Notas iniciais
Eu sei o quão difícil é visualizar personagens que não existem, então seguindo a sugestão de uma amiga leitora eu resolvi compartilhar as "pessoas" por trás da minha inspiração. Este aqui é como eu imagino o Giulio (http://i1064.photobucket.com/albums/u373/burunas/Giulio.jpg) e este o Giuseppe (http://i1064.photobucket.com/albums/u373/burunas/Giuseppe.jpg). Espero que ajude hehehe

XI

Não havia nada que Mário evitasse mais do que uma conversa séria.

Todas as vezes que alguém dizia que precisava conversar, o ruivo imaginava o pior cenário, mesmo não demonstrando. É culpa do trabalho. Sempre que algum Chefe diz que precisa conversar com Ivan eu automaticamente penso que o homem vai tentar atacá-lo. É puro instinto. As palavras do braço direito do Guardião da Nuvem chegaram aos seus ouvidos como uma ameaça real. Mário ainda tentava digerir o simples fato de o moreno estar ali, em seu escritório, debaixo de seu teto, bebendo do seu café. Um antigo pensamento cruzou sua mente e ele abaixou os olhos, quase rindo. “Eu jamais o teria aceitado. Eu o teria enxotado da casa e diria que nunca mais o veria. Que absurdo! Você não brinca com os sentimentos dos outros por capricho.”

"Ouça, senhor Ferrari." O braço direito de Ivan entrou dois passos dentro do escritório, mas manteve a porta aberta. Ele sabia que Giuseppe teria subido para o segundo andar para lhe dar privacidade, mesmo não sabendo do que se tratava a conversa. "Eu não sei quais assuntos o trouxeram a minha casa, mas se for alguma mensagem de seu Chefe, eu pedirei que se retire." Não é sobre Alaudi. Eles estão juntos em Roma. Eu não sei o que esse homem quer, mas eu não quero saber.

Giulio pousou a xícara na mesinha de centro, da mesma forma como o ruivo havia feito naquela noite com sua taça de vinho. Ele podia ver claramente as garrafas enfileiradas, as risadas que ecoaram naquele cômodo e a maneira como seu peito doeu todas as vezes que ele se recordou da humilhação que sentiu.

O moreno parecia estar bem protegido do frio. Sua roupa era social, mas ele vestia um elegante sobretudo negro e um cachecol da mesma cor. O preto o deixava um pouco pálido, mas o verde de seus olhos nunca esteve tão belo. Mário mantinha o olhar firme, mas internamente ele admirava a beleza daquele homem, tentando não se recordar da fatídica cena do carro. Ver o braço direito na sua frente era tentador e perigoso demais.

"Eu irei embora depois de dizer o que vim dizer." A expressão de Giulio era séria. "Não é uma mensagem de Alaudi. É uma mensagem minha. Eu vim me desculpar pelo que aconteceu naquela noite."

O braço direito dos Cavallone nunca achou que viveria para ouvir aquelas palavras. Por quantas noites ele não imaginou como reagiria se tivesse a oportunidade de conversar com o moreno novamente? Todas as suas imagens mentais envolviam pedidos de desculpas (à sua maneira, claro). Eu desejei por muito tempo que esse homem aparecesse para que eu pudesse me desculpar. Agora que a oportunidade surgiu eu não sei o que fazer. Mário fechou a porta e cruzou o escritório, caminhando na direção da mesa e recostando-se. Suas pernas estavam molhadas e seu corpo tremia levemente, mas nada disso parecia importar naquele momento. Seus braços foram cruzados e seu sempre-presente sorriso de pura presunção desapareceu. Eu farei isso apenas uma vez. Esta será a primeira e última vez.

"Naq––"

"Ouça, eu não vou ouvir um resumo do que aconteceu." O ruivo cortou a fala de Giulio. "Porque eu sei bem o que aconteceu naquela noite, e antes que você me venha com um discurso pronto e cheio de culpa, sou eu quem lhe deve algumas... palavras." Desculpas. A palavra é desculpas. Por que ela simplesmente não sai? "Eu tive culpa no ocorrido, então corte essa parte do seu discurso. Eu o convidei para bebermos porque tinha o intuito de seduzi-lo. Eu estava interessado em você... sexualmente falando."

O braço direito de Ivan quase riu. A maneira como Giulio corou ao ouvir aquela parte foi tão pura e ingênua que chegava a ser adorável. Você não pode parar agora. Seu orgulho já está despedaçado então acabe logo com isso. Existe uma larga adega no porão e você poderá beber a noite inteira.

"Eu aproveitei que você estava vulnerável e... fiz o que fiz. Então, eu sinto muito por quebrar a pouca — ou quem sabe nenhuma — confiança que você tivesse em mim." Porém, eu não me arrependo. Eu nunca desejei uma pessoa como eu te desejei, e valeu a pena mesmo que por uma única vez na vida eu soube o que é tocar alguém que eu realmente me importei. "Se depois disso você ainda tiver algo para dizer eu escutarei, mas deixo claro que se for mais um discurso sobre o quão baixo eu sou, então eu pedirei que vá embora, pois não serei insultado em minha própria casa."

O moreno havia se recuperado da coloração rosada, e a expressão taciturna e pesada retornara. Seu corpo virou-se e ele deu um passo à frente, ficando em frente ao ruivo, mas afastado cerca de dois metros, a distância exata entre a poltrona e a mesa do escritório. O braço direito dos Cavallone agradeceu mentalmente por ter um apoio, ou ele simplesmente se deixaria cair. O clima entre eles era péssimo.

"Eu não direi nada do que eu disse naquele dia, e gostaria primeiramente de me desculpar por todas as barbaridades que mencionei. Você não merecia ouvir nada daquilo. Eu estava surpreso e... receoso. Eu queria apenas que você fosse embora."

“E conseguiu. O que vem agora? Nada mudará o fato de eu ter me aproveitado da situação. Nada do que você diga poderá mudar minha atitude naquela noite e o modo como agi como uma pessoa totalmente sem caráter. Você teve todo o direito de me odiar, e honestamente, eu não mereço suas desculpas. Eu sou um lixo de pessoa, e––"

"E o que aconteceu foi parcialmente minha culpa." O moreno cortou os pensamentos de Mário. Sua voz saiu um pouco mais alta e era clara a maneira como ele lutava para dizer aquilo. "Eu não estava bêbado. Eu tenho alta tolerância para bebida."

As sobrancelhas ruivas se juntaram e o braço direito de Ivan entreabriu os lábios, sem saber ao certo o que deveria dizer. O que era aquilo? Ele se lembrava muito bem do homem que esteve com ele naquele carro. Os olhos, a voz, as palavras... ele estava bêbado.

"Eu estive sóbrio durante todo o tempo. Quando disse que tenho minha parcela de culpa me refiro a ter permitido que você fizesse o que fez. Eu sabia que aquilo aconteceria. Eu aceitei seu convite sabendo que você pretendia terminar a noite na minha casa. Eu sempre soube das suas intenções."

Mário se desencostou da mesa e seu rosto estava tão vermelho quanto seus cabelos. Não havia mais frio ou pernas molhadas. Seus olhos verdes queimavam de raiva e há muitos anos ele não perdia o controle como ele sabia que perderia naquele momento. Todas as noites, todos os momentos, todo o tempo que ele passou se martirizando naquele último mês pareceram extremamente irrelevantes. O sentimento de culpa que o assolou foi insuportável, e em muitos momentos ele pensou em simplesmente se desculpar para poder esquecer tudo aquilo. Então, de repente, a pessoa que o assombrou diz que ele não teve toda a culpa? Que tudo o que sentiu foi descabido? Não. Aquele homem era impossível!

"Ouça aqui, eu q––"

"... Eu gosto de você."

Mário havia dado um passo à frente no calor do momento, mas não somente suas pernas recuaram, mas também suas palavras. Seus olhos se arregalaram, piscando várias vezes, como se isso pudesse tornar o que havia ouvido mais ou menos verdadeiro. ?

Giulio abaixou os olhos antes de continuar.

"Eu gosto da sua companhia. Eu gosto da maneira despreocupada e presunçosa com que você trata basicamente todos os assuntos. Eu gosto do som da sua voz, e do modo como você umedece os lábios depois de beber uma xícara de café. Eu gosto do jeito que você me olhava, quando eu fingia não notar o brilho em seus olhos. Eu gosto como você é honesto somente quando quer alguma coisa, se escondendo por trás de uma autoconfiança inabalável". Giulio fez uma pausa. Havia uma tímida e rosada coloração em suas bochechas. "Minha parcela de culpa foi ter incentivado as suas ações e depois ter jogado a responsabilidade pelo que aconteceu em suas costas. Eu estava apenas surpreso. H-Há anos eu não... tinha intimidade com outra pessoa. E eu nunca toquei outro homem."

O braço direito dos Cavallone lembrou-se da conversa que teve com Ivan há alguns dias, e a bagagem que o homem à sua frente carregava era pesada. Ele teve uma experiência ruim, algo que eu nunca passei então não faço ideia de como simpatizar com o que não conheço. A traição da noiva só serviu para transformar aquele homem em um fantasma do que ele costumava ser, isso segundo o próprio Alaudi. E não havia ninguém que o conhecesse tão bem quanto o Guardião da Nuvem.

Mário não sabia ao certo o que deveria dizer. Aquela não era a primeira vez que ele escutava uma declaração, mas foi a primeira vez que ele ansiou por aquelas palavras. As noites cujas únicas companhias foram as taças de vinho cruzaram sua mente, fazendo-o recordar-se de todos os momentos dolorosos que sentiu depois daquela rejeição.

"Eu realmente sinto muito."

Giulio tinha uma expressão que realmente demonstrava que ele estava se desculpando. O braço direito dos Cavallone ergueu os olhos e umedeceu os lábios, ensaiando mentalmente a enxurrada de palavras sarcásticas que usaria para diminuir aquele homem e enxotá-lo de sua casa. Quando seus lábios se entreabriram, entretanto, não houve som. Todo o desejo de vingança e vontade de pagar na mesma moeda desapareceram. A autoconfiança que o ruivo sentia parecia escorrer por seus pés, assim como a água gelada que havia se empoçado no local em que ele havia parado. Seu coração batia mais rápido e naquele momento ele entendeu porque Ivan saiu correndo quando ouviu que Alaudi estava na mansão. Ele sabia. Ele sabia que se o Guardião da Nuvem dos Vongola estava ali era porque havia mudado de ideia. Ivan sabia que seria aceito. Mário descruzou as mãos, apertando-as em forma de punhos. Seu rosto tornou-se mais quente, e ele odiava esses momentos. Por ser naturalmente ruivo, deixar que seu rosto se tornasse rubro era praticamente uma brincadeira de mau gosto. Isso significa que eu fui aceito?

"Eu sei que não tenho nenhum direito de perguntar nada, mas prometo que irei embora assim que me responder." O moreno tinha a voz um pouco mais alta. "Você falou sério quando disse que estava interessado em mim? E eu não estou falando em... dormir comigo... somente." O Vice-Inspetor corou.

O braço direito dos Cavallone soube naquele momento que sua resposta seria responsável por mudar o curso de sua vida. Eram raros os momentos em que ele tinha consciência de que uma palavra ou escolha poderia ter esse peso, mas aquele era um claro exemplo. O ruivo sabia que tudo mudaria independente de qual fosse sua resposta.

"Eu falo sério quando digo que estou interessado em você." A voz de Mário saiu em tom normal. Cada fibra de seu corpo parecia nervosa, mas ele manteve a compostura. "Naquela noite eu realmente tinha interesse em levá-lo para cama, mas eu teria dito as mesmas palavras na manhã seguinte. Eu não menti."

A expressão no rosto de Giulio parecia ter se suavizado e o homem coçou a cabeça, corando como um jovem. O braço direito dos Cavallone tentou não achar aquela atitude adorável, pois isso significaria sair de sua posição e claro, desfazer a expressão que ele tentava a todo custo manter.

"Eu quero conhecê-lo melhor." O moreno tinha a mão na nuca enquanto falava. "Eu passei esse tempo tomando coragem para vir me desculpar, mas todas as vezes que eu me decidia você estava fora do país a trabalho. Eu sei que é muito o que estou pedindo, mas eu gostaria que pudéssemos conversar sobre isso em uma outra oportunidade."

"Eu sou um homem, e acredito que esse detalhe não tenha passado despercebido.” O ruivo engoliu seco. A máscara havia dado lugar a uma real seriedade, esta utilizando como base os sentimentos de defesa que ele possuía. Ouvir aquelas palavras foi tudo o que Mário esperou naquelas semanas, mas ele não era um jovem que se deixava iludir. Por mais que o moreno estivesse arrependido, o peso daquela ofensa não poderia ser facilmente esquecido. "Você está pedindo uma oportunidade para o mesmo homem que você humilhou e ofendeu, e peço que me perdoe, mas isso soa muito estranho. Você disse que nunca tocou outro homem, mas aceitou facilmente que eu o tocasse naquela noite, e se me permite a ousadia, parecia extremamente entretido enquanto eu... trabalhava.

O braço direito dos Cavallone ergueu levemente o rosto. Sua entrada no mundo sexual havia sido aos catorze anos, com um garoto que morava no local em que ele treinava. Seu contato com mulheres só aconteceu anos depois, e ele entendia porque algumas pessoas preferiam um gênero ao outro. Entretanto, ele não mentia quando dizia que poderia facilmente ir para cama tanto com homens quanto mulheres, e não foram poucas as vezes que ele se deitou com ambos. Alguém como Giulio nunca entenderia esse tipo de situação. Isso era parte de quem o ruivo era. Seu passado, aquilo que o moldava, o definia como pessoa. Ele não tinha limites e não permitia que coisas como pudor pudessem atrapalhar horas agradáveis com um excelente amante, independente do sexo da pessoa. Porém, o braço direito de Alaudi gostava de mulheres e quase se casou com uma. Acreditar que magicamente ele começaria a preferir homens era uma ilusão que Mário não se permitia sentir.

"Eu não sou delicado ou macio. Eu possuo músculos ao invés de curvas. Eu não tenho seios fartos e uma cintura fina. E eu não preciso explicar como dois homens fazem sexo, não é? Aonde cada coisa vai, certo?" O ruivo continuou. "Suas palavras são bonitas, mas se você não consegue dormir com alguém do mesmo sexo, então eu não estou interessado. Eu estaria lhe enganando se dissesse que esta é a primeira vez que outro homem me faz sentir lisonjeado com belas palavras, mas você não pode abraçar ou beijar discursos. Palavras não vão te aquecer em uma noite de inverno ou serem tão boas na cama que te farão esquecer até mesmo seu nome. Eu não menti quando disse que tenho interesse em você, mas esse é o tipo de interesse que eu tenho: você. Você inteiro. Então gostaria que não perdesse o seu tempo e o meu com discursos impossíveis."

Giulio ouviu a tudo em silêncio, encarando o chão por alguns segundos antes de caminhar na direção do braço direito dos Cavallone. Mário apertou levemente a borda da mesa, se preparando mentalmente para sua segunda rejeição. Eu estou pronto. Eu não deixarei que esse homem me humilhe novamente. O moreno parou em frente ao ruivo, puxando-o pela cintura com uma força desnecessária e fazendo com que os corpos de ambos se encontrassem. Mário deixou escapar um som estrangeiro por seus lábios, uma mistura de gemido, suspiro e surpresa. Seus olhos verdes se arregalaram e seu rosto tornou-se vermelho. O braço direito do Guardião da Nuvem estava excitado.

"Eu fico assim todas as vezes que estamos próximos. Por que acha que eu passava todo o tempo sentado quando estávamos na minha sala?" Giulio tinha uma expressão perigosamente séria. Seus lábios estavam próximos e sua respiração se misturava a do ruivo. "Eu não me sinto assim por nenhum outro homem, então eu diria que não me sinto atraído por homens no geral, mas sim por você." O moreno apertou um pouco mais a cintura do braço direito dos Cavallone e Mário precisou se segurar para não gemer. Seu baixo ventre havia respondido àquele estranho contato e ele sentia seu corpo queimar de desejo. "Se você só queria saber se eu conseguiria ter alguma reação com um homem, então isto responde a sua pergunta. Existe alguma outra objeção? Porque se existir, então seja claro, pois eu quero beijá-lo quando não houver mais empecilhos."

As mãos do braço direito dos Cavallone aproximaram os rostos e a próxima coisa que eu ruivo soube foi que sua língua estava dentro da boca de Giulio. O beijo foi quente e eufórico. As mãos do moreno envolveram o corpo de Mário como se ele não passasse de um boneco, tamanha a facilidade com que ele conseguia trazê-lo próximo àqueles largos ombros. O gosto de chá sem açúcar se misturava a saudade, e aquele gesto deu a certeza que Mário precisava. Ele já havia trocado milhões de beijos naqueles anos, mas nunca aquele gesto tão cotidiano lhe pareceu tão intenso. O ruivo sabia como mover os lábios e a língua. Ele sabia que passar seus dedos pela nuca de sua companhia geralmente arrancava um delicioso arrepio. Ele sabia que se inclinasse sua cintura e a pessoa em seus braços não recuasse, então significava que ele teria sexo fácil naquela noite. O braço direito dos Cavallone sabia basicamente todas as regras da conquista, e ele não tinha vergonha nem humildade de se vangloriar por isso. Entretanto, estando ali, nos braços de Giulio, Mário esqueceu tudo o que havia aprendido e deixou apenas que seu corpo tomasse as rédeas da situação. Proximidade, calor e luxúria. Ele queria tudo.

O beijo terminou aos poucos. O moreno ainda beijou levemente os lábios do homem que envolvia, afastando o rosto devagar. O ruivo sentou-se na mesa, impossibilitado de qualquer outro gesto. Seus dedos tocaram seus lábios, ele ainda sentiu o gosto do braço direito de Alaudi em sua boca. Um delicioso gosto. E naquele momento ele soube que queria beijar aqueles lábios para o resto de sua vida.

"Então, você aceita minha proposta?" Giulio tocou os cabelos de Mário. Havia um tolo meio sorriso em seus lábios.

"Você ainda precisa de uma resposta?" O ruivo tentava retomar seu autocontrole e autoconfiança, mas nada parecia funcionar. Perto daquele homem era como se ele precisasse improvisar. Nada saia como esperado.

O moreno então desfez o sorriso e deu um passo para trás. O braço direito dos Cavallone entendeu o que aquele gesto significava e não se importou. Aquela conversa aconteceria eventualmente. Se não fosse com ele seria futuramente com outro amante. Mas valerá a pena? Valerá a pena deixar de ser quem eu sou por esse homem? Ele vale tudo isso?

"Eu sei sobre sua noiva. Eu ouvi a história há poucos dias." Mário manteve os olhos sérios. Giulio o olhou com surpresa. "Você estava certo quando disse que eu era frívolo, mas eu tenho caráter. Se eu digo que quero conhecê-lo melhor, eu realmente estou sendo sincero. Eu não sou aquela mulher. Eu não... sairei do seu lado."

O braço direito do Guardião da Nuvem ficou em silêncio por alguns segundos, estudando o homem que estava sentado sobre a mesa. Quando seus lábios voltaram a sorrir timidamente, o ruivo soube que sua vida de boemia havia terminado. Adeus Linda e suas amigas. Adeus noites atrás de companhia fácil. Adeus vinho azedo e barato. Adeus quartos mal-arrumados e pequenos. Adeus camas velhas e barulhentas. Mário ergueu uma sobrancelha e sorriu maldosamente, puxando o moreno pelo sobretudo e o posicionando entre suas pernas. Havia um brilho peculiar e curioso nos olhos verdes que o encararam, e o ruivo tinha certeza de que tudo aquilo era tão novo para Giulio como para ele. Suas mãos subiram pelo peito daquele homem, sentindo os músculos por baixo daquelas grossas camadas de roupas. Durante todos aqueles anos Mário nunca soube o que era tocar realmente alguém que seu coração escolhesse. Ele obviamente amou todos aqueles com que dividiu camas e mais camas de hotéis, mas o contexto daquele amor foi totalmente diferente. Nenhum deles fez seu coração bater mais rápido como o moreno fazia. Nenhum deles o fez sentir-se feliz, apenas por estar ali, tão próximo e tão ao alcance de seus dedos. O braço direito do Guardião da Nuvem se inclinou e um segundo beijo foi inevitável. Havia paixão e desejo, mas dessa vez também havia outra coisa... algo que ele ainda desconhecia.

O ruivo sabia que não se esqueceria do dia para a noite as duras palavras de Giulio, como também sabia que sua companhia — e agora oficialmente amante — levaria algum tempo até entender totalmente (isso se ele entendesse algum dia) o que era estar envolvido com outro homem. Entretanto, enquanto se perdia novamente naquele beijo, Mário pela primeira vez achou que aquilo tudo poderia ser facilmente esquecido com o tempo e uma boa dose de prática. O moreno desceu as mãos pela cintura do braço direito dos Cavallone, trazendo-o mais próximo. Os lábios do ruivo gemeram baixo e naquele momento ele soube que sua companhia também compartilhava daquele pensamento.

X

A parte mais difícil para Mário não foi se adequar a nova condição de amante de Giulio, mas sim abrir mão de algumas regalias que ele possuía quando não estava envolvido seriamente com outra pessoa. A princípio, a concepção que o ruivo tinha era que poderia aproveitar certos prazeres o mais rápido possível. Essa ideia, porém, mostrou-se totalmente ilusória. O moreno permaneceu muito pouco tempo na casa de Mário naquele domingo. Aparentemente aquela era uma das semanas em que a sede de polícia possuía muito trabalho, e com o Inspetor ausente até a terça-feira, Giulio era basicamente o responsável por fazer a coisa andar.

O braço direito dos Cavallone não pestanejou quando o moreno foi embora. Eles passaram alguns minutos no escritório, e esse tempo foi muito bem aproveitado com longos e passionais beijos. O ruivo ainda sentia o gosto de seu novo amante em seus lábios quando fechou a porta. O carro de Giulio havia encontrado fácil acesso através da neve e isso o deixou levemente invejoso. Eu demorei a chegar aqui por causa da maldita neve e ele vai embora como se não fosse nada. Giuseppe estava na cozinha quando Mário anunciou que tomaria banho, e o irmão apenas meneou a cabeça em positivo, voltando sua atenção para a louça.

Aquele dia foi o marco da nova vida de Mário. Ele almoçou com Giuseppe e depois retornou para seu trabalho na mansão, e sua tarde foi passada basicamente no meio da neve, dando ordens e tentando pensar em uma maneira de limpar o jardim. Seu corpo estava tão cansado e gelado que naquela noite ele acabou dormindo assim que encostou a cabeça no travesseiro. Pela primeira vez em semanas ele finalmente conseguiu descansar, dormindo mais de doze horas e acordando praticamente no horário do almoço. O belo rapaz de cabelos louros não estava na casa quando ele desceu para perguntar por que não havia sido acordado antes, mas tudo o que recebeu foi uma cozinha vazia e um bilhete sobre a mesa: aparentemente o almoço já estava feito e o braço direito de Francesco cuidaria da neve naquele dia.

O primeiro instinto do ruivo foi em comer alguma coisa e dirigir até o centro de Roma, mas automaticamente a parte em que Giulio falou sobre o trabalho o fez desistir da ideia. Ele mais do que ninguém entendia as responsabilidades que o trabalho exigia, e mesmo querendo ver o moreno, Mário achou melhor esperar. Nós deveríamos estar em cima de uma cama. A minha cama. Eu nunca trouxe ninguém em casa por respeito a Giuseppe, mas eu terei de abrir uma exceção para ele. Uma grande exceção. O braço direito de Ivan almoçou e se trocou, seguindo para a mansão. Só havia uma coisa que era capaz de deixá-lo focado, então ele abraçaria o trabalho até o dia em que ele e o moreno pudessem se encontrar. Quando seria isso? Mário não fazia a menor ideia.

Ivan retornou na terça-feira com o filho e a alegria voltou a reinar na casa. Giuseppe tornou a sorrir e assim que o pequeno o viu, arrastou seu futuro braço direito para a biblioteca, pois tinha "Um milhão de coisas para contar, oh, Peppe foi TÃO divertido!". O ruivo cumprimentou seu amigo ao abrir a porta do carro, mas não disse nada com relação a Giulio. Sua expressão era a mesma, seus comentários iguais, mas ele não mencionou sobre a conversa que tiveram e muito menos que estavam juntos. O trabalho do dia foi feito com a mesma responsabilidade e presteza, mas ao anoitecer, o braço direito dos Cavallone deixou a mansão, porém, não seguiu para casa. Seus pés o levaram até o carro, e ele sabia que precisava fazer uma visita ao centro de Roma ou acabaria enlouquecendo.

Durante mais de dez anos Mário dirigiu por aqueles caminhos com o único objetivo de obter prazer e companhia (não necessariamente nessa ordem). Ele lembrava vagamente a primeira vez que visitou à noite italiana e como se sentiu libertado quando dormiu com três prostitutas em uma única vez. Naquela noite, entretanto, ele não estava indo atrás de prostitutas ou bares. O veículo cruzou as ruas, diminuindo a velocidade ao chegar à frente da sede de polícia. O prédio estava bem iluminado e pela quantidade de subordinados no primeiro andar, o trabalho estava realmente intenso. O ruivo ponderou se deveria ou não descer do carro. Aquela estranha questão o fez sentir-se ridículo. Ele não era uma pessoa que pensava muito antes de agir, mas simplesmente vivia com as consequências de suas ações, independentes de quais fossem. A ideia de dar meia volta e retornar para sua casa foi tentadora, mas isso significaria não saber quando veria Giulio novamente, e esse era basicamente o problema principal.

Com pouca coragem e muita petulância, Mário adentrou a sede de polícia. Alfredo não estava na recepção, e em seu lugar um homem de meia idade, cabelos curtos e óculos o recebeu. As palavras foram ditas de maneira profissional, mas o senhor pareceu receoso em responder se o Vice-Inspetor estava no local. O ruivo sorriu, disse que o conhecia, e que gostaria de conversar sobre um assunto importante, mas tudo o que recebeu foi outro olhar duvidoso. A espera do braço direito dos Cavallone durou alguns minutos, tempo suficiente para que um segundo subordinado aparecesse e avisasse o homem de nome Arthur que Mário poderia entrar e que Giulio estaria em sua sala no terceiro andar.

O ruivo já havia entrado mais vezes do que gostaria de contar na sede de polícia, mas nunca aqueles passos lhe pareceram tão... estranhos. Ele sabia que deveria subir a escadaria até o segundo andar, e então mais alguns degraus até o andar dos arquivos. Seus passos o levaram até lá, mas ao encarar a porta de madeira da única sala do terceiro andar, o braço direito dos Cavallone recuou. Sua mão estava a poucos centímetros da maçaneta, mas era tão ridícula a maneira como seu coração batia, que ele se perguntou se era seguro encontrar o moreno naquele estado. Mário sabia que seu rosto estava tão vermelho quanto seus cabelos, e aquela sensação de ansiedade era nova. Ele sempre foi uma pessoa direta e sem pudores, mas bem, até poucos meses, alguém como Giulio nunca havia aparecido em sua vida.

A porta foi aberta depois de três leves batidas, e somente após avistar o interior da sala foi que o braço direito de Ivan entendeu porque o moreno não foi abrir a porta. Seu rosto estava fixo em algo que ele lia, e uma rápida olhada pela sala denunciaria que as palavras do braço direito de Alaudi eram verdadeiras: papéis e mais papéis. A sala geralmente tinha duas cadeiras para visitas, mas naquela noite havia sete. Todas possuíam pilhas e mais pilhas de papéis, e Giulio parecia um garoto no meio de tanto trabalho. Mário engoliu seco e abaixou os olhos, percebendo que deveria ter ficado em casa ao invés de seguir seus ímpetos egoístas. Eu deveria estar cuidando do meu próprio trabalho. Seu corpo arrastou-se lentamente, mas antes que ele pudesse sumir por inteiro, algo em seu peito o fez revirar os olhos e abrir a porta.

"Ocupado?"

Se o peso de atrapalhar o trabalho alheio incomodou o ruivo, a expressão no rosto do moreno pagou por todas as inseguranças que o braço direito dos Cavallone pudesse sentir. Giulio ergueu os olhos verdes do papel, olhando com uma mistura de surpresa e genuína felicidade. Ele estava de pé no segundo seguinte, esboçando um tolo meio sorriso que demonstrava claramente que ele não estava esperando visitas, quem dirá seu próprio amante.

"Você é a última pessoa que eu imaginava ver esta noite." O Vice-Inspetor deu um passo à frente, mas parou ao ver o gesto que o ruivo lhe fazia.

"Não se incomode, eu já estou de saída." Mário não conseguia negligenciar as cadeiras e os papéis. Ele sentia como se estivesse roubando as horas produtivas daquele homem para seu próprio prazer. E trabalho seria sempre trabalho. "Eu apenas vim fazer uma rápida visita porque não entendo muito bem o que eu devo fazer agora."

O braço direito do Guardião da Nuvem olhou para sua companhia com uma expressão que mostrava que ele não entendia o que estava acontecendo.

"Você foi até minha casa, nós conversamos e obviamente estamos na mesma página, mas e agora?" O ruivo sentia as palavras novas em seus lábios. "Nós nos beijamos e então? Eu nunca estive em algo à longo prazo. Não sei o que fazer a partir de agora." Aquele pensamento o fez lembrar-se de Jules e as quatro semanas agradáveis que ambos passaram juntos. Eu devo fazer o mesmo? Encontros casuais, quartos de hotéis, horas e horas de sexo? Não que eu vá reclamar se for isso mesmo...

As cadeiras que estavam bloqueando a passagem de Giulio foram retiradas e ele caminhou sem pressa na direção do braço direito de Ivan. Mário mentiria se dissesse que esperava algum tipo de contato por parte do homem. Certo, eles haviam conversado e entrado em um mútuo acordo. Certo, eles estavam interessados um no outro e aquilo era o que chamavam de relacionamento. E certo, ele entendia que nessas situações você quer ficar o mais próximo da pessoa em questão, mas não Giulio. Quando ouviu de Ivan sobre o que havia acontecido ao moreno, o ruivo viu ali o maior empecilho e provavelmente o motivo (um deles, talvez o principal) para ele ter sido rejeitado como foi. Então, era natural que o Vice-Inspetor quisesse ir devagar, ainda mais por nunca ter estado com outro homem.

O que Mário via, porém, era algo completamente diferente.

O braço direito do Guardião da Nuvem tinha uma presença que era difícil de ser ignorada. Até conhecer Giulio, o ruivo achou que somente seu Chefe e melhor amigo possuía aquele tipo de presença magnética. Ivan tinha um porte diferente, e era fácil perceber que as pessoas também compartilhavam desse pensamento. Entretanto, o Vice-Inspetor era algo além. O homem era alto, mais alto que Mário. Seus ombros eram largos, e mesmo que suas camisas não fossem necessariamente grudadas, era simples ver os braços fortes por baixo da camada de tecido. As pernas eram longas e somente em suas fantasias o braço direito dos Cavallone imaginou o que poderia se esconder ali. Fisicamente Giulio era um belo homem. O marido perfeito. O amante ideal. O sonho de qualquer mulher que gostaria de construir uma família. Meu amante, meu sonho... meu. O moreno deu um passo à frente, segurando Mário pela cintura e o trazendo para perto. Havia um discreto meio sorriso em seus lábios e o brilho em seus olhos verdes demonstrava um pouco de atrevimento.

"Agora nós continuamos a nos beijar." O braço direito de Alaudi disse com uma charmosa voz rouca. "Não existem regras. Você não precisa seguir algo pré-estabelecido, Mário."

Mário. O ruivo sentiu cada pedacinho de seu corpo se arrepiar. Quando o moreno pronunciava seu nome era mais satisfatório do que ouvir um amante gemer de prazer enquanto atingia o orgasmo. Ele adorava quando Giulio o chamava pelo nome. A distância entre eles parecia desaparecer um pouco mais.

"Isso," Giulio apertou com um pouco mais de força a cintura de seu amante, "é novo para mim também, então eu terei que pedir um pouco de paciência. Eu gostaria que pudéssemos sair e conversar mais. Eu tenho certeza de que há muito sobre mim que você quer saber, e eu não sei por onde devo começar a conhecê-lo... Existe tanto que eu quero perguntar, mas teremos de ir devagar. Eu estarei ocupado nos próximos dias," o Vice-Inspetor falava baixo, como se mais alguém pudesse ouvir aquelas doces e tão inesperadas palavras, "mas eu planejava entrar em contato amanhã pela manhã." O moreno retirou uma das mãos da cintura do ruivo, pegando algo no bolso de sua calça. O papel estava dobrado e ele não se importou em entregá-lo para Mário.

O braço direito dos Cavallone abriu o bilhete e soltou uma sonora gargalhada. Ali continha um mal-escrito aviso de que Giulio estaria ocupado por alguns dias, mas que gostaria que ambos se encontrassem. Havia tanta formalidade e palavras difíceis no texto que o ruivo não conseguiu esconder certo contentamento perverso. Aquele homem estava realmente levando aquilo a sério, e uma parte de Mário se sentia extremamente lisonjeado por despertar aquele tipo de sentimento em alguém. Durante aqueles anos, o braço direito de Ivan havia despertado amor, ou admiração, ou o que quer que chamassem aqueles sentimentos, em vários amantes. Palavras doces, promessas impossíveis... ele ouviu tudo. Sua expressão sempre foi uma mistura de vazio e descrença, mas não naquela noite. Seu rosto tornou-se levemente rubro, e ele quis acreditar naquelas palavras e naqueles sentimentos.

"Eu terei algum tempo livre esta semana. Pelo visto você ficará preso nesta sala indefinidamente, então me avise quando estiver disponível."

"Eu estou disponível agora." O moreno respondeu sem parar para pensar. Sua expressão era séria, o que tornava tudo ainda mais difícil. "Eu estarei livre em alguns minutos, mas não tenho horário fixo. Não quero que se dê ao trabalho de vir até aqui apenas para esperar."

"Isso é algo que eu decido." Mário guardou o papel no bolso da calça e desta vez foi ele quem segurou a cintura de seu amante. Ele sentiu os músculos por baixo da camisa branca, e era difícil não pensar nas dezenas de coisas que ele queria fazer com aquele homem. "Fique livre amanhã no horário do jantar. Eu me farei disponível nesse horário e iremos comer em algum lugar. Eu o trarei de volta e retornarei para casa. Feito?"

O braço direito de Alaudi respondeu com um meio sorriso, passando sua mão pela nuca do ruivo. O toque fez Mário se arrepiar novamente, mas dessa vez seu rosto se tornou realmente vermelho. Não era fácil esconder suas reações, e Giulio conseguia tirar o autocontrole que ele havia construído ao longo dos anos, fazendo-o agir como um garoto totalmente inexperiente.

"Eu estou lisonjeado." O moreno juntou o corpo de ambos um pouco mais. Ele estava totalmente se referindo a ereção de seu amante.

"Não fique tão cheio de si." O ruivo respondeu baixo. Seus olhos estavam fixos nos lábios de sua companhia, desejando que o contato entre eles aumentasse.

O moreno esboçou um meio sorriso e abaixou o rosto. Os lábios do braço direito dos Cavallone encontraram os dele no meio do caminho, e o beijo que Mário tanto esperou aconteceu com intensidade e desejo.

Não era fácil dizer qual deles parecia mais afoito em intensificar o contato. O ruivo tinha a vantagem da experiência. Ele sabia que beijava bem, e era fácil perceber que sua companhia também concordava. Porém, Giulio tinha a vantagem da novidade e provavelmente da abstinência. Sua ânsia por contato era totalmente sentida por Mário, que usava esse detalhe para ser um pouco mais ousado do que gostaria. Quando o Vice-Inspetor deixou sua casa naquele começo de tarde, o braço direito de Ivan decidiu que iria devagar, que respeitaria as decisões de seu amante mesmo que ele não concordasse. A prática, claro, era algo totalmente diferente. Seu autocontrole simplesmente desaparecia quando o assunto era o moreno, ele deveria saber disso desde o primeiro beijo trocado; mas ali, perdido nos braços e lábios do homem que ele tanto desejou por meses, era quase impossível se comportar.

Mário não sentiu seus pés caminharem para o lado, nem seu corpo sentar-se sobre a mesa, indiferente aos papéis que estavam por baixo. Entretanto, ele sentiu quando suas pernas foram afastadas com pouca gentileza, e Giulio o puxou com tanta força e desejo que quando o ruivo sentiu a ereção de seu amante, um gemido de puro deleite escapou por seus lábios. O beijo tornou-se mais necessitado e menos romântico. Como homem, o braço direito dos Cavallone entendia aquela necessidade por contato, e aquelas camadas de roupas só atrapalhavam o real objetivo. As mãos do moreno estavam na cintura de Mário, mantendo seu corpo em determinada posição, mas garantindo que ele pudesse mover sua cintura. Ambos os membros se esfregaram por baixo das roupas, e o ruivo gemeu novamente, mas dessa vez ele precisou afastar o Vice-Inspetor.

A visão de seu amante foi mais do que o braço direito de Ivan poderia suportar. O sempre composto e sério Giulio tinha o rosto vermelho. Seus olhos pareciam opacos de desejo, e o volume em seu baixo ventre era evidente... e convidativo... muito convidativo. O ruivo apoiou uma das mãos sobre a mesa, passando a outra pelos cabelos e colocando a franja atrás da orelha. Eu preciso manter a calma. Eu não posso cometer o mesmo erro. A lembrança do que aconteceu naquela fatídica noite levou uma onda gelada por seu corpo, fazendo com que o desejo começasse a se acalmar. O moreno percebeu a expressão séria no rosto de Mário, e deu as costas, passando a mão na nuca e respirando fundo.

Por longos minutos nenhum dos dois disse uma única palavra. O silêncio parecia ser a melhor forma de comunicação, o único modo de mantê-los sãos. O braço direito de Ivan encarava os quadros na sala, recordando-se da primeira vez que esteve ali. O campo de girassóis sempre foi seu favorito. Ele era belo e transmitia uma estranha e alegre felicidade. Mas nem todas as lembranças que ele possuía com o moreno eram saudáveis, e seus olhos verdes se desviaram para o chão quando sua mente atingiu novamente aquela terrível lembrança.

"Eu sinto muito." A voz do Vice-Inspetor saiu séria e o ruivo ergueu os olhos. Seu amante havia se virado e retornado ao estado normal.

"Não é culpa sua." Mário desencostou-se da mesa e ajeitou a roupa que vestia. "Eu vou embora, não se esqueça do jantar amanhã."

O ruivo caminhou até a porta, mas não seria preciso uma atenção excessiva ou ótimo poder de dedução para saber que alguma coisa ainda seria dita naquela sala. Estava escrito no belo e sério rosto do moreno que suas palavras ainda não haviam esgotado.

"Se você acha melhor ficar um tempo afastado, eu não vou privá-lo dessa decisão. Eu esperarei o tempo que for necessário." O braço direito do Guardião da Nuvem disse com uma voz macia. Não havia sinal de insinceridade ou arrogância. "Eu não posso retirar o que disse naquela noite, assim como você não pode simplesmente esquecer, mas eu falo sério quando digo que eu gosto de você, Mário. Eu não estou brincando. Eu não sou de brincadeiras."

Eu sei. Você não é o tipo de pessoa que brinca com os outros. Máriosentiu o mesmo arrepio ao ouvir seu nome ser pronunciado. Sua mão abriu a porta e ele se virou, esboçando seu usual sorriso. "Amanhã na hora do jantar. Encontre tempo." A última coisa que ele viu foi a expressão preocupada no rosto do moreno. A mesma mão que abriu a porta a fechou e o ruivo refez o caminho, agradecendo os subordinados que o atenderam. A noite italiana estava fria, mas nada estava mais gelado do que ele. O silêncio e individualismo do carro foram o que o braço direito de Ivan precisava naquele momento, e ele recebeu de bom grado aquela reclusão. O sorriso que o acompanhou até o veículo desapareceu, dando lugar a uma fina linha desgostosa.

Mário não culpava Giulio. Ele sabia melhor do que ninguém que fora sua atitude e má escolha que culminaram naquelas palavras, mas o moreno não sabia disso e provavelmente (certamente) acreditava que o ruivo o estivesse evitando por esse motivo. Não é isso. Eu me magoei com aquilo, mas passou. Eu não sou uma pessoa rancorosa. O braço direito dos Cavallone deixou Roma e apoiou um dos braços na janela, sentindo o vento gelado bater-lhe na face. O medo de Mário era outro: seu passado. O beijo na biblioteca poderia ter se transformado facilmente em outra coisa, ele sabia, assim como tinha conhecimento de que se os dois fossem realmente continuar com esse relacionamento, eventualmente sexo se tornaria necessário. E ai morava o problema...

O carro diminuiu a velocidade até parar. A testa do braço direito de Ivan encostou-se ao volante e ele permaneceu por quase dez minutos naquela mesma posição. Sua mente estava cheia de pensamentos conflituosos e seu coração batia rápido. Havia uma incomoda dor, um estranho sentimento de dúvida e desejo. Ele queria Giulio. Ele desejava aquele homem há meses, e naquela noite tudo o que ele mais queria era ter sido possuído ali naquela mesa enquanto seus gemidos ecoariam pela sala. Quem se importava se os subordinados fossem ouvir? Não ele. Entretanto, dar aquele passo com o moreno significaria automaticamente um depois, e isso assombrava Mário. Ele pode me deixar depois disso. E se ele não gostar? E se ele disser que percebeu que realmente não consegue ficar com um homem? E se tudo mudar depois que dividirmos a mesma cama? O ruivo respirou fundo, jogando a cabeça para trás e encostando a nuca na parte alta do banco de couro. Seus olhos se abriram levemente vermelhos e úmidos.

Era tarde, muito tarde, ele sabia. O braço direito dos Cavallone não suportaria uma segunda rejeição.

X

Naquela noite o ruivo passou boa parte do tempo pensando em sua situação. Ao contrário da agradável noite anterior, esta passou arrastada e suas companhias foram duas garrafas de vinho. Não havia trabalho para pensar, pois a próxima viagem de Ivan ainda não fora confirmada, então tudo o que ele poderia fazer era esperar. O sono veio no meio da madrugada e ele acordou no escritório, tremendo de frio e encarando uma vista completamente branca. A neve caia fina do lado de fora da janela, e mais um dia começaria.

Mário cumpriu seu trabalho, supervisionou seu Chefe, juntou-se a Giuseppe e Francesco durante algumas horas, pois o garoto queria construir um boneco de neve ao lado do chafariz. Quando a noite chegou, o braço direito retornou para casa apenas para um rápido banho e seguiu em direção a Roma. Sua decisão havia sido tomada durante a noite, e quando chegou à sede de polícia, Giulio o esperava do lado de fora. O moreno vestia seu sobretudo negro e para alguém que parecia não sentir frio quando estava em sua sala, o cachecol branco em seu pescoço tornava-o diferente.

O Vice-Inspetor entrou no carro e cumprimentou o ruivo, mas a conversa demorou algum tempo para se iniciar. Mário perguntou sobre o trabalho, o braço direito de Alaudi indagou sobre Giuseppe e Francesco e o caminho até o restaurante foi feito com uma constrangedora tentativa de esquecer o que havia acontecido no dia anterior. O jantar, porém, passou menos penoso, provavelmente por causa da comida e do vinho. Entretanto, durante todo o tempo o ruivo observou sua companhia. Giulio não parecia constrangido ou incomodado, e muitas vezes se esforçou para manter a conversa fluindo. Ambos estavam sentados um de frente para o outro, e em um momento os joelhos se tocaram e o braço direito de Ivan apertou o garfo com mais força. O moreno ergueu os olhos verdes, dando um gole na taça de vinho e limpando sua boca com o guardanapo. Nenhuma palavra foi dita. O Vice-Inspetor apenas arrastou a cadeira um pouco para trás e não houve mais contato físico entre eles.

Giulio fez questão de pagar a conta e os dois seguiram novamente para o carro de Mário. A distância até a sede de polícia era pequena, mas assim que viraram a primeira esquina, o moreno pediu para que seu amante seguisse por aquela rua e virasse na terceira travessa à direita. O ruivo não fez nenhuma pergunta, seguindo as coordenadas e parando ao perceber que entrara em uma rua sem saída. A realização de que havia sido guiado até ali de propósito o fez sorrir desanimado, imaginando como ele não se lembrou daquele caminho, já que conhecia Roma como a palma de sua mão. Eu estava ocupado demais prestando atenção em Giulio.

O braço direito dos Cavallone arregalou os olhos e virou o rosto ao sentir algo tocar seus cabelos. O moreno o olhava com uma expressão séria, e foi impossível não se recordar daquela noite. Foi exatamente com um toque que o Vice-Inspetor o incitou, e aquela dura lembrança apenas serviu para fazer Mário se sentir pior. Ele havia ido ao encontro de Giulio porque decidiu que levaria a situação até ela se tornar insuportável. Eu o deixarei antes que ele me deixe, foi a escolha que o ruivo fez no meio da noite. Seu corpo virou-se um pouco melhor na direção de seu amante e seus olhos se ergueram. É agora.

"Giulio, eu acredito que seja melhor se n––"

"Não."

A negativa saiu como uma palavra qualquer. Os dedos do braço direito de Alaudi deslizaram pelo rosto de Mário e retornaram aos cabelos ruivos. O moreno colocou a franja atrás da orelha e depois afastou a mão. Sua expressão ainda era séria, mas seus olhos não pareciam compartilhá-la.

"Eu não deixarei que você termine o que acabamos de começar. Minha resposta é não."

O ruivo juntou as sobrancelhas. O assunto principal era sua opção por encerrar aquilo antes que ele se machucasse, mas ouvir aquilo de Giulio soava como se ele não estivesse com as rédeas da situação.

"Não está em suas mãos. Eu tomei essa decisão e você não pode fazer nada." Mário respondeu sério.

"Eu posso e estou fazendo." O moreno não recuou. "Você está com medo de continuar, eu entendo isso. Você nunca esteve em um relacionamento e não sabe o que fazer? Eu compreendo. Mas decidir se afastar sem oferecer nenhuma razão real eu não entendo e nunca entenderei. O que aconteceu ontem na minha sala não foi errado. Nós dois queríamos aquilo."

Mas até quando você vai querer? O braço direito dos Cavallone sentia o sangue ferver, fosse pelo vinho que ele acabara de beber, fosse pelos sentimentos contraditórios que ele sentia em seu peito ou fosse pela maneira autoritária com que Giulio falava que beirava muito mais uma ordem do que uma conversa.

"Você está pensando muito sobre si mesmo. Se eu quiser posso simplesmente deixar de vê-lo e ponto final."

O moreno ficou ainda mais sério, se é que isso era possível. Havia algo no Vice-Inspetor que fazia as pessoas recuarem, o ruivo já havia percebido. A maneira de olhar, ou o fato de ele raramente sorrir, ou até mesmo sua posição no trabalho, mas Giulio conseguia deixar as pessoas incomodadas. Eu não sei o que ele está pensando. Ele não demonstra nada. Nem raiva, nem indignação, nada... Eu não posso adivinhar. O braço direito do Guardião da Nuvem abaixou os olhos e Mário sabia que ele estava pensando. Entretanto, aquele momento de reflexão pareceu ser bem rápido, pois no minuto seguinte o ruivo sentiu quando seu banco simplesmente deitou-se para trás e sua cabeça bateu no banco de trás. Havia uma simples alavanca ao lado que fazia aquele serviço, mas ele não viu quando o moreno a puxou.

"O que você acha que está fazendo?" O braço direito dos Cavallone ficou vermelho, mas dessa vez era raiva. Seu corpo fez menção de se levantar, mas Giulio o empurrou facilmente com uma mão.

"Você fala demais, Mário. Eu tentei racionalizar com você, e por mais que eu ache adorável a maneira presunçosa com que você fala dessa vez eu não vou escutar mais nada. Tudo o que ouvi foram desculpas e mais desculpas." O moreno inclinou-se sobre Mário, segurando-o pelo queixo. "Você não é o único com desejos. Eu posso nunca ter estado com outro homem, mas eu quero você e isso é o bastante. Eu já me desculpei pelas palavras daquela noite e já disse que elas não foram verdadeiras. Eu até ofereci tempo para você me perdoar, mas aparentemente só há uma maneira de provar que eu não estou brincando."

O ruivo não teria protestado contra aquelas palavras mesmo se quisesse. Seus lábios foram capturados por um beijo voraz e profundo. O moreno deslizava a língua pela boca de Mário, enquanto o segurava pela nuca, garantindo que o homem que estava deitado não fizesse nenhum movimento, além de retribuir àquela carícia. Por quanto tempo os lábios do braço direito dos Cavallone foram reféns dos do Vice-Inspetor, ele não saberia dizer. A razão e insegurança que o ruivo sentia desapareceram naquele beijo, e quando Giulio subiu a mão por sua perna e apalpou seu baixo ventre, Mário soube que havia perdido aquela luta. Os gemidos saíram naturais por seus lábios, e era impossível dizer que aquele homem não sabia o que estava fazendo. Seus toques não eram gentis ou comedidos. A mão do braço direito de Alaudi era grande e pesada, e o ruivo se sentiu completamente vulnerável naquela posição. O cinto negro com uma bela fivela prateada foi aberto, assim como os botões de sua calça escura. Os dedos do Vice-Inspetor entraram pelas duas camadas de roupa e então, depois de semanas, o braço direito de Ivan gemeu de contentamento.

Havia uma grande diferença entre envolver e ser envolvido. Quando estava no comando, Mário tinha a mente clara e as ideias bem organizadas. Ele sabia onde tocar, onde lamber e onde mordiscar. Ele sabia que certos amantes eram sensíveis em pontos que outros não eram. A experiência o havia transformado em uma pessoa que tinha plena consciência de suas habilidades na cama e não havia motivos para ser humilde sobre isso. Não havia nada que deixasse o ruivo mais feliz, sexualmente falando, do que ouvir os gemidos e suspiros de prazer quando estava envolvendo um amante. Porém, ser envolvido era outra história. Se sua companhia não o conhecesse, as chances de a experiência ser desastrosa eram enormes. O braço direito dos Cavallone já perdeu a conta de quantas noites terríveis teve nas mãos de homens despreparados e egoístas, que estavam mais interessados em chegar ao orgasmo do que aproveitar a companhia que tinha nos braços. Por várias vezes o ruivo simplesmente parou no meio e assumiu as rédeas da situação, mostrando como a coisa era realmente feita.

Mas ali, deitado de mau jeito em seu carro, Mário só pensava na incrível sensação que as mãos de seu amante proporcionavam.

A rua em que estavam era parcialmente iluminava, mas o veículo estava basicamente no escuro. Os gemidos do braço direito de Ivan eram a única coisa que ecoava no veículo, e ele sinceramente não se importava de deixar sua voz ser ouvida. Os beijos de Giulio se tornaram mais possessivos, deixando marcas no pescoço pálido de seu amante. Eles pararam quando chegaram à altura do colarinho da camisa, para continuarem segundos depois em uma região que Mário não esperava.

A primeira reação do ruivo foi erguer a cabeça e pedir que ele parasse. Quando o moreno tocou sua ereção com os lábios, a realização do que estava acontecendo fez com que o braço direito dos Cavallone corasse e vestisse uma expressão de pânico em seu belo rosto. Sua voz tentou pedir que o Vice-Inspetor parasse, mas tudo o que deixou seus lábios foram gemidos mais altos e palavras desconexas. A cabeça de Mário voltou a se encostar, seus olhos se fecharam e ele desistiu de lutar. Era impossível. Era impossível pedir que Giulio parecesse, pois todo seu corpo estava implorando por aquele tipo de prazer há meses. Em suas fantasias o ruivo imaginava como seria ser tocado pelo moreno, como o braço direito do Guardião da Nuvem era na cama e o que ambos fariam se a oportunidade surgisse. Após a rejeição, as fantasias de Mário não pararam, mas ele sabia que as chances de viver aquele sonho eram inexistentes. Então, como explicar o que acontecia naquele carro?

O ruivo não teve tempo de avisar sobre seu clímax. Seu corpo relaxou no mesmo instante, e ele se esqueceu que a pessoa que lhe oferecia prazer era totalmente inexperiente naquilo. Os beijos retornaram ao pescoço do braço direito de Ivan, mas quando ele segurou o rosto de Giulio, o moreno recuou.

"Eu acabei de ––"

Mário roubou um longo e satisfeito beijo de seu relutante amante. Ele já havia passado da fase de se importar com detalhes como beijos em momentos inusitados, e naquele momento não havia sabor mais delicioso do que os lábios do Vice-Inspetor e os sentimentos por trás daquele gesto. O ruivo conseguia sentir claramente o desejo daquele homem, não somente porque o baixo ventre de seu amante demonstrava sem sombra de dúvidas que ele estava excitado, mas principalmente pela maneira como ele o envolvia. Não havia sinal de que o braço direito do Guardião da Nuvem sentisse aversão ou nojo do que havia acabado de fazer, e naquele momento Mário se sentiu ridículo por ter duvidado de Giulio. Ele me quer da mesma maneira que eu o quero. O beijo terminou e o moreno esboçou um dos seus raros meio sorrisos.

"Eu não vou deixar você sair da minha vida, Mário."

O ruivo cobriu o rosto com um dos braços, tentando esconder as bochechas coradas. Eu não vou a lugar algum.

X

Mário achou muito mais complicado manusear seu tempo em sua agenda para se encontrar com Giulio do que omitir seu relacionamento para Ivan. O Vice-Inspetor não mentiu quando mencionou que estaria ocupado por tempo indeterminado, e o próprio ruivo se viu preso em um espiral de trabalho que só piorava sua situação, pois ele não poderia comentar o que estava acontecendo com seu Chefe. Todas as vezes que tentou falar sobre o assunto, o braço direito simplesmente não conseguiu. As palavras ficavam presas em sua garganta, e ele acabava mencionando alguma outra coisa completamente irrelevante.

Os encontros com Giulio eram sem dúvidas a melhor parte da semana. Os dois não se viam diariamente, e os encontros eram basicamente resumidos a almoços ou jantares, com uma ou outra escapada aqui e ali. Mário se acostumou àquele ritmo após uma semana, e ficou surpreso por perceber que conseguia manter um relacionamento quase livre de contatos físicos. Ele e o braço direito do Guardião da Nuvem passavam boa parte do tempo conversando sobre trabalho, o que acontecia na Itália e no mundo e muitas vezes não percebiam que o tempo passava. Entretanto, a pior parte era a despedida. Quando Mário precisava dirigir o moreno para a sede de polícia, geralmente era depois de longos minutos dentro do carro, ambos perdidos em longos e profundos beijos. O incidente do carro voltou a se repetir algumas vezes, e no dia que o ruivo pode tocar novamente o corpo de Giulio, seu coração bateu tão rápido que ele sentiu-se envergonhado, pensando que sua companhia poderia ouvi-lo.

O moreno aprendeu rápido o que deveria fazer, e o ruivo sentiu-se ofendido por ter demorado anos para aperfeiçoar técnicas que o Vice-Inspetor havia adquirido em poucos dias.

"Eu aprendo rápido." Era sempre a resposta que Giulio dava quando ouvia os gemidos de seu amante.

Naquele fim de tarde os dois estavam dentro do carro do braço direito dos Cavallone, que estava estacionado em uma rua que basicamente não tinha nenhum movimento. Há dois dias eles não se viam por causa do trabalho, e assim que encontrou tempo livre, Mário se dirigiu para Roma, disposto a esperar pelo moreno. Entretanto, assim que soube que seu amante estava do lado de fora da sede de polícia, o Vice-Inspetor apareceu no mesmo instante, deixando o trabalho para mais tarde.

Os vidros do veículo estavam levemente embaçados. Não havia ninguém no banco do motorista e os dois presentes ocupavam um mesmo banco. O ruivo estava ajoelhado sobre o colo do moreno enquanto seus lábios devoravam a boca de seu amante. Seu terno estava aberto, assim como sua camisa e calça. Giulio o segurou com mais força pela cintura, fazendo-o sentar-se um pouco melhor sobre sua ereção. Havia quatro camadas de roupas entre eles, mas mesmo com aquele incômodo meio-contato, o braço direito dos Cavallone gemeu baixo, jogando levemente a cabeça para trás. O céu tornava-se escuro pouco a pouco, mas as ruas estavam brancas com a neve que teimava em cair há semanas. O frio, porém, não chegava dentro daquele carro. Não havia espaço para brisas geladas ou arrepios e calafrios — estes somente se fossem de prazer. Os lábios de Giulio deixaram escapar um gemido contido quando Mário moveu-se sobre seu corpo e desceu uma das mãos para dentro da calça de sua companhia.

"Vamos para minha casa." O braço direito de Alaudi disse enquanto beijava o pescoço do ruivo. Havia grandes marcas vermelhas naquela região.

"Eu não posso..." A voz de Mário saiu baixa. Sua mão subia e descia com facilidade pela nova ereção do Vice-Inspetor graças ao orgasmo que ele havia tido há pouco tempo. Os dois estavam naquele carro há pouco mais de vinte minutos, fazendo nada além de trocarem beijos, carícias e orgasmos. "Eu preciso retornar e continuar meu trabalho. Eu disse, não?" O ruivo sorriu maldoso quando a voz de Giulio tornou-se mais alta. "Eu recebi uma mensagem estranha e preciso investigar."

"E-Eu posso ajudar..." O moreno desceu os lábios pelo peito do braço direito dos Cavallone, mordiscando levemente um dos mamilos que estava à mostra. "Terminaremos em menos tempo e então poderemos ir para minha casa."

A risada do ruivo fez o corpo de ambos vibrarem. Sua mão que estava livre segurou o rosto de seu amante, enquanto a outra aumentou a força e a rapidez dos movimentos. Por alguns minutos ele não fez nada além de ver as expressões do Vice-Inspetor mudarem conforme seu orgasmo se aproximava. Nada no mundo lhe dava mais prazer do que oferecer prazer a Giulio, e ele apenas descobriu esse lado sórdido na segunda vez que sentiu aquele homem entre seus lábios. O moreno gemeu, suspirou e fez menção de abaixar o rosto quando o clímax chegou, mas o ruivo não permitiu. Seus olhos não perderam nenhum segundo daquela visão maravilhosa, e quando Giulio soltou um último gemido, Mário sorriu.

O braço direito do Guardião da Nuvem precisou de alguns segundos para se recompor e o ruivo utilizou esse tempo para sentar no banco do motorista e limpar sua mão e algumas partes do veículo. Eu preciso lavar esse carro, o ruivo riu ao lembrar-se de todas as coisas que eles já haviam feito ali. E nós precisamos usar uma cama.

O Vice-Inspetor não era o único que gostaria de ir para casa e passar aquela noite fazendo nada além de sexo. Os dois ainda não haviam cruzado aquela linha, mas não por falta de desejo. Nenhum deles tinha uma rotina certa, e até mesmo os hotéis estavam fora de questão. Mário nem se quer chegou a sugerir isso. Aquilo fazia parte de uma época de sua vida que não voltaria, e ele não se sentia bem em lembrar-se disso. Nós estamos juntos agora. Quando acontecer o que irá acontecer será em nossas casas, e não em uma barata e suja cama de Hotel. A primeira vez que aquele pensamento cruzou sua mente, o braço direito de Ivan estava sentado em sua cozinha, terminando seu café da manhã. A risada que cruzou seus lábios surpreendeu Giuseppe, que o olhou e riu, mesmo sem saber o motivo para tanta alegria às cinco da manhã.

"Fale-me sobre esse trabalho."

A voz de Giulio saiu rouca e baixa, e Mário adorava ouvi-lo falar daquele jeito. Seus lábios se repuxaram em um travesso sorriso, e ele levou a mão para a calça de seu amante, fechando os botões, mas sem pressa.

"Eu recebi uma carta de um Chefe aliado dos Cavallone. O homem é tio de Francesco, irmão de Graziella." O ruivo fechou o último botão com certa relutância. Ele falava de uma coisa, mas sua mente só pensava quando seria o dia em que ele teria o moreno dentro dele. "Ele disse que gostaria de falar comigo antes de entrar em contato com Ivan. O assunto é de extrema importância."

"Isso parece muito suspeito." O braço direito do Guardião da Nuvem segurou a mão de Mário e a levou até os lábios, beijando-a com carinho.

"Eu também penso isso, mas eu irei, não tenho outra opção." O ruivo sorriu e abriu as janelas do carro. O frio literalmente invadiu o veículo, mas serviria para fazer o ar circular. “A Família dele não é grande, e não acredito que esteja planejando trair os Cavallone, mas algo na urgência daquele homem me deixou curioso.”

"Mas e se for uma emboscada? Você não pode ir simplesmente se encontrar com esse homem."

"Oh..." O braço direito dos Cavallone ajeitava os cabelos no retrovisor quando esta parte chegou aos seus ouvidos. Seus olhos encararam seu amante e foi impossível não rir. "Você parece estar com ciúme. É melhor parar ou eu vou realmente pensar que você está mais preocupado com a minha integridade do que com o trabalho em si."

"Mas é claro que eu estou com ciúme." Giulio respondeu sem perder um segundo para pensar. "Eu sei que é trabalho, mas eu não quero você se encontrando com homem nenhum."

O sorriso de Mário desapareceu e seu rosto tornou-se rubro. O que era para ser uma simples brincadeira havia se transformado em confissão, e ele não estava acostumado a ouvir aqueles tipos de palavras. O ruivo nunca havia ouvido sobre nenhum de seus amantes sentirem ciúme, provavelmente porque seria difícil criar laços com alguém que você só via uma vez na vida e ainda por cima durante uma única noite. A sinceridade do Vice-Inspetor sempre surpreendia o braço direito de Ivan, mas em certos momentos essas surpresas levavam borboletas para sua barriga e ele não conseguia não sorrir.

"Quando ele quer encontrá-lo?" O moreno parecia alheio à guerra interna que Mário travava.

"Em duas semanas no máximo. Eu preciso encontrar um buraco na agenda de Ivan para conseguir me ausentar sem ser visto."

Giulio apoiou o braço em seu lado da janela e sua expressão tornou-se séria. O ruivo sabia em que sua companhia estava pensando. Por mais incomodado que o braço direito do Guardião da Nuvem estivesse, ele sabia que não poderia se meter no trabalho de Mário. Aquele era um acordo que ambos fizeram e que não poderia ser quebrado. O moreno trabalhava para a polícia e o ruivo era o braço direito de um dos mais poderosos mafiosos da Itália. O relacionamento entre eles já era um desastre esperando para acontecer sem que precisassem lembrar que quando o assunto era trabalho, não havia conversa.

"Acha que consegue convencer seu Chefe a passar um fim de semana na casa de Alaudi?" O Vice-Inspetor cortou o silêncio.

"Isso seria extremamente simples." Mário revirou os olhos. Tudo o que ele precisava era dizer que Ivan estava livre e sugerir que ele levasse Francesco para um fim de semana em Roma. "Por quê?"

"Marque a reunião na sua casa, em seu escritório. Eu estarei na casa."

O braço direito dos Cavallone sorriu, mas logo o sorriso se transformou em algo sério. Ele se preocupa demais. Eu estou lisonjeado, mas não sou um garotinho inexperiente. Eu me sinto como se tivesse dois Giuseppes.

"Giulio, nós conversamos sobre isso. É trabalho. Meu trabalho. Você não deve se meter."

"Marcar um encontro para conversarem sobre a Família, sim, é seu trabalho." O moreno ergueu os olhos para seu amante. "Se o homem tentar te matar no meio da conversa, então isso se transforma em meu trabalho."

O ruivo tentou não rir daquela lógica absurda, mas não conseguiu. A risada saiu feliz e satisfeita por sua garganta, e ele sabia que não encontraria nenhum argumento que pudesse bater aquele. O braço direito do Guardião da Nuvem ficou envergonhado, mas afirmou que aquela era a ideia mais segura. Os poucos minutos que ambos ainda permaneceram naquele lugar foram passados com breves palavras, e mesmo a contragosto, Mário deu partida no carro e seguiu em direção a sede de polícia. A despedida foi um contido aceno e um triste olhar. O ruivo seguiria viagem em dois dias e eles só se veriam na próxima semana.

"Cuide-se." Giulio disse antes de dar as costas e seguir na direção da entrada.

Mário permaneceu ali até seu amante entrar no prédio e depois seguiu pela rua congelada. Seu corpo tremeu durante toda a viagem, e ele chegou a sua casa e foi direto para um longo e quente banho. Enquanto cozinhava na larga banheira, o braço direito de Ivan repassou o que teria de fazer ainda naquela noite, e fez uma nota mental para não se esquecer de começar a fazer suas malas. Seus olhos estavam pesados quando ele saiu, mas mesmo se sentindo estranhamente cansado, o ruivo seguiu para a cozinha, preparou uma generosa xícara de café e entrou em seu escritório. Há alguns dias ele vinha se sentindo mais cansado do que o necessário, mas sua vida e posição não lhe permitiam perder tempo com preocupações desnecessárias. Sentado em sua cadeira, Mário estalou os dedos e colocou a franja molhada atrás da orelha, abrindo o livro que servia como agenda, e decidindo onde enfiaria o fim de semana de Ivan. Ele nunca teve alguém que se preocupasse com seu bem-estar, e se Giulio fazia tanta questão de protegê-lo, não havia nada de errado em permitir que o moreno fizesse o que quisesse, certo?

O braço direito dos Cavallone acordou na manhã seguinte, na mesma cadeira que havia se sentado na noite anterior. Suas costas doíam, suas pernas doíam e basicamente tudo doía. O que o despertou não foi o brilho do sol, ou o aquecido toque de seu amante, mas sim o barulho que seus dentes produziam quando batiam uns nos outros. O dia não havia nascido por completo do lado de fora da janela, mas havia indícios de que isso aconteceria em poucas horas. Mário ficou em pé, apenas para se sentar novamente. Sua visão tornou-se embaçada e sua cabeça pesada. Seu rosto estava quente, e ele sabia que não era por vergonha. Eu não posso me dar ao luxo de ficar doente agora. O braço direito de Ivan fez uma segunda tentativa em ficar de pé, mesmo que seu corpo não quisesse. Sua mão direita tocou sua testa e ele proferiu meia dúzia de palavras não muito polidas enquanto deixava o escritório. O caminho até seu quarto no segundo andar foi feito arrastado, e quando finalmente deitou em sua cama, Mário dormiu praticamente no mesmo instante.

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Aquele foi um sono sem sonhos ou descanso. Seus olhos se abriram devagar, encarando o teto, mas sabendo que sua visão estava sem foco. O cômodo estava claro e ele deduziu que havia dormido as horas necessárias para que o dia nascesse. Seus olhos piscaram devagar, pesados e sonolentos, mas seu corpo precisou de uma dose extra de força para se inclinar. Entretanto, mal ele havia conseguido esse feito, um belo rosto apareceu ao seu lado e duas mãos o seguraram e o fizeram deitar novamente.

"Você ainda não pode se levantar." A voz de Giuseppe soou longe. "O médico disse que você precisa ficar em repouso por mais algumas horas."

Médico? O que? O braço direito dos Cavallone juntou as sobrancelhas, completamente perdido. Ele tinha certeza de que só havia dormido por no máximo duas horas. O que estava acontecendo? O ruivo fez novamente menção de se sentar, e mesmo seu irmão sendo visivelmente contra, ele não se importou. "O que está acontecendo?" Uma olhada melhor no louro e Mário saberia o que estava acontecendo. Se ele estivesse saudável e sua mente conseguisse raciocinar direito ele saberia por que Giuseppe estava vestido mais formal do que o necessário e fechado em um sobretudo negro.

"Ontem pela manhã eu o chamei várias vezes, mas você não respondeu. Eu entrei no quarto e tentei acordá-lo, mas você estava inconsciente." O rapaz de cabelos louros havia se ajoelhado ao pé da cama e pousado as mãos sobre as pernas de seu irmão mais velho. "Eu fui até a mansão e Ivan chamou um médico, ele disse que você havia desmaiado por causa do resfriado e por seu corpo estar muito desgastado." Giuseppe colocou a franja bagunçada de Mário atrás da orelha. "Você não deve se lembrar, mas acordou algumas vezes e voltou a dormir em seguida."

O braço direito dos Cavallone ouviu a tudo, porém, nada parecia fazer sentido. Quem era aquela pessoa que havia desmaiado de cansaço? Quem era aquele que precisou de cuidados médicos? Obviamente não era ele!

"Então hoje é quarta-feira?" O ruivo sentiu a garganta arranhar e pela primeira vez percebeu que sua voz não passava de um fio.

"Não se preocupe com o trabalho." O irmão mais novo ficou em pé e a expressão preocupada deu lugar à seriedade. "Eu revisei sua agenda e irei no seu lugar. O jovem Chefe ficará com Alaudi enquanto eu acompanho Ivan durante a viagem. Ele e o pequeno estão muito preocupados, mas eu não permiti que viessem visitá-lo. Sei que você odiaria que eles ficassem doentes, então não se preocupe, eu sou um pobre substituto para você, mas garantirei que nada aconteça ao seu Chefe."

Mário passou as mãos nos cabelos e suspirou. Seus olhos, mesmo cansados, encararam o rapaz parado em frente à sua cama e ele sorriu tímido, voltando a se deitar . Quando foi que ele cresceu tanto? Até pouco tempo Giuseppe me perguntava o que deveria ou não fazer na presença de Ivan, e agora ele assume meu lugar. O ruivo cobriu-se com as três grossas cobertas e lançou um último olhar na direção do irmão. Ele podia sentir que seu corpo implorava descanso.

"Alguém virá fazer companhia a você mais tarde". O louro abaixou-se e sorriu na direção de seu irmão mais velho. "Concentre-se em ficar melhor, está bem?"

"Você se preocupa demais, Giuseppe." O braço direito dos Cavallone fechou os olhos e sorriu. "Apenas garanta que Ivan volte vivo dessa viagem."

Giuseppe riu e disse mais alguma coisa, mas o ruivo não chegou a ouvir. Sua mente começou a se esvair pouco a pouco, e seu último pensamento lúcido foi se conseguiria entrar em contato com Giulio para avisar que não poderiam se encontrar por alguns dias.

X

Mário se lembrou de muito pouco daquele dia, mas tinha certeza de que havia dormido o suficiente para que seu corpo acordasse dolorido das horas deitado na mesma posição. O quarto já não estava claro quando ele despertou pela segunda vez. Sua janela estava fechada, a grossa cortina abaixada, mas havia iluminação e calor vindo da pequena lareira que ficava próxima a janela. O cômodo também estava aquecido e confortável.

O ruivo sentou-se na cama e passou as mãos nos cabelos. Ele estava com uma roupa diferente e aquilo era sem dúvida trabalho de seu irmão. Suas pernas encontraram pouca firmeza, mas o braço direito dos Cavallone fez esforço e ficou em pé, caminhando devagar até a porta e saindo para o corredor.

Aquele local parecia fazer parte de um mundo totalmente paralelo. O calor do quarto deu lugar ao rigoroso inverno, e Mário precisou andar mais rápido, cruzando o caminho com passos incertos, mas velozes, e entrando no banheiro. Ele tinha o costume de deixar sempre uma troca de roupas limpas em casos como aquele, então assim que a porta foi fechada, sua roupa levemente úmida de suor deslizou por seu corpo e ele entrou debaixo do chuveiro. A água a princípio caiu fria e o fez sair da direção do chuveiro por alguns segundos, retornando pouco depois. Seu corpo ainda parecia anestesiado, como se não pertencesse totalmente a ele. Sua garganta ainda arranhava e ele sentia seu peito chiar quando respirava. Como eu fui ficar resfriado?

A resposta veio logo em seguida, quando o ruivo enfiou a cabeça debaixo da água. Ele tinha certeza que aquilo nada mais era do que o resultado de noites mal dormidas e muito contato com o frio. Some isso aos momentos em que ele saia de um carro quente para encarar uma rua gelada e o braço direito de Ivan tinha sua explicação perfeita. Como uma pessoa que raramente ficava doente, Mário sabia que quando acontecia de seu corpo se render, ele ficaria realmente mal por alguns dias.

O banho foi demorado, e o ruivo tentou ao máximo não pensar no trabalho. Ele confiava em Giuseppe. Seu irmão poderia ser muitas coisas, mas quando o assunto era trabalho ambos compartilhavam o mesmo senso de responsabilidade. O ponto fraco do louro era seu Chefe, então Mário tinha certeza de que o irmão seria totalmente profissional com Ivan. O chuveiro foi desligado e o braço direito dos Cavallone enxugou-se devagar. Suas costas estavam doloridas por causa das horas passadas na cama e um longo acesso de tosse o fez apoiar-se a pia. Quando a porta do banheiro finalmente foi aberta, o ruivo respirou fundo o ar frio, sentindo pela primeira vez o cheiro de alguma coisa: comida.

O corrimão foi o melhor amigo de Mário naquela curta descida até o primeiro andar. O barulho de alguma coisa sendo cortada chegou aos seus ouvidos quando ele terminou de descer, e o cheiro que vinha da cozinha fez seu estômago roncar alto. O ruivo passou as mãos pelos cabelos molhados, imaginando se Giuseppe havia chamado Frederico. O subordinado era conhecido como o melhor cozinheiro entre os empregados, e o braço direito de Ivan já havia provado uma refeição feita pelo homem e precisava admitir que ele entendia da coisa. Os barulhos tornaram-se mais altos conforme ele se aproximava da cozinha e assim que chegou à entrada Mário parou.

Frederico era um homem de cerca de vinte e seis anos, baixo, franzino e moreno de pele e cabelos. Seus olhos eram escuros e ele sempre usava uma boina azul escura, independente do clima e da época do ano. Entretanto, a pessoa em sua cozinha era alta e possuía ombros largos. Sua pele era levemente morena e seus cabelos curtos e escuros, sem boina ou chapéu. O ruivo sabia que os olhos de sua companhia eram verdes. Um verde levemente escuro e que brilhava quando ele estava excitado ou feliz. O braço direito de Ivan também sabia que a pessoa em sua casa adorava pintar e cozinhar, mesmo ele nunca experimentado nenhum prato feito pelo homem. Bem, pelo menos até aquele dia.

"O que você faz aqui?"

A voz saiu um pouco mais grossa do que ele gostaria e menos rouca também. Giulio que parecia estar cortando alguma coisa virou-se e sua expressão continuou séria. Não havia sinal de felicidade, alívio ou pudor por estar usando a cozinha de outra pessoa.

"O que você faz aqui?" O moreno pousou a faca sobre a tábua e Mário pôde ver que ele cortava cenouras. Seu amante limpou as mãos em um pano de prato que estava sobre seu ombro esquerdo e aproximou-se, tocando a testa do ruivo. "Aqui embaixo está muito frio, volte para o seu quarto."

O braço direito dos Cavallone juntou as sobrancelhas. Ele queria perguntar, mas sua garganta doía demais. O Vice-Inspetor o olhou de cima, apontando para o caminho que Mário havia utilizado para chegar ali.

"Suba, eu levarei o jantar em poucos minutos. Tente ficar acordado para comer. Depois você poderá dormir novamente."

O ruivo abriu a boca para responder, mas tudo o que recebeu foi uma olhada tão séria que o fez dar um passo para trás. Seus pés o levaram novamente até a escadaria, e antes de subir seus olhos voltaram a encarar a cozinha, apenas para receber um sinal de que ele deveria subir... mais rápido. Quem ele pensa que é? Minha mãe? Esta é a minha casa! A minha cozinha! Não me mande subir!

O braço direito de Ivan entrou no quarto e fechou a porta, sentindo-se melhor por estar em um local aquecido. Seus olhos verdes pousaram automaticamente na cama e ele ficou absurdamente surpreso por ver que os lençóis haviam sido trocados e que havia um copo e alguns remédios sobre a mesa que ficava em frente à janela. Embaixo do copo havia um bilhete cuja caligrafia corrida apenas dizia "Beba". Mário fez o que lhe foi ordenado, e arrastou-se novamente para a cama, sentindo-se melhor ao se enterrar embaixo das três camadas de cobertas. Giulio surgiu alguns minutos depois, abrindo a porta com uma mão, enquanto segurava uma bandeja com a outra. Mário sentou-se na cama e fez menção de ajudar, mas recebeu como resposta apenas um menear negativo com a cabeça.

"Coma enquanto está quente."

O Vice-Inspetor colocou a bandeja sobre o colo do ruivo com uma delicadeza que lembrava uma mãe cuidando de seu filho. A sopa cheirava tão bem que o estômago faminto do braço direito dos Cavallone roncou mais alto do que a primeira vez, e ele não fez cerimônia, segurando a colher e provando a gentileza do moreno. A sopa era encorpada e o gosto dos vegetais e da carne foi sentido logo na primeira colherada. Mário sorriu, feliz por finalmente estar comendo algo quente e saboroso. Giulio puxou a cadeira que ficava em frente à mesa e sentou-se na beirada da cama, cruzando os braços e encarando seu amante se deliciar com seu jantar.

"Você realmente sabe cozinhar." O ruivo disse após morder um pedaço de cenoura.

"Isso é apenas sopa. Você precisava comer algo forte e que fosse rápido de preparar. Eu só precisei procurar um pouco na despensa e colocar tudo em uma mesma panela."

"Parece complicado para mim." O braço direito de Ivan sorriu e deu duas colheradas consecutivas na sopa. Seu corpo já começava a se aquecer e talvez fosse hora de obter algumas respostas. "E o que você faz aqui?"

O moreno permaneceu em silêncio até receber uma olhada séria do homem que estava adoentado sobre a cama. Mário o olhou decidido, mas sem parar de comer.

"Seu irmão me procurou ontem pela manhã." O Vice-Inspetor parecia visivelmente desgostoso por ter de contar aquilo. Ele realmente achou que eu não fosse questionar? "Ele perguntou se eu estaria livre, pois precisava de alguém para tomar conta de você."

O ruivo tinha a colher na boca quando aquelas palavras chegaram aos seus ouvidos. Suas sobrancelhas se tornaram apertadas e se ele não estivesse tão fraco e faminto, provavelmente teria virado a bandeja ao chão. Giuseppe era um homem morto!

"Eu não precisava de ajuda." Mário respondeu rápido. Seu irmão não tinha o direito de incomodar as pessoas, principalmente Giulio. "Eu teria me virado de qualquer jeito. Não era necessário que você se locomovesse até aqui e assim adiando seu trabalho. Giuseppe não tinha esse direito."

"Você ficou inconsciente por praticamente um dia. Como pode dizer que não precisava de ajuda?" O braço direito de Alaudi respondeu sério. Mais sério. "Seu irmão fez a escolha certa ao entrar em contato comigo. E meu trabalho não foi adiado. Eu o trouxe e o terminei enquanto você dormia."

"Eu me sinto muito melhor agora, se quiser ir emb––"

"Eu não vou a lugar algum." O moreno respondeu com simplicidade. "Eu passarei a noite aqui e só voltarei para Roma quando seu irmão retornar. Eu prometi que lhe faria companhia, então termine sua sopa e vá dormir."

A maneira imponente com que aquelas palavras foram ditas fez o braço direito dos Cavallone sentir-se incomodado. O Vice-Inspetor era uma pessoa geralmente séria, mas quando queria, podia ser extremamente teimoso. O ruivo teria argumentado mais um pouco, mas seu estômago estava longe de sentir-se satisfeito e somente aquele prato de sopa não seria suficiente. Giulio o serviu de mais sopa e Mário suspirou satisfeito quando não havia mais espaço em sua barriga para mais nada. O moreno levantou-se e segurou a bandeja, lembrando novamente que era melhor o braço direito de Ivan deitar-se ou não estaria recuperado quando seu Chefe retornasse.

O ruivo deitou, não porque seu amante praticamente o havia obrigado, mas porque, verdade seja dita, ele ainda se sentia mal. Mário possuía uma saúde excelente, mas pelo menos duas vezes ao ano ele acabava ficando de cama. Era como se todos os sintomas se aglomerassem e escolhessem duas ocasiões para deixá-lo completamente inútil. A última vez que fiquei assim foi quando Ivan foi ao baile de Giotto. Giuseppe passou todos aqueles dias ao pé da minha cama e eu tenho certeza de que ele mal dormiu. O braço direito dos Cavallone jamais conseguiria ficar realmente bravo com o irmão. O senso de cuidado do louro era exagerado, ele sabia, mas como desgostar de alguém que genuinamente demonstrava interesse e preocupação pelos outros? Mas chamar Giulio? Eu jamais o teria chamado. Nós não temos esse tipo de relacionamento.

Mário ajeitou-se na cama e encarou o teto. Aquele pensamento o deixou sério e foi impossível não se perguntar: Então, qual o tipo de relacionamento que temos? Se fosse ao contrário. Se algum subordinado aparecesse na porta da minha casa dizendo que Giulio estava doente, o que eu teria feito? A resposta veio rápida, e o braço direito de Ivan corou ao se imaginar procrastinado na casa do moreno. Ele sabia que não seria de muita utilidade, porque sendo bem sincero, Giuseppe era quem basicamente cuidava da casa. Seu irmão tinha verdadeira paixão por limpeza e arrumação, mas o ruivo não sabia fazer nada, nem cozinhar. Eu teria comprado tudo pronto, mas certamente estaria na beirada da cama de Giulio se ele precisasse de mim. A porta foi aberta novamente e ao encarar o Vice-Inspetor, Mário entendeu o tipo de relacionamentos que eles tinham.

"Sente-se melhor?" O braço direito do Guardião da Nuvem fechou a porta e foi direto para a lareira, mexendo no fogo e tornando-o mais forte. "Se quiser eu posso fazer um chá se isso ajudá-lo a dormir."

O ruivo ponderou por alguns instantes as suas opções e ergueu uma parte da coberta, batendo com a mão na cama. "Sabe o que me ajudaria a dormir? Está frio e dizem que calor humano é a melhor maneira de ajudar a esquentar."

"É mesmo?" A maneira como Giulio respondeu jamais daria margem para alguma interpretação que não fosse a literal. Entretanto, o moreno caminhou na direção da cama e esboçou um maldoso meio sorriso. "A história inteira é que você precisa estar nu para isso."

"Eu não me importo." O braço direito de Ivan respondeu com um largo sorriso, entrando na brincadeira."

Embora a cama fosse de casal, ter dois homens altos e encorpados tornava qualquer espaço pequeno e apertado. Mário arrastou-se para os braços de seu amante, e sorriu satisfeito quando o Vice-Inspetor virou-se e o envolveu em um apertado abraço. Giulio cheirava a colônia e madeira, e o contato com aquele corpo quente e tão amável fez com que ele se sentisse melhor quase instantaneamente.

"Quando seu irmão apareceu na porta da minha casa eu imaginei o pior." A voz do braço direito de Alaudi saiu baixa e muito próxima ao ouvido de Mário. "Eu pensei em mil coisas diferentes, e quando ele finalmente disse que queria ajuda eu precisei me apoiar na porta ou teria caído."

"Giuseppe sempre teve uma queda pelo drama." O ruivo tentou rir com aquela declaração tão sincera, mas foi impossível.

"Eu percebi que não saberia o que fazer se alguma coisa lhe acontecesse." O Vice-Inspetor continuou como se não houvesse sido interrompido.

O braço direito dos Cavallone ergueu os olhos, ficando levemente surpreso por ver a expressão no rosto do homem que o abraçava. A seriedade havia se transformado em pura preocupação, e os olhos verdes pareciam doloridos.

"Você não precisará mais se preocupar, pelo menos por este ano." Mário voltou a sentir a garganta arranhar. "Eu fico doente pelo menos duas vezes ao ano."

"Eu lhe farei companhia no próximo ano e no próximo e no próximo..."

"Eu me lembrarei disso." O ruivo escondeu o rosto no espaço entre o ombro e o rosto de seu amante, omitindo suas bochechas coradas. Ele não estava acostumado a ouvir declarações daquela natureza. Suas noites de sexo não contavam com sinceridade ou emoções. Quando estava com Giulio, era como se todos aqueles anos de indiferença precisassem ser recompensados de alguma forma. "E eu lhe farei uma visita se você ficar doente, embora eu não possa prometer que isso vá ajudar em alguma coisa. As chances do contrário acontecer são bem grandes."

"Quando você melhorar nós vamos para minha casa." O moreno depositou um ousado beijo na orelha do braço direito de Ivan.

Mário sorriu e fechou os olhos, imaginando se aquele resfriado duraria muito tempo. A ideia de finalmente ser tocado pelo moreno o animou a se recuperar mais rápido, e se repouso era a chave para literalmente se livrar das roupas do Vice-Inspetor, então ele faria aquele sacrifício. O ruivo acomodou-se melhor nos braços de seu amante e sentiu o corpo relaxar, como ele não sentia há dias. O sono veio rápido. Seu estômago estava satisfeito, ele estava medicado e em seus braços estava o homem que havia mudado seus paradigmas, transformando seu mundo em algo completamente diferente.

p.s: O site não aceita mais de 20 mil palavras, então dividi o capt em duas partes. :/