Between the Woods

1 Uma nova casa? Nova vida? Com medo das árvores?


Notas iniciais
Olá! Fico muito agradecido por ter tido algum interesse nessa história! Aproveite!

Fazia três horas desde que eu sentei nessa cadeira dura, suja e extremamente desconfortável de ônibus. Apenas eu, a bagagem ao meu lado e minha mãe atrás de mim, sempre me cutucando e interrompendo minhas crises existenciais, com medo das nossas malas caírem da cadeira, segure essas coisas, nossas vidas estão aí, ela dizia. Uma chatice.

Não havia nada de interessante naquele lugar, apenas crianças chorando, pessoas vomitando, e eu me sentido incomodado, apenas mais uma viagem normal.

A única diferença, é que desta vez não era uma viagem de férias onde íamos pescar com parentes que nem conhecíamos direito, ou festas de família que só íamos para nos fazer presentes. Desta vez, estávamos de mudança. Saímos de Portland uma cidade até que agradável, e estamos no caminho de Tillamook, um lugar totalmente rural no meio do nada e aparentemente conhecido por seu queijo. Acho que a única coisa parecida entre os dois é que está sempre a chover.

Faz alguns meses que pensamos em nos mudar. Minha mãe estava preocupada, Portland a desgastava. Seus cabelos loiros como ouro haviam perdido a sua cor, seus olhos cor de âmbar estavam sempre perdidos e vazios, como se toda a felicidade tivesse ido embora. Era como se ela ainda conseguisse sentir o gosto de como era ser feliz, mas estava a se esquecer gradualmente, dia após dia de como era o sabor. Ela odiava aquele lugar.

Então decidimos finalmente nos mudar. Eu havia sido criado em um lugar como Tillamook, por mais que pouco me lembre. (É possível ter Alzheimer aos 15 anos? Pois acho que esta é a minha situação).

Ela já havia tratado de toda a papelada, já havíamos comprado uma pequena casa para nós dois, eu já estava matriculado numa escola e ela já tinha um emprego a esperar por ela naquela pacata cidade. Talvez possamos voltar a ter as nossas antigas vidas, por mais que eu ache que será difícil de adaptar. Era tudo tão cheio de gente em Portland, tudo era perto o suficiente, e havia internet, algo que acho que vou ter de aprender a sobreviver sem.

Depois de mais alguns minutos de viagem e de mais algumas pessoas a passarem mal, finalmente chegamos à estação, haviam mais três ônibus além do nosso, e aquele lugar parecia que nunca estivera tão cheio assim, já que os funcionários estavam desesperados a correr de um lado para o outro, acho que eles nunca tiveram mais de 30 pessoas na estação. Apenas estava contente que havíamos chegado, pois eu não aguentava mais a minha mãe a me cutucar a cada seis segundos e meio. Pegamos nossas coisas e descemos.

Eu havia gastado dez anos em Portland. Eu me esqueci de como era respirar um ar puro, andar em algum lugar sem esbarrar em alguém e não ter que esperar mais de 10 minutos numa fila de café. Esse lugar já estava a ser mágico para mim, e para minha mãe devia estar a ser ainda melhor, é sério, a mulher parece no mínimo 10 anos mais nova, e eu estava contente por isso.

Depois de tomar um café e pedir algumas informações, nós apanhamos um táxi e fomos em direção á nossa nova casa. Enquanto andávamos, era possível ver a pitoresca paisagem. As estradas vazias, os grandes campos com algum gado, a cidade não muito cheia, com algumas lojas de souvenires e restaurantes, além de várias lojas destinadas a venda de queijo, só queijo.

—Eles levam essa parada de queijo bem á sério... Não?- eu pergunto á minha mãe que contemplava o cenário.

—Há uma fábrica de queijo ao norte da cidade, deve ser por isso... E talvez alguma razão cultural ou... Sei lá! Apenas aceite que eles gostam de queijo, e talvez sejam um pouco... Fanáticos – Ela dizia isso com um tom de piada, mas no fundo tínhamos o pressentimento que havia algum tipo de culto do queijo ou uma adoração ao queijo... Eu só sei que não vou experimentar essa coisa tão cedo.

Enquanto andávamos, era possível notar que, aos poucos, a paisagem urbana e adoradora de queijo se transformava em algo meio rural, e algum tempo depois já tínhamos saído da paisagem urbana meio rural e havíamos entrado em uma paisagem totalmente diferente. Os pequenos edifícios haviam se transformado em grandes árvores coníferas que beiravam a estrada, fazendo uma densa muralha verde. Podia ser só minha impressão, mas as árvores pareciam realmente selvagens como se dissessem ‘’tente acampar aqui e nós te fazemos comer a sua barraca’’. Eu apreciava este pensamento, mas depois lembrei que ia viver aqui, e não estava a fim de ser obrigado pelas árvores a comer minha nova mobília.

Depois de mais uns 10 minutos no taxi, nós chegamos numa bifurcação, aonde a estrada de asfalto ia para a direita e um caminho de terra para a esquerda. Eu apenas rezei ‘’por favor, não seja aqui, não seja aqui, não seja aqui’’ Mas infelizmente o táxi parou exatamente no meio das duas estradas. Nós pegamos nossas bolsas, minha mãe o pagou e nos deixou naquele lugar inóspito e sem internet. Exatamente oque eu esperava que acontecesse

Momento de confissão: eu havia lembrado porque não queria estar lá. Eu tinha medo da floresta. Eu sei o quão ridículo isso soa, mas é a verdade, enquanto alguns tinham medo de monstros, outros de escuro, eu tinha medo de mato. Apenas não riam ok? Isso é um trauma, quando se esqueceram de mim numa floresta no meio de uma visita escolar. Não preciso dizer que eu instantaneamente mudei de escola depois disso, além de ficar traumatizado de graça! Ask Young recomenda essa escola para crianças do mundo que queiram receber um ótimo ensino e um ótimo trauma!

Vamos apenas esquecer o quão estranho é o meu nome, ok?

Depois de alguns minutos de organização, mais parecia que íamos acampar (algo que eu não pretendia fazer enquanto aquelas árvores fossem assim comigo) do que encontrar a nossa nova e permanente casa. Nós terminamos de se arrumar e seguimos o caminho de terra.

Devo confessar que aquele lugar era realmente encantador. O ar era puro, não se via ninguém e nem nada construído pelo homem naquele lugar. Se não fosse pela estrada e pela placa enferrujada e amarela que dizia: ‘’CUIDADO, URSOS NA ÁREA’’ eu acharia que seria a primeira pessoa a andar por ali. Mas dá para perceber o porquê daquele lugar ser assim. Tudo parecia demasiado selvagem, como se a Natureza tentasse realmente fazer com que a floresta tivesse o menor número de visitantes humanos possível. A Natureza é realmente boa com isso, acredite.

—Vamos andando?- Minha mãe pergunta, mas seu olhar não estava focado em mim, estava focado em tudo a nossa volta, as árvores, o som dos pássaros, o ar... Eu podia sentir que ela realmente chegou a casa. Eu juro que podia ver um crepitar nos olhos dela, como se antes houvesse só brasas de esperança, e agora, eu podia ver o incêndio em seus olhos. Não é tão assustador assim, acreditem.

Apenas começamos a caminhar pela estrada, o chão era bem irregular, mas não havia problema, ambos estávamos com roupa de caminhada: botas, calças jeans, camisas de flanela e enormes mochilas nas costas. Erámos realmente iguais no quesito de guarda-roupas. Andamos e passámos por uma ponte, depois por um grande portão enferrujado que dava para um lugar que certamente estava abandonado (assustados pelas árvores, aposto) e depois passamos novamente por uma ponte. A cada passo, parecia que a floresta ficava mais escura e densa, mas estranhamente mais amigável, talvez eu realmente esteja a ficar paranoico com isso.

Depois de ver uns esquilos brigando e fazendo apostas para ver quem ia ganhar (Que eu perdi), nós chegamos á casa. Não era grande, construído com toras de madeira escura, era um chalé de dois andares bem compacto com uma chaminé e telhado com um vermelho ocre, dava para ver que tinha um sótão, com uma janela no segundo andar, ele era um pouco elevado do chão, pois sua base era feita de pedra, e na parte frontal havia um pequeno deck com uma mesa de pic-nic e um guarda sol velho. Ao lado havia um pequeno telhado para oque parecia ser uma garagem com uma caminhonete vermelha embaixo. Não era novo, eu tinha certeza, mas o tempo até foi gentil com essa convidativa casa.

Toda essa coisa de casa é um conceito novo para mim, já que desde que cheguei á Portland eu morava em apartamentos, mas isso não nos impedia de dar um passeio pelo parque de vez enquanto, para escapar a confusão.

Nós subimos o deck e paramos na porta da frente, onde colocamos as bolsas no chão enquanto minha mãe pegava as chaves. Enquanto ela remexia sua bolsa eu ficava a observar ao redor, nada demais. Eu até podia me acostumar com isso e...

— Preparado para uma nova vida?- Ela disse, interrompendo novamente minha descrição. Eu podia notar o êxtase em sua voz.

Respirei fundo. — Eu nasci pronto- respondi. E juntos entramos para a nossa nova vida.

Notas finais
Muito Obrigado por ter lido até aqui, novos capítulos serão lançados semanalmente (espero). Não se esqueça de comentar oque achou!