Um grasnar agudo de um corvo e o farfalhar na copa dos velhos carvalhos que circundavam o local fez Vergil se virar por reflexo, um instinto involuntário. Ele olhou com frieza analítica para a escuridão que ali se instalara com o despontar da noite, as árvores projetavam sombras de aspecto medonho e o vento trazia a névoa úmida e quase translúcida que flutuava pelo gramado. Havia algo pesado e enfadonho no ambiente que o tornara rarefeito, desagradável e hostil. Conforme adentrava o limite do terreno abandonado que supostamente seria ruínas de uma construção antiga que não pertencia ao local, como se duas realidades distintas se chocassem, percebeu que ultrapassara um campo espectral que ondulou no ar ao recebê-lo criando deformações que respondiam ao menor estímulo. Elas giraram em espiral e, em seguida, formaram ondas que cresciam a medida que eram agitadas.

Estava frio e devido a baixa temperatura, tudo ao redor parecia mais melancólico. O céu carregado de nuvens cinzentas que ostentavam uma visão fantasmagórica e gélida, proporcionara uma sensação de calma que, independente das circunstâncias que o trouxera, agradava o mestiço. Ao mesmo tempo também lhe transmitia o amargo sabor da solidão, no qual prontamente expurgou de sua mente. Não permitiria que sentimentos como esse lhe perturbassem, tinha que concentrar no que importava. Vergil com destreza tocou na oscilação deforme que tremeu ao mero contato, imitou o gesto anterior, porém dessa vez usou as duas mãos. Fincou os dedos rígidos nas duas pontas, puxando-as em direções opostas com força suficiente para partir ao meio um suporte de madeira sem esforço. A deformidade abriu-se em um circular e radiante portal dimensional, embora já tenha tido oportunidades de ver muitos parecidos, nunca até o momento vira um como o que descobrira. Ele atravessou a mão esquerda que portava Excalibur para dentro do portal, ocasionando uma reação da espada. Estreitando os olhos em cautela, penetrou a abertura que permaneceu intacta apesar da invasão, causando unicamente uma leve oscilação.

Vergil estudou a nova localidade: a neblina ainda permeava o espaço em meio a penumbra, no total dez lapides compunha o cemitério improvisado e as ruínas mais visíveis e de fácil identificação mostravam uma espécie de capela. Em passos firmes, o mestiço aproximou-se das várias lápides devastadas pelo tempo. Uma destacava-se por estar em primeiro plano enquanto os demais estrategicamente posicionados atrás dela. Entretanto, diferente das outras a lapide principal estava violada, um pequeno buraco recentemente escavado onde deveria conter os restos mortais de uma pessoa. Sentiu-se tentado a averiguar de quem era o túmulo, ainda que a curiosidade não fizesse sentido e que não se importava de fato, não podia deixar de verificar nenhuma anormalidade, pois nunca saberia o que escondia por trás daquilo. Checou com precisão, dedilhando o formato das escrituras ali gravadas, sentindo cada letra formar um único nome que ecoou em sua mente: Arya. Para garantir que não se enganara, novamente deslizou pelas severamente desgastadas letras e não tinha como duvidar; era Arya. A misteriosa mulher do qual Diva era reencarnação.

Vergil levantou-se em um misto de inquietação contida e seriedade inabalável, caminhou para dentro do que sobrou da igreja e o pouco que a estrutura ainda suportava de pé. A porta rangeu audivelmente e o assoalho estalou com o novo peso. O teto em pedaços facilitava muito a iluminação ainda que fosse insuficiente para um ser humano conseguir visualizar bem seu entorno, para o mestiço não tinha tal problema. Seus olhos adaptaram-se de modo impecável as trevas presentes. A resplandecente e cálida luz prateada repousava sobre uma estátua que se encontrava no centro, entre bancos velhos e flores. A água límpida escorria com delicadeza pelos contornos da silhueta feminina e se espalhava nos intervalos entre pisos. O tempo tinha sido cruel com a escultura, mas não tirou toda sua beleza e graça. A mulher retratada estava presa por emaranhados de galhos e cipós todos já dando suas respectivas flores, seu corpo inclinado levemente para trás e um semblante sereno e dorminhoco no rosto de traços delicados.

Algo dourado e prateado destacou-se na estátua: um punhal profundamente encravado no peito dela. Sem hesitar, Vergil marchou de encontro a ela no intuito de pôr as mãos no artefato. Ao sentir uma descarga energizada atingi-lo com potência capaz de transformar um ser humano em pedaços, Vergil retrocedeu ainda determinado a pegar o objeto. Não seria um ataque fraco que o impediria de alcançar seu objetivo, se for necessário colocaria tudo à baixo. Ele olhou para o rosto da estátua, lembrando-se da própria Diva. A semelhança entre uma encarnação e outra era impressionante. Fortes e violentas ondas de eletricidade se reuniram e atacaram a mão do mestiço na vã tentativa de retardá-lo. Vergil segurou o punho do artefato e o retirou no instante que um turbilhão abrupto de emoções confusas lhe sufocaram, ele recuou respirando fundo. A vertigem repentina e inexplicável nublou seus pensamentos e ele pôde compreender o que acontecia, estava certo em querer vigiar tudo de perto. Diva precisava de ajuda e seu instinto voraz e fervoroso lhe dizia para encontrá-lo o quanto antes. Vergil seguiu para a porta e parou. Uma intensa luz era emitida pela estátua, poderosa bastante para cegar quem estivesse ali. Cobrindo os olhos, o mestiço sentiu o calor vigoroso da luz e aos poucos sendo engolido por ela.


***
Say
Fale
Where is my shame,
Onde está minha vergonha,
When I call your name?
Quando eu chamo seu nome?

Despertei do sono induzido, ainda sentindo os efeitos do forte sedativo que utilizaram em mim. Sonolenta, senti minha garganta seca e dolorida como se tivesse gritado muito até perder o fôlego e a voz. Mesmo a simples de deglutir causava incomodo. Abri meus olhos lentamente para ajustá-los a fraca iluminação. Uma lâmpada pendente sobre minha cabeça piscava freneticamente dificultando mais minha percepção, de maneira que não conseguia ver absolutamente nada. Apertei os olhos e forcei-os a enxergar além dos vultos sem forma e da escuridão inacabável. Minha cabeça porejava intensamente de modo que não conseguia raciocinar direito, tampouco assimilar a corrente incontrolável de pensamentos que, ferozmente se desenrolavam, à medida que percebi onde estava. Havia anexos em meus pulsos que privavam-me da liberdade, elas eram firmes e pesadas demais para tentar a sorte na base da força bruta. E também não queria apelar e acabar usando habilidades psíquicas indiscriminadamente, os riscos seriam maiores ao fazê-lo que possivelmente teria ali, no desconhecido, aparentemente, porão. Ao fundo uma música melancolicamente sugestiva era tocada, o som propagando-se por todo espaço do local.


So, please don't set me free
Então, por favor não me liberte
I'm as heavy as can be
Eu estou tão pesada quanto posso ser
I will do you harm
Vou te fazer mal

A luz era morna e ofuscante para meus olhos sensíveis, obrigando-me a piscar contínuas vezes para aplacar o ardor ocasionado por ela. O forte e enjoativo aroma de éter permeava pelo ar, lembrava-me vagamente hospitais. Movi minhas pernas para fazer o sangue circular, ainda mais devido ao imenso peso nelas, como se fossem feitas de chumbo. Aquele breve movimento produziu imensa dor. Engolindo a ânsia de gritar, respirei fundo, fazendo o ar entrar queimando em meus pulmões. Sem escolha e totalmente incapacitada, aguardei que passasse alguém para me esclarecer a razão de estar ali, embora soubesse que as respostas não seriam fáceis de adquirir. Estudei atentamente o cenário a minha volta — com o pouco de luz: as cores predominantes variavam de branco a verde claro, havia muitos aparelhos eletrônicos, pude reconhecer dois ou três deles que pareciam com os de hospitais. Para meu desgosto, reparei que fios prendiam-se em meus braços. A sensação era de que seria cobaia de uma experiência bizarra. A constatação disso fez meu sangue congelar.


I will break my arm
Vou quebrar meu braço
I am a victim of your charms
Eu sou uma vítima de seus encantos

Torci meus braços para gerar atrito e, com um pouco de sorte, desprender-me. Em meio a exaustão e a confusão mental, resgatei a última imagem gravada pela minha mente antes de apagar. Eu estudava na biblioteca, adormeci e quando acordei tinha sido atacada. Ruídos de passos interromperam minha concentração.


I want to be dead
Eu quero morrer
When I'm in bed
Quando estou na cama
I can be so mean
Eu posso ser tão maldosa

— Oh, acordada — gesticulou em falsa surpresa, um fino sorriso acentuava seu rosto. Atrás dele outra figura conhecida se revelou. Noctis carregava na mão uma taça com conteúdo escuro e Kyle mantinha certa distância. A adrenalina corria pelas minhas veias feito ácido, descarregou uma poderosa onda de ferocidade pelo meu corpo. Meu instinto gritava violentamente para matá-lo. O máximo que ganhei com a explosão de fúria foram mais dores.



You can beat me
Você não pode me vencer
I would like to shame you
Eu gostaria de te envergonhar

— Não fique tão agitada, vai acabar se machucando — murmurou, sentando em uma cadeira na minha frente. — Espero que não leve a mal, não tenho nada pessoal contra você...

— Vá a merda! — vociferei estridentes, lutando com mais empenho para soltar-me.


I would like to blame you
Eu gostaria de te culpar
Just because of my love to you
Só por causa do meu amor por você

— Isso foi rude. Mas não esperava outra coisa. Sei que o que fiz não é certo... Só que existe algo dentro de mim, um sentimento estranho no qual não posso ignorar, que diz para te destruir. Só desse maneira me sentirei em paz.


And
E
Love itself is just as innocent as roses in May
Amor em si é tão inocente como rosas em Maio
I know nothing can drive it away
Sei que nada pode levar isso embora
Though
Embora

Fui brevemente tomada pela surpresa ao escutar suas palavras.

— Realmente sinto muito, mas tem que ser assim — proferiu com semblante duro. Depositando a taça em uma mesinha, ele remexeu os objetos nela e retirou uma seringa e a encheu com um líquido incolor.


Love itself is just as brief as a candle in the wind
Amor em si é tão breve como uma vela no vento
But it's greedy just like sin
Mas é ganancioso assim como pecado

— Não se mexa, ou irá doer. — pediu com ternura, ele acariciou suavemente meu rosto e em raiva e repulsa balançava-o de um lado para o outro, usando o pouco de força que possuía para escapar daquela investida. Talvez eu tivesse atiçado sua fúria ao ferir seu orgulho, mas tudo que ele fez fora sorrir em visível deboche.


Alone but sane
Sozinha, mas sã
I am a love suicide
Eu sou um amor suicida

— Vejo que ainda vai ser bem difícil — desesperada, observei ele levar a seringa até meu braço a aplicar o conteúdo em mim.

'Cause
Porque
Love itself is just as brief as a candle in the wind
Amor em si é tão breve como uma vela no vento
It is pure white just like sin
É o puro branco assim como o pecado

— Não! Não! — balbuciei sentido a sensação de sonolência afogar e entorpecer minha mente. Queria manter-me consciente, ficar alerta e não ceder, porém não tinha mais energia.


Alone but sane
Sozinha, mas sã
I am a love suicide
Eu sou um amor suicida


Love itself is just as innocent as roses in May
Amor em si é tão inocente como rosas em Maio
It is pure white just like sin
É puro branco apenas como o pecado

"Do pó ao pó... Pó ao pó”.

Ouvi uma série de vozes cantarolarem pausadamente. Ainda deveria estar em estado de dormência devido ao tranquilizante ainda atuar no meu organismo, tudo por que as imagens ao meu redor nada mais eram que manchas escuras e não possuíam um formato definido. Nenhum membro respondia aos comandos enviados pelo meu cérebro. O ar quente e pesado cheirava a terra molhada e mato, havia também um peculiar e pungente odor de madeira podre. Meus movimentos estavam lentos, quase restringidos pela falta de espaço. E com um estalo, fui de semi-inconsciente a abismada, em pura histeria.

A sensação de aperto e a crise de claustrofobia ativaram instantaneamente o pânico: meus choramingos se transformaram em gritos estridentes, comecei a me debater e minha mente operava no automático. Tudo que queria era encontrar uma forma para sair dali. Como puderam me enterrar viva?

Balancei a cabeça e repensei sobre minhas ações, ser tão irracional em uma situação que exigia calma era completamente estúpido e reduziria muito minhas chances de sobreviver. Precisava ter sangue frio para enfrentar minha atual condição sem piorá-la. O medo faria com que a reserva de ar diminuísse, então teria que gastá-la com sabedoria. Embora meu receio estivesse arruinando minha máscara de tranquilidade e minha sendo sanidade posta a prova, permiti que meu corpo travado em tensão se desligasse, por fim, relaxando ligeiramente forçado. Avaliei o minúsculo cubículo, sua estrutura velha e corroída dava a impressão de que não suportaria muito tempo. Respirei fundo, procurando uma conclusão lógica que me livrasse de ser soterrada. Tinha que levar em consideração que dependendo do quanto permaneci desacordada, o buraco no qual fui enterrada não teria muita profundidade, mais precisamente seria uma cova rasa.

Levei os braços ao rosto, protegendo-os e chutei a tampa do caixão. Se caso a terra vier a ceder sobre mim, evitaria o sufocamento imediato. Em meio aos barulhos causados pelos incontáveis chutes, um ronco seguido de um fraco estalido chamou minha atenção.

Usando minha energia restante continuei naquilo, sem parar até meu pé abrir um rombo na madeira. O lodo úmido invadiu pela abertura e mais insistentemente cutuquei o estrago, sentindo mais terra se acumular naquele ponto. Mexi os pés espalhando-a pelas laterais do caixão, assim toda vez que descia eu repetia o processo. Adquirindo um pouco mais de coragem, empurrei a tampa e quem sabe assim deslocá-la, mas ela não se moveu. O receio assumiu controle da minha razão, e tudo que conseguia pensar era em não morrer. No entanto, sabia que ficar ansiosa demais faria meus batimentos cardíacos se acelerarem e gastaria mais oxigênio. E não tinha muito para desfrutar.

Fechei os olhos e concentrei, focalizei meu alvo e — tendo conhecimento que utilizar poderes psíquicos acionaria o selo — com telecinesia chacoalhei a tampa. Para minha surpresa com uma forte explosão psônica pôs tudo pelos ares. Na bagunça de lama e fragmentos do que sobrou do caixão, arrastei-me para fora, para minha liberdade.

Chovia bastante, então não tive muita dificuldade para escapar.

Apesar da dor acarretada pelo selo, do cansaço e o frio, existia algo que transcendia tudo isso: fúria. E estava preparada para buscar minha vingança.