Between Sun & Moon
3 Always The Sun
Notas iniciais
Buscava seguir sua rotina normalmente, todavia, Sasuke sentia-se irrequieto. Desde o último encontro com o garoto desconhecido, o moreno vinha tentando esquecer os estranhos acontecimentos que envolviam sempre a presença do loiro. No entanto, o que ocorrera fora intrigante demais para simplesmente, bloquear da sua mente.
Em consequência, acreditava que seu irmão mais velho estava igualmente resguardado. Depois de ter-lhe relatado que esteve na danceteria na mesma noite do incêndio, Itachi – que pareceu ter somado este ao incidente anterior do ônibus — passou a agir como um neurótico. Prova disso, era estar lhe acompanhando ao shopping com o namorado. Se já não bastasse aguentar o irmão, ainda era obrigado a compartilhar do encontro amoroso deste. Porém, se tivesse sorte, poderia se perder na imensidão do shopping, escapando do inconveniente daquela tarde.
Compreendia a apreensão e o resguardo de Itachi depois das duas circunstâncias que poderiam ter lhe custado a vida. Era a única família que restara para o irmão. Se algo realmente chegasse a acontecer consigo, Itachi perderia o resto da pouca sanidade que ainda lhe sobrara depois da morte dos pais. Sasuke gostava de crer que somente por isso não dera fim na própria vida.
Talvez esse fosse o motivo primordial de ter recuado e sentido medo quando o garoto loiro, em cima daquele terraço, o convidara a uma queda livre. Recordava-se vividamente desse momento em particular. Os olhos azuis não vacilaram nem por um instante. Ele pularia consigo se aceitasse. O que Sasuke custava a assimilar era como alguém como aquele garoto se dispunha a tal ato.
Da primeira vez que o vira, o que mais o encantara no loiro fora a vida que parecia emanar dele. Diferente de si, o outro jovem sorria facilmente e tinha no olhar um brilho vivaz, contraditório ao ato que pretendia cometer em cima do prédio.
Queria poder entender tudo o que estava acontecendo…
- Sas?! – o loiro que caminhava ao lado de seu irmão o chamou e, debochado, comentou: — ‘Tá de mau-humor, un?
Sasuke revirou os olhos e não respondeu. Deidara, na maior parte do tempo, era implicante e irritante. Ele sabia que não os queria por perto, por isso ironizava. Sinceramente, não entendia o que fazia Itachi se apegar a alguém como aquele loiro. Ambos não tinham nada em comum, a não ser — de maneira ímpar — a beleza afeminada. Podia concordar com uma atração sexual, já que Deidara era sensual com seu corpo esguio e, longos e lisos cabelos loiros, mas a personalidade era repugnante; começando por seu jeito nada discreto de se impor ao falar. Deidara não era sutil, tinha a entonação de voz alta demais, falava gesticulando e adorava chamar a atenção, principalmente de Itachi.
E, por algum motivo além de seu entendimento, o loiro conseguia isso desde a primeira que haviam se visto.
Itachi trabalha no ramo da moda. Seu nome era reconhecido como grande estilista, e se dedicava a profissão por prazer. Deidara fora um dos modelos que a agência ligada à marca Uchiha enviara para representar a grife em um dos desfiles da coleção do ano retrasado. Assim, fazia quase dois anos que seu irmão não desgrudava do modelo de expressivos orbes azuis.
Estivera presente no dia em que havia acontecido. Fora testemunha de como os olhos do mais velho fixaram-se no corpo de Deidara, enquanto este se apresentava, vestindo uma de suas criações. Naquela noite, Sasuke retornou sozinho para casa em um táxi, enquanto Itachi tratava de assegurar sua exclusividade no corpo do modelo.
- Não dê atenção a ele, Deidara. Meu irmãozinho está frustrado porque queria vagabundear sozinho.
Sasuke olhou atravessado para Itachi e, sem poder se conter, rechaçou:
- Eu não preciso de babá. Vivi muito bem até hoje sem sua escolta.
Itachi sequer lhe dispensou um olhar ao replicar:
- Falou bem: Até hoje. Enquanto eu não me sentir com vontade, terá a minha companhia toda vez que colocar os pés pra fora de casa.
Sasuke respirou aborrecido e retorquiu:
- Acidentes acontecem.
- Acontecem, mas eles parecem estar rondando muito próximo de você ultimamente.
- Acidentes? – Deidara se intrometeu, curioso. – Seu irmão se envolveu em alguma merda?
O mais novo lançou um olhar enfezado para o loiro e negou:
- Não me envolvi em nada. Itachi é paranóico.
- Eu não sou paranóico. – o moreno mais velho contradisse. – Sou precavido. E não adianta reclamar e xingar. Minha decisão é final.
Dando leves puxões na manga da jaqueta escura que o namorado vestia, Deidara pediu:
- Vamos, me conte o que ele aprontou pra merecer segurar vela.
Itachi sorriu enviesado para o caçula, ao ver a insatisfação em seu semblante. Em seguida, começou a detalhar os recentes ocorridos envolvendo Sasuke. O mais novo diminuiu os passos, querendo, pelo menos, ser poupado da humilhação e vergonha de escutar o irmão mais velho reafirmando o quão neurótico era.
Sasuke esperava que Itachi se distraísse em sua conversa com o namorado, pois aproveitaria para escapar daquela situação.
Com as mãos firmemente enfiadas nos bolsos da calça cargo preta que usava, Sasuke fitava com a expressão contrariada os dois homens mais à frente, chegando à conclusão que Itachi podia ser extremamente irritante – tanto quanto Deidara – quando começava com aqueles sintomas de “vizinha fofoqueira”.
Como alguém sério e centrado conseguia ser tão pedante? – pensou, ouvindo o irmão contar sobre o incêndio na danceteria e de como ele – Sasuke – havia “perdido a cor” ao ver a notícia.
Não havia ficado pálido, de jeito nenhum, apenas impressionado. Itachi desconhecia o que verdadeiramente sucedera na noite do incêndio; não sabia sobre seu encontro com o misterioso garoto que o convidara a saltar para a morte e depois se comprometeu a protegê-lo.
Mas… Protegê-lo de quê?
Dos acidentes? Ou de si mesmo?
Se Itachi descobrisse, o chamaria de louco ou informaria a polícia sobre atentados e um loiro que estaria perseguindo seu irmãozinho. Sasuke não queria isso, pois almejava reencontrar o garoto de estranhas cicatrizes nas faces e que chamara tanto a sua atenção.
- O que está acontecendo aqui? – o moreno escutou uma voz masculina e confusa indagar.
- Eu não sei. Estavam funcionando bem a um segundo atrás.
Sasuke virou o rosto, enquanto continuava a caminhar, para ver do que se tratava a comoção e notou dois funcionários de uma loja de eletroeletrônicos rodeando alguns aparelhos de LCD que estavam fora do ar.
- Idiotas. – Sasuke murmurou, enfadonho, continuando seu caminho.
Itachi e Deidara já estavam bem adiantados e isso fez com que o jovem sorrisse levemente. Era o momento de sumir e aproveitar seu dia sozinho, como gostava de fazer.
Entretanto, seu corpo ficou tenso e seus olhos se arregalaram ao chegar a sua audição o ruído. Seus passos cessaram imediatamente e seu coração parecia ter parado de bater. O cenário era diferente, mas a situação semelhante demais.
Voltou o rosto na direção do som, dando-se com uma vitrine repleta dos mais diferentes aparelhos televisivos. Era de lá que vinha o ruído. Todas as televisões, sem exceções, encontravam-se fora do ar. As telas dos modernos e sofisticados utensílios exibiam apenas chuviscos raivosos e uma estática oscilante.
Sasuke virou o corpo completamente e se aproximou da vitrine, desconfiado. Tentava se convencer que aquilo não era nada e que estava, mais uma vez, impressionado à toa. Porém, a apreensão se instalara dentro de si e se enraizara firmemente em seu âmago, enquanto inutilmente repetia a si mesmo que tudo não passava de uma bizarra coincidência.
Seu rosto se contorceu, demonstrando o incômodo conforme o chiado se intensificava.
- Que diabos é isso? — um dos atendentes daquela loja, reclamou.
- Takahara, essas televisões não estavam no mudo?
Sasuke reparou que em todas as lojas do mesmo seguimento, ao seu redor, acontecia o mesmo. Os funcionários tentavam compreender o que interferia na reprodução das imagens.
- Abaixe o volume dessa coisa! – uma mulher, na loja, exigiu irritada com o ruído que só aumentava.
- Estou tentando. – o atendente disse confuso, enquanto buscava inutilmente, acionar o mudo, ou simplesmente, diminuir a altura do som. – Não estou conseguindo.
- Então desligue essas drogas! – a mesma mulher demandou.
Sasuke levou as mãos aos ouvidos, querendo bloquear o chiado que se tornara agudo e insuportável. Sua mente persistia em lhe mostrar o lado racional das coisas, mas sua percepção e o seu coração, diziam para correr dali.
- Sasuke! Venha, vamos sair de perto desse barulho horrível. – seu irmão colocou a mão em seu ombro, fazendo com que percebesse que este havia voltado para junto de si.
Olhou-o atribulado, fazendo com que, tanto Itachi quanto Deidara, o fitassem com estranhamento.
- Tá tudo bem contigo, Sas? Parece que viu um fantasma, un.
Não conseguia ouvir o que Deidara havia falado. O ruído histérico vindo dos televisores não lhe permitia e o mesmo era agravado pelo eco que os corredores do shopping proporcionavam.
Sem se mover de onde estava e atordoado pelo barulho, seus olhos captaram a figura que se encontrava parada mais adiante no corredor, muito atrás de Deidara e Itachi. Era o garoto loiro que olhava diretamente para si, sorrindo, enquanto pessoas iam e vinham ao seu redor, naquela passagem.
Sem vacilar, Sasuke destapou os ouvidos e empurrou Deidara e Itachi para os lados, passando bruscamente entre eles.
Determinadamente, adiantou-se até o garoto. Não tinha por que se apressar, pois via que este o esperava. Entretanto, Sasuke sentia aquela urgência em chegar até o outro o quanto antes.
- Como vai, Sasuke? – ele o cumprimentou, sorridente.
Estranha e repentinamente, todo o ruído se findou. Parado a frente do loiro, Sasuke demonstrou-se surpreso e atreveu-se a vagar os orbes escuros à sua volta, confirmando aquilo que imaginara: todos os aparelhos haviam voltado a funcionar normalmente, exibindo imagens nítidas e vívidas de entretenimento para chamar a atenção de possíveis compradores. Tanto os vendedores, quanto os clientes e, até mesmo as pessoas que estavam por perto, mostraram alívio pelo súbito silêncio.
Admirado, Sasuke tornou a fitar o loiro, assim que percebeu este pegar em sua mão.
- Vamos!
O moreno observou, por um segundo, a mão do garoto na sua. A forma como os dedos dele entrelaçaram-se aos seus, criou um contraste da pele levemente bronzeada com a sua muito pálida. Sentiu o calor que provinha do loiro se alastrar por seu corpo inteiro, ganhando maior intensidade em seu peito.
Ele o puxou, motivando-o a acompanhá-lo. E, sem ser capaz de negar, o moreno assim o fez.
- Sasuke! – escutou o irmão chamá-lo.
Isso só fez com que o loiro apertasse com mais firmeza a sua mão e começasse a correr junto consigo.
- Sas, espera aí! – gritou Deidara.
Sasuke olhou brevemente para trás, enquanto era praticamente arrastado pelo loiro em meio ao shopping. Confirmou que Itachi e o namorado vinham em seu encalço.
- Aquele é algum parente seu? – o garoto perguntou-lhe, sem parar de puxá-lo.
- Meu irmão mais velho. – o moreno respondeu.
- Vocês se parecem, eu acho. — O loiro riu e comentou, dando uma olhadela para as vestimentas do outro jovem: — Quer dizer, tirando esse seu estilo dark, ‘ttebayo!
O comentário fez com que Sasuke franzisse o cenho num misto de indignação e petulância.
- Algum problema com o meu estilo? – questionou, demonstrando sua insatisfação na entonação de sua voz.
Desciam as escadas rolantes, sem esperar que as mesmas os levassem para o outro andar. Sem pedir desculpas, ultrapassavam as pessoas que estavam em seu caminho. Sasuke pensou que o garoto não lhe responderia, mas quando chegavam correndo no piso inferior, ele deu de ombros e confessou:
- Nenhum.
Sasuke finalmente parou para pensar o porquê de estar permitindo que aquele loiro o puxasse durante todo caminho para a saída do shopping. Tinha justificativas. A primeira: era por sentir-se confortável tendo a mão do garoto na sua. A segunda: se dava pela vontade de continuar na companhia dele.
Ao saírem pelas portas de vidro que se abriram automaticamente para que passassem, correram por mais uns bons passos, se distanciando do prédio. Pararam no estacionamento, perto de um dos canteiros de flores do local. O moreno notou que, mesmo tendo cessado a fuga, o loiro manteve suas mãos conectadas. O ato lhe pareceu natural, quase como se aquela mão pertencesse a dele. Ele não o encarava, mantinha os olhos azuis distantes, como se procurasse algo que havia deixado para trás, dentro do shopping.
- Você mora aqui por perto? – ele quis saber, num timbre casual.
Sasuke não se importava com os motivos dele estar lhe fazendo tal pergunta. Concentrava-se apenas em contemplar o semblante do loiro e no calor da mão dele na sua. À sua mente veio a curiosidade de saber como ele conseguira aquelas cicatrizes nas bochechas. As marcas eram escuras e podia quase garantir que eram simétricas: longas linhas que riscavam a pele levemente bronzeada. No entanto, não o deixavam feio ou esquisito, muito pelo contrário, elas se mostravam para si, como um adendo exótico a beleza natural do garoto.
- Quatro quadras daqui. – respondeu automaticamente.
- Mora com seus pais? – o loiro continuou, como se quisesse saber mais sobre sua vida.
- Só com meu irmão e você?
Nesse momento se recordou de como o outro sempre se esquivava da maior parte do que lhe perguntava. Mas se achava no direito de saber sobre ele também, já que respondia exatamente o que o loiro queria. Para sua surpresa, ele lhe replicou, sem desviar o assunto.
- Eu moro com meu pai e os meus avós.
Internamente, ficou satisfeito por saber que aquele garoto era real. Dizia ele que morava com a família, mas ficou intrigado pela omissão de um familiar, por isso, se viu indagando em seguida:
- E a sua mãe?
- E seus pais? – o loiro rebateu.
Foi abatido pela forma como ele evadira sua indagação. Começava a perceber que ele parecia fazer isso sempre que não desejava que soubesse de alguma coisa. A mãe seria um assunto proibido ou o loiro tinha algum problema em relação à ela? Não importava tanto assim. Acabou deixando o tópico de lado e retrucando ao que o outro queria saber.
- Meus pais morreram num acidente.
Não costumava falar sobre seus pais, ou sobre como eles haviam morrido, para desconhecidos ou pessoas que conhecera há pouco tempo. A morte deles continuava sendo um assunto delicado para si, mas passara a não demonstrar tanto, fazendo com que todos ignorassem o sentimento que ainda o corroia por dentro. Como se pudesse pressentir tudo isso, o garoto desviou o olhar do shopping e o encarou.
- Sinto muito por você. – ele disse, sem qualquer comiseração. Sua voz se impunha em um timbre ameno, mas sincero, como se compreendesse o que sentia. — Por isso que é assim?
Preso ao azul dos olhos dele, Sasuke questionou:
- Assim como?
- Vazio. – o loiro retorquiu de pronto.
Seus olhos escuros se estreitaram e, insatisfeito pela acusação, desvencilhou sua mão da dele, dando um passo para trás. No fundo, se arrependeu assim que colocou um fim ao contato que o outro mantinha consigo, mas sustentou a indiferença. Os julgamentos prepotentes do loiro lhe irritaram, sem saber por quê. Qualquer outra pessoa que lhe tivesse dito isso, ele com certeza a ignoraria ou replicaria de maneira fria. Mas havia algo muito diferente no jovem a sua frente. Algo que, às vezes, parecia ser uma ameaça. E ele sabia o motivo: qualquer outro estaria dizendo aquelas palavras de modo leviano, assumindo coisas a seu respeito; ele – o loiro – falava com conhecimento de causa, carregava uma convicção inabalável em sua voz… Ele afirmava porque via dentro de seus olhos a verdade.
- Quem é você? – Sasuke sibilou.
- Faz diferença? – ele lhe deu de ombros, sequer incomodado com sua reação.
- Faz quando você parece estar me perseguindo e nunca responde direito ao que eu pergunto! – o moreno explodiu, desviando a sua atenção, por um momento, ao escutar seu nome ser chamado. Viu o irmão e Deidara que finalmente haviam deixado o shopping e vinham ao seu encontro, porém, isso não o fez recuar em sua conversa. Voltando seus orbes ônix para o loiro, continuou: — E tem os malditos chiados e interferências que sempre surgem quando você aparece.
Um sorriso brotou nos lábios do garoto e um novo brilho surgiu nas esferas azuis.
- Então, começou a perceber.
Sasuke o fitou desdenhoso e garantiu:
- Assim como percebi que me livrei de dois acidentes desde que você apareceu.
- Três. – o loiro prontamente o corrigiu.
- Três? – Sasuke inquiriu confuso, franzindo o cenho para o garoto.
Como resposta, o loiro apenas se virou e apontou para o shopping. Nesse mesmo instante, — em que Sasuke desviou o olhar para fitar a construção — uma forte explosão abalou a estrutura do prédio.
Itachi e Deidara, que estavam bem mais próximos, se assustaram e se viraram a tempo de ver parte das paredes envidraçadas do segundo piso se espatifarem.
Sasuke, por sua vez, ficou embasbacado e tenso, ante ao que presenciava. Seu sangue parecia ter se esvaído de seu corpo com a ciência de que havia sido salvo de mais uma tragédia.
E graças ao garoto.
Porém, quando conseguiu retirar os olhos da cena diante de si, o loiro simplesmente, não estava mais lá.
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Continua...
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