Between Sun & Moon

5 Dark Side Of The Sun


Notas iniciais
Revisora: Andréia Kennen

Sasuke não sabia que lugar era aquele, mas andava em linha reta, seguindo um corredor que dava para uma porta fechada. Existiam outras portas naquele vão estreito de paredes, mas seu foco estava preso àquela no final do caminho por onde seguia. Uma luz emanava ao redor da madeira polida; uma luminosidade que o atraía como um inseto para claridade durante uma noite de verão.

E tudo ao seu redor era noite; escuridão e frio.

Seus pés descalços pisavam na madeira gelada que formava o piso em tábua corrida daquele lugar, e a cada novo passo — lento e cauteloso — a ansiedade na boca do estômago duplicava de tamanho.

Tenso, quando sua mão tocou a maçaneta daquela porta, um fino rastro de suor correu por sua têmpora, ao mesmo tempo em que engolia em seco o nervosismo.

Para onde levaria aquela porta?

Em que estaria adentrando, caso ultrapassasse aquele limite?

Sinceramente, sua curiosidade era tanta, que antes de cogitar tais perguntas, já estava girando a maçaneta e empurrando a madeira, que sequer rangeu. O silêncio era quase sepulcral, se não fosse por sua respiração pesada.

Um banheiro.

Sasuke franziu o cenho e olhou ao redor do espaçoso cômodo.

Toda sua tensão diminuiu ao notar que não havia nada de errado ou ameaçador naquele lugar. Era apenas um banheiro de tonalidade pastel, muito bem decorado e limpo.

Havia um único detalhe: jamais vira aquele banheiro em sua vida. Tal fato, o levou a se indagar a que casa ele pertencia.

Se é que pertencia mesmo a uma casa.

Adentrou no ambiente que cheirava a pinho, e o sentimento que o invadiu, repentinamente, foi de serenidade. Era estranho, pois não existia nada de especial ali para lhe proporcionar tamanho reconforto.

Sobressaltou-se, porém, quando subitamente a porta bateu estrondosamente atrás de si e o clique da fechadura emitiu-se, mostrando que fora trancada. Sasuke ficou fitando-a, sentindo a quietude em sua alma se esvair e a ansiedade retornar com mais força.

Não tentou forçar a porta a se abrir novamente; seria tolice, afinal, escutara a mesma ser trancada. Logo, seguindo seus instintos, deu alguns passos até ficar de frente para uma longa pia de porcelana e o vasto espelho anexado a parede que cobria toda a extensão em que louça clara se estendia.

O espelho, todavia, não lhe mostrou a sua imagem e isso o assustou mais do que qualquer coisa até o presente momento.

Do outro lado, estava o seu tormento e também seu salvador.

O loiro que surgira em sua vida para confundi-lo e impedir que morresse em acidentes bizarros.

Intrigado, Sasuke tocou seu próprio rosto, tentando assegurar-se que o reflexo era o mesmo. Quase teria sorrido ao ver o loiro também erguer a mão em direção a face, se não fosse por um detalhe que lhe prendeu a atenção:

Entre o indicador e o polegar, o outro garoto segurava uma lâmina.

Os olhos negros de Sasuke aumentaram de tamanho e a dimensão de seu assombro sequer foi mostrado através daquele espelho, ao ver aqueles olhos azuis tão determinados, levando a lâmina a uma das bochechas e talhando um risco horizontal em sua face, até então, imaculada.

O sangue verteu, escorrendo pela pele cor de bronze, enquanto o garoto começava a riscar outra linha acima da que fizera.

- Pare com isso! — Sasuke pediu aflito, sem conseguir qualquer reação da pessoa do outro lado. — Ei! Me escuta!

Riscos que Sasuke só conhecia até então, como misteriosas cicatrizes, eram talhados; riscos que ele agora parecia estar presenciando serem feitos.

O vazio naqueles olhos azuis o deixava inquieto, o fazia querer quebrar aquela barreira e simplesmente impedi-lo de continuar a se mutilar.

- Pare! — gritou, batendo no espelho e testando sua solidez. — Não está me ouvindo?

- Naruto! Abra essa porta! - escutou outra voz chamando, só que esta chegava abafada, como se viesse do outro lado…

Do lado do outro garoto.

Porém, o garoto não respondeu, ignorou o chamado e continuou a se cortar. Um lado de seu rosto já detinha três marcas profundas que escorriam sangue profusamente e agora, a lâmina era levada ao outro lado, sendo cravada com mais força. Mesmo assim, apesar de imaginar a dor que aquilo estaria provocando, o garoto nem sequer piscava.

Parecia, simplesmente, não sentir.

-Não faça isso! — Sasuke gritou novamente, batendo a palma da mão no vidro, querendo de qualquer forma chamar a atenção do outro para si.

- Naruto! – desta vez, o chamado na porta veio acompanhado de golpes potentes, emitidos, provavelmente, pelo o punho fechado de alguém. Contudo, apesar de Sasuke saber que a voz vinha do outro lado do espelho, os murros pareciam repercutir atrás de si, fazendo a madeira da porta tremer.

Com a adrenalina e o medo crescendo em si, Sasuke se virou brevemente para trás, a tempo de ver novamente a porta tremer com as pancadas.

- Naruto, se não abrir agora mesmo, eu vou arrombar! - a voz ameaçou.

Era um homem, certamente, e pelo timbre, mais velho.

As mãos de Sasuke se agarraram a beira da pia clara, quando o estrondo de alguém se jogando contra a madeira ecoou por aquelas paredes azulejadas.

- Naruto!

Engolindo em seco, Sasuke voltou-se para o espelho, vendo com angústia e desespero que o garoto talhava calmamente o último dos três riscos idênticos aos que fizera na outra bochecha.

- Por quê? — Sasuke perguntou para a superfície que deveria estar refletindo a sua imagem, admirando desolado, o garoto que lhe encarava com um sorriso débil, enquanto o sangue escorria de sua face para o pescoço, manchando a blusa laranja.

A mão suja de sangue jogou a lâmina com descaso para o lado, na pia, e em seguida tocou o espelho, manchando-o de vermelho em movimentos agressivos.

Um estalo alto, a fechadura cedia aos trancos dados do outro lado. Sasuke se virou assustado e a tempo de ver a porta sendo escancarada com violência, batendo na parede. No entanto, a sua frente não havia nada. Ninguém entrara. Mas sabia que algo estava acontecendo do outro lado, pois gritos ressoavam atrás de si.

Embora estivesse receoso de ver, ou de simplesmente dar as costas e ser atacado por algo que adentrasse pela entrada escancarada, sentia a importância de testemunhar o que ocorria.

As vozes pareciam aflitas. Agora não era mais só a de um homem; a esta se unira a de uma mulher.

Naruto — as vozes chamavam.

Naruto — o nome em sua mente repercutia.

Naruto — sua voz ganhava vida ao ver no espelho a mensagem escrita em sangue que fora deixada para si, enquanto o banheiro do outro lado parecia apenas o reflexo do seu próprio. Foi então que, a imagem de seu rosto, cheio de medo e agonia, era a única coisa que via refletida ali.

Naruto! — foi o nome que gritou ao acordar no meio da noite tempestuosa, enquanto ofegava e tentava diferenciar a realidade do pesadelo.

Com as mãos fechadas fortemente em punhos sobre os lençóis da cama, Sasuke esperou que algo acontecesse: que seu coração parasse de esmurrar-se contra sua caixa torácica; que sua respiração se normalizasse; e que seu irmão aparecesse repentinamente, preocupado por tê-lo ouvido gritar.

Mas somente as duas primeiras expectativas se concluíram e, mesmo assim, depois de um longo período.

Seus pensamentos começaram a se organizar mais racionalmente.

Fora somente um pesadelo; um daqueles realistas que deixavam a pessoa sentindo o cheiro do ambiente e toda a sensação de ter realmente vivenciado tal experiência.

Lembrou-se das palavras escritas no espelho, dos gritos e novamente das palavras escritas; borradas com o sangue do garoto com quem vinha tendo encontros esporádicos e estranhos.

"Assassino maldito"

Soltou um suspiro longo e fechou os olhos querendo controlar aquela inquietação latente em seu corpo.

Não sabia por que estava tentando racionalizar um sonho ruim.

- Naruto. — murmurou o nome que ainda parecia estar impresso em sua mente, tocando os lábios com os dedos. — Será que esse… é o seu nome?

A sensação do beijo que dividira com o garoto loiro retornara, enquanto se questionava o quanto sua mente poderia estar lhe pregando peças com aquele simples sonho. Seria loucura achar que as cicatrizes nas bochechas que o misterioso adolescente tinha, fossem feitas por automutilação?

Fora um dos cenários mais bizarros já criados mentalmente durante o sono. Então, com tudo o que vinha lhe acontecendo, seria insano crer que tal pesadelo fosse, na verdade, uma visão de algo que já ocorrera?

Uma tolice — pensou consigo mesmo.

oOo

- Que cara de poucos amigos é essa, irmãozinho? — Itachi indagou ao ver o irmão descer para o café aquela manhã. — Sonhou que estava chupando limão?

- Me poupe do seu sarcasmo. — Sasuke resmungou.

O mau humor estava evidente na voz e no comportamento de Sasuke, que não fazia qualquer questão de escondê-lo. A noite, aquele maldito pesadelo, a vontade de ver novamente o loiro… Tudo contribuía para que o aborrecimento o dominasse.

Sem contar a atitude de Itachi que ainda o estava vigiando e controlando seus passos por causa dos acidentes bizarros que vinha sofrendo.

Sentou-se a mesa em silêncio, comeu seu café da manhã sem dizer uma palavra, sabendo que Itachi o observava desconfiado. E ele tinha razão de fazê-lo. Sasuke sabia que depois que saíra de casa depois das ordens severas para que não o fizessem, havia deixado o mais velho ainda mais cauteloso e ressabiado.

E o que pretendia fazer naquele dia, certamente faria o irmão surtar quando descobrisse.

- O que está tramando, Sasuke? — ele lhe perguntou, compenetradamente, olhando para seu semblante.

- Nada. — respondeu, tomando o último gole do café puro e se levantando para evitar o confronto.

- Otouto… — Itachi chamou de um jeito baixo que fez com que o caçula detivesse os passos em direção a saída da cozinha. — Não faça nada estúpido.

Sasuke percebeu a mudança no timbre do mais velho. Isso fez com que qualquer irritação que armazenasse contra a atitude dele em querer engaiolá-lo dentro de casa, se esvaísse, pois sentiu que em sua voz havia receio; medo.

Itachi não era um homem de demonstrar facilmente seus sentimentos e Sasuke atribuía isso a uma característica de família, tirando sua mãe que fora uma pessoa gentil e extremamente amável, seu pai, Itachi e ele eram similares em não evidenciar muito os seus sentimentos.

O mais velho estava realmente preocupado que fosse perdê-lo.

Mesmo assim, Sasuke não ofereceu qualquer palavra de consolo que amenizasse a preocupação do irmão. Estaria mentindo se o fizesse e preferiu simplesmente deixar o cômodo e subir novamente para seu quarto.

Logo, Itachi teria que sair e Sasuke estaria fora de casa meia hora depois.

Aquele seu plano era meio louco, mas sabia que se saísse e atraísse algum tipo de acidente para si, o loiro apareceria.

Assim que estivesse de novo com ele, arrumaria um jeito de fazê-lo explicar o que era tudo aquilo que vinha passando e, principalmente, lhe contar quem era.

E quem sabe… poder ser beijado por ele mais uma vez.

oOo

Estava em seu quarto e o dia parecia claro demais para quem estivera enfrentando um clima frio e tempestuoso anteriormente. O sol brilhava do lado de fora e o cômodo tinha um aroma amadeirado, muito diferente do perfume que estava costumado. Soergueu-se na cama, confuso, e constatou que o lugar era desconhecido. Ainda que continuasse sendo um quarto, não era o seu. As paredes estavam cobertas por pôsteres de bandas de pop, a escrivaninha em mogno sustentava o monitor LCD de um computador, bem como alguns livros e canetas espalhados. A cadeira, porém, não estava vazia. O garoto de cabelos loiros estava lá, sem blusa, trajando somente um short folgado branco que contrastava com a tonalidade bronzeada de sua pele.

Sasuke engoliu em seco quando o garoto pareceu ter percebido sua movimentação e se virou para trás. Os olhos azuis brilharam de um jeito diferente: mais terno, mais intenso, como o olhar de alguém… apaixonado. Reparou, mesmo assim, nas bochechas lisas, sem marcas…

Onde as cicatrizes estavam? Era diferente vê-lo com a ausência daqueles traços tão peculiares…

Ele o via, e teve certeza disso quando o loiro sorriu e lhe perguntou:

- Já acordou? Pensei que dormiria por mais tempo.

Sasuke engoliu em seco, sem saber o que responder, sem ter noção de como reagir. Principalmente, quando o loiro largou a escrivaninha de lado — e o que quer que o estivesse distraindo ali — e veio em sua direção, subindo na cama e, consequentemente, para cima de si, colocando ambas as pernas, uma de cada lado de seu quadril.

- O que foi? — ele lhe perguntou, um pouco preocupado. — Não está arrependido, está?

Arrependido de quê?

Seu raciocínio foi interrompido quando a mão morna tocou seu rosto, fazendo um suave carinho, enquanto a boca úmida descia sobre a sua. Seus lábios se entreabriram em um gemido no instante em que sentiu a pélvis do loiro se esfregar contra a sua. Sasuke notou o outro se aproveitar do momento para deslizar a língua para dentro de sua boca e quando deu por si, estava correspondendo fervorosamente ao beijo, enquanto voltava a se deitar plenamente sobre o colchão macio, com o outro corpo pesando sobre o seu.

Só se deu conta que estava completamente nu, quando o loiro afastou o lençol que cobria a parte inferior de seu corpo para o lado. Mas ele próprio não conseguia manter suas mãos longe da pele do outro adolescente, alisando suas costas, querendo arrancar aquele short que ainda impedia de senti-lo por inteiro.

- Naruto?

Sasuke ficou tenso, o loiro acima praticamente pulou de cima de si e tudo ao seu redor pareceu ficar mais escuro, mais tétrico, como se o céu claro do lado de fora tivesse sido encoberto, rapidamente, por uma densa nuvem de chuva.

A porta do quarto havia sido aberta. Parada junto a ela estava estagnada uma mulher, uma ruiva alta de olhos azuis plúmbeos que se mostravam chocados e repletos de incompreensão e asco.

Ela os observou por alguns segundos e depois, constrangida, se afastou muito rápido.

- Merda… — o loiro praguejou, saltando da cama. — Espere aqui.

Sasuke se levantou nervoso, procurando por roupas que pudessem ser suas e assim se vestir e finalmente esconder sua nudez, mas desistiu no momento em que escutou um estrondo.

Parecia um trovão, indício de que iria chover; indício de que algo poderia estar errado.

Ele, seguindo aquele forte instinto, abandonou a busca por vestimentas e ainda nu se aproximou da janela. O tempo realmente mudara: as nuvens negras do lado de fora se condensavam numa dança quase perversa e ainda assim impressionantemente assustadora, mostrando sua colisão em forma de raios que riscavam o céu, iluminando o quarto de um jeito oscilante.

Sasuke parou, vendo que a rua do lado de fora da casa não parecia com uma rua qualquer de uma área residencial. Continuava no quarto daquele garoto, mas o que estava do lado de fora daquela janela era o centro da cidade onde morava.

Horário infernal, rush, um dos grandes cruzamentos da metrópole.

Pessoas esperavam para atravessarem o sinal vermelho que parecia demorar demais para abrir para os pedestres em ambos os lados da calçada.

Os olhos negros se ajustaram, tentando enxergar melhor pelo vidro onde a chuva começava a cair fortemente. Um novo estrondo, a luz alva iluminando as ruas, pessoas abrindo os guarda-chuvas, atravessando assim que o sinal os permitiu segurança de fazê-lo.

Sasuke não entendia o que havia ali, naquele cenário, que o prendia de tal forma que não conseguia desviar e ir embora. Queria esperar mais um pouco e assim o fez.

Viu novamente o sinal dar aval para os carros seguirem em frente, fechando para os outros veículos na interseção e…

Seu olhar se fixou nos novos pedestres que chegavam para esperar à beira da calçada o sinal se fechar novamente.

Lá estava o garoto loiro, o mesmo que há segundos estivera na cama consigo. Ele vestia-se com roupas leves, apesar do tempo, as mesmas que costumava usar quando vinha ao seu encontro. Ao seu lado havia um homem que certamente o acompanhava, pois parecia tentar puxar conversa com ele, ao mesmo tempo em que era ignorado. O homem se parecia muito com o garoto: também era loiro e tinha os mesmos olhos azuis, segurava um grande guarda-chuva cinza tentando evitar que ele e o mais novo se molhassem.

Conseguiu identificar tristeza no rosto daquele homem quando o menor não lhe deu atenção. Por uma fração de segundos, o mais velho desviou o olhar do garoto, querendo conter qualquer que fosse o sentimento que o incomodava.

E o desespero se tornou tão evidente em seu rosto quanto no de Sasuke, no momento em que o garoto se movimentou.

Fração de segundos — era o que diriam.

O garoto deu o primeiro passo para frente, depois outro e mais outro, não dando tempo ao mais velho de reagir. O sinal brilhava num verde intenso para os carros. O garoto loiro não demonstrava qualquer medo ou sentimento quando caminhou pela avenida.

Sasuke gritou alto.

Sem vergonha, sem restrições.

O corpo do garoto loiro foi atingido por um carro e, mesmo que tudo fosse muito rápido, foi como vê-lo ser atingido em uma câmera lenta. Pode ver com clareza o momento em que a cabeça dele se chocou com o vidro do carro, pode ver o instante em que ricocheteou na lataria do veiculo e caiu pesadamente contra o asfalto encharcado, como um boneco quebrado até parar inerte com a chuva forte sobre si.

O barulho pareceu se tornar estridente aos ouvidos de Sasuke, então. Freadas de pneus, desespero de pedestres; o acidente continuando a se desenvolver como se já não fosse suficiente o que já ocorrera.

O carro que atropelara o garoto foi atingido por um segundo, ao tentar frear. O tranco fazendo o primeiro ser incapaz de controlar a direção e, devido à velocidade, deslizar em um bolsão d'água na pista e, assim, dar uma guinada desestabilizada. Mesmo que o motorista tivesse tentado reverter aquele quadro, seu carro foi de encontro, violentamente, contra um poste.

Aquele carro que por infortuno atropelara o loiro e batera contra o poste, poderia ser um veículo qualquer — havia vários deles rodando por aí apesar de ser um modelo caro. Mas aquele carro não era qualquer carro.

No fundo, Sasuke sabia disso.

Ele reconhecia.

O garoto sangrava no asfalto molhado; o sangue fazia uma poça escura ao redor de sua cabeça e o homem que o acompanhava entrava em desespero enquanto chamava uma ambulância pelo celular. O trânsito parou, ficando mais caótico do que já estava. As pessoas tentavam ajudar aqueles dentro do carro; o homem chorava vendo o estado do garoto loiro no chão; lágrimas escorriam pelo rosto lívido de Sasuke, que se sentia tomado por um dor incomensurável em seu peito.

Ele viu as ambulâncias, os paramédicos, bombeiros.

Viu a retirada dos corpos de dentro do carro.

Em meio à angústia, não conseguiu se mover, ainda que quisesse correr até aquele lugar — correr para perto dos corpos dos pais que eram colocados em sacos pretos para serem levados para o necrotério.

Em um arquejo, seu corpo se projetou para frente e seus olhos arregalados repetiam o processo que mais parecia um deja vu. Estava ali, em seu quarto, agora sentado em sua cama.

As lágrimas ainda escorriam em sua face, a dor em seu peito ainda era palpável e a conscientização lhe abatia ainda que lentamente.

Estivera preso em outro sonho.

Quando subira para o quarto para esperar que Itachi saísse, acabara se deitando e, certamente, pegara no sono devido à noite atribulada que tivera.

Em tão pouco tempo, aquele garoto invadira sua mente, incitando pesadelos tão escabrosos que Sasuke sentia-se infinitamente frustrado e com raiva dele.

Por que aquele garoto povoava sua mente e o atormentava daquela forma?

Por que aqueles sonhos pareciam tão reais?

O desastre que vitimara seus pais… Há tanto tempo que não tinha pesadelos com eles.

Sabia que fora um acidente de carro, num final de tarde muito chuvoso, quando ele ainda era pequeno.

Olhou para o relógio da mesinha de cabeceira e deixou a cama, enxugando raivosamente o rosto com as mãos. Adentrou o banheiro anexo ao seu quarto e lavou a face, ficando com raiva de si mesmo por se sentir tão patético: chorando por um sonho.

Aquilo o fez ir direto ao seu armário e procurar uma roupa para vestir. Não pensou em escolher nada: pegou o primeiro jeans escuro que encontrou, bem como a camisa justa preta e uma jaqueta para se precaver do tempo que estava ligeiramente frio. Calçou o par de coturnos e, pisando firme e com o semblante decidido, desceu com o pleno intento de sair. Itachi àquela hora da tarde já estava no trabalho e Sasuke poderia vagar com tranquilidade pela cidade e esperar que aquele garoto aparecesse.

E quando o encontrasse…

Franziu o cenho ao procurar por sua chave no local que costumava deixar — em um aparador perto da porta — e não a encontrou. Sua primeira reação foi tentar abrir a maçaneta, mas esta estava fechada.

- Itachi… eu não acredito!- bateu as mãos ao longo do corpo.

Não precisava procurar pela chave em meio a casa, conhecia muito bem o irmão que tinha e do que era capaz. Infelizmente, fora tolo ao não prever que ele tomaria uma atitude drástica e totalmente infantil como aquela de trancá-lo dentro de casa para que não saísse.

As janelas do andar inferior eram gradeadas, bem como as do superior. Um cuidado que seus pais haviam tomado desde que Itachi nascera como medo de que fizessem alguma peraltice e se machucassem. Acabou que com o passar dos anos, com a morte deles, ninguém pensou em retirar a proteção.

Sasuke chutou com raiva uma das pernas do aparador e bufou indignado.

O celular no bolso de sua calça tocou e estressado ele atendeu o telefonema, falando um alô que expressava exatamente seu estado de espírito.

No mesmo instante seu sangue gelou.

O chiado no aparelho brindou a sua audição como resposta.

oOo

Continua...

Notas finais
Notas:

Como prometido, atualização!

Desculpem a demora e espero que gostem do capítulo.