Beyond The Bounds Of Sky
2 Capítulo 2 - Verdade por trás da verdade
“Ilusões ou ilusões reais. Escondidas nas ilusões estão às ilusões reais. Fora das ilusões reais vêm as ilusões. A verdade esconde mentiras. Mentiras escondem as verdades. Isso é a Névoa!”
-Ditado do Guardião da Névoa
A noite já começava a engolir a cidade por completo, embora Yure soubesse que ela ainda estava muito longe de acabar. Karoline fora apenas a primeira dos Sete que precisava reunir e que ele iria fazer o mais rápido possível. O rapaz fechou o paletó ainda mais contra si, pois o vento começava a piorar enquanto varria as nuvens negras de chuva ainda no céu. Por pouco o chapéu elegante com a fita vermelha não voara com as correntes de ar, fazendo com que o jovem Sucessor respirasse aliviado ao ver seu destino se aproximando.
O prédio de tijolos era antigo, provavelmente um dos resquícios dos velhos tempos industriais da cidade. No beco, havia uma pequena escada que descia para o patamar do subsolo, onde um letreiro luminoso demonstrava que ali se encontrava um bar.
Yure desceu calmamente cada degrau gasto, passando por um casal de motoqueiros mal humorados que pareceu querer comprar briga. Mas só foi ele fazer um movimento gracioso com o terno e mostrar a pistola atada ao coldre no cinto que eles recuaram, fazendo o rapaz sorrir de satisfação ao abrir a imensa porta de madeira.
O ambiente era mal iluminado, embora estivesse cheio de lâmpadas que desciam em hastes penduradas nos tetos. Havia três mesas de sinuca, abarrotadas de grandalhões mal encarados e motoqueiros que jogavam enquanto bebiam garrafas e mais garrafas de cerveja. Com eles Yure preferiu ser discreto e, tirando o paletó e o colocando sob os ombros, se esgueirou até o balcão, onde outro sujeito estava sentado em uma das banquetas encarando o copo vazio sem muita convicção. Mas na verdade seus olhos estavam estreitando a garçonete morena de olhos verdes que estava esfregando as canecas de vidro a poucos passos dali. O Sucessor do Sol sentou entre ela e o rapaz, que suspirou fundo ao reconhecer o antigo amigo.
-Estou atrapalhando algo, Jô? –disse em um tom divertido.
-Essa pergunta foi sarcástica, eu suponho.
Jô era um rapaz um pouco mais alto que o próprio Yure, com a pele clara e os olhos castanhos sob uma expressão bastante despreocupada. O cabelo era curto de forma que a franja do rapaz mal chegasse à metade da testa, os fios finos e de tonalidade marrom escura. Usava uma camisa de manga comprida de um tamanho acima do próprio, o que fazia as mãos serem quase engolidas pelo tecido deixando apenas o dedos sobressaindo, da cor preta com uma imensa listra branca no meio. As calças jeans eram surradas e com as bainhas rasgadas pelo uso excessivo, tão maltratadas quanto o próprio par de all star vermelho que ele calçava. Os olhos de Jô percorreram rapidamente a expressão de Yure, como se já adivinhassem o motivo de tal aparição inesperada.
-Não o vejo muito por essas bandas, Sucessor. –disse em um tom neutro, embora não estivesse afim de ser agressivo ou ríspido.- Veio tomar um gole pelos velhos tempos? Ei, querida, me veja dois copos de Pagod’s Louco no capricho sim?
Ele gesticulou com a mão e falou com a balconista, que em pouco tempo voltou com dois grandes copos de uma bebida arroxeada de onde saía fumaça, efeito causado pelo gelo seco. Ambos agradeceram a moça e o Jô tratou de virar em um gole, enquanto Yure ainda temeroso observava aquela estranha mistura.
-Jônatas, você sabe o porquê de eu estar aqui. –ele deixou o copo no balcão e voltou os olhos para o velho conhecido. O outro rapaz soltou o ar enquanto sentia o álcool queimar a garganta, mostrando-se indiferente ao comentário do Sucessor. Em resposta, Yure contra-atacou. -Me pergunto se foi por isso que você resolveu se esconder nos becos da cidade...
-Pare de falar asneiras Sucessor. – Jô se limitou a repetir o gesto de colocar o copo na mesa e voltou a encarar o antigo aliado nos olhos. — Eu estou aqui porque a bebida é boa, não tem glúten e ainda estou tentando pegar o telefone da garçonete ali faz três dias.
-E qual foi o progresso?
-Ela está dando o maior mole para mim.
Yure fez uma cara de escárnio e Jô se sentiu a obrigação de ir mandá-lo fazer algo impróprio, mostrando o dedo do meio.
-De qualquer forma, eu sei por que você está aqui, Yure. Você disse que nos reuniríamos um dia quando você achasse conveniente... Quem lhe deu o direito de ser tão presunçoso?
-Você foi um dos que apoiou a separação. Porque está jogando a culpa nas minhas costas agora? –rebateu Yure, com um olhar gélido.
Jô se levantou e olhou para o nada, como se lembrasse da última vez que vira todos os companheiros reunidos. Sabia que Karoline e Ricardo, que nunca entenderam o porquê da família ser dissolvida, ainda deviam guardar rancor dos outros pela atitude impensada. Mas o Guardião da Névoa sabia que aquilo não havia sido em vão. Aquela decisão fora prudente, mesmo sendo mascarada em uma mentira.
A verdade estava por detrás da verdade.
Jô pegou o cordão bronze que estava pendurando seu brasão, a Névoa. Refletiu por mais alguns momentos. Sentia falta dos companheiros, aos quais ele aprendera a respeitar e a valorizar pelo longo tempo de convivência, mas também sabia que a Reunião traria os velhos fantasmas do passado e isso lhe preocupava de certa forma.
-Poderei contar com você ou não?
A voz de Yure fora como um puxão de volta à realidade. O Guardião da Névoa voltou os olhos para o Sucessor da Marca do Sol, que mantinha uma expressão interrogativa na face, com o corpo apoiado na bancada. Jô voltou a guardar o brasão por debaixo da camisa, estralando o pescoço de um lado para o outro.
-Pois é. Vai ser divertido voltar a ser perseguido pela Karol e aquela alabarda gigante dela...
-Ela cresceu Jô. Não vai mais se irritar tão fácil.
-E quem disse que eu também não aprimorei minhas ilusões?
Yure deu os ombros e se levantou novamente, vestindo o paletó e indo em direção à saída. Jô agitou um dos braços, fazendo o Sucessor se virar para trás.
-Ei, não vai pagar a bebida?
-Não. Foi você quem me convidou. –disse, antes de sair pela porta assoviando. O Guardião da Névoa suspirou e pegou o copo que o amigo havia deixado ali ainda cheio, o entornando em um gole.
-Safado.
Jô olhou para os cantos, passou a vista pela linda garçonete e depois para o grupo de mal encarados que ainda estavam jogando sinuca. Ele coçou a cabeça e virou os olhos, um pouco chateado. Era uma pena nunca mais voltar naquele lugar. Mas, não estava muito a fim de pagar a conta.
Mirou e atirou o copo de vidro no motoqueiro que julgou ser o mais forte, lá pelo seus 1,95 cm e esperou que ele se virasse cheio de fúria com um taco na mão.
-Isso foi obra sua? –perguntou o mastodonte, os dentes trincados de raiva enquanto ele quebrava o taco como se fosse palito de dentes.
O rapaz se limitou a sorrir com cara de despreocupado e a gesticular com a mão como pedido de desculpas.
-Oh, me desculpe por ter acertado suas costas. Minha mão deve estar meio boba...- a balconista e outro garçom que recolhia uma das mesas vidraram os olhos sob a briga que parecia iminente e perderam o ar quando Jô terminou a frase.- Se eu não tivesse bebido tanto, teria acertado sua cabeça.
O homenzarrão urrou enlouquecido, berrando palavrões e pronto para esmagar o pescoçinho daquele verme insolente. Os companheiros limitaram a imitar o gesto e todos partiram para cima do rapaz solitário do outro lado do bar como uma manada de búfalos sedentos por sangue.
Jô se limitou a fechar os olhos.
-Ai ai. Foram vocês que me atacaram, por isso eu estou sendo obrigado a me defender.
Quando ele os reabriu, o olho direito havia ficado com uma coloração de vermelho sangue e o sorriso travesso do rapaz bem humorado havia se tornado uma expressão sádica e cruel.
-Isto é a névoa.
Cinco minutos.
Foi o tempo cravado em que todos fugiram do bar, torturados pela própria loucura que haviam testemunhado lá dentro.
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