufou, encarando Mariana com os dentes trincados.
-O que significa isso?! Os alarmes de perímetro surtaram, eu vim checar e encontro a parede da cela do Chefe Vongola com um enorme buraco e seu Supressor de Chama caído no chão...
-E se tentar achar a Arma Selada dele, no local onde você havia deixado com segurança, não vai encontrá-la. –ela disse sem alterar a voz.
O militar recebeu a informação como um soco no estomago. Então, lembrou quem estava na sua frente... E lembrou que tipo de pessoa era Mariana.
-O que... Você fez desta vez? –os olhos escuros dele faiscaram.
Um sorriso enigmático surgiu no rosto da ilusionista, mas ela não respondeu.
Guilherme imediatamente levou a mão ao coldre que possuía junto à coxa direita, e sacou a Glock negra em um movimento veloz. Apontou para a suposta aliada, a qual nem se mexeu com aquele gesto ofensivo.
-Você mesmo disse que eu estava sem nenhum negócio lucrativo à vista... Apenas ampliei minha visão de oportunidades.
O Sucessor da Chuva mudou o foco de visão por um momento, encarando o que havia atrás da ilusionista. Viu a parede de brumas oscilantes e com rastros de Chama, fazendo com que seus dedos apenas apertassem ainda mais o cabo da arma de fogo.
-...Negócio? –o braço que estava segurando a Glock estava em riste, enquanto a mão livre apoiava a coronha para dar mais precisão. Algo dentro de si gritava o que havia acontecido, mas ele preferia ouvir as palavras dela.
Mariana deu alguns passos para frente, as mãos segurando as bordas da capa para mantê-la próximo ao corpo.
-Eu lhe falar agora não fará diferença alguma. Os eixos já foram ajustados e os acontecimentos já estão em andamento. O Chefe Vongola já está partindo em direção à armadilha orquestrada por Letícia Gallardo. Ele cairá nas mãos dela...
-Você... Regeu isso tudo?! –rosnou o outro Sucessor.
-Negociando o preço certo, meu caro, é capaz de se conseguir qualquer coisa neste mundo. E, diga-se de passagem, eu recebi uma boa quantia por este serviço.
Um estalo denunciou a pistola sendo engatilhada. Mais uma vez, a Sucessora sequer moveu um músculo de onde estava.
-Perdeu o juízo?! Você está traindo tudo pelo que nós Sucessores trabalhamos por tantas gerações... Mariana, isto é uma traição tão grave quanto a de Yure!
-Ou posso alegar em minha defesa que estou apenas equilibrando as coisas. O Sucessor do Sol auxiliou demais as ações da família Vongola, logo eu estou apenas dando uma chance que a família Gallardo não teve.
-Eles são corruptos, você sabe. O império deles no Submundo foi construído a custos de vida... Se eles colocarem as mãos nas Sete Originais de Firenze e no conteúdo da Urna...
-Pare de julgá-los. Isto sim é uma afronta ao trabalho dos Sucessores. Devemos deixar que nossas crenças não interfiram nas ações e reações ligadas ao Destino. Nosso trabalho sempre foi encontrar Sete Detentores para as armas, pessoas que estarão preparadas para quando “aquilo” acontecer... Se a Vongola mostrou ser incapaz de qualquer progresso significativo nesses anos que se passaram, talvez eles não sejam quem procuramos...
-E isto é claro, por dinheiro. Pare de camuflar sua falta de caráter em palavras bonitas, Mariana.
-O fato é que eu não estou errada não é?
Ele não respondeu, apenas bufou. A mulher então subitamente se virou de costas, em direção da névoa que a própria havia criado.
-Bem, não tenho mais nada o que fazer aqui. Aquela Sentinela provavelmente já saiu dos domínios da Torre do Vigia. Meu trabalho era apenas entregar a ela a chave do Supressor e a arma selada do Céu. O que ela fez com estes objetos não é culpa minha...
Quando ela começou a caminhar em direção às brumas, o militar vociferou.
-Dê mais um passo e eu atiro, mulher!!! Eu não vou me contentar em deixar você andando livremente por ai depois de toda esta merda que tu aprontou!!!
Ela continuou, sem dar ouvidos. O Sucessor berrou, quando seu dedo apertou o gatilho incontáveis vezes. Os disparos causaram um estardalhaço tremendo no corredor e as balas riscaram velozmente o ar.
Porém, as balas trespassaram a ilusionista como se ela fosse feita de fumaça. Ela se distorceu, em estado incorpóreo, reconstituindo-se logo em seguida. A imagem parou, no exato momento em que Guilherme baixou a arma e praguejou.
-Não está mais aqui, não é?
-Não... –disse ela, enquanto sua projeção ia se desmanchando em um manto de névoa. Atravessou o curto espaço que separava a si mesma e a Guilherme, espiralando próxima ao chão, até novamente se reconstituir na frente do Sucessor da Chuva. Ele calmamente baixou os braços, guardando a arma no coldre ciente de que não havia nada mais a ser feito, e fitou a ilusão com um olhar fulminante.
Mariana segurou a borda da capa que vestia e baixou o capuz, revelando o rosto e as mechas marrons em cachos. Tinha pequenos olhos castanhos e um sinal de nascença entre as sobrancelhas.
-Não se preocupe, Guilherme, eu vou voltar.
Ele cerrou os punhos em silêncio.
-E eu meterei uma bala no meio da sua testa.
-Não. Não vai não. –ela deu os ombros e passou os dedos no rosto dele, como uma carícia. Contudo, quando eles roçaram na pele dele, se desmancharam como brumas.- Eu vou voltar quando todos os Sucessores estiverem reunidos. Por mais metido a machão que você seja, Sargento, nem você ousa me atacar abertamente na presença dela.
Esta verdade atingiu o militar como um murro no estômago.
-Mariana, você é podre.
-Alguém deveria ser, não é?
E a ilusão se transformou em centenas de aranhas luminosas, que se espalharam por todas as direções. O paredão de névoa também desapareceu, deixando o Sucessor da Chuva sozinho em meio a seus palavrões furiosos.
-Merda, eu deveria ter previsto isso.
Zatch resmungou.
Marcel olhou de soslaio, enquanto trocava a pesada marcha do caminhão em movimento. A resposta da correia deslizando nas engrenagens do motor foi expressa com um suave solavanco.
O estrategista estava ao seu lado, no banco do carona, expressando um nítido e raro nervosismo de sua parte. Um dos braços apoiava o cotovelo oposto, enquanto mordiscava a ponta do polegar e encarava a paisagem passando velozmente pela janela.
Meia-hora atrás, haviam recebido a informação que Dudu havia escapado da Torre do Vigia, graças a uma falha da segurança. Guilherme, com o tom de voz irritado, explicou sobre a manobra da Sucessora da Névoa e que o recluso havia recuperado a própria arma selada.
Para o Guardião da Chuva, o plano de ação da família Gallardo estava completamente claro.
-Confesso que não esperava por uma jogada tão infantil como esta. –reclamou por fim, dando um fraco murro no porta-luvas da cabine. –Ainda mais levando em conta a segurança dentro da Torre do Vigia.
-O que você quer dizer com isso? –questionou o caminhoneiro com suas gigantescas mãos no volante, conduzindo o pesado veículo pela avenida pouco movimentada. Créditos ao horário tardio da noite em que se encontravam.
O jovem Vongola respirou calmamente, colocando a mente afiada para trabalhar. Muitas vezes, ao ponto que Zatch perdera a conta, explicar seu raciocínio ajudava o seu próprio cérebro a reagir a situações adversas.
-Transforme todos os acontecimentos até aqui como um jogo de xadrez. Primeiro, foram enviados os peões. Os homens que seguiram Ricardo até o shopping serviram para avaliar e conhecer a força de nossas peças. Em seguida, mandou seus cavalos: o jeito mais simples de revelar a forma como o oponente trabalha com os atributos que possui.
Ao falar disso, relembrou do primeiro. Encontro dos Guardiões contra os Sentinelas. Slan, Vanessa e Daniela em seu ataque súbito e fulminante, enquanto a Vongola não dispunha de qualquer arma selada. Fechando os olhos castanhos, Zatch continuou.
-Concluída a primeira fase, começou então seu verdadeiro plano de ataque. Iniciou com uma provocação, algo banal, com o simples intuito de desestabilizar a linha de pensamento do adversário.
-Ou seja, Dudu ficou bolado.
Kiba interrompeu o amigo, com a voz meio grogue. Atrás dos bancos, havia um colchonete suspenso no alto, sobre vários armários e gavetas. O espadachim havia capotado por lá, meio zonzo ainda pelo ferimento na cabeça, e havia acordado há pouco graças aos constantes sacolejos do veículo. Aos pés do compartimento, estava estirado também o cão de Marcel.
O estrategista meneou a cabeça, reabrindo os olhos.
-Basicamente isso, se utilizarmos uma linguagem mais vulgar, foi isso que aconteceu mesmo. –Zatch teve que se segurar por um momento quando o grande caminhão fazia uma curva pela larga avenida. Estava indo o mais rápido possível, o eixo sem estabilidade nenhuma. –Então enviam as torres e os bispos, peças poderosas, que podem atacar de forma fulminante o tabuleiro adversário. Fomos forçados então a nos dispor de maneira que pudéssemos barrar esta investida, deixando nosso rei completamente “desprotegido”... Dudu ficou vulnerável, e a Gallardo provavelmente criou uma “abertura” de propósito para ele avançar diretamente contra ela...
Kiba suspirou, o buldogue grunhiu, enquanto se distraia roendo um osso. Marcel bateu levemente o dedo em um dos marcadores redondos que estavam próximos ao sistema de som do caminhão. Franziu o cenho, ao ver o resultado daquele aparelho estranho.
-Estamos nos aproximando da fonte de Chama do Céu estagnada. A outra fonte também está em movimento, e vai alcançar o local antes de nós.
-E como sabemos diferenciar quem é o Dudu e quem é a tal Letícia? –questionou o espadachim, colocando a mão nas bandagens improvisadas.
-Só podemos supor, Kiba. Se Dudu escapou da Torre, ele é quem deve estar se movimentando. A nossa sorte é que portadores de Chama do Céu são muito raros, e é cem por cento de certeza que os únicos nessa região do Estado são aqueles dois.
-Suponho então que devemos ir salvar o Chefe da armadilha. -o espadachim cruzou os braços, fazendo um movimento afirmativo com a cabeça.- Isso vai ser divertido.
Zatch virou o rosto para trás do banco, encarando o amigo. Estava com aquela expressão de incredulidade que sempre fazia quando o usuário de Chama da Tempestade falava uma barbárie.
-Sim, claro. Você com a cabeça aberta e a espada quebrada. Eu com a reserva de Chamas da Chuva praticamente nula no meu corpo. Vai ser divertidíssimo. –ralhou Zatch, com a expressão dura iluminada parcialmente pelas luzes que passavam velozes vindas da rua.
Kiba abriu um largo sorriso ingênuo. Era péssimo em identificar sarcasmo.
-Mas é claro que sim, véi!
O Guardião da Chuva se voltou para frente, baixando a cabeça, apoiando as mãos no rosto e deixando os cabelos levemente compridos caírem e encobrirem seu semblante. Soltou o ar dos pulmões: por mais que o tempo passasse, ainda pegava-se de surpresa com a maldita cabeça de vento do rapaz de cabelos crespos.
Marcel não pode evitar dar uma risadinha.
-Mas tem uma coisa me intrigado ultimamente. Acho que você pode sanar esta minha dúvida... Marcel, certo?
O caminhoneiro concordou com a cabeça. O buldogue latiu roucamente e balançou a cauda aparada, ao ouvir o nome do dono ser pronunciado.
-Pode falar, rapaz. –o homenzarrão ajeitou o boné, enquanto mantinha os olhos na estrada.
-Até nós despertamos nossas Chamas e aprendemos como utilizar as armas seladas, apenas os Sucessores tinham o conhecimento sobre esta propriedade de energia. Mas pelo que vejo agora, não só nossos inimigos também podem manipulá-las como também existem equipamentos específicos...
-Bem, houve um boom tecnológico no submundo há um tempo. Acho que foi mais ou menos na época em que o governo começou a trabalhar com a divisão da FEAR. –Kiba e Zatch ficaram em silêncio, sentindo a tensão percorrer seus ombros. –Não posso informar realmente de onde partiu o desenvolvimento de tudo isso, mas quando percebemos, fornecedores de armas já estavam trabalhando com as tais “armas seladas sintéticas”.
-Sint... Sintéticas? –o espadachim questionou, sem entender direito.
-Artificiais. –Marcel completou, olhando para Kiba pelo pequeno espelhinho que ficava no teto. –E ao que parece, não são tão poderosas quanto a de vocês.
O rapaz moreno portador da Chama da Tempestade soltou uma exclamação audível até demais.
-Ahn, agora entendo porque eles querem meu Okami e o resto de nossas armas...
-Não é só isso, –Zatch remedou o amigo- eles provavelmente também estão atrás do conteúdo da Urna. Se só as Armas Seladas sintéticas de alguma forma já causaram esse desenvolvimento todo, imagine se eles conseguissem o outro presente que os Anciões nos deram.
Quase de imediato, a imagem da pequena caixinha fina e negra nas mãos do Chefe da família veio à mente do espadachim.
-Temos que fazer alguma coisa, cara.
-E vamos. –o estrategista fez um movimento afirmativo com a cabeça, resoluto. –Mas primeiro, temos que tirar o Dudu dessa enrascada.
Aterrissou, após utilizar a propulsão de Chamas do Céu que saíam debaixo das chuteiras para amortecer o pouso. Os pés tocaram a grama, enquanto ele estava exatamente no centro do círculo pintado de campo. O local estava completamente escuro, tirando a luminosidade do fogo-fátuo que queimava alaranjado na testa do rapaz. Seus olhos cor de âmbar cristalizado encaravam os arredores, enquanto os punhos revestidos pelas luvas de goleiro mantinham-se cerrados.
O silêncio cobria todo o local como uma praga.
Quando ganhara altitude assim que havia conseguido escapar da Torre do Vigia, sentiu algo o chamar. Uma provocação. Como se a Chama de Letícia Gallardo estive queimando em algum lugar esperando para desafiá-lo. Seguiu essa sensação, cortando o espaço aéreo da cidade, até chegar àquele local.
ARENA. O estádio de Futebol da cidade.
Dudu respirou fundo. Não havia sinal de movimentação, desde as grandes arquibancadas até os portões de acesso ao campo. Sabia desde o começo que estava caindo de cabeça em algum plano sórdido daquela mulher, mas esperava pelo menos encará-la frente a frente. Não importava que fosse uma armadilha, desde que pudesse acabar com ela de uma vez por todas.
-Está com medo, Gallardo? –resmungou para si mesmo, em um tom seco.
Então, subitamente, os grandes painéis de luzes fluorescentes do estádio se acenderam causando um lampejo que obrigou o Guardião do Céu a cobrir o rosto pela intensidade. Todo o gramado ficou iluminado, mostrando as linhas brancas que demarcavam o campo e as traves nas duas extremidades.
Com passos lentos, ela começou a se aproximar. O cabelo tingido de vermelho estava preso em um rabo de cavalo, sem deixar nenhuma mecha cair sobre o rosto. Usava uma calça branca bastante justa, que valorizava os quadris e encobria parte do Converse cano longo preto que calçava seus pés.
A blusa tinha manga comprida, embora deixasse os ombros e parte das costas nus. Os seios eram encobertos por uma parte do tecido que se trançava no pescoço da mulher, tendo toda a peça um caráter monocromático: as mangas eram brancas e o resto da peça negra. As unhas combinavam com a parte de cima da indumentária, enquanto uma maquiagem básica realçava seus olhos castanhos e seus lábios pintados em vermelho.
-Já estava cansada de esperar por você. –falou Letícia, em tom audível, assim que pouco mais de sete metros a separasse de seu adversário.
Uma quantidade massiva de energia laranja tomou conta do corpo do Chefe dos Vongola, o envolvendo como uma aura e criando inclusive uma pequena pressão na atmosfera ao seu redor. As folhas de gramínea se remexiam de um lado para o outro, violentamente.
-Espero que tenha aproveitado a espera. Porque foram estes os últimos momentos de sua vida. Vou te matar, Gallardo.
-Pensei que você fosse do tipo que não curtia violência, rapaz.
-Vou abrir uma exceção especial para sua execução, depois de tudo o que você fez. –as palavras duras acompanharam o movimento de erguer o punho fechado, enquanto toda aquela quantidade absurda de Chama começava a convergir e se concentrar na luva de goleiro. –Não me importo com as consequências deste ato. Você vai pagar seus pecados, aqui e agora.
Ela continuou com aquele sorriso impróprio, aquele ar de superioridade. Puxou a manga que cobria o braço esquerdo para cima, revelando a jóia prateada com os cristais de gelos de penduricalhos.
-Exceção? Sua cabeça-dura te levará à derrota inevitável, Vongol...
Mas ela se calou, ao perceber que ele realmente não estava ali para conversar. Dudu rapidamente juntou toda aquela quantidade de energia na mão direita erguida e abriu a palma, transformando-a em uma esfera de energia instável que liberava uma grande quantidade de luz e calor.
-X-Charge.
Fez um movimento com o braço para cima, de forma que a esfera se desprendesse da luva e ganhasse alguns centímetros de altura. Firmou a perna esquerda, dobrando levemente o joelho da mesma, enquanto o tronco ficava levemente arqueado. Projetou então o pé direito para trás, criando quase um ângulo reto entre as duas coxas.
Um chute de alta potência na direção da mulher. A esfera de Chama do Céu rasgou o ar em alta velocidade, ficando até mesmo disforme devido à pressão aerodinâmica.
Explodiu ao atingir algo sólido, liberando uma imensa quantidade de energia expansiva juntamente com poeira. Dudu voltou a ficar com os dois pés no chão, com os olhos alaranjados fixos no local onde antes estava Letícia Gallardo, e que agora era apenas uma cortina de sujeira se dissipando. Mas o rapaz não se enganou quanto aquilo. Sabia que um ataque daqueles não era o suficiente para derrubar sua oponente.
E de fato, ele estava certo.
A enorme concentração de Chama do Céu alaranjada, liberada de uma vez, criou uma lufada de vento que afastou por completo a cortina de poeira. A energia circulava Letícia violentamente, lhe cobrindo como uma coluna de fogo, enquanto ela mantinha os braços cruzados segurando uma pequena criatura.
Dudu trincou os dentes. Achou inacreditável que ela repelira sua investida simplesmente liberando sua arma selada.
A pequena criaturinha nos braços da Chefe da família Gallardo tinha o focinho curto e a pelagem branca, com enormes orelhas triangulares eretas e uma cauda felpuda. Seus pequenos olhos fechados estavam com a aparência de fendas, enquanto ele preguiçosamente bocejou abrindo a mandíbula, mostrando os dentes perfilados e brancos.
-Se quer uma valsa, rapaz, tem que dançar conforme a música. –disse ela por fim, soltando o Feneco no ar enquanto o pequenino ser começou a brilhar violentamente, absorvendo toda aquela quantidade de Chama.
O Vongola não perdeu tempo e decidiu contra-atacar antes que a arma se projetasse em sua forma liberada. Liberou uma forte propulsão das chuteiras, o que fez o rapaz planar e vencer a distância que separava os combatentes em quase um piscar de olhos. Avançou com o braço estendido para golpear a mulher, mas ela era ágil. Com uma flexibilidade fora do comum, a mulher de cabelos vermelhos envergou o tronco para trás, dando passos com as pernas trançadas e escapando por pouco do golpe. Dudu colocou uma das pernas para frente e aumentou a propulsão para parar a aceleração, mas ficou no alcance de levar uma cotovelada no estômago pela mulher.
O rapaz retraiu um dos braços junto ao corpo, bloqueando o golpe físico de Letícia. Ela então esticou o braço e resvalou os dedos na própria arma selada, prestes a tomar forma e recuou com um pequeno salto.
Ao cair, a Rainha manuseou o imenso cabo cor de ébano para trás do próprio corpo, sorrindo. Na extremidade voltada para baixo, uma curva e reluzente lâmina de foice prateada, ornamentada com argolas e desenhos alegóricos celestes forjados no metal. Dudu, que ainda estava planando no ar, respirou fundo: luta corporal contra armas de corte, ainda mais aquela que tinha um alcance estendido, tornava tudo mais complicado.
Ela girou a arma, segurando-a com as duas mãos, em seguida, à frente do tronco. Novamente, aquele ar de superioridade tomava conta de seus belos traços faciais.
-Parece preocupado, Vongola.
Ele ergueu os punhos, as Chamas do Céu que saíam da chuteira o mantendo alguns centímetros acima do solo. As luvas logo ficaram brilhando em laranja, enquanto o foco de energia em sua testa parecia aumentar a intensidade de queima.
-Venha. –os olhos cor de âmbar cintilaram de agressividade.
A gargalhada cruel dela ecoou pelos ouvidos de Dudu, enquanto ela arrastava a imensa lâmina no chão e corria na direção do rapaz. Ele esperou até o momento certo e, quando ela ergueu o longo bastão para que a lâmina executasse um corte na diagonal, o Guardião do Céu explodiu uma pequena quantidade de Chama laranja. Isto lhe deu propulsão para um salto mortal, no qual ele jogou as pernas para cima e levou o braço para trás, pronto para acertar um soco na fronte de Letícia,
Mas ele não previu o que ela faria a seguir. A mulher deixou a arma lhe escapar por entre os dedos, fazendo com que o cabo escorregasse centímetros enquanto a mesma se agachava dobrando as pernas. As mãos dela ficaram quase na ponta do cabo, o que proporcionou um aumento no raio de alcance da foice assim como uma maior facilidade de rotação. E foi o que ela fez.
De ponta cabeça, Dudu cruzou os braços e liberou uma pequena carga de Chama do Céu no exato momento em que a lâmina colidiu com o seu corpo. Ficou pasmo com a força que aquela mulher tinha, porque o simples choque da arma fez com que ele voasse alguns metros para trás, rodopiando.
Parou, levemente atordoado, enquanto desativava a propulsão e caia cambaleante no chão, de costas para adversária. Quando girou nos próprios calcanhares, arregalou os olhos: Letícia novamente havia se aproximado com uma explosão muscular, erguendo a grande arma acima da cabeça e projetando um golpe vertical descendente.
O Guardião do Céu pulou para trás de sobressalto, sentindo o ar zunir a poucos centímetros de seu corpo.
O jeito de ela lutar lembrava muito Karoline. Grande força física, arma desajeitada, porém utilizada com maestria, ataques fulminantes. E isto assustou o Chefe. Esperava de Letícia um estilo mais refinado, menos brusco, algo que pudesse ser vencido com movimentos rápidos.
Mas pelo visto, ele teria que utilizar todas as suas técnicas e manobras para derrotar a Rainha. E, como experiências passadas lhe demonstraram, não era uma boa idéia ficar planando contra uma oponente com tamanha força bruta.
-Pensei que enfrentaria uma patricinha de nariz empinado... Mas acho que me enganei. –o sorriso era para tentar esconder o nervosismo crescente, mas Dudu estava falhando severamente neste quesito. Novamente, dois focos de energia tomaram conta das luvas de goleiro.
A mulher de cabelos vermelhos girou a foice com um dos braços, como se a arma tivesse perdido metade do peso, apoiando-a por fim em um dos ombros nus, com seu tom de pele extremamente claro.
-E eu pensei que teria um pouco mais de diversão aqui...
O rosto dele ficou sério novamente.
Com a energia que tinha nas mãos, Dudu criou duas esferas de energia, arremessando-as na direção da adversária com movimentos amplos. Letícia manejou a foice em círculo, rebatendo os projéteis para os lados. Ao atingirem o solo eles explodiram levantando grama e pedaços de terra, assim como liberaram explosões de Chama do Céu. Após executar os disparos, o Chefe correu na direção de Letícia, tentando lhe dar uma joelhada, aproveitando que ela ainda estava terminando a sequência.
Letícia colocou o bastão de ébano à frente, barrando o golpe. Dudu complementou juntando as mãos atrás da cabeça e desferindo em direção à inimiga. Ela novamente deslizou a mão pelo cabo da arma, subindo e deixando uma próxima à outra. Abriu a palma de uma das mãos e conseguiu segurar, em seguida jogando o corpo para trás e girando os braços.
O Chefe apenas pode observar atônito o contra-ataque aplicado que o derrubou de costas para o chão. Sentiu o ar sair dos pulmões subitamente, o que fez ele arquejar e fazer uma careta de dor. A Gallardo logo tratou de endireitar a postura. Mas antes que pudesse executar mais um ataque, Dudu havia afastado os braços.
-Clarion of Mercy!!!
Bateu uma palma contra outra, com força, enquanto as mesmas tinham uma fina camada de Chama do Céu. O impacto liberou um pequeno campo irregular e esférico ao redor do rapaz, cuja simples pressão repeliu a Rainha para trás alguns metros. Ela praguejou.
Dudu voltou a se levantar, primeiro erguendo as pernas e depois forçando o tronco para cima de uma vez. Caiu em pé, novamente erguendo as luvas de goleiro. Socou uma das mãos na outra palma aberta, enquanto o foco alaranjado oscilava queimando no centro de sua testa.
Algo, no fundo de sua mente, o preocupava.
Antes, podia sentir a força da Chama de Letícia Gallardo a quilômetros. Mas agora, com exceção do momento em que ela transformara o feneco em foice, ele não conseguira mais sentir qualquer fonte de Chama do Céu provinda da mulher. O que aquilo significava?
Ela avançou novamente, os olhos castanhos brilhando de excitação. Suas passadas começaram a entrar em ritmo com os golpes curtos da foice, com uma mão segurando o cabo cilíndrico próximo a lâmina e a outra na ponta oposta. Dudu se vira obrigado a recuar passo por passo, bloqueando a arma antes que a lâmina o atingisse ou desvencilhando o corpo para fora da trajetória. Percebeu que estava se aproximando de um dos limites laterais do campo e que logo ficaria acuado. Não era um bom sinal.
Esperou o próximo golpe e, ao invés de se locomover para trás, jogou o corpo para frente. Utilizou o antebraço para aparar o cabo da foice, ficando a pouco mais de um palmo separado de Letícia. Tentou aplicar um golpe reto com o punho direcionado contra o nariz dela, mas a mulher foi igualmente ágil no raciocínio. Deixou-se cair para trás, jogando o peso do corpo em direção ao solo pelas costas, enquanto manteve o bastão negro da foice reto e seguro por uma das mãos. Quando estava no ângulo certo, ela puxou a arma para trás com força.
O Vongola teve tempo apenas de envolver uma quantidade razoável de Chamas na mão esquerda e proteger a nuca com as costas dela. Contudo, não fora rápido suficiente e sentiu algo quente escorrer pelas costas enquanto jogava o corpo para o lado para se desvencilhar.
A ponta prateada e curva havia lhe aberto um corte no meio do pescoço, deixando o sangue vermelho manchar a camisa pólo do rapaz.
Ele se afastou, sentindo arder o ferimento quase na linha dos ombros, colocando uma das mãos no local. Retirou-a em seguida e olhou-a, vendo um riste vermelho cortar o tecido da luva. Voltou as íris alaranjadas na direção da oponente. A Rainha apoiara a foice no chão, com a lâmina voltada para cima, enquanto segurava com o braço estendido. A mão livre ficou a frente da boca por um breve momento, enquanto ela ria novamente de forma cruel.
-Finalmente minha espera chegou ao fim. Marisa disse que era um plano medíocre, que vocês não cairiam nele, mas... No fim, todos os bons moços são passionais. É o que eu penso. -Dudu bufou. O sangue vermelho começava lentamente a molhar sua camisa. — Eu sabia que viria até mim, Eduardo. Sabia que procuraria minha cabeça após todos esses eventos. Confesso que não esperava ver alguém com a cabeça fria e aguçada em estratégia no seu time de perdedores...
O Guardião da Chuva pairou na mente de ambos, sua imagem calculista e empirista.
-Eu tinha o contato da Sucessora da Névoa por negócios anteriores. Logo foi fácil fazer um acordo e lhe tirar da Torre. Lógico, tive que manter seus Guardiões afastados com minhas distrações, mas isto não foi difícil. Em matéria de chamar a atenção, alguns deles são realmente bons...
-Não há necessidade de nenhum deles agora! Eu sozinho sou suficiente para lhe destruir por completo, Gallardo!!! –vociferou o jovem, enquanto novamente começou a liberar uma quantidade incrível de Chama do Céu por todo o corpo.
A Rainha não se abalou com essa fútil demonstração bélica. Pelo contrário. Estava se divertindo com aquilo tudo.
-Mas é claro... Você vê isso como o que realmente é: uma Battle Royale, um Combate entre a Nobreza. De certa forma, tudo está em jogo aqui hoje. Você dando cabo da minha vida aqui e agora, de fato, a Gallardo será obrigada a recuar por perder sua líder nesta operação. Enquanto se, eu vencer e lhe tornar meu prisioneiro, a arma selada do Céu será minha. Além de ganhar uma poderosa moeda de troca, caso eles queiram negociar a vida, posso partir para outra possibilidade: obliteração total da Décima Geração da Família Vongola.
Dudu arregalou os olhos. Letícia limitou-se a sorrir, o batom realçando seus dentes brancos.
-Pois com sua arma, meu caro Eduardo, eu me tornarei invencível.
O Chefe não aguentava mais aquela pose arrogante por parte daquela mulher. Ela havia feito mal a tantas pessoas, causado morte e destruição, e levado tudo a um caminho sem volta. Casagrande estava morto, Yure levaria alguma punição severa por parte dos Sucessores e até mesmo a família havia se desmantelado por causa dela. Sua família. Se a Gallardo nunca tivesse existido, desde os anos que já haviam passado, provavelmente eles nem teriam que ter cogitado a possibilidade de separação. Não haveria mágoas, intrigas... Traições...
Um fato curioso acerca do Impulso Sísmico, essa forma que se manifestar da Chama do Céu que tem passado de geração em geração aos Chefes da família Vongola, é que, como dito antes, ela é um multiplicador da capacidade física dos usuários, e que reflete muito da verdadeira personalidade da pessoa. Contudo, existe alguns agravantes, o que se pode chamar de efeitos colaterais: é algo muito ligado ao estado de espírito. Fácil dizer até que também é um fator que potencializa as emoções. Se a pessoa está calma, controlada e decidida, torna-se um lutador perfeito para situações complicadas. Nada abalará seu emocional.
Contudo, se o coração do mesmo estiver cheio de raiva, confusão e ódio... A pessoa perde completamente o raciocínio de uma pessoa sã.
E, bem, acho que o resto já se pode imaginar.
Os olhos de Dudu cintilaram perigosamente quando ele encarava a mulher. A Chama em sua testa aumentou de tamanho, quase o dobro, se tornando uma labareda instável. Letícia posicionou a longa arma à frente do corpo, deixando a lâmina voltada para baixo refletindo as potentes luzes artificiais do estádio.
O rapaz liberou uma forte carga de energia laranja na base das chuteiras de uma única vez, criando duas fissuras enormes no campo de futebol e rapidamente ganhando altura no ar. Uma forte torrente de Chama alaranjada percorreu seu braço e ele criou uma nova esfera de energia, esta com, no mínimo, o dobro de tamanho e muito mais instável que as anteriores. Soltou-a no ar, enquanto girava o corpo e impulsionava o movimento liberando uma quantidade de Chama para propulsão. O movimento criou um arco de luz laranja brilhante enquanto ele virava de cabeça pra baixo em pleno ar.
-X-CHARGE!!!!
Executando a “bicicleta”, ele atingiu com a potência de um canhão a esfera de energia. Ela viajou em linha reta na direção de Letícia, que fez uma expressão de descontentamento.
Letícia bradou pelo esforço, enquanto utilizava a própria arma para se defender. Terminou que a lâmina prateada cortou a esfera ao meio com precisão, separando as duas partes e deixando que as mesmas caíssem por terra logo ao lado dela. A Rainha teve que saltar para trás e por um triz não foi pega na explosão de energia, que levantou mais um paredão de poeira e causou sérios danos ao gramado.
Um trovão ecoou em algum lugar distante. A chuva não tardaria em recomeçar.
-Muito bem, isto está começando a ficar repetitiv... –ela começou a murmurar para si mesma, quando o oponente atravessou a nuvem de poeira pra cima dela em uma velocidade impressionante. Um relance de susto trespassou os olhos castanhos da mulher.
“Ele está consumindo uma quantidade incrível de Chama para conseguir arrancar esses lampejos de alta velocidade no ar... Impressionante”, pensou ela, quando erguia o braço e bloqueava o soco do Vongola.
O punho enluvado estava coberto de Chama do Céu, logo Letícia sentiu a pele queimar e a roupa ficar enegrecida pelo calor. Uma nuance de dor colorou os traços daquele belo rosto, enquanto Dudu quase de imediato emendou mais um ataque. A mulher deu um passo lateral ligeiro, deixando que o braço de Dudu passasse próximo ao seu busto riscando o ar com a luminosidade alaranjada. Letícia tentou um contra-ataque, enquanto segurava a foice com a mão direita, mas não deu tempo: o Chefe da Vongola já seguia com outra investida, erguendo o cotovelo do braço direito na direção do estômago da Rainha.
A ruiva chiou, executando então uma manobra arriscada. Largou a foice no ar e girou o corpo em sentido horário, passando pela lateral do rapaz com leveza nos pés. Ergueu a perna direita no ritmo do movimento e, quando Dudu passava ao seu lado com a guarda completamente aberta, ela lhe atingiu o centro das costas dele em cheio com um chute giratório por fora.
Como o jovem de cabelos castanhos curtos já estava embalado pela velocidade, se desequilibrou e caiu rolando no chão, a roupa ficando salpicadas pelas folhas verdes da grama.
Letícia estava com a respiração um pouco irregular, e ergueu o braço ferido. Fez uma rápida averiguação do estado do membro, para em seguida ir caminhando lentamente até onde sua foice havia caído. Dudu ainda se levantava sentindo a marca do tênis Converse da mulher doer em suas costas. Estava agachado, os joelhos no chão e os braços apoiando o corpo. A Chama laranja que queimava em sua testa diminuiu de intensidade e pequenas gotículas de suor escorreram do seu rosto.
-Você é um pouco problemático, garoto. –ela ajeitou uma das mechas vermelhas que haviam escapado do rabo de cavalo, graças a toda aquela movimentação repentina, colocando-a atrás da orelha. Ela graciosamente se abaixou, segurando o bastão de ébano entre os dedos, e erguendo-se novamente. Jogou os quadris para o lado, apoiando a mão livre na cintura, enquanto deixava a foice em pé com a lâmina tocando o solo, virada ao contrário. –Confesso que estava achando toda esta situação divertida, mas acho melhor acabar a brincadeira.
Dudu se levantou meio zonzo, encarando-a com os olhos alaranjados e a expressão dura. Mostrou-lhe os dentes, irritado.
-Ainda só estou me aquecendo.
Letícia fez uma expressão zombeteira, olhando para cima por puro deboche.
-Hm, ok, valentão. Então acho que é hora de eu realmente começar a lutar a sério. Mas aviso: posso acabar com você em um único golpe se você for descuidado.
O Chefe dobrou levemente as pernas e a Chama voltou a crescer em sua testa. Sentiu o desgaste lhe acometer por um momento, mas ignorou tal fato por pura teimosia. Novamente, as solas das chuteiras começaram a emitir um brilho peculiar. Ele abriu um pouco o ângulo de ambos os braços, enquanto focalizava mais Chamas alaranjadas nas luvas.
-É o que veremos, Gallardo.
Com a nova propulsão veloz, ele atravessou o campo deslizando e criando um rastro de poeira e chão queimado. Letícia dessa vez se manteve parada, apenas ajustando o pulso para um único movimento ascendente com a ponta da foice no momento certo. Ele estava se aproximando cada vez mais, sabendo que ela iria tentar um movimento frontal.
Tudo iria correr em questão de segundos. Ela atacaria frontalmente, Dudu usaria a palma de uma das mãos para liberar uma veloz propulsão lateral, para lhe executar um chute no flanco desprotegido.
Quando ele se aproximou, ela começou a erguer a foice em alta velocidade. Dudu ergueu o braço esquerdo e preparou para se esquivar do golpe...
De uma só vez, a temperatura da atmosfera ao seu redor parecia ter caído vinte graus. O metal prateado da arma dela emitiu um fantasmagórico brilho alaranjado em uma poderosa torrente de energia. A Chama do Céu de Letícia, que antes havia simplesmente desaparecido, ressurgiu e envolveu Dudu como um par de asas da morte. Perante aquele poder, era impossível não sentir o coração fraquejar.
Ele tentou escapar, mas não fora rápido o suficiente. Apenas pode ouvir a voz forte e resoluta da mulher murmurar, enquanto ela encarava o rosto do Vongola com seus olhos castanhos.
-Heladas en rojo...
Um clarão acometeu o Guardião do Céu, quando ele sentiu a lâmina resvalar em seu braço e a pressão violenta exercida pela Chama da Gallardo o arremessar para cima como uma ventania. Ele sentiu-se completamente sem ação, enquanto erguia-se no ar com os braços abertos e ia lentamente caindo em direção ao solo. O corpo havia parado de responder. Até o foco alaranjado que queimava em sua testa havia se extinguido por completo. Sentia o corte profundo que ela havia feito em seu braço queimar, mas ao mesmo tempo ondas de choque percorriam o membro. O que era aquilo?
Caiu violentamente de costas no chão, imóvel. Vislumbrou por um momento o céu negro, antes de tossir e virar para onde a adversária continuava parada, agora apoiando com uma única mão a enorme arma no ombro.
Os olhos alaranjados não conseguiam acreditar no que estavam vendo.
A grama ao redor da mulher estava coberta com uma fina camada de geada branca, cristalizando as pequenas folhas verdes. A ponta da lâmina da foice, que antes estava levemente vermelha pelo sangue do jovem Vongola, agora estava com uma tênue crosta bordô. Assustado, Dudu resolveu com muito esforço erguer um pouco o tronco e encarar o braço atingido.
Estava completamente envolvido por uma grossa camada gelo, tendo um enorme corte na parte do braço próxima o ombro. Mas o sangue nem sequer fluía, preso pelo bloco maciço e irregular. Tudo tentou levantar, mas o membro congelado agora fazia o rapaz afundar no chão. Letícia começou a lentamente se aproximar, ainda apoiando o bastão no ombro nu.
-Harmonia. –ela começou a dizer pausadamente, enquanto o aturdido rapaz tentava ainda se levantar do chão sem sucesso nenhum. –O atributo correspondente à Chama do Céu, que compreende a união dos Seis Espectros de energia. Ela pode nulificar o efeito de outras Chamas, por isso reza a lenda que todos os Chefes da família Vongola teriam que ser usuários da Chama do Céu.
Dudu olhou com raiva para ela, a tonalidade âmbar de seus olhos começando a desaparecer e dando lugar ao castanho escuro habitual. Ele precisava se concentrar para manter o Impulso Sísmico ativado, mas a dor lacerante e a ardência não estavam ajudando em nada.
A mulher continuou falando.
-Mas... Parece que existem pessoas que nascem com características especiais. Não bastasse a raridade de alguém vir ao mundo como um portador da Chama do Céu, existem pessoas que vêm com uma “anomalia”... Um tipo muito especial de energia: uma com propriedades de congelar a Chama e a matéria ao seu redor. –ela se agachou, ficando de cócoras e apoiada nos próprios calcanhares. Apontou para si mesma, sorrindo. –Como você pode ver, eu sou uma delas... Se quiser fazer uma metáfora, eu de fato possuo sangue azul. Como uma verdadeira Rainha.
O rapaz tentou golpear a mulher com a mão que estava desobstruída, mas ela simplesmente deu um tapa no antebraço dele e o Vongola voltou a cair no chão sem equilíbrio nenhum.
A mulher se levantou e baixou a foice, deixando a parte cega da lâmina sobre o pescoço de Dudu. Uma fraca onda alaranjada tomou conta da arma, e o jovem Vongola sentiu a temperatura ao redor do metal novamente baixar. O ar que saía de sua respiração, inclusive, saiu esfumaçado.
-Slan, Vanessa. Venham pegá-lo.
Passos na grama vindos de duas direções distintas. O rapaz tentou virar a cabeça, conseguindo enxergar apenas dois vultos se aproximando. Reconheceu o Sentinela do Trovão, com seu porte imponente e a pele morena, vestido com um blazer azul-marinho e uma camiseta social por baixo. Na diagonal oposta, vinha a jovem de cabelos castanhos penteados para trás e presos por um arco negro. Ela vestia um casaco jeans sob uma camiseta negra folgada.
Sua voz era de puro desinteresse.
-Mas, Rainha, a arma selada dele ainda está ativada. Precisamos que ele corte o fluxo de Chama para que ela volte a ficar na forma de jóia.
Letícia respirou fundo, irritada. Ficou balançando o metal frio próximo ao pescoço do Vongola, enquanto com a mão livre colocou o indicador encostado no próprio queixo.
No chão, o ferido tentava se levantar. Mas aquele peso no braço o estava atrapalhando. Esse gelo... Havia alguma forma de liquidá-lo? Tentou concentrar-se e ignorar o que estava acontecendo em volta. Cerrou os olhos, deixando que a conversa de Letícia e seus subordinados pairasse em um algum lugar distante. Em pequenas quantidades, foi forçando a Chama do Céu de dentro do próprio corpo em direção ao braço ferido. Sentiu a energia fluindo por dentro de seu organismo.
Pouco a pouco, a dor foi anestesiando. Começou a sentir o ferimento aumentar a ardência, mas era quente. Podia sentir o sangue começar a fluir do corte, acompanhado das pequenas quantidades de água de degelo.
Então, mesmo que a habilidade de Letícia consistisse em congelar Chamas e coisas sólidas, era apenas algo momentâneo. O “gelo” criado não tinha qualquer propriedade especial, portanto podia ser derretido. O rapaz começou a aumentar o fluxo para descongelar mais rápido.
-Rainha... –Vanessa disse, calmamente.
Dudu soltou um ganido de dor sufocado quando sentiu o pé de Letícia afundar em seu estômago. Ele arregalou os olhos, agora novamente com a coloração âmbar, e cuspiu um pouco de saliva para cima por ato reflexo. Uma fina camada de água molhou a grama onde o braço envolvido de gelo estava estirado.
Letícia manteve o tênis apertando a barriga do Vongola, com os olhos frisados. Um novo trovão sacudiu o horizonte negro acima da cabeça de todos.
Lenta e solitariamente, algumas gotas começaram a cair no gramado do campo. Não demorou muito e a chuva começou a cair pesadamente. A mulher de cabelos tingidos soltou um audível palavrão, pisando ainda mais forte no inimigo caído, para descontar a raiva.
Ela soltou o cabelo do rabo de cavalo, revelando as mechas vermelhas, que lentamente começaram a ficar molhadas e a encaracolar. Seu penteado estava genuinamente arruinado.
-Como estão as redondezas? –ela encarou severamente a Sentinela do Sol, que fechava o casaco jeans por causa do mau tempo.
Vanessa fez um muxoxo e fechou os olhos. O silenciou pairou durante alguns minutos, enquanto Dudu tentava sair do solo que começava a criar lama.
-Sinto um usuário de Chama da Névoa em atividade, mas... É distante. Não posso afirmar se é um dos nossos, realeza, contudo é evidente que está distante demais para interferir aqui. -O som da chuva ecoava forte nas arquibancadas vazias do estádio quando a subordinada voltou a falar. Os fortes painéis de luzes ainda iluminavam tudo. Slan observou o Chefe inimigo no chão e não pode evitar o sorriso.
Letícia mexeu o calcanhar sobre a camisa já toda suja de Dudu, apertando ainda mais. Fez um movimento gracioso com a mão e a foice completou uma meia volta no ar, enquanto ela deixou o cabo rente ao antebraço e a lâmina voltada para trás, circulando suas próprias costas.
-Ainda precisamos dele vivo... E tendo a arma selada do Céu em mãos, não há porque nos apressarmos. Vamos levar o prisioneiro para o Hotel. Quando a arma voltar ao modo selado, eu o congelarei... Ai eu entrego ele a você e à suas experiências bizarras, Vanessa.
A Sentinela do Sol teve o rosto iluminado por um contentamento sombrio. O Guardião do Céu tossiu, quase se engasgando com a água da chuva.
Slan pegou Dudu pelo braço. Com seu físico, precisava apenas de uma das mãos para erguer o rapaz de estatura baixa e colocá-lo sobre um dos ombros. O Chefe da família Vongola tentou se desvencilhar ou lutar para se libertar, mas estava começando a ficar desorientado. Estava tendo uma enorme dificuldade em manter a concentração com toda a dor dos ferimentos. Tentou novamente fazer o fluxo de energia circular o braço esquerdo, mas parecia que quanto mais tempo o gelo ficava inerte junto ao corpo, maior a dificuldade em concentrar e manusear a própria Chama do Céu.
Slan frisou um pouco os olhos por causa da chuva, jogando as mechas de seu cabelo preto para trás por estarem molhadas. Começou a andar em direção a um dos extremos do campo, onde ficavam os vestiários e a saída, enquanto a Rainha e Vanessa o seguiam de perto.
Enquanto caminhava com passadas decididas, o sapato de couro pisando no campo empoçado, ele arqueou as sobrancelhas. Por um momento pensou ter visto algo fora do comum.
Dudu voltou a se debater e Slan apertou o braço dele, forçando-o a tal ponto que o cotovelo quase foi triturado. O Chefe soltou um fraco lamurio de dor e se entregou de vez, derrotado. Os olhos voltaram a ficar castanhos enquanto ele sentia o braço esquerdo começar a perder a sensibilidade.
O Sentinela do Trovão parou de andar. Havia visto de novo. Algo como uma sombra se movimentando pelo gramado iluminado pelos grandes painéis de luz. Na primeira vez, achou que tinha algo a ver com a chuva grossa que caía. Agora não tinha mais certeza.
Vanessa parou logo ao seu lado, enquanto a mulher de cabelos vermelhos ainda continuava um pouco afastada.
-O que foi, Slan? –questionou a mulher. — Parece até que você viu algum...
E quando ela também enxergou. Já era tarde demais.
Como se materializados em pleno ar, duas figuras apareceram correndo em rota de colisão contra a dupla de Sentinelas. Foi algo tão súbito que eles sequer esboçaram uma reação, apenas ficaram petrificados diante da cena. A Rainha, que estava um pouco mais atrás e mais longe daquela movimentação, foi a que conseguiu expressar alguma coisa além do silêncio de assombro.
Um audível “Filhos da puta”.
-MORRRAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!!!
-AAAAAAAAAAAAAAAAAA MULEQUEEEEEEEEEEE!!!!!!!
A morena de cabelos encaracolados e de casaco de brim branco executou um chute aéreo direto, esticando a perna direita horizontalmente e dobrando o joelho da esquerda. Atingiu em cheio o centro do tronco da sensitiva de Chamas e a arremessou alguns metros para trás.
O rapaz moreno de regata preta e encharcada utilizou do filete de água que cobria parte do campo em que ele se encontrava, graças ao temporal que caía, e deslizou com a lateral do corpo. Espirrou lama misturada água por onde passava, chegando no último momento para erguer o corpo junto a perna em um movimento giratório ascendente. A ponta do pé atingiu em cheio o queixo de Slan, que rodopiou no ar aturdido e deixou o Chefe da família cair com um baque seco no chão.
A dupla de recém-chegados parou lado a lado. A jovem tinha um dos olhos oculto pela franja diagonal do cabelo, enquanto as mechas perdiam as curvas devido ao peso da água acumulada. O outro ajeitou a bandagem rudimentar branca meio frouxa que envolvia a própria testa, em seguida chacoalhando os braços e pernas para tentar tirar um pouco da sujeira de seu último movimento.
-Mas que porcalhada você fez, aniki. –ralhou Karoline, jogando parte do cabelo que estava sobre um dos ombros para trás com um movimento das mãos.
-A gente não pode ter medo de sujar as mãos, véi. –brincou o espadachim, agora desprovido de sua katana que havia se partido.
O Sentinela do Trovão vociferou de raiva, quando algo esbarrou no seu ombro de forma dolorida, quase o derrubando novamente no chão. Ele virou-se para ver o que havia o acertado e constatou que o Guardião do Trovão da família Vongola havia atravessado seu flanco e passado o braço sadio de Dudu meio grogue em volta do próprio pescoço, segurando o amigo enquanto uma das mãos mantinha posse do martelo de batalha Mjiolnir.
-G-göbel... –gaguejou Dudu.
-Essa chuva nunca perdoa, que merda. –respondeu com a voz forte o outro, com um sorriso sarcástico.
Letícia manejou a foice em posição de ataque, colocando o pé direito em frente para avançar contra os inimigos. Então alguém se projetou a alguns metros à sua frente, entre ela e a Sentinela do Sol caída, ainda atônita com a mão no local atingido pelo golpe.
O sujeito derrapou um pouco no solo com as pernas abertas em arco e levemente arqueadas. Enquanto ainda planava sob a fina camada de água que cobria o gramado, o rapaz deu um sorriso quase de contentamento enquanto seu jaleco esvoaçava devido à movimentação. Seus olhos semi-cerrados de sono abriram-se por uma fração de momento, enquanto sua mão velozmente foi de encontro ao estojo branco preso à coxa esquerda por cima da calça. Deste, ele retirou habilmente com os dedos uma quantidade razoável de agulhas compridas com as pontas brilhando em dourado.
A Rainha teve que usar toda a força muscular para travar a aceleração e saltar para trás, escapando por pouco da chuva de agulhas douradas que se fincaram no solo. Mas ela ainda não estava segura. Alguém havia saltado junto com ela paralelamente. Ela virou o rosto, os cabelos encaracolados dançando em espiral com o movimento. No meio dos borrões causados pelas pesadas gotas que caíam em abundância, um borrão negro estava acompanhando a mulher em pleno ar. Os braços estavam cruzados e ela pode distinguir brilhos metálicos entre os dedos do homem.
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-Scarlet roses! -as lâminas riscaram o ar em linha reta, deixando linhas incandescentes rubras pela trajetória em que voavam.
A mulher não tinha como se esquivar no ar, então girou a foice de cabo escuro à frente do próprio corpo. Contudo, não conseguiu repelir todos os projéteis. Ao aterrissar no chão de volta, agachou-se, sentindo sangue escorrer de um corte raso no pescoço e outro um pouco mais profundo no ombro direito. O vermelho se dilua na água que despencava dos céus, perdendo a tonalidade e se espalhando mais rápido pela pele branca da Rainha.
O homem que a ferira caiu agachado e, com a mão, jogou parte do sobretudo negro que trajava para trás. Em seguida, retirou mais duas facas que estavam escondidas sob as vestes. Seus olhos azuis estavam com fome por sangue, enquanto o cabelo loiro-escuro gotejava o excesso de chuva.
-E se não é verdade... –ele disse, lambendo a ponta da faca e abrindo um pequeno corte na própria língua.-que até mesmo Deus pode sangrar...
A Gallardo jogou os cabelos vermelhos despenteados para trás de uma das orelhas. Slan e Vanessa imediatamente correram a seu encontro, ficando a frente da comandante de sua família. Em resposta, o grupo de resgate se realinhou para ficar protegendo o Chefe da Décima Geração.
-Eu to com fome... –reclamou Kiba, fazendo uma careta.
Karoline, desta vez, não se deu ao trabalho de dar um cascudo no irmão mais velho. Estava igualmente exaurida. Não sabia de onde estava tirando forças para se manter em pé. Sentiu-se um pouco tonta, e logo Douglas serviu-se de apoio, passando a mão por trás das costas da garota. Ao presenciar a cena, os olhos azul-cinzentos de Kiba faiscaram de raiva.
-Não se esforce demais. –o assassino da ENEO sussurrou, logo depois da Guardiã da Nuvem o afastar gentilmente com a mão espalmada no peito.
Letícia vociferou, a voz sendo abafada pelo barulho incessante do temporal.
-Explicações, Vanessa. Agora!!!
A subordinada sentiu um arrepio na espinha ao ouvir atrás de si o tom nervoso e nada contente da Rainha. Isto porque, ela como sensitiva, sabia muito bem o quanto de poder continha aquela mulher. Só por isso a respeitava e a temia.
-Eu... Eu não entendo, minha senhora. Eu não estava sentindo nenhum foco dessas pessoas até elas se materializarem à nossa frente como fantasmas!!! –pelo assombro da Sentinela do Sol, Letícia pôde ver que nem ela entendia o que estava acontecendo.
-O maior erro de um grande exército... –disse uma voz fria e controlada, tão calma e aterrorizante quanto uma bomba prestes a explodir- é justamente se achar superior pelo seu número.
Slan fechou-se com o punho erguido, protegendo as costas de Letícia. Ela apenas virou um pouco a cabeça, estreitando os olhos, observando por de trás do ombro. Apoiou a foice no chão, tentando focalizar o dono da voz. Ela sabia muito bem quem era.
Como se uma cortina invisível fosse levantada, mais pessoas foram aparecendo.
O dono da voz estava no centro, com as mãos parcialmente no bolso. Seu braço esquerdo estava enfaixado por bandagens azuis, enquanto a camiseta branca estava praticamente transparente devido a toda aquela chuva. A camisa quadriculada de flanela estava amarrada ao redor da cintura e ele encarava o trio inimigo como um general que acabara de proclamar xeque.
Ao seu lado, mais pessoas. Um homem negro alto, com um imenso Black-power e usando óculos de lentes triangulares que se esticavam para os lados segurava pendurado nas suas costas um rapaz de estatura menor, que parecia meio dopado, com os olhos fechados. Na outra ponta do estrategista estava um casal, uma bela mulher de curvas estonteantes e um loiro musculoso de cabelo curto com a mão em uma das costelas. A outra segurava um moribundo, que ele jogou sem cerimônia no chão.
Quando o corpo caiu, a cartola tombou para o lado. As roupas estavam amarrotadas e o rosto inchado cheio de manchas rochas. Havia resquícios de sangue no fraque, que iam lentamente desaparecendo pela ação da chuva.
Zatch continuou, dando um meio-sorriso.
-Sua família é praticamente um dos maiores poderes bélicos no submundo. Claro, descontando a cúpula de San Dracone. Vocês tem armas que podem conduzir Chamas, réplicas das armas seladas, dinheiro... Posso até dizer que o número de homens suficiente para criar o exército de um pequeno país. Mas... Como eu disse, seu maior erro foi se achar superior só por isso.
Enquanto ele falava, Slan reconheceu que o desacordado aos pés do Guardião do Sol era Marcello. Alguém o havia moído na pancada de forma muito feia.
Letícia se virou na direção do rapaz que lhe dirigia a palavra.
-Você não pode usar seus lacaios aqui na cidade. Tentou em primeiro momento, mas percebeu que isso chamaria muita atenção... E depois do incidente com o edifício do Cavallone, pagar as pessoas para ficarem quietas estava ficando caro demais. Então, seu primeiro trunfo logo foi desmantelado. Teria que agir apenas com sua elite, seus Sentinelas, para pegar nossas armas seladas. E usou uma manobra um tanto infantil, mas teve seu mérito... A única falha foi ter nos subestimado, Gallardo.
-Como chegaram até aqui? –rugiu o Sentinela do Trovão, encostando uma mão fechada em sua corrente de prata. Vanessa copiou o movimento em sua jóia também. Em um clarão bi-colorido, a lança justa do homem e a lamparina dourada com corrente da mulher se materializaram no ar úmido daquele temporal.
Quem respondeu à pergunta não foi o Guardião da Chuva, e sim seus aliados.
-O tio do caminhão lá tinha um rastreador. –Kiba assoviou em seguida, inclinando a cabeça para o lado e dando tapas em uma das orelhas para que a água saísse do outro ouvido.
-O nome dele é Marcel, Kiba. –Douglas frisou os olhos com a frase do espadachim. -E sim, nós da ENEO temos rastreadores de Chamas... Como o Chefe e a Rainha são os únicos que conhecemos com Chamas do Céu, demos um tiro no escuro.
Então, em contra-partida, Xande voltou o rosto para o colega de equipe com uma expressão confusa.
-...Nós temos? Sério? –ao perceber que a atenção de todos havia se voltado para si, o paramédico ajeitou o jaleco e ficou com uma postura introspectiva.- Hm... Isto explica muita coisa. Hm hm.
Um momento de silêncio pela morte da credibilidade do Andarilho da ENEO.
-E nós... bem- o pugilista loiro ajeitou os óculos com as lentes embaçadas pelas chuvas. Seus cabelos de tonalidade clara estavam espetados para cima. –Digamos que seu amiguinho aqui trocou todo o esquema do seu plano para sair ileso do fim da batalha. De fato, concordamos. Nem eu, nem o Göbel e nem o Xande encostamos um dedo nele.
-Claro, -remedou o Guardião do Trovão sem conseguir esconder o sorriso de satisfação. –que em nenhum momento do acordo foi mencionado que a Sara não podia bater nele.
A mulher ao lado de Ricardo ficou com a face tomada por repulsa. A roupa estava meio rasgada, e ela exibia vergalhões vermelhos em algumas partes do corpo, mas nada que a impedisse de estralar os dedos da mão de forma ameaçadora.
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