Between the Woods
2 Encontro um caminho na floresta, e depois... Uau.
Notas iniciais
Como descrever a nossa nova vida? Empoeirada. Muito empoeirada.
O lugar era 98,5% feito de madeira de carvalho que deixava o ambiente um pouco mais claro. Entrando pela porta da frente seguíamos direto para a sala de estar/jantar. A sala começava pela mesa de jantar redonda com 4 cadeiras á sua volta, um candelabro simples de duas lâmpadas se encontrava acima desta, provendo assim bastante luz para todo o ambiente, á frente da mesa havia uma cozinha americana. Á esquerda da mesa estava uma poltrona e um sofá num formato de L envolta da lareira. Uma pequena mesa de centro de madeira separava os móveis da lareira. Naquilo que parecia ser a divisa entre a zona de estar e a de jantar estava uma porta que deveria ser o banheiro. Ao lado da cozinha havia um corredor que levava para oque eu acredito ser um quarto. Num canto da sala estava uma escada que levava para o segundo andar, onde havia um corredor que seguia em frente.
Eu tinha certeza. Pelo menos 30% do ar que estávamos a respirar era pó. Aquele lugar devia estar fechado a muito tempo, porém, isso não o fazia menos interessante, já que o antigo proprietário deixou tudo que lá estava e abandonou o lugar, e depois o governo pegou a casa e leiloou por um preço absurdamente baixo. Bem, apenas espero não encontrar nenhum corpo aqui.
Nós levamos nossas coisas para dentro e fechamos a porta.
— Depois da cozinha está a suíte... E depois no segundo andar está o outro quarto e o escritório... – Dizia minha mãe para si mesma, meio que tirando notas mentais enquanto analisava algo que parecia ser a planta da casa. –Bem... — Ela continuou- Ask, você fica lá em cima no segundo quarto, eu fico na suíte aqui em baixo, o banheiro fica ali – Disse apontando para a porta em que minutos atrás eu fiz o palpite de ser um banheiro. Minha intuição nunca falha.
Momento curiosidade: Eu nasci em Portland, mas isso não me impediu de receber um nome estranho. Na verdade meu nome significava ‘’Freixo’’ que é uma árvore, algo a ver com mitologia nórdica. Super poético.
Depois de dar uma vista de olhos pela casa eu vou até o meu quarto, descobrindo que na verdade o porão era o meu quarto (Minha maravilhosa intuição falha ás vezes). Não era desagradável, havia uma janela circular na parede da frente da casa, e mais uma janela que dava para o telhado. Havia uma cama de casal por baixo da janela circular com um criado-mudo, e algumas estantes anexas á cabeceira da cama. Um baú velho estava ao pé da cama.
Por baixo da janela do telhado havia uma mesa de madeira escura com alguns detalhes talhados, era realmente bela. Ao seu lado algumas estantes cheias de livros dos mais variados temas, como por exemplo um manual de como fazer bolos utilizando batatas e arroz até de como tratar de licantropia (eu não faço ideia do que isso significa). Ao lado da porta de entrada estava um armário de madeira.
Depois de colocar minha bolsa no quarto eu fiz uma inspeção a fim de encontrar qualquer tipo de insetos, aracnídeos e talvez até um cadáver. Por sorte a única coisa que eu encontrei foi um cadáver de aranha pequeno.
Eu me deitei na cama. Estava exausto da viagem e da mudança. E, antes que eu pudesse me sentir tranquilo durante mais de três segundos uma pequena voz na minha cabeça me lembra do pior dos meus pesadelos, a escola. Agora, além de exausto estava também ansioso. Obrigado cérebro.
Todos os tipos de pensamentos me invadiram: Como ia ser aquele lugar? Como eram as pessoas? Será que eu vou me adaptar? E o pior de todos: Será que só servem queijo no almoço? Mais uma vez, obrigado cérebro.
Eu fiquei deitado durante um tempo, comi barras de cereais, depois tive crises existenciais, depois agradeci o fato de minha mãe não me cutucar e reclamar que eu não estava a segurar as bolsas e me desconcentrar, e por fim adormeci.
Meus sonhos são sempre estranhos, isso quando eu não sonho com lhamas. Eu tenho sempre algo com lhamas.
Mas desta vez eu não sonhei com lhamas cantando karaokê, (Vamos apenas não entrar nesse assunto) eu sonhei que estava na floresta, á beira de um riacho que ia dar para dentro de uma gruta, como se esta fosse um grande caminho para as entranhas da terra (isso soa bastante poético) Mas algo estava errado. A floresta não parecia querer me fazer engolir qualquer coisa, estavam apenas normais, como árvores normais, oque não faz sentido nenhum para mim. Eu me senti em transe, quase como hipnotizado por aquele lugar, por aquela gruta escura, como se algo me chamasse, como se alguém dissesse venha, temos cookies aqui. Mesmo assim eu não saí do lugar, já que não tenho o costume de aceitar cookies de grutas aterradoras. E como se a gruta percebesse isso, o sonho ficou mais ‘’nervoso’’ agora soava como: Venha aqui agora. Vou te fazer engolir esses cookies inteiros. Então algo aconteceu, senti que o sonho mudou totalmente, mas nada se alterou fisicamente. E então meu maior medo se concretizou: uma lhama saiu da gruta andando num monociclo.
Eu me levantei num pulo da cama. (qualquer um o faria se visse uma lhama num monociclo) Aposto que era aquele pó que estava a afetar o meu cérebro. Eu fui até ás janelas e as abri. Era possível ver o caminho pelo qual viemos e as montanhas ao longe. Deu pra perceber que era algo entre 2 e 4 horas da tarde. Era um ótimo momento para uma caminhada.
Desci as escadas até a sala, onde encontrei minha mãe a dormir. Fazia dias que ela não pregava o olho, ela merece uma soneca. Escrevi um rápido bilhete dizendo que ia sair e que voltava logo. Depois peguei minha bússola e meu casaco e saí, indo em direção da borda da floresta.
Era estranho. A nossa casa ficava numa pequena clareira, e envolta, a não ser pelo caminho de saída, estávamos rodeados por altas árvores. Estar na beira daquele abismo era quase nauseante, como se nossa perspectiva mudasse completamente, saindo do lugar onde estamos seguros e confortáveis e indo para um onde era praticamente primitivo, como se as árvores estivessem mais adaptadas á gigantes e trolls do que com pequenos humanos. Dava-me calafrios. E então eu finalmente entrei na floresta.
A única coisa realmente útil é a que eu tenho um ótimo sentido de direção, por isso, dificilmente iria me perder. Eu sabia que minha casa ficava no extremo sul, então se eu caminhasse para o extremo norte não ia me perder. (Incríveis habilidades direcionais, não?)
Entrar na floresta era como dar um pulo de um trampolim para uma piscina, oque não era a parte mais difícil. Oque era difícil era continuar a andar.
Eu continuei extremamente desatento ao caminho e deixando todos os meus pensamentos fluírem, todo o stress ir embora, totalmente absorvido pelas minhas ideias, todos os meus pensamentos sobre tudo. Era realmente muito bom o sentimento de se sentir livre, como se nada o segurasse no chão, dando vida a todas as suas ideias... Apenas me lembrava de como era bom quando visitava meu pai nas montanhas, era o mesmo sentimento de liberdade... Malditas lembranças.
Meu pai era muito parecido comigo, minha mãe costumava dizer que eu era uma cópia dele, já que erámos bem altos, tínhamos o mesmo formato de rosto, ambos tínhamos o cabelo mais comprido e encaracolado, por mais que o dele tivesse uma coloração de marrom mais escuro, enquanto eu tinha uma cor parecida com bronze, como ele costumava dizer. Mas a parte que eu mais gostava eram os nossos olhos marrons cor de mel, sempre com aquela emoção, aquele inquietação e receio de seguir em frente, mas com uma imensa determinação para o fazer, e o sorriso sempre estampado no rosto, mesmo nas piores situações... Aquilo sempre me reconfortava.
Mas agora, isso são apenas memórias. Memórias dolorosas, eu pensava comigo.
Eu continuei a andar até chegar ao pé de uma montanha, onde um pequeno riacho caía e se transformava num grande véu. Eu me aproximei para olhar de perto. Podia sentir cada gotícula em minha pele. Era realmente bom.
Aquele lugar era realmente ótimo, eu realmente não ia ter problemas para me adaptar. Aquele ar, aquele cheiro... Apenas me fazia sentir vivo.
Quando eu me preparo para ir embora daquele lugar e voltar para casa, me viro e tomo o maior susto da minha vida.
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