Between the Woods
3 Eu tenho certeza que ele já escondeu um corpo.
Notas iniciais
Sabe quando levamos aqueles sustos em que damos saltos de alguns metros e nos agarramos ao teto? Bem, foi exatamente isso que aconteceu. Infelizmente não havia nenhum teto ali, por isso, eu juro que quase caí na água.
Um rapaz, aparentemente com a mesma idade que eu. Usava botas marrons de cano alto para caminhada que cobriam uma parte de suas jeans azuis escuras justas, preso na cintura estava um casaco verde de lã acima ele usava um outro casaco verde oliva com uma camiseta preta sem estampa por baixo. Seu cabelo era levemente encaracolado, igual ao meu, mas suas raízes eram negras como carvão, mas em suas pontas eu podia notar uma coloração de vermelho vivo. Seus olhos eram verde escuro. Sua expressão era de: Oh não, mais um para esconder o corpo, que droga. Devo dizer que isso não me deixou nada á vontade.
Em seus olhos havia certa inquietação e até certo divertimento, que eu esperava não ser contentamento homicida.
— Olá. – Eu digo, após um breve silêncio e de espera para meu coração voltar ao normal.
Ele manteve o silêncio, ele ainda estava a me analisar, talvez com medo que eu fosse de outro mundo, ou coisa parecida.
— Quem diabos é você? – Ele disse. Sua voz não era tão grossa como eu esperava ser. Se afinasse um pouco mais poderia enganar alguém fingindo ser uma garota (Algo que eu não vou dizer á ele, obviamente).
— Eu? Hãã... – Eu ainda estava em choque para poder dizer qualquer coisa. Apenas não sei se em choque por causa do susto, ou por causa dele em si.
Ele apenas observou, esperando minha resposta enquanto eu tentava lembrar meu nome.
— Ask... Meu nome é Ask. Sou o novo morador de... Bem, aqui perto. – Talvez não fossem as melhores palavras, mas eu acho que se demorasse mais ele ia me dar com o bastão na cabeça.
Ele parou e refletiu sobre oque acabou de ouvir, por mais que não parecesse convencido sobre isso.
— Que raio de nome é esse? – Ele disse. Essas sim são palavras escolhidas cuidadosamente.
— Bem, não importa – Ele disse, antes que eu pudesse explicar a boa imaginação dos meus pais. – Disse que era novo morador? – Ele continuou.
— Sim, eu cheguei hoje aqui... Eu vim com a minha mãe... Estamos ainda a arrumar a casa... – Eu expliquei. Ele parecia ouvir e analisar cuidadosamente cada palavra. – E quem é você? – Eu perguntei.
Ele refletiu um pouco antes de responder, talvez com um pouco de receio.
— Meu nome é Nate. – Ele contou. E não parecia ter vontade de contar mais.
Depois de um silêncio um tanto awkward, ele finalmente tomou a iniciativa para continuar a conversa.
— Bem, se mora aqui, provavelmente vai ir para a escola de Tillamook, certo? – Dizendo isso agora (talvez) um pouco mais animado.
Obrigado cérebro por me lembrar da escola antes, e agora, obrigado universo por fazer alguém me lembrar disso. É sério, eu amo vocês.
— Sim... Você estuda lá?- Eu o respondo no mesmo tom de voz que ele. (Vamos lá, eu preciso me enturmar)
Ele pareceu pensar sobre isso durante um momento, como se não tivesse certeza do que ia dizer.
— Sim, 9º ano. E você? – Ele pergunta. Será que estava realmente interessado ou só estava a ganhar tempo para me poder sequestrar? Eu não tenho ideia.
— Sim... Mesma coisa... – Eu respondo.
De súbito, estava a ficar mais frio. E eu não tinha mais casacos. Eu podia sentir o ar mais pesado e frio. Sentia que o calor estava a se afastar das extremidades do meu corpo.
— Eu antes estudava na... — Eu digo, antes de ser interrompido.
— Você está com frio? – Ele pergunta, me interrompendo. Eu não sei como ele reparou nisso. Ele tira seu casaco de lã da cintura e o estende para mim.
— Eu... Não é preciso... Eu fico bem. – Eu digo. Na verdade, naquele curto intervalo de tempo, a temperatura havia caído de uma maneira drástica. Eu podia perceber que estava a tremer levemente. Maldita Mãe Natureza.
— Não, Você não vai ficar bem. Não viu as notícias? Vai nevar hoje. – Ele tinha receio de me dar o casaco, eu podia ver isso em seus olhos, mas mesmo assim ele o estendeu para mim.
Eu o aceitei. Estava realmente com frio.
— Como posso te devolver? – Eu disse, enquanto pegava o casaco e o vestia.
— Bom... Nós estamos na mesma escola, e no mesmo ano. Além disso, faltam dois dias para as aulas começarem. Então não acho que será um problema. Apenas não o estrague. – Ele disse. Sinceramente não estava a fim de estragar aquilo, vai saber quantos corpos ele já não escondeu naquela floresta.
A floresta á nossa volta estava a ficar realmente mais fria, eu podia ver minúsculos pedaços de neve caindo do céu. Podia ver a grama a ficar com uma leve camada branca por cima. O ar envolto pela cascata estava a congelar.
— Obrigado... Nate. – Eu disse, dando um leve sorriso enquanto sentia o calor do casaco de lã a manter meu corpo quente.
— Ok. A gente se vê por aí, Ask – Ele disse.
Ele não sorriu, não fez uma cara feia para mim e disse Se o sujares eu vou te fazer limpar com a língua. Ele apenas olhou para mim, acenou com a cabeça, se virou e voltou a andar, voltando para o pé da montanha.
Eu apenas fiquei a observar enquanto ele descia e desaparecia ente as árvores. Que cara estranho.
Então, depois de me recuperar de tudo aquilo, eu, com os meus incríveis sentidos de direção encontrei o meu caminho de volta para casa. Porque é sério. Estava muito frio.
O caminho de volta era mais do mesmo, a diferença é que desta vez não consegui parar de pensar nesse estranho encontro. Aquele cara... Nós não nos conhecíamos, eu poderia ser qualquer um, eu poderia ter mentido para ele, eu podia ter feito qualquer coisa. Mas mesmo assim ele me deu seu casaco. Ele percebeu que eu estava com frio, ele estava reparando em mim. Eu pensei, mas depois percebi que talvez estivesse a ficar paranoico com isso.
Depois de uma caminhada, alguns tropeções e depois mais alguma caminhada eu havia chegado em casa.
A visão era realmente confortável. A fumaça a sair pela chaminé, as luzes acesas. Eu podia sentir o calor de lá mesmo estando longe.
Uma coisa que eu percebi sobre o casaco verde de lã, enquanto caminhava para a porta da frente, era de que ele cheirava muito bem, tinha um leve cheiro de madeira, e de avelãs. Eu gostei do cheiro.
Eu abri a porta, entrei e a fechei rápido, para que o calor não saísse.
A nossa nova vida não estava mais empoeirada, e estava muito confortável. Eu devia dizer que o fato de nós morarmos num apartamento não impedia minha mãe de fazer com que o ambiente ficasse mais confortável e natural possível. Não era preciso dizer que estarmos naquele lugar não a deixou diferente.
O lugar, antes abandonado e sujo, estava agora totalmente limpo e arrumado. O cheiro da madeira queimada misturava com o cheiro de pinheiro e me fazia sentir no paraíso dos aromas montanhosos.
O calor da lareira deixou tudo isso mais confortável. Eu já não precisava do casaco do Nate, mas sinceramente não o queria tirar.
Enquanto observava, percebi que minha mãe havia deixado um bilhete em cima da mesa de centro da sala: ‘’Fui dormir, hambúrguer na geladeira. Comporte-se. ’’ Eu me perguntei se ela realmente confiava tanto assim em mim ou só não se importava de eu congelar lá fora. Eu fiquei com a primeira opção.
Eu comi o hambúrguer, e depois subi. Estava demasiado cansado para um banho. Infelizmente meu quarto não estava com a mesma temperatura que a sala, já que a minha janela havia ficado aberta. Eu apenas fechei a janela, fui para debaixo das cobertas e quase que instantaneamente adormeci. Acho que só o fato de pensar nas milhares de coisas já era o suficiente para me fazer ter um desmaio.
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