Between Sun & Moon
7 Around The Sun
Notas iniciais
Ele dançava por todo caminho dos corredores até o pátio. Os fones abafavam o som da música alta que retumbava em seus ouvidos e ditava o ritmo de seus passos cadenciados, cheios de movimentos e sensualidade não-intencional. Sasuke o observava de longe, via com extrema fascinação o garoto loiro por momentos fechar os olhos e deixar a música fluir dentro de si, sem se importar com o caminho a seguir, como se seus passos já soubessem de cor o caminho à frente.
Seu coração palpitava estranhamente, como se fosse capaz de sentir as batidas do som que ecoava somente para Naruto. Mesmo assim, parecia esquisitamente mais intenso do que o normal. Ele sentia seus próprios batimentos, mas havia o de mais alguém junto ao seu. Era como se fosse ele e ao mesmo tempo não fosse.
Seus duplos batimentos cardíacos eram quase sincronizados. Quase. Por um milésimo de segundo, o outro coração adiantava-se, como se vencesse a rapidez do seu, mostrando que o sentimento que acalentava era mais grandioso que o do coração verdadeiro de Sasuke.
Seus olhos, porém, continuavam a seguir o outro adolescente. Suas pernas se moviam lentamente, acompanhando de longe os passos do loiro. Naruto desviava das pessoas que passavam, sorrindo e mexendo-se fluidamente, não se importando em como era visto pelos demais. Ao que tudo indicava, as pessoas ao redor daquela instituição escolar estavam acostumados com o entusiasmo do garoto e seu iPod.
Ele o via do alto, estava em um dos corredores das salas do segundo andar e sentia-se extremamente seguro em olhá-lo sem reservas.
Somente quando o garoto no pátio elevou os olhos para aquela área, Sasuke foi flagrado, mas ao invés de sentir-se envergonhado por isso, o sorriso enorme que Naruto lhe ofereceu, seguido de um aceno enérgico, lhe trouxe mais euforia ao coração. Os dois batimentos pareciam disputar entre si, querendo mostrar qual de ambos era mais intenso, mas aquele segundo permanecia sempre adiantado.
Pegou-se acenando discretamente de volta e, mesmo de longe, pode ler os lábios do loiro em movimento.
Te amo — o loiro dizia, sem usar realmente a voz.
Sasuke foi invadido por aquele sentimento de completude e, depois de um aceno de despedida, Naruto retomou o caminho que fazia, enquanto prosseguiu pelo corredor.
Seus passos o levaram para uma das salas de artes do colégio, a qual tentou abrir em vão.
A porta estava trancada.
De qualquer forma, sentia que era ali que deveria entrar. Levemente intrigado, se agachou e olhou pelo buraco da fechadura, querendo visualizar o que tinha de importante ali dentro.
Engoliu em seco ao ser capaz de localizar o loiro, sentado em um dos bancos, de frente para uma tela.
— Ha! Eu disse que eu era fotogênico. — ele comentou com um sorriso largo, mas com as bochechas mostrando certo acanhamento no carmesim que nelas despontara.
Apesar de estar espionando, Sasuke notou que as cicatrizes não estavam na face do garoto, bem como não estiveram quando o vira caminhando pelo pátio, e isso o confundia.
— Eu já disse o quanto é. — escutou alguém responder, indo na direção do loiro e admirando o desenho exibido.
Sasuke não conseguia ver a imagem na tela de pintura, mas deduzia, pela conversa entre os garotos, que seria um desenho do loiro.
As vozes deles eram tão vivas que davam a impressão de estar dentro da sala, bem ao lado deles, mas continuava abaixado do lado de fora, espiando pelo buraco da fechadura.
Mas, quem era aquele outro garoto?
Sasuke reparava no rapaz: tinha os cabelos tão negros quanto os seus próprios, mais curtos; a pele era visivelmente bem pálida e os olhos escuros também.
Fora ele quem pintara o loiro naquela tela?
Distraiu-se ao ver Naruto, envergonhado, querer iniciar um tópico e desviar os olhos azuis para o chão.
— Sabe, o que aconteceu lá em casa…
— Foi uma bela maneira de conhecer a minha futura sogra. — imediatamente o moreno o interrompeu, com um sorriso crescente.
O loiro riu, sem graça, coçando a nuca e dizendo em seguida:
— Desculpa a mancada. Achei que ela não voltaria tão cedo.
— Teve problemas? — o moreno perguntou, tocando no rosto do outro garoto e fazendo, inconscientemente, Sasuke fechar os punhos que apoiava na porta.
— As coisas vão se acalmar, eu acho… — Naruto deduziu, casualmente, como se não estivesse mesmo preocupado. — Não há como mudar como eu sou.
O garoto de pele muito alva elevou o rosto do loiro, que estava sentado, e olhando nas esferas azuis, confessou:
— Eu vou estar ao seu lado, Naruto-kun.
Naruto sorriu, com o olhar genuinamente enternecido, que fez o coração de Sasuke voltar a bater mais forte e, ao mesmo tempo, se contrair, pois os lábios dele estavam indo na direção da boca do outro garoto, selando-os em um beijo.
Uma contradição dentro de si: os batimentos, que tinha certeza serem seus, eram rascantes, de puro ciúme; o outro que estava sempre a um palpitar mais rápido, completamente envolto na intensidade do sentimento sincero que dedicava ao rapaz loiro.
Mas, Sasuke não se preocupava muito com a singularidade daquilo que acontecia consigo. A única coisa que se perguntava era quem seria aquele moreno?
Quem seria aquele estorvo que pensava ter o direito de se entregar ao beijo e permitir que a língua do loiro lhe invadisse a boca de uma forma nada casta?
Quem ele pensava que era para sentir como se sua vida toda fosse um quebra-cabeças e a peça que o completava como um todo, estivesse ali, em seus braços?
Foi quando os olhos de Sasuke se arregalaram e, enfim, se deu conta:
Ele sentia o que aquele outro moreno sentia; o segundo batimento que se destacava em seu peito, era do garoto que estava com Naruto dentro da sala… O Uchiha sabia o que ele dividia com o loiro. Era verdadeiro e isso causava um contraste tão grande, que sua maior vontade era interromper: abrir aquela porta e arrancar o loiro de perto do outro garoto.
Mas a porta continuou trancada e sua atenção parecia presa o suficiente àquela cena, pois só acompanhou. Era um expectador cativo dos acontecimentos e simplesmente vivia o que acreditava ser, mesmo em sonho, o passado do loiro.
O loiro circulou a cintura do moreno com o braço, trazendo o corpo esguio para junto de si, fazendo-o encaixar-se no meio de suas pernas.
Eles, estando de lado para a porta, facilitavam para Sasuke ver tudo com clareza.
Tudo.
Desde a mão de Naruto alisando o peito do moreno, por cima do uniforme, e deslizando-a para baixo, até encontrar com cós da calça. Sasuke viu o leve rubor na face do loiro em meio ao beijo, no momento em que desabotoou o fecho e acariciou o sexo do outro por cima do tecido da cueca clara.
— Naruto-kun… — o moreno ofegou em meio ao beijo, imitando o loiro ao abrir a calça do uniforme dele e apalpar a ereção apertada ali.
Ofegos contidos e incontidos pelos beijos, enquanto ambos masturbavam um ao outro.
Arquejos.
Suspiros.
Palavras sussurradas ao pé do ouvido…
Sasuke escutava claramente a tudo.
Confissões de amor tão dedicadas do loiro para o moreno, em meio à excitação do que dividiam: enquanto se tocavam e se davam prazer.
Imensamente irritado e invejoso perante o que via, Sasuke fechou os olhos firmemente, tentando conter seu ciúme.
O som de prazer nas vozes deles só aumentou e aumentou, e quanto mais Sasuke pressionava os olhos, mais os gemidos se elevavam. Inconformado por aquela tortura, o Uchiha levou as mãos aos ouvidos, recostando na porta.
Queria acordar, se aquilo fosse um sonho.
Se não pudesse despertar, queria sair dali.
Os gemidos escalaram para um frenesi ininterrupto, que resultou em um resfolegar de ambos os garotos dentro da sala de artes, fazendo Sasuke se contrair diante da sensação do ápice do garoto moreno.
O eco foi se esvaindo pouco a pouco e, quando finalmente se extinguiu, Sasuke abriu os olhos.
Não estava mais no colégio, nem em um corredor.
Estava no escuro.
Um negror tão intenso que não sabia mesmo dizer se havia realmente aberto os olhos.
Levantou-se e tentou andar, com medo de dar algum passo em falso, mas hesitante prosseguiu.
— O que você pensa que estava fazendo com aquele garoto, Naruto?
A cada novo passo, uma réplica.
— Ele tem nome e…
— Não interessa o nome dele!
A voz da mulher parecia transtornada e Sasuke percebia ira dela.
— Nós namoramos.
— Eu não quero você perto desse garoto! Vou ligar para o seu pai agora mesmo!
Sujo, amoral, doentio… — as palavras sussurravam na cabeça de Sasuke, na feminina voz arrastada.
— Por que não pode só aceitar?
— Isso é uma doença, Naruto! Você precisa de tratamento!
Agonia, tristeza, desolação… — o garoto loiro transbordava aqueles sentimentos, que se condensaram em revolta.
— Quem precisa de tratamento é a senhora!
O barulho de um tapa ecoou e Sasuke sentiu como se houvesse, finalmente, pisado em falso e caído em um buraco, ou um abismo, mas suas costas batiam em uma superfície disforme, como degraus, extremamente sólida e que causavam uma dor insana em suas costas em meio ao impacto. Como se rolasse, sentiu uma dor aguda em seu pescoço e o ruído do osso se partindo, até desabar inerte na escuridão.
oOo
Sasuke acordou subitamente, uma pegada em seu ombro tentava sacudi-lo delicadamente, sem machucá-lo e quando olhou para o lado, deparou-se com o semblante preocupado de seu irmão mais velho.
— Estava tendo um pesadelo?
Olhou ao redor, recobrando a lembrança de que estava no hospital e de que a última coisa que recordava antes de entrar naquela espiral de sonhos, era o loiro roçando os lábios contra os seus.
— Acho que sim. — respondeu, num suspiro aliviado, ao mais velho.
Ficou em silêncio por um momento, absorvendo as novas informações que ganhara durante o sono e buscando dispersar a gama de sentimentos que se acumulavam em si.
— Eu encontrei o loiro que você me mandou ir atrás ontem, Sasuke.
Os olhos negros do mais novo se arregalaram, voltando toda a sua atenção para o irmão mais velho.
— E onde ele está?
— Quando voltei, você estava dormindo. — vendo o desespero brotar no ônix dos olhos do caçula, Itachi continuou: — Mas conversei um pouco com ele. Se chama Minato Namikaze.
— Me diz que você pegou algum meio de entrar em contato com ele, Itachi. — Sasuke falou, com um tom de impaciência.
Itachi, com um sorriso sarcástico, implicou:
— O senhor Namikaze falou que viria quando você não estivesse roncando como um porco.
— Itachi… — Sasuke grunhiu, aborrecido.
— Calma, otouto. — o mais velho sorriu. — Ele vai voltar e aí você pode conversar com ele.
Aquilo era aceitável, pelo menos por enquanto. A sua única ligação mais palpável com Naruto era aquele homem: Minato Namikaze. O mais estranho era que Sasuke não estava pensando nem um pouco nos riscos que sua vida corria. Sua intenção toda de conversar com aquele homem se voltara para tentar descobrir mais sobre o garoto que vinha o atormentando.
Ainda mais, depois daquele último sonho.
Não entendia o motivo de estar vendo a vida de Naruto em pesadelos. Mas, certamente, Minato lhe daria uma explicação e assim poderia saber onde encontrar o garoto.
Quando tivesse um endereço, soubesse exatamente de sua vida, Naruto não o escaparia.
oOo
Alguns dias se passaram e Sasuke se sentia bem melhor. Já se sentava no leito sem ser aplacado pela dor e o médico pensava em lhe dar alta no dia seguinte.
Itachi ainda insistira em manter Sasuke sob observação mais alguns dias, sendo o chato e neurótico de sempre, mas o médico afirmara que estava tudo muito bem com o mais novo.
Infelizmente, dessa vez, gostaria que as neuroses de Itachi fossem ouvidas. Minato não retornara ao hospital ainda e, se Sasuke fosse embora, como encontraria o homem, novamente?
— Esqueça isso, Sasuke. — escutou a voz dele, do garoto loiro, lhe exigir.
Outra visita do adolescente durante a noite. Quando o hospital parecia estar mais silencioso, Naruto entrava pela porta de seu quarto. Ele vinha fazendo aquilo com frequência e Sasuke até se questionava se não estava sendo cauteloso, com medo de que aquela coisa misteriosa que estava atrás de sua vida pudesse surgir ali.
Entretanto, nada de sobrenatural aconteceu. Nenhum acidente, nem prenúncio de um. O que mais irritava o moreno era a falta de um diálogo que fizesse sentido, vindo do loiro.
— Eu vou descobrir de um jeito ou de outro. — resmungou em resposta para o outro garoto, sem se dar o trabalho de fitá-lo.
— Você vai encontrar o que não quer. — Naruto cantarolou, debochando do Uchiha.
Sasuke virou o rosto na direção do outro adolescente e com um olhar intenso, retorquiu:
— Eu acho que vou encontrar exatamente o que eu quero.
Naruto pareceu ter sido abalado pela intensidade dos orbes escuros, mas não desviou o olhar. Sustentou, até dizer amenamente:
— Estou me redimindo por ter tirado algo precioso de você.
— Você está falando dos meus pais? — Sasuke inquiriu, sentando-se na cama e esperando que, pelo menos dessa vez, Naruto lhe desse uma resposta direta.
Já havia tentado perguntar sobre o garoto que Naruto amava, sobre a mãe, sobre os cortes no rosto que formavam aquelas cicatrizes tão singulares, sobre Minato, mas o garoto sempre desviava o assunto para algo que nada tinha a ver.
Como naquele momento.
— É como um ciclo. — Naruto disse, pensativo. — E você é meu último débito.
— Pare com esse jogo, Naruto. — Sasuke se exaltou, com raiva. — Foi você quem implantou aqueles sonhos bizarros na minha cabeça? Por que não pode me responder diretamente?
Naruto o olhou com um sorriso, por mais um minuto inteiro, sem nada dizer, fazendo Sasuke se contrair. Ao mesmo tempo em que parecia malicioso, também se mostrava terno. Uma contradição em pessoa. Mas, logo depois o loiro estendeu a mão para ele.
Mesmo receoso do que poderia significar aquela atitude, Sasuke colocou a mão sobre a do outro adolescente. Naruto a segurou e motivou-o a descer do leito. O moreno assim o fez.
oOo
Sasuke caminhou pelos corredores do hospital, com um nó fechando-se em sua garganta. Sua mão era levada pela palma suave e morna de Naruto, enquanto subiam escadas, até o andar superior, direcionando-se, então, para um quarto da unidade de tratamento intensivo.
Seu coração parecia apertado, sua respiração pesada. Sentia receio, muito receio do que o garoto queria lhe mostrar, mas precisava segui-lo; precisava desvendar o que estava por trás daquela porta a qual Naruto agora meneava a cabeça para que abrisse.
Sasuke, com a mão trêmula, o fez: abriu a porta e o garoto o guiou para dentro.
Sua respiração cessou por alguns segundos, seus olhos negros cintilaram em incompreensão e reconhecimento, enquanto fitava a pessoa inconsciente que tinha aparelhos importantes conectados ao seu corpo debilitado.
– Naruto…? – indagou, olhando para o outro adolescente, que continuou com os orbes azuis fixos na cama.
Sentiu-se extremamente sozinho, mesmo com o garoto segurando a sua mão; mesmo com Naruto ao seu lado.
Angustiado, Sasuke tornou a fitar o leito hospitalar.
O homem ali internado estava magro; seus cabelos pareciam tão sem vida quanto o resto de seu corpo, só que havia vida ali: o leve subir e descer do peito embaixo do lençol provava que estava vivo e este movimento acompanhava o embolo da máquina que levava o ar para seus pulmões através do tubo de alimentação.
Seus pés o levaram para perto da cabeceira da cama. Ainda segurando firme na mão do loiro, mas trincando os dentes, conteve bravamente o acesso de pânico que ameaçava dominá-lo.
Apenas por um segundo.
No momento em que sua mão livre tocou a face do homem, as barreiras de Sasuke desmoronaram e a única coisa que foi capaz de fazer foi desvencilhar-se de Naruto e deixar o quarto correndo desesperadamente.
oOo
Continua...
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