Beyond The Bounds Of Sky

11 Capítulo 11 - Fissura


“Se você pudesse voltar atrás, o que faria de diferente?”

Kamila tentava não pensar em reflexões perturbadoras enquanto mantinha os olhos castanhos na estrada, mas não estava obtendo êxito. Estava difícil guiar a caminhonete prata de modelo antigo de dois lugares, com a armação preta de ferro segurando dois enormes faróis circulares. A cabeça da moça trabalhava rápido, as mãos se mexendo mecanicamente para guiar o volante e trocar as marchas do câmbio.

Ver os sete reunidos novamente. Só de pensar nisso já lhe dava calafrios. Como iriam se portar após os três anos separados? Bem, tirando as piadinhas do Jô e as implicâncias de Göbel, tudo seria uma gigantesca incógnita para ela. A ruiva desviou os olhos sutilmente para o banco do carona, vendo a silhueta calma de Karoline observando a paisagem. Usava um moletom preto de gola alta, uma calça de brim claro e o cabelo encaracolado preso em um rabo de cavalo. O tapa-olho agora era branco, parcialmente escondido por sua franja diagonal.

Como podia estar tão calma? Kamila mordeu fracamente o lábio inferior, virando a caminhonete em uma rua para a esquerda. Sua blusa cinza estampada contrastava com a calça azul escura, a lente do relógio de pulso reluzindo ao sol da tarde. Karoline então girou o tronco e abriu a pequena janela de correr na parte de trás da cabine. Teve que elevar a voz para que pudesse ser ouvida na caçamba.

-Espero que esteja confortável ai atrás.

Göbel se limitou a fazer um sinal positivo com o polegar esquerdo, ali sentado com uma perna dobrada e a outra esticada, o coturno indo um pouco acima do tornozelo e escondido pela calça negra cheia de correntes por toda sua extensão. A camiseta branca era folgada nas mangas deixando em evidência o brasão com o símbolo do Trovão em volta do pescoço. Ainda havia as luvas de motoqueiro, sem o envolto dos dedos, vestidas nas mãos.

Os olhos estavam fechados, repousando por de trás das lentes do óculos de armação negra esportiva. Tentava relaxar os músculos após mais uma noite mal dormida de tanto jogar videogame. Mantinha os pensamentos desfocados, nulos, evitando qualquer forma de esforço.

A ruiva revirou os olhos, após encarar o rapaz de cabelos negros pelo retrovisor. Pelo amor de Deus, como podiam estar tão calmos?! Para Kamila, a ansiedade era tão densa que poderia agarrá-la no ar. Como podia ser diferente para eles?

Haviam sido três anos, alguma coisa deveria ter mudado. E era justamente isso que a moça temia: o desconhecido. Seus dedos apertaram com mais firmeza o volante, tentando espelhar um pouco da tranqüilidade de Karoline.

O automóvel cruzava o asfalto, em um dos bairros mais afastados do centro da cidade. Só havia construções velhas ali, descoloridas e de aspecto abandonado. Quase ninguém mais ia até ali, depois da explosão de um complexo industrial há três anos atrás.

A caminhonete percorreu as galerias dos galpões pré-moldados com chapas de aço. Kamila traçou os olhos por toda a extensão da rua e virou, entrando no grande estacionamento de brita a frente de uma construção marrom escura. Tanto ela quanto a grande área para se guardar os veículos estavam cercadas por muros de tijolos com a estatura mediana, o portão em forma de fios trançados aberto. O olhar de Karoline ficou sério, Göbel abriu os olhos quando sentiu as rodas esmagando as pedrinhas e Kamila perdeu o ar por alguns segundos.

Os outros já estavam ali. Ou pelo menos alguns deles.

A moto negra de Zatch estava reluzindo ao sol, criando feixes brancos na lataria. Era o único veículo de transporte ali, mas de alguma forma os guardiões haviam chegado cada qual a sua maneira.

Estavam reunidos no lado de fora, perto do portão de acesso, conversando animadamente. Zatch mantinha-se em pé encostado na parede, mãos no bolso da calça jeans negra. Ouvia o falatório e opinava uma vez ou outra, rindo, enquanto arrumava as mangas do casaco de moletom preto. Jô estava sentado um pouco à frente, contando uma piada de forma despreocupada enquanto gesticulava com as mãos. Kiba estava mais afastado, sentado em uma mureta da área de carga, rindo feito um condenado a cada palavra proferida.

Kamila piscou fortemente duas vezes, enquanto parava o carro. Eles pareciam não ter mudado nada no aspecto de personalidade. A ruiva saiu pela porta sendo, seguida depois por Göbel e Karoline, e o trio se aproximou da roda da conversa. O assunto morreu por ali, enquanto o espadachim da Tempestade sorria para os recém-chegados de forma radiante.

-Bom dia, família!

E na passada de um salto ele se levantou e abraçou as amigas ao mesmo tempo, as apertando contra si uma em cada braço. ”Espirituoso como sempre”, devaneou Kamila. Não se surpreendia mais com o espadachim, afinal o havia visto no dia anterior e saturado os pontos em seu ferimento.

-Cuidado para não abrir o corte. –Kamila revirou os olhos enquanto ouvia a risada de Kiba. –Estou falando sério! Não vou estar por ai à toa sempre pronta pra te costurar...

Ele se afastou ainda com um sorriso malandro no rosto. O Guardião da Tempestade estava usando a mesma bermuda jeans de outrora, mas agora com uma camiseta azul justa estampada por diversas caveiras. O brasão estava escondido por debaixo dela e uma munhequeira comprida vermelha-sangue escondia quase todo o antebraço esquerdo.

-Aniki, escute alguém pelo menos uma vez na vida! –a voz da irmã em entonação de bronca fez o rapaz fitar as próprias sandálias. Foi então que o Guardião da Chuva caminhou até o amigo e lhe deu um tapinha nas costas.

-Escutar é uma coisa, fazer ele executar o conselho é a parte crítica. Karoline, Kamila. É um prazer imensurável ver vocês novamente. –fez um movimento com a cabeça, os cabelos loiro-escuros fazendo uma leve dança. Zatch sorria, embora de forma mais discreta. –O mesmo vale pra você também, Göbel.

-Tanto faz. –o Guardião do Trovão se fez de indiferente perante o comentário. –Conseguimos nos reunir de novo, apesar de tudo.

-Ainda falta um... –Jô comentou após beijar a face das garotas e apertar a mão do amigo que acabará de chegar. –É atípico dele chegar atrasado.

Karoline suspirou, batendo a mão na própria testa.

-Eu não me importaria se ele perdesse um pouco da teimosia pelas regras de vez em quando.

A reação do grupo foi uma explosão de gargalhadas. Enquanto ria, Kamila percebeu que todo o anseio e as dúvidas haviam sido varridos para longe. Göbel parou de rir em um momento e arqueou a sobrancelha.

-Isso significa que o Chefe está aqui?

Zatch e Jô se entreolharam, enquanto Kiba respondeu dando os ombros, visivelmente incomodado.

-Foi o primeiro a chegar junto com o Yure, mas logo se trancou no galpão. Provavelmente preparando-se para a reunião.

O silêncio caiu sobre todos como brumas intransponíveis. Karoline trocou olhares com os guardiões mais velhos, enquanto Göbel cruzou os braços.

-Defina preparando-se. –sibilou de forma seca a Guardiã da Nuvem. –A menos é claro que vocês queiram esconder algo de nós, de novo.

Os punhos da morena se fecharam, mostrando a sua irritação. As memórias da separação inflamaram em sua mente. Kiba, com pesar nos olhos, encarou a irmã sem dizer qualquer natureza de palavras.

Antes que qualquer um pudesse se pronunciar, o ronco de outro carro pode ser ouvido vindo de longe e se aproximando em uma velocidade considerável. Começou como um ponto vermelho disforme no horizonte, tomando a forma de um carro conversível a cada rotação dos pneus.

O automóvel entrou no estacionamento de brita e parou pouco atrás da caminhonete. Os rostos se viraram, encarando os dois vultos sentados no veículo. Kiba acenou animadamente para Sara, que correspondeu o gesto com um sorriso nos lábios. O espadachim então voltou os olhos azul-esverdeados para o lado e os arregalou. Como por uma conexão de pensamentos, Zatch repetiu o gesto e prendeu a respiração.

A expressão rígida de Ricardo não era um bom sinal.

Mas nem todos pelo jeito haviam percebido tal fato. Jô se desprendeu do grupo e andou despreocupado em direção ao pugilista do Sol, que já estava de pé. O ilusionista abriu os braços para dar um abraço caloroso, um sorriso radiante na face, sem qualquer traço de preocupação.

Os segundos então pareceram poucos para a quantidade de acontecimentos. Sara desviou o olhar sem conseguir encarar o que estava por vir, agarrando a própria blusa e torcendo os dedos em volta do tecido. Karoline e Kamila ficaram surpresas e com as expressões vidradas, vendo o braço de Ricardo sendo projetado para trás. Zatch e Kiba se movimentaram rapidamente, mas não o suficiente.

O murro acertou em cheio o rosto de Jô e o arremessou para trás, girando. O espadachim da Tempestade conseguiu impedir a queda do amigo, embora sua expressão fosse de completo assombro. Ricardo observou sem emoção Zatch se colocar entre ele e o resto da família, os cabelos compridos dançando aos seus passos.

-Perdeu o juízo ou o boxe fez seu cérebro virar mingau? – a irritação da Chuva era evidente em suas palavras.

-Não se preocupe, tenho um reservado para você também. –o loiro ajeitou os óculos e levantou os braços em posição de combate. Sara massageou as têmporas e se posicionou um pouco atrás do Guardião do Sol. Kamila localizou-a pela visão periférica e torceu para que ela estivesse ali pronta para impedir Ricardo de fazer uma loucura.

Correção: uma loucura ainda maior.

Jô se recompôs e ficou novamente de pé por conta própria. O lado esquerdo do rosto estava bastante marcado e os olhos misturavam raiva e confusão.

-Me dê uma boa razão para não te meter um chute agora... –o olho direito se tornou vermelho. Kamila recuou um passo para trás, os músculos ficando rígidos: podia sentir a aura assassina emanando do Guardião da Névoa. Ricardo pelo jeito também havia notado,pois apertou ainda mais os punhos cerrados.

-A mesma razão pela qual eu lhe dei o soco: vocês dois merecem! Vocês fizeram a cabeça do Décimo para separar a família e nem nos deram nenhuma satisfação!

Zatch e Jô receberam a acusação como um soco no estômago e ficaram em silêncio. E para a surpresa de todos, Karoline se deslocou com leveza e se postou ao lado do pugilista de olhos claros.

-Eu concordo com o Sol. O que vocês fizeram foi imperdoável! Não quero brigar com vocês, mas entendam o quão difícil foi para nós... -e a moça pousou o olho castanho livre sobre o irmão mais velho. Kiba baixou o rosto, a expressão cúmplice aos sentimentos da Guardiã da Nuvem.

-Queríamos proteger vocês... –Jô controlou o tom de voz, respirando fundo para refrear a raiva. Ricardo abriu a boca para retrucar, mas a resposta não veio dele.

-E somos tão fracos assim para sermos protegidos?

Göbel jogou todo o sarcasmo que havia contido desde o começo do conflito. Estava de braços cruzados, olhando a dupla de guardiões de forma crítica.

A ruiva observava toda a cena com o coração oprimido de tristeza. Aquele fator sutil, que parecia não mudar nada, havia crescido e desnorteado o sentido de todos ali. Era a mágoa, acumulada pelos três anos de separação. Havia sido criada uma fissura na família.

Ninguém relaxou ou baixou a guarda. Sara já pensava na possibilidade de meter um cascudo em cada um dali. Eles tinham que virar a página de uma vez, afinal hoje era para ser um dia de festa! Mas as palavras morriam nos lábios da loira antes de serem proferidas, afinal ela era a favor da decisão de Ricardo... Não daquela forma radical, é claro.

O portão de ferro do galpão começou a ser aberto, as engrenagens rangendo como súplicas de dor. Yure apareceu por detrás do gigante retângulo de metal, um olhar sério cheio de concentração.

-Estou interrompendo algo? Posso voltar mais tarde... –o Sucessor arriscou uma piada, arqueando a sobrancelha quando percebeu que não obtivera êxito em melhorar o ambiente. –Bem, vamos entrando. Esta na hora de iniciar a Reunião.

Após a troca de olhares acusativos e magoados, os guardiões entraram no local um atrás do outro. Kamila e Sara mantiveram-se do lado de fora, não poderiam participar daquele encontro. A ruiva suspirou chateada e se virou para a outra mulher, de forma polida. Nunca tiveram muito contato.

-Poderia retirar o carro, por favor? Terei que sair para resolver alguns assuntos...

-Oh, claro. –Sara assentiu com a mesma educação e se dirigiu ao próprio veículo. Deixaria Kamila ir embora e colocaria o volume da música do rádio no máximo, tentando afastar a preocupação com todos os amigos.

Lá dentro, o clima de tensão parecia tão forte quanto descargas elétricas. O grupo se deslocava pelo chão de cimento cheio de rachaduras, no grande salão único do galpão. O sol entrava em feixes pelas janelas e pelas telhas quebradas, mostrando as partículas de pó dançando em espirais pelo ar. Havia várias maquinarias e artefatos de metal retorcido entulhados nos cantos das paredes e ao centro havia um grande bloco maciço aos pés do Décimo Chefe Vongola.

Dudu usava uma calça bege clara cheia de bolsos nas laterais, com duas correntes escorrendo pela cintura até abaixo do quadril. A camisa pólo era preta com dois botões, o superior aberto. Esperou pacientemente os guardiões irem ao seu encontro. Eles se prestaram em forma de meio círculo, todos os olhares encarando o Guardião do Céu.

-A irritação não os vai levar a lugar nenhum. Vocês esperaram três anos para atacar uns aos outros? –o rapaz suspirou e ergueu levemente os braços. –Viemos aqui para conversar. Viemos aqui para sermos uma família novamente.

Ninguém se impressionou com os comentários quase adivinhos do Chefe. Ele não poderia saber a história toda, mas sua intuição o deixava completamente por dentro da briga ocorrida minutos antes. Karoline deu um passo à frente, fez uma leve mesura e começou a falar, a voz sem nenhum traço da aflição de antes.

-Sei que você apenas quer o melhor para a família, Décimo, mas eu honestamente me sinto traída por ter sido afastada da verdade todos esses anos.

Zatch e Jô sentiram como se o corpo pesasse uma tonelada e se retraíram levemente no próprio lugar. Ricardo fechou os olhos e respirou fundo, tentando se acalmar. Kiba olhou para cima, com as mãos no bolso, de forma nostálgica. Karoline iria continuar suas acusações, mas o Décimo ergueu o braço autoritário e pediu silêncio.

-Então não culpe os rapazes e sim a mim. A decisão final foi minha, não se esqueça. –Karoline baixou o rosto e Dudu sorriu chateado. –Não baixe a cabeça por achar que me afrontou, eu disse apenas a mais pura verdade.

-Sem querer ser o porre da situação, mas não podemos dar continuidade no real motivo de estarmos aqui? –a voz de Kiba estalou após um assovio.

Dudu desfez o sorriso, ficando com a expressão extremamente séria. Yure, que de alguma forma se manteve oculto dos olhos de todos, se aproximou próximo ao grande cubo. Karoline e os outros voltaram a se alinhar, formando novamente o arco. O Sucessor do Sol fez uma reverência com o chapéu para o espadachim, grato por sua interrupção.

Aquela discussão poderia ser deixada para outra hora.

Yure pigarreou e tomou a palavra novamente, começando a falar sobre os eventos desconhecidos por boa parte da família: a urna secreta dos Anciões, os boatos no submundo, a perseguição e retaliação proposta pela família inimiga.

Zatch observou a expressão dos três guardiões que não sabiam dos fatos, com o desenrolar das palavras do Sucessor. Ficaram estáticos, os olhos surpresos e os punhos rígidos, como se pudessem ser atacados a qualquer momento.

-Quer dizer que iríamos ser caçados por isso ai? –Ricardo trincou os dentes, apontando o bloco. –Não vejo nada de especial nisso...

-Seja razoável. É um presente dos Anciões, assim como nossas armas seladas... Deve haver alguma função oculta que ainda desconhecemos. –Zatch concluiu, enquanto a mão direita segurava o próprio queixo. Os olhos de Yure brilharam, como se finalmente houvessem chegado ao ponto que ele estivera esperando.

-E se vocês olharem atentamente perceberão a relação da caixa com os seus brasões...

De fato, a superfície não era completamente lisa: havia encaixes com a forma dos brasões dos guardiões. Dois em dois para cada superfície tirando o do Chefe, que se mantinha solitário em uma das facetas. Göbel se aproximou e agachou-se para visualizar melhor, enquanto Kiba coçava a cabeça ainda sem entender.

-É um cofre, seu imbecil... –o Guardião da Chuva revirou os olhos, como se aquilo fosse à coisa mais óbvia do mundo. –E ao que parece, precisa de todos nós reunidos para ser aberto. Foi uma boa idéia termos nos separado, no final das contas.

O pugilista do Sol teve que manter um autocontrole excepcional para se manter sereno, ciente que nada o impediria de meter um soco no focinho do estrategista. Kiba puxou a irmã para perto de si e ela virou o rosto, vendo nos olhos azul-esverdeados dele a calma para não perder a cabeça.

-Melhor abrirmos logo, estou começando a ficar curioso. –Göbel se levantou e começou a desatar a corrente do pescoço.

-Por favor pessoal, tirem os brasões.

Cada guardião retirou o próprio símbolo e o acoplou na superfície de metal. Dudu foi o último, revelando o pingente que se mantinha obscuro por debaixo da camisa.

Seu formato era uma escuderia, o símbolo da família Vongola.

O chefe prendeu no encaixe e todos os pingentes se acenderam, cada qual com a cor da Chama do dono. As sete luzes tornaram um arco-íris, oscilando pelo ambiente.

Kiba iniciou a rodada de perguntas óbvias.

-Vamos ter que esperar?

Zatch suspirou, mas Jô que se deu o trabalho de responder.

-Pelo que parece, sim.

O espadachim mexeu os braços para cima, espreguiçando-se, enquanto bufava palavras sem sentido. Mas embora ninguém quisesse aparentar, estavam todos como ele: ansiosos, nervosos. O que poderia haver ali, que os colocou em tamanha situação de perigo? Era tão poderoso assim?

Mas não houve tempo para respostas. O galpão todo tremeu e uma explosão desfragmentou uma das paredes, mandando pedaços de concreto pelos ares. Uma nuvem espessa de poeira encobriu o buraco aberto repentinamente.

Estavam sob ataque.