Beyond The Bounds Of Sky

17 Capítulo 17 - O Matador de Gigantes


Dudu mantinha-se de pé no corredor, os braços cruzados e o olhar encarando o chão com requintes de pesar. A sua frente estava Guilherme, sentado em um cadeira bastante relaxado com uma garrafa de energético nas mãos, e uma porta trancada.

Na cabeça do Chefe da família Vongola, as memórias das últimas horas rodopiavam como um turbilhão. Os sete guardiões reunidos novamente, o ataque inesperado, o sacrifício de seu mentor... E a luta contra a horda de lacaios da família Gallardo. Seus músculos estavam pesados e rígidos, nunca havia exigido tanto deles. Os inimigos chegavam em grande número, cada vez mais e mais, e o rapaz havia sido a única linha de defesa pela Torre do Vigia durante longas horas.

E então, eles se dispersaram em uma retirada repentina.

Essa foi uma cena que Dudu não esqueceria tão cedo. Estava lá, flutuando em pleno ar graças a propulsão das chuteiras. Os olhos alaranjados focavam o inimigo que ele segurava pela gola da roupa, e o braço havia sido quase completamente projetado para trás com o punho fechado. As Chamas do Céu já haviam tomado conta da luva de goleiro, mais um nocauteado para a pilhagem de inimigos derrotados. Quando um berro tirou sua concentração. Um grito de retirada.

O Vongola acompanhou intrigado tantos homens correrem pela estrada em direção a cidade. Veículos arrancando, passos corridos, palavrões e ordens correndo soltas. Ele até acharia engraçado, se não estivesse intrigado com toda a situação.

“Mas que porr...?” pensou ao afrouxar os dedos e deixar o homem cair de uma queda considerável, soltando um brevíssimo ganido de dor, antes de se empacotar no chão sobre um acento de caminhão semi-destruído. A chama que queimava na testa de Dudu foi diminuindo de intensidade gradativamente, enquanto ele levitava de volta ao solo. Os espectros de luz do crepúsculo se projetaram sobre seu rosto, enquanto ele arqueou a sobrancelha.

-Vongola?

Dudu levantou a cabeça. Guilherme estava agora de pé, a garrafa da bebida colorida artificialmente pela metade e com uma expressão quase de aborrecimento. Uma silhueta havia emergido da porta, de costas, e a estava fechando logo em seguida. O líder da família era o menor no recinto, mas sua reação foi tão repentina que parecia ter o dobro da altura, aos descruzar os braços e se projetar alguns passos para frente. .

-Doc! Como ele está?!

O homem retribuiu o olhar e suspirou, retirando as luvas cirúrgicas ensangüentadas ao contrário e as segurando. Usava um comprido jaleco branco sobre as jeans surradas e a camiseta estampada de uma banda de rock. O cabelo era curto e crespo, os olhos pequenos e castanhos, e um certo ar de desleixo.

-Eu preciso de uma bebida. E das fortes. –foi tudo o que disse, antes de sair de rompante pelo corredor e jogar as luvas em um canto. Guilherme frisou os olhos: era visível que a presença do médico lhe irritava e muito, mas com tolerância o Sucessor da Chuva disse de forma polida.

-O refeitório fica no final desse corredor. Eu vou dar um telefonema, então virem-se. –ele voltou o olhar para Dudu e ajeitou a faixa negra sobre a testa, apertando-a ainda mais contra os cabelos loiro-queimados. –E sem gracinhas. Não esqueça que eles me chamam de O Vigia.

E saiu, ajeitando o casaco com estampa camuflada. O Chefe da Família Vongola esperou que o militar saísse de seu campo de visão, antes de seguir o outro homem. Não mantinha contato com os outros Sucessores além de Yure, portanto não gostava da idéia de que sua proteção agora estava dependendo deles. Com tudo isso, ainda não entendia a retirada descontrolada dos inimigos.

Respirou fundo e se pôs a percorrer o corredor antigo da construção.

A Torre do Vigia era uma construção antiga, um dos vestígios mais antigos da parte antiga da metrópole ainda que afastada. Começou com um farol a borda da baía, devidos aos grandes bancos de areia que ficavam a quase quinhentos metros da costa. Os grandes pavilhões de construções quadradas vieram depois, junto cais utilizado para pequenas embarcações. Dudu Não se sabe quando os Sucessores haviam tomado a propriedade inteira ou o por que...

Ao abrir a porta, rapaz entrou no refeitório. Duas granes mesas largas juntamente com bancos de madeira, uma bancada e vários eletrodomésticos na parede mais ao sul. O doutor estava encostado no longo balcão, com uma garrafa de cerveja e uma das mãos se apoiando na superfície. Parecia transtornado.

-Você não respondeu minha pergunta, Samuel. –Dudu colocou os braços cruzados a frente do peito e falou em tom sério. O doutor ergueu o olhar para ele por um momento, depois pegou a garrafa de cerveja e entornou um longo gole. O silêncio só era quebrado pelo som do líquido escorrendo por sua garganta.

O fundo de vidro pousou novamente na bancada e o médico colocou o punho fechado na frente da boca, afim de sufocar um arroto. Ele começou então a massagear as têmporas.

-Eu sempre me pergunto como vocês conseguem se meter em tanta encrenca, sabia? — Dudu arqueou a sobrancelha, ainda esperando a resposta. O homem colocou a mão dentro do bolso do jaleco e retirou e lá um pequeno frasco de vidro com a tampa fechada. Podia se ver no fundo pequenas partículas de pó brilhante. – O ferimento em si não era nada sério. O que complicou foi isto.

-Isto? –repetiu o chefe da família, quando pegou o pequeno objeto no ar quando fora arremessado em sua direção. Levou para próximo dos olhos e os frisou, tentando visualizar melhor aquelas estranhas partículas.

-Estavam espalhados como areia na extensão dos tecidos internos, músculos e cartilagens. Ele teve sorte de não alcançar os órgãos... – Samuel cruzou os braços enquanto explicava, com tensão na voz. –Estranhei devido ao fato das lâminas que causaram os flagelos não serem de material que causasse estilhaços... E mais ainda o fato das Chamas do Sol não conseguirem curar os ferimentos, apenas estancar o sangramento.

O médico mais uma vez levou a mãos ao bolso e retirou um pequeno cilindro com lentes.

-Olhe mais de perto, Chefe.

Entregou o pequeno aparato para Dudu, que o tomou com a mão que estava livre e colocou a frente do olhar. Ficou espantado com o que o aumento do objeto havia lhe revelado.

-Pequenos grãos de metal, tão finos, que liberam fracas Chamas da Tempestade. Não podem causar grandes danos, mas dentro de um ferimento aberto e alimentadas por uma Chama com propriedades de ativação.

-Aquela vadia... –jogou o frasco longe com violência, o fazendo quicar várias vezes pelo chão. O doutor novamente tomou a garrafa em mãos, balançando-a de um lado para o outro, enquanto observava o acesso de raiva do Vongola. –Por isso Ricardo não conseguia curar o Yure... Isto é jogo sujo!

-Isto é guerra, Dudu. Você não vê tudo que está ocorrendo? Está é uma guerra que você não pode vencer. Porque ao contrário de você, eu continuei neste mundo nestes dois longos anos que se passaram... E eu sei o que vocês estão enfrentando.

-Doc. –o Guardião do Céu frisou o cenho. –O que você q...?

Então o celular de Dudu começou a vibrar no bolso de sua bermuda, tocando o hino do time que ele torcia. O médico bateu com a palma da mão na própria cara enquanto Dudu interrompia seu texto e atendia a chamada.

-É o Dudu.

A resposta veio tão rápida quanto um relâmpago.

-Chefe, você precisa ver o que está acontecendo. Ligue a TV, agora.

O rapaz ficou estático por alguns segundos. Samuel ficou o observando, taciturno. O Guardião do Céu ergueu o braço na direção do homem, o encarando de soslaio. Teria que deixar as respostas para depois.

Partiu então a procurar por todo ambiente por um aparelho televisor, até se focar em uma grande tela de LCD na parede oposta. Avançou pelo cômodo em passos corridos, enquanto continuava na linha.

-O que está acontecendo, Göbel? Onde você está?!

-Eu não vou conseguir explicar em palavras, Chefe. Com todo respeito, apenas ligue a porcaria da TV.

-Em qual canal?

-Deve estar em todos.

O rapaz levou a mão livre até a borda o visor e apertou o botão, caindo direto no canal de notícias. Poderia até se questionar de onde os Sucessores conseguiriam verba para manter as instalações ou conseguir um aparelho com tantas polegadas na parede. Mas quando seus olhos castanhos leram a legenda da reportagem urgente junto a transmissão ao vivo, seu coração começou a bater acelerado.

As sirenes ecoavam por pelo menos quatro quarteirões da área central da cidade. Oficiais se locomoviam para todos os lados, berrando ordens, enquanto os caminhões e ambulâncias iam chegando em grande número. Prédios vizinhos estavam sendo evacuados no meio a noite, pessoas desnorteadas no meio das ruas olhavam em todas as direções, enquanto a nuvem de poeira ainda lentamente se dissipava pelo céu. Os curiosos tentavam se infiltrar pelos cordões de isolamento, mas eram brutalmente repelidos pelos policiais.

Era um verdadeiro pandemônio.

De um dos prédios já evacuados, observando de seu ápice toda a movimentação, estava uma silhueta solitária. O cabelo crespo preso em um rabo de cavalo se movimentava levemente com o vento, e as lentes de seus óculos refletiam as luzes alaranjadas das ruas. O Guardião do Trovão coçou o pescoço com a barba rala, enquanto tinha preso na orelha um dispositivo de celular.

-Você está ai?!

-Estou perto o suficiente para ouvir essa gritaria irritante e o odor de ataque terrorista no ar... Não tenho dúvidas de que isso foi obra da família Gallardo.

Os escombros do que um dia foram o grande prédio dos Cavallone haviam se espalhado por todo o quarteirão, quase ruindo os prédios vizinhos. Tirando alguns andaimes que se mantinham de pé e algumas paredes que ainda resistiam, o resto havia se tornado uma montanha de granito, ferro e objetos destruídos.

As equipes de resgate já começavam a revirar os níveis mais altos, enquanto um dos tenentes dos bombeiros berrava em meio ao rádio, enquanto repórteres de todo o Norte do estado se acotovelavam pelos cantos para conseguir os melhores ângulos para a reportagem. O Vongola mantinha o olhar analítico sobre as pessoas lá embaixo, tentando se manter oculto na escuridão. Não era difícil, pelo fato de estar usando a maioria das roupas em tom negro. Do outro lado da linha, Dudu arquejava pelo nervosismo, enquanto pensava no que fazer.

-Estou esperando as ordens. –Gobel sibilou, enquanto ajustava as luvas de motoqueiro e a gola da camiseta branca larga. Sua arma selada estava ali, escondida, fazendo reflexos verde-esmeralda. Era a ansiedade de entrar novamente em ação.

-Preciso que você apenas faça uma averiguação Gobel. Só quero a confirmação de que há envolvimento da Gallardo nisso... Deus, um prédio inteiro...

-Entendo. Devo presumir que devo ficar fora de vista e entrar na cena do crime, então. –um sorriso perigoso surgiu de uma ponta a outra da face do Guardião do Trovão.

-Não preciso lembrar que devemos evitar qualquer tipo de exposição, certo? –repreendeu Dudu. Göbel revirou os olhos por trás das lentes dos óculos de grau esportivos.

-Tranquilo. Estão se concentrando por enquanto na parte da frente dos escombros... Vou contornar e encontrar pistas dentro do pátio externo que ficava atrás do arranha-céu.

-Retorne para cá imediatamente após a investigação, Göbel. Não posso me dar ao luxo dos meus Guardiões se metendo em encrenca por ai... Ao menos não sozinhos.

A ligação ficou muda e o rapaz retirou o pequeno dispositivo que estava atado à orelha. Fechou e abriu o punho direito erguido lentamente, faíscas brilhantes ocasionadas pela Chama do Trovão circulando entre seus dedos.

Repassou os olhos uma última olhada a multidão lá embaixo e então passou a encarar os terraços mais próximos, traçando um trajeto seguro para chegar aos fundos dos escombros. Não era difícil, ao menos não para ele.

Le Parkour ampliava a noção espacial de uma pessoa normal de forma absurda.

Foi até a beirada do parapeito. A brisa novamente fez suas vestes tremularem novamente, enquanto o rapaz inclinava o tronco levemente e tentava calcular o quanto de propulsão era necessário para se alcançar a construção vizinha. De lá, poderia descer até o nível do solo e se esgueirar sem ter a polícia sobre seus calcanhares.

Deu um passo para trás e se agachou, respirando fundo. Colocou as pontas dos dedos no chão e abaixou a cabeça por um momento, se concentrando. Não seria um movimento fácil. Nunca era, na verdade.

Um chiado surdo, um estalo de corrente elétrica criou circuito nas pernas do rapaz. A Chama do Trovão, de um verde-esmeralda intenso, se assemelhava a pura eletricidade. As correntes circulavam por toda a extensão dos membros inferiores. Deveria encontrar o ponto certo para liberar as descargas, pois era o único modo de se conseguir obter a propulsão necessária.

A habilidade de manipular Chamas livremente pela extensão do corpo, sem necessitar das armas seladas ou de catalisadores, era uma habilidade muito rara. Mesmo entre os sete Vongola, apenas Göbel conseguia tal proeza. O que não significa que era fácil para ele. Deixar a energia fluir livremente não era o problema. A questão em si era manipular o fluxo conforme a situação.

Se ele se descuidasse, poderia acabar causando um enorme buraco no teto e despencar lá de cima antes de ganhar altura. Seria uma queda muito feia até o andar de baixo.

A energia verde-esmeralda começou a circular mais rápido dentre entorno das pernas, e o rapaz deixou os braços rígidos. Sem nenhum esforço, liberou as duas cargas de Chama do Trovão pelos pés, fazendo um clarão momentâneo e um chiado de estática. O impulso criou grossas rachaduras na superfície de concreto e Gobel foi projetado no ar noturno em alta velocidade.

Um pequeno garoto vestido em um pijama listrado viu o estranho borrão atravessar o céu, após aquele estranho flash. Ele tentou chamar a atenção da mãe, mas ela preferia prestar atenção ao tumulto dos repórteres e dos bombeiros.

O rapaz atravessou a distância que havia entre um prédio e outro. Arqueou o corpo estando a poucos metros da fachada do outro edifício, de porte menor. Segurou forte na beirada do edifício e bateu com as solas do par de coturnos para amenizar o impacto seco. Deu uma rápida olhada para baixo e soltou, deixando-se cair pela gravidade por alguns instantes antes de agarrar novamente o parapeito de uma janela com a mão direita, ficando pendurado. Sentiu todo o peso do corpo cair sobre o antebraço, parecendo que o osso iria furar os músculos e pele. O rapaz começou a se balançar para frente e para trás algumas vezes, até conseguir embalo suficiente para se soltar e correr pelo plano vertical do edifício. Deu um último salto para cair sobre o pequeno canteiro da fachada, caindo na grama rolando.

Ficou agachado alguns instantes, analisando de havia chamado atenções desnecessárias. Quando percebeu que o caminho estava livre, se esgueirou pela lateral do grande terreno, protegido pelas sombras projetadas do grande prédio-garagem que ficava a margem dos escombros. Parte de sua estrutura havia sido comprometida, estando a ponto de ruir também. Sem dificuldade, ele conseguiu se esgueirar até a alameda que ficava na parte de trás.

O edifício da família Cavallone era um grande centro comercial. Além da grande estrutura na parte da frente, havia ainda uma grande praça atrás, onde se localizavam vários cafés, restaurantes e uma pequena livraria. Os estabelecimentos ficavam dispersos na borda do pátio em forma hexagonal, deixando o pátio livre com canteiros e bancos de mármore. No chão, feito de ladrilhos negro, havia desenhado o grande alazão símbolo do poderio e da força de Tiago Casagrande no submundo.

Chegando por uma das ruelas de acesso secundárias, apenas a luz natural da noite e de alguns postes distantes iluminavam fracamente o local. Gobel ajeitou as luvas, soltando grunhidos de reclamação. O trajeto nada convencional havia causado algumas pequenas lesões em seus dedos, provavelmente iria ocasionar algumas manchas roxas depois.

O Guardião do Trovão observou em volta calmamente, procurando sinais do que poderia ter causado a destruição do prédio. Grandes pedaços de concreto amontoados, destroços, fiações expostas. Uma grande nuvem negra encobriu a lua jogando uma fugaz escuridão sobre toda alameda. A atenção dos olhos escuros do rapaz pairou sobre uma das paredes de sustentação internas que ainda se mantinha de pé. Havia uma estranha maça disforme ali. Isso lhe chamou o interesse.

Não se preocupava em esmigalhar as pequenas pedras que havia no caminho. Andava reto, com passadas pesadas, objetivo. Passou por sua cabeça, por um breve instante, o por quê da equipe de resgate estar tão focada apenas na parte da fachada do edifício. Pareciam estar esperando por alguma coisa, mantendo as pessoas afastadas...

Então chegou próximo a parede, enquanto a luz prateada foi novamente iluminando o local, saindo por de trás daquele mar negro. Frisou os olhos por um momento por de trás das lentes do aro esportivo dos óculos, até que a lua bombardeou a figura grotesca que estava pregada na superfície das ruínas.

Até mesmo ele, dito como o mais durão e orgulho dos Sete, ficou assombrado e sentiu a espinha gelar. O ar parecia tóxico nos pulmões, o sangue veneno em suas veias. Foi quando ouviu um clique metálico atrás de si, seguido de uma voz feminina autoritária.

-Mãos onde eu possa ver. Agora.

Aquela voz era familiar para o Guardião do Trovão e foi como um puxão de volta a realidade. Ajeitou os óculos a frente dos olhos e suspirou, baixando a cabeça por um instante.

-Eu não estou de brincadeira. Vire-se e erga suas mãos.

E assim ele obedeceu, enquanto girava em torno dos calcanhares. Um sorriso cínico surgiu, desfazendo completamente sua expressão de horror pela descoberta terrível que havia feito.

-Ultimamente parece que velhos rostos conhecidos voltam para nos assombrar. Mas devo dizer, que esse uniforme lhe deixou terrivelmente... Deixa pra lá.

A moça tinha o cabelo até a altura dos ombros, descendo em cascata levemente sinuosa, e uma franja curta sobre a testa. Os olhos castanhos estavam sérios, possuindo um piercing na sobrancelha esquerda e um pequeno prateado no nariz. Usava um colete branco curto sobre uma baby look preta, cheio de bolsos e com as manas abotoadas na altura dos pulsos, escondendo o coldre da arma. Uma calça preta colada junto as curvas dos quadris afivelada em um cinto branco, juntamente as botas militares terminavam o conjunto. Ela mexia freneticamente em um isqueiro prateado, abrindo e fechando a tampa, analisando Gobel com um olhar severo.

-Gobel. Ou devo chamá-lo de... Guardião do Trovão da família Vongola. -O rapaz ficou surpreso, pelo fato da mulher com quem havia cursado o ensino médio saber sua face oculta. A tampa do isqueiro mexia freneticamente de um lado para o outro, enquanto ela falava.- Há quanto tempo... Dois anos, correto?

-Você nunca deixou um telefone para contato, ai fica difícil de convidar para sair, Bruna. -A mulher fez um sinal de negativo com a cabeça, e o rapaz apenas alargou o sorriso cínico.- Fico lisonjeado por você me chamar pela minha ocupação, mas acredito que este não seja um reencontro para abraços e risadas, não estou certo?

-Muita coisa mudou... –Ela elevou o tom de forma autoritária- Leo Göbel, você está preso sob a acusação de destruição de propriedade, atentado ao povo e o assassinato de Tiago Casagrande.

O Guardião do Trovão ficou encarando a moça com seriedade, e ela lhe devolvia o olhar com feracidade. Atrás das costas do rapaz, afastado em muitos metros, jazia o corpo do Cavallone, pregado na parede pelos braços e pernas com as vestes parcialmente destruídas. A cabeça pendia no ar, caída, enquanto o sangue escorria formando um manto escuro e macabro no chão. Eram inúmeras feridas, tingindo de vermelho o corpo e a extensão do que sobrará do daquela parte do edifício. Uma morte violenta.

O Vongola arqueou uma sobrancelha, ainda sem tirar o cinismo nas palavras. Podia sentir a atmosfera ficando mais pesada a cada instante.

-Voz de prisão para quem acabou de chegar de um passeio no centro da cidade? Garota, você sempre foi tão enérgica, agora com essa farda e metida a policial então... Parece até uma autoridade de verdade.

Ela não respondeu, apenas girou vagarosamente o tronco até mostrar a sigla bordada no ombro esquerdo do seu colete, quatro letras negras que eram ressaltadas no tecido.

Após o incidente Marsélia, quando as armas seladas foram despertas e as Chamas acabaram por destruir uma siderúrgica inteira, o governo tomou conhecimento desta forma de energia que apenas os Anciãos detinham poder. Uma série de pesquisas e estudos foi realizada até então e uma divisão inteira secreta foi criada para detectar e combater os usuários de Chamas, classificados como inimigos potencialmente perigosos: a Força Especial Anti-Retaliação, conhecida como FEAR.

Bruna, ao qual havia ficado obcecada em destruir qualquer coisa relacionada a família Vongola, foi uma das primeiras cadetes a entrar na célula do governo como combatente... E subiu rapidamente de cargo. Gobel cerrou levemente os olhos e falou um palavrão baixinho quando reconheceu a sigla. Já havia ouvido boatos sobre aquela organização. Mas não conseguia entender o porque da moça que conhecia a tanto tempo estar usando aquele uniforme... Tampouco porque aqueles olhos castanhos claros como pinheiros o encaravam com um ódio quase mortal.

Ela ainda brincava com o isqueiro, rolando pelos dedos com certa habilidade. As unhas eram pintadas de brancas também, com pequenos detalhes róseos de trepadeiras. Aquilo confortou um pouco Gobel: mãos delicadas demais para serem de uma lutadora. E ainda que tivesse aquela arma no coldre, teria que ter uma precisão fora do comum para conseguir lhe acertar daquela distância, se ainda conseguisse sacar a arma tempo.

Por outro lado, ela estava calma demais. Como se tudo estivesse acontecendo como o planejado.

. -Você está me acusando sem provas, Bruna. –não possuía mais o tom cínico na voz, apenas sobriedade. Se ela era realmente parte de um esquadrão do governo, bater de frente não era uma opção muito agradável. Até o orgulhoso Gobel sabia disso. Agora, quem adotava um sorriso provocativo era ela.

-Sargento Stein, pra você, meu caro... A menos de meia hora foi identificado um foco gigantesco da forma de energia conhecida por “Chama”, e tudo indica que foi ele a causa da implosão do arranha-céu. Junto a isso, o corpo de um dos empresários mais influentes da cidade é encontrado ferido e estocado em uma das paredes ainda intactas das ruínas. Prova concreta de que ele morreu depois da explosão... –A oficial pairou os olhos por um momento no cadáver, ainda fresco, sem qualquer traço de emoção de tristeza. Mesmo tendo freqüentado a mesma sala no ensino médio, Bruna não parecia nutrir nem um pouco de compaixão pelo falecido. Pior: parecia se deliciar com o fato. –Você é um usuário de Chamas, Leo, e ainda por cima acabo de encontrá-lo aqui. Eu não preciso de mais provas do que isso para no mínimo jogá-lo em uma sala de interrogatório por pelo menos vinte e quatro horas. E é o tempo que eu preciso.

Um chiado de estática percorreu os dedos de Gobel, uma fagulha esmeralda. Bruna continuou a brincar com o isqueiro em mãos.

-O que você realmente quer... Sargento?

Foi então que o rapaz reconheceu aquele isqueiro, em um rápido reflexo de uma superfície cromada sobre uma das luzes artificiais.

Ela nunca fumara. E repudiava quem o fizesse.

Bruna parou de girar o objeto com a pergunta e o guardou em um dos bolsos do colete. O sorriso se desmanchou, voltando a expressão de raiva contida, enquanto ela moveu os finos lábios devagar enquanto falava a palavra devagar. Sua mão deslizou para debaixo da vestimenta e segurou o cabo da Desert Eagle, retirando-a gentilmente do coldre como uma preciosa jóia.

-Vingança. E a destruição completa dos Vongola.

O Guardião do Trovão levantou as mãos e ajustou as luvas de motoqueiro, mexendo os tendões da mão rapidamente, como forma de aquecimento. Seus olhos escuros não saíam da silhueta da oficial, enquanto ela estendeu o braço para frente e colocou o rapaz sob a linha de tiro.

Não estava nem um pouco afim de ficar ali e saber o motivo de todo este ódio que a garota tinha pela sua família.

-Sinto muito, mas eu já tenho que ir. Sabe como é, o trabalho de Guardião, obrigações, esse tipo de coisa. –o tom era sério, diferente de antes.

-E vai me deixar aqui, sozinha?.

Provocante, como sempre.

-Eu gostaria de não ter que erguer a mão para você, Bruna, mas acabarei o fazendo se não tirar seu traseiro do meu caminho.

-Recorrendo sempre a palavras grosseiras quando contrariado... — Ela se fingiu ofendida, mas depois riu em desdém. A raiva e o escárnio oscilavam de forma perigosa em sua expressão- Será que não entendeu ainda? Conferi-lhe voz de prisão, Vongola. E daqui só saíras acorrentado para o quartel-general da FEAR.

-Você pretende me prender com uma arma comum? Acho que seu pessoal precisa voltar pra casa e refazer o dever. Suas balas nem sequer podem me ferir. Aqui vai uma pequena diga: eu possuo a Chama do Trovão: dentre as Sete Ondas de Chama, é a que possui o maior poder defensivo. Solidificação é a minha propriedade. Se quiser, posso rachar uma parede de concreto apenas revestindo minha mão de energia.

Bruna nem sequer piscou. Seu sorriso perdeu a discrição.

-Golias 06, ativar modo de ataque.

Então, vindo das trevas, em algum lugar sob o manto escuro da noite, uma grotesca forma se mexeu. O som de vapor sob alta pressão escapando em pleno ar se espalhou rapidamente, enquanto os passos ruidosos ecoavam sob o chão já danificado. Iam em direção a moça. Uma fina linha amarela se destacou, enquanto a oficial se limitou a cruzar os braços. O rapaz colocou uma das pernas para trás e arqueou os ombros para frente, tentando decifrar o que estava acontecendo. Praguejou, no âmago do seu ser, por não ter prestado atenção naquela armadilha.

Mas afinal, em meio a tantos destroços, quem desconfiaria que uma montanha de entulho fosse na verdade...

-Um....Ciborgue?

Deveria ter um pouco mais de quatro metros de altura e a estrutura lembrava muito um tanque de guerra. Era humanóide, ainda que com as feições quadradas, braços grossos e punhos que se assemelhavam a pesadas maças de ferro. A lataria era de uma coloração branca que chegava a reluzir, com as quatro letras negras se destacando do peitoril. As pernas pareciam pilares, com articulações duras, tornando cada passada do gigante de ferro pesado e desengonçado. A cabeça hexagonal possuía uma antena na lateral, e o feixe de luz amarelo provinha da superfície de vidro que ficava no perfil metálico, encarando Gobel fixamente. Em seu ombro, se ostentava um imenso lança granadas.

-Interessante... Vocês gastam a verba do governo com seus brinquedinhos de controle remoto e depois tem a audácia de dizer que não existe dinheiro para se investir na educação? Francamente, a política nesse país é suja. –a rispidez tentava disfarçar a surpresa. E o Guardião do Trovão falhou nesse quesito miseravelmente.

-Vocês, usuários das Chamas, são perigosos perante a toda a nossa sociedade. Essa anomalia que vocês chamam de “habilidade” faz com que pessoas inocentes fiquem a mercê de sua vontade... E elas podem até perder a vida com isso. –Novamente o lampejo de ódio naqueles olhos castanhos. –Os Golias foram desenvolvidos para repelir suas investidas e subjugarem sua força. É meu ultimato, Leo Göbel: entregue-se e não precisará sair ferido.

O ciborgue passou ao lado de Bruna e se pôs a sua frente. Obedecia a comando de voz, de alguma forma. O rapaz frisou os olhos, buscando a concentração.

-Espero que seus cálculos estejam certos...

-Mesmo?

-Não. Mentira. Vou adorar transformar essa merda ai em um amontoado de clipes de papel.

E pegou o impulso, vencendo a distância entre si e o robô. Bruna recuou, berrando em alto e bom som:

-Golias 06, travar alvo. Chama do Trovão. Código A-02: ataque não-letal.

O feixe amarelado reluziu, e os grandes antebraços de metal se ergueram em um ângulo de noventa graus junto aos ombros. A energia esmeralda que irradiava em alta voltagem envolveu completamente a mão direita do rapaz, enquanto ele agachou o corpo no último segundo para escapar de um agarro do robô. Ergueu o punho fechado, golpeando a superfície de metal na altura do largo torso de proporções quadradas.

-Elektrisch speer! –E o baque surdo se somou ao clarão da energia sendo descarregada. Mal executara o golpe e o rapaz apoiou ambas as pernas flexionadas na parte baixa do ciborgue, usando-a de plataforma para saltar e se afastar do inimigo. Por pouco, não foi atingido por um murro daqueles imensos blocos de metal.

As solas do par de coturnos se arrastaram pelo chão alguns metros antes dele travar no chão, levantando uma fina nuvem de poeira. Manteve o corpo arqueado, sem tirar os olhos do oponente de inteligência artificial, apoiando-se no chão com a palma da mão esquerda aberta.

Bruna se deliciava com aquele momento. O golpe não surtira efeito nenhum e tudo que restara ao Guardião do Trovão era encarar, perplexo, a oficial da FEAR enquanto sentia as juntas dos dedos se retorcerem de dor.

-Pensei que poderia rachar uma parede de concreto com os punhos, querido. Ou será que me enganei? – ele amarrou a cara em resposta e isto fez a jovem soltar uma ligeira risada de deboche.- Como eu disse, estes humanóides foram desenvolvidos para combater usuários de Chamas...

Golias voltou a ter ambos os braços em linha reta, a espera de novas ordens. A moça baixou as mãos até os quadris, entrelaçando os dedos no cinto que prendia a calça justa. O rapaz se levantou e ajeitou o cabelo completamente puxado para trás, apertando o rabo de cavalo. Retirou calmamente a luva em seguida da mão ferida, observando a luxação que ia tomando conta dos dedos lentamente. Parecia que havia golpeado o robô sem utilizar a Chama do Trovão.

O que aquilo significava?

-Ataque.

Ao ouvir a voz da Sargento, a portinhola do lança granadas se projetou para cima e duas esferas incandescentes foram arremessadas contra Göbel. Ele arqueou uma sobrancelha por de trás das lentes esportivas dos óculos de armação negra, e teve tempo apenas de cruzar os braços e vociferar.

-Panzer Angriff!!! –E uma densa camada de Chama do Trovão cobriu os braços para repelir os explosivos. O impacto quase derrubou o rapaz, fazendo seu corpo envergar para trás e a guarda ficar aberta. Uma cortina de fumaça se ergueu e a visibilidade ficou seriamente prejudicada. Por pouco, seus olhos conseguiram identificar em meio aquele borrão cinzento e pútrido aquela linha amarela.

Deixou-se cair de costas no chão, batendo violentamente no piso, para assim escapar de uma estocada frontal do pesado antebraço do robô. Rolou para lado em seguida, enquanto o ciborgue tentava pisoteá-lo, e pegou impulso sem as mãos para se manter agachado. Göbel apoiou um dos pés no solo e girou o corpo, erguendo a outra perna envolvida com as Chamas do Trovão e tentando golpear o oponente.

-Elektrisch Achse!!!

Mais uma vez o impacto surdo e a energia se dissipou sobre a lataria. A dor na canela foi lacerante, mas o rapaz jogou as mãos para trás e deu um mortal de costas, para novamente tomar distância do Golias. Prostrou-se de pé, sem conseguir apoiar peso na perna direita. Bruna apenas o observava, enquanto o robô novamente virava o torso na direção do alvo.

-A primeira superfície da blindagem do modelo Golias é feita de uma liga metálica especial, desenvolvida com afinco pelos mais renomados cientistas da FEAR. Sua propriedade especial é dissipar a energia da Chama por sua extensão, como condutor... Basta apenas encostar sua Chama do Trovão na lataria que rapidamente a energia corre por toda a extensão do metal...

“Então é por isso que meus socos e chutes parecem nus... Meus golpes estão sendo anulados...”

Um estalo ocorreu no cérebro do rapaz.

Uma idéia sórdida na verdade. Que poderia dar certo.

Bruna estranhou quando novamente viu o sorriso cínico do rapaz voltar a sua face, marcada pela barba mal-feita. E dele, uma gargalhada maléfica foi crescendo. Ela estremeceu com aquela cena, enquanto a risada incontrolável se apossava dele, colocando a palma da mão esquerda sobre o rosto enquanto se contorcia. Era um tanto...

-...Insano.

Göbel então arrancou a corrente do pescoço e apontou o braço para a oficial da FEAR. O brasão com o símbolo do trovão, envolto na luva de couro, começou a se tornar incandescente naquele esmeralda brilhante. A moça reconheceu aquilo e sabia o que estava vir a enfrentar. Antes que o Guardião liberasse a arma selada, ela vociferou.

-Fogo!!!

E do lança-granadas, mais fora lançada uma chuva de morteiros que caíram sobre o Vongola. Desta vez não perdeu tempo tentando defender os explosivos. O ciborgue parecia desajeitado, mas era rápido o suficiente para vencer a distância que os separava sem dificuldades. E o tornozelo ainda latejava quando corria. Representava um problema em potencial. As esferas guinchavam em pleno ar, e conforme iam passando próximo a Göbel, explodiam criando pequenas crateras no chão. Estava chegando quase a uma das extremidades do pátio, quando revirou os olhos irritado: um dos explosivos passou a milímetros de sua nuca, quase lhe atingindo na cabeça.

Girou então no calcanhar sadio, decidido, sentindo a palma da mão já formigar pela concentração de Chama do Trovão. Estava na hora.

-Romper o selo.

Deixou o pequeno pedaço de metal cair no solo. E um relâmpago esmeralda irrompeu até os céus. A multidão próxima, que já estava receosa pelos estranhos e fracos tremores de terras que viam da parte de trás das ruínas do arranha-céu começou a ficar apavorada.

Sargento Stein, por outro lado, se limitou a morder o lábio inferior.
Então aquela era uma das relíquias entregue pelos supostos Anciões a família Vongola.

Era um bisão. Enorme. Imensos chifres curvos e negros ao qual percorriam fagulhas esverdeadas de eletricidade. O pelo era de um branco puro, esvoaçando da altura do torso indo até quase o alto da cabeça. No grande focinho, uma argola prateada com runas já esquecidas encravadas na superfície, e os cascos batendo no chão febrilmente. A causa também balançava conforme a raiva do animal e de sua pelagem perto da mandíbula fora feito pequenas tranças com argolas cromadas.

-Acalme-se, Mjölnir. Vamos acabar logo com isso. –disse o rapaz, acariciando o pêlo do animal enquanto observava Bruna. Ela olhou incrédula para cena. Foi uma das poucas vezes que a moça virá o Guardião do Trovão demonstrar afeto de forma realmente aberta com alguma coisa.

Ele voltou os olhos por de trás das lentes dos óculos. Voltara com aquele sorriso cínico nos lábios mais uma vez.

-Isto vale para você também, Bruna.

Ela trincou os dentes de raiva. E por algum motivo, corou levemente ao encarar aqueles olhos que não evitavam de demonstrar superioridade.

O bisão urrou furioso, e depois soltou o ar pelas narinas. Começou a brilhar tanto quanto a descarga elétrica de aurora, até ficar disforme e começar a se comprimir. Göbel calmamente deixou a palma da mão aberta na frente do corpo, enquanto a Chama do Trovão que compunha sua arma selada se acoplava ao membro do seu corpo e se re-materializava em sua nova forma.

Um martelo. Mas não um martelo comum. Uma arma lendária. Três palmos de extensão. O cabo era de madeira escura, rústica, envolvida em bandagens de couro curtido que se estendiam até formar uma curta alça. Acoplado a ele havia uma pedra retangular enorme, superfície polida e cinzenta, com duas tiras de metal contornando seu eixo vertical e horizontal. Nelas, mais runas criptografadas em dourado.

A réplica perfeita da mitológica arma utilizada pelos deuses para matar gigantes.

-Golias 06, mudança de execução: ataque letal.

O feixe de luz brilhou intensamente e se tornou vermelho, enquanto o ciborgue arqueou os braços. O lança-granadas foi projetado para trás, sendo recuado e ficando na altura das costas. Apontou as grandes mãos para o oponente, de onde se abriram pequenas saliências circulares, projetando dois cilindros para fora. Começou a disparar deles, projéteis de grosso calibre.

O Guardião do Trovão segurou com força o martelo e passou a rebater os tiros com a arma envolta da eletricidade esmeralda. As galerias laterais eram alvejadas enquanto ele fazia isso sem se abater, caminhando passo a passo mais próximo do robô.

Bruna sentiu o suor frio escorrer pela nuca, enquanto observava Göbel nem sequer fraquejar. Então aquilo era a verdadeira força de um Guardião? Bem, não importava. As Chamas eram inúteis contra a blindagem.

-Ataque a curta distância, Golias.

O ciborgue fechou os punhos de imediato e os juntou ao resto do corpo. Suas pesadas passadas começaram em direção ao rapaz, que arqueou levemente as costas.

Primeiro veio um soco por parte do ciborgue, e o Vongola se agachou. Não teve a mesma sorte com o golpe seguido, então se vira obrigado a bloquear usando o martelo envolto na aura esmeralda. Teve que recuar alguns passos para trás por causa do impacto, então aproveitou e deu um pequeno salto para escapar de ser esmagado pelas mãos juntas e maciças do ciborgue em velocidade descendente.

Göbel então aproveitou enquanto Golias não levantara os braços e utilizou-os como plataforma de salto: bastou pegar impulso, alguns passos pela extensão do metal e o Guardião ganhou altura. O robô até tentou acompanhar o movimento e interceptá-lo, mas fora lento demais.

-Mas o que você está planejando, Vongola?!

O cabo da arma deslizou pela luva de motoqueiro, e o Guardião do Trovão deixou que a alça laçasse os dedos. Girou febrilmente o martelo, até sentir a gravidade o puxar novamente em direção ao solo. Bradou um grito de batalha vindo do fundo dos pulmões, enquanto arremessava com toda sua força o martelo. Rompeu o ar como um foguete em trajetória retilínea, até se chocar violentamente no centro do robô.

Foi tão brutal que rompeu a blindagem e o martelo ficou preso ali, apenas com a superfície de madeira a vista.

Göbel aterrissou agachado, e logo abriu as duas mãos ao lado do corpo, próximas ao chão. Começou a aglomerar duas fortes ondas de Chama do Trovão em cada mão, criando verdadeiros aglomerados de chiados e eletricidade. Só as pequenas fagulhas que escapavam do epicentro eram suficiente para riscar o pavimento como bisturis.

-G-golias! Manter distância do alvo!!! Ataques apenas a longa distância. –Bruna estava trêmula. Não esperava que a blindagem fosse penetrada por alguma coisa, logo seu escárnio foi transformado em frustração. Aquela então era real força de um Guardião Vongola?

O robô ergueu os braços, voltando a travar a mira e se preparando para disparar com as armas que possuía na palma das mãos. Mas o rapaz riu. Do estrago feito por ele, fagulhas e fluído hidráulico fluem em fraca escala.

-Onde está toda sua segurança, Sargento Stein? Pelo jeito seu brinquedinho não vai durar muito tempo como eu disse!!! –disse em meio aquele turbilhão de sons. Göbel voltou a deixar o corpo ereto, colocou um dos pés a frente do corpo e estendeu os braços para frente, unindo as palmas e vociferando. –Koloss Töten!!!

Um verdadeiro relâmpago irrompeu em alta velocidade das mãos de Göbel, sendo originado por aquela concentração absurda de Chamas do Trovão, e serpenteou pelo pátio. Ainda que parecesse descontrolado, o Guardião sabe que nem havia necessidade de mirar.

Mjölnir tinha a habilidade especial de atrair las Chamas do usuário para si próprio, como um condutor. Não importa de onde o rapaz disparasse: a arma iria redirecionar a investida para si. Também funcionava com o efeito reverso: perante a vontade do usuário, poderia ser atraída para perto com uma fraca aura de energia.

O primeiro impacto, a eletricidade percorreu o interior do Golias como uma praga e fritou todos os circuitos. A carcaça se remexeu de forma doentia, tremendo, e depois foi arremessada contra uma das livrarias vazias, causando uma pequena explosão.

Göbel se virou para Bruna, que estava extasiada. Ela nunca participara de um combate real, e sempre depositará toda sua confiança na tecnologia que a organização desenvolvera.

Retirou a arma do coldre e apontou para o rapaz, tremendo. Grossas lágrimas, uma mistura de raiva e medo, começaram a escorrer dos seus belos olhos castanho e claros.

-Para trás!!! Fique onde está ou eu...!!!

-Atira? Depois de tudo, acha mesmo que atirar vai resolver alguma coisa?

Ele ergueu a mão para o ar, envolvida levemente com brilho esmeralda. Com o movimento, Mjölnir saiu da coluna de fumaça negra e retornou a palma da mão do dono de forma obediente, retomando a forma do brasão do Trovão logo em seguida. A oficial baixou a arma derrotada. Apenas ouviu ele aproximar os passos e fechou os olhos, esperando receber algum tipo de ataque de misericórdia.

O rapaz se abaixou a frente dela, ficando sobre um dos joelhos dobrados, e segurou seu queixo entre os dedos, levantando aquele delicado rosto na altura do próprio. Ela abriu as pálpebras e o encarou, já com os globos oculares levemente irritados e engoliu em seco.

Os olhos escuros dele por de trás das lentes eram autoritários, severos.

Ela sentiu o corpo tremer novamente. Uma sensação de escuridão, ainda que quente, tomou conta de seu coração

-Eu não sei por que você entrou nessa tal de FEAR e eu, realmente, sinto muito pela morte do Lucas... Eu sei que o isqueiro é dele, Bruna. –ela grunhiu baixinho. A voz dele estava quase paternal, sem farpas. Sem dúvida um privilégio que poucos, mesmo dentro da Vongola, tiveram o privilégio de saber esse outro lado de Leo Göbel. –Ainda não entendeu como você assemelha a morte desse rapaz com o nosso nome, mas lhe digo uma coisa:... Se você tentar fazer mal a minha família, eu juro que esmigalho os ossos do seu corpo, um por um.

Sussurrou as últimas palavras quase como uma despedida e a deixou ali, indefesa. Deveria ter chamado reforço, pensou a Sargento nos arrastados minutos que se sucederam. Mas não conseguia se mexer. Ficou estática, imóvel, observando a silhueta dele se distanciar até sumir nas brumas da noite.

Eu amo a Vongola mais do que qualquer um.

Lembrou-se então dos antigos tempos, os tempos de colégio. Nunca ficara perto de toda aquela arruaça que sempre envolvia o grupo de jovens que se tornariam mais tarde a Décima Geração, tinha contato com poucos. Mas sempre se lembrava da mesma cena.

Apinhados juntos pelos cantos, fazendo brincadeiras, rindo, fazendo escândalo. Pode resgatar na silhueta a face de cada um, até mesmo a de Leo, enquanto estavam na aula da professora rígida de alemão. Lembrou-se dos tempos de colégio em que tudo era mais simples.

Lembrou-se de Lucas enquanto tocava violão para ela no pátio.

Lembrou-se de Casagrande, que sempre acenava para ela quando a via no intervalo.

Agora, suas lágrimas eram amargas. E solitárias.

Ao menos, até as equipes de resgate finalmente invadirem o perímetro.

A cobertura do hotel tinha paredes de vidro, deixando com que as luzes artificiais da cidade e a vista para o mar negro da baía ficassem a vista. Os móveis eram finos e várias obras de arte eram espalhadas pela extensão do cômodo. As cores eram sóbrias, variando entre branco e o negro do ébano. Havia uma lareira também, onde as chamas crepitavam. Próximo a ela, a silhueta de uma mulher se deliciava com a música ambiente com uma taça de vinho nas mãos. O robe vinho sobre a camisola de seda preta ressaltavam sua pele branca e suave como pêssego, enquanto o cabelo vermelho tingidos escorria suavemente para elem dos ombros, a franja longa descendo suavemente pela lateral esquerda de seu rosto e terminando por de trás de sua orelha.

Um homem se moveu em sua direção, mas se deteve na metade do caminho. Distância. Era uma das regras primordiais e mais exigidas pela Rainha.

-Minha senhora, por onde esteve? Vanessa acusou que pressentiu a Chama de vosse excelência em ação.

Letícia fez um muxoxo baixinho. O Sentinela chegara justo na melhor parte do blues.

-Creio que, embora tenha servido ao meu pai por muitos anos, não deva a você saber da minha vida, Sentinela do Trovão.

A resposta ríspida fez Slan retrair levemente os ombros. Debaixo do terno escuro que estava usando, havia ainda os curativos dos ferimentos causados pelo Sucessor do Sol.

-Me desculpe. É apenas a preocupação com seu bem estar.

Ela se levantou, com elegância. Não com essa falsa postura adquirida por mulheres fúteis e seus cursos de etiqueta. A moça não precisava disso.

Quem nascera para governar possuía sutileza e beleza até nos mais insignificantes gestos.

Caminhou descalça até próximo a janela, os pés calmamente sendo afagados pelo carpete branco. Bebericou mais um gole do vinho suave, enquanto a outra mão se encarregou de ajeitar a roupa sobre a curva do corpo. Slan não a acompanhou com os olhos e sim baixou a visão para o horizonte, sem foco.

Discrição. Outra regra primordial.

-Fui fazer o que você e suas comparsas não tiveram capacidade de descobrir: saber o paradeiro dos Vongola e da urna que carregam. Infelizmente, o chefe Cavallone não quis cooperar. -O subordinado continuou em silêncio. Não se atrevia a fazer perguntas a sua chefa. -Tentei ser gentil, mas ele realmente foi até o fim sem dizer uma palavra sequer. Algo formidável. Gostaria de possuir aliados assim.

-As equipes de busca acusaram que grande parte da família está sitiada na Torre do Vigia minha senhora, dentre eles o Chefe Eduardo. Estamos sem notícias de alguns outros Guardiões, mas nossas rondas continuaram.

Ela ficou pensativa um pouco, aproximando a taça de cristal próxima ao peito. Talvez fosse hora de mudar de tática.

-Creio que devemos diminuir o efetivo. Estamos chamando a atenção demais, e os políticos dessa cidade podem ser corruptos, mas não vão segurar os ânimos da população por muito tempo nessas condições.

-Se não for insolência, minha senhora, gostaria de saber quais suas pretensões.

A jovem mulher se virou para Slan, e ele se vira obrigado a lhe retribuir o olhar. Estranhamente, ela estava sorrindo.

-Os outros Sentinelas, quando chegam?

-As gêmeas aportam amanhã cedo, minha senhora. O Conde também está a caminho. Não recebemos notícias do Sentinela da Chuva a alguns dias, mas Vanessa confidenciou que a um excepcional usuário desse tipo de Chama a caminho da cidade. Supomos que seja ele.

-Perfeito. –ela levantou a taça um momento para ele e indicou com a cabeça para que o mesmo se retirasse. Ele o fez, com pressa. Letícia se limitou então a sorrir sozinha, encarando o reflexo quase fantasmagórico que a superfície espelhada lhe mostrava junto a cidade –Simplesmente perfeito.

Notas finais
Elektrisch speer: Lança Elétrica
Panzer Angriff: Escudo de Assalto
Elektrisch Achse: Eixo Elétrico
Koloss Töten: Matando Gigantes
Esta é uma obra de ficção, feita com alguns elementos da história original de KATEKYO HITMAN REBORN apenas para fãs! Não venda, alugue ou troque por vale-transporte.
Qualquer semelhança de nomes, físicos, personalidades ou histórias com as de pessoas vivas ou mortas é mera coincidência.