Between Dimensions
33 The Unwanted Girl!
A chuva incessante e insensível ganhara mais poder, caindo arrogantemente sobre mim com seu frio intenso que devorava minha razão e servia de estímulo para prosseguir. As sombras macabras que a penumbra formava não causavam qualquer emoção de minha parte, sendo somente figuras oscilantes e deforme. Meu instinto guiava e impulsionava cada membro do meu corpo, de modo débil e lento. Quase semelhante a um decrépito cadáver. O chão molhado e escorregadio, apesar do grau maior de dificuldade no quesito locomoção, não se tornou um obstáculo. Em meu interior queimava com furor uma chama de fúria que seria impossível controlar, tampouco administrar. Ela era uma fonte inesgotável de combustível que, independente do quão acabada estava, não se aplacaria. Todos os meus pensamentos fixos a um único objetivo. Logicamente uma atitude dessas não era a mais sensata, nem a mais segura tendo em vista meu estado, no entanto, indo contra meus princípios — no momento estou pouco interessada em ser politicamente correta com alguém que me enterrou viva! — e pronta para realizar as mais terríveis formas de acertar as contas. Ou ao menos causar o maior dano possível. O tumulto interno, a bagunça apocalíptica arrasando minha mente, a loucura enraizada dentro de cada neurônio, se manifestava em meus movimentos e na feracidade das minhas vontades. O ar gélido parecia insuficiente, no processo de inspiração e respiração, não enchendo completamente meus pulmões. A oxigenação entrava e ia, não suprindo a necessidade exigida.
Não sabia por onde procurar, nenhuma pista ou rastro para seguir. Absolutamente nada. A verdadeira estaca zero. Mas isso não me impediria de pegar ele. Mesmo que tenha que caçá-lo nos confins do mundo. Quando achava que cheguei ao limite, percebi que poderia ir muito além dele. O selo ativado em potência máxima, não tinha mais volta, as já dores corroíam meu cérebro. Uma latejante e insuportável agonia se instalando, destruindo e violando os resquícios de sanidade que pude preservar. Agora usaria meus poderes, bem ciente das consequências e as ignorando. O gosto enferrujado invadiu minha boca assim que notei que mordia rudemente meu lábio inferior. Ergui a mão, acariciando a brisa que, conforme delicadamente tocava, em resposta, surgiam diminutas fagulhas luminosas em tons dourados. Pequenas e fracas representando o pouco da minha aura que remanescia no ambiente. Se tivesse sorte acharia o local exato onde elas começavam. O ato em si gerou uma lancinante fisgada. Cerrei os dentes controlando a ânsia de gritar. Não emiti som algum.
Testando o pouco que restara de energia, estabeleci um ritmo moderado, arriscando correr no lamaçal e plantas camufladas. Durante essa empreitada, feri meus pés desprotegidos e gastei minha reserva de força. Pisei em falso em um emaranhado de terra e raízes, jogando uma quantidade razoável de lama um sobre meu rosto. Cogitei simplesmente esquecer o que pretendia fazer, permanecendo ali, parada e digerindo o fato de estar pateticamente sem condições. O cheiro de terra úmida despertava lembranças, algumas da minha infância e outras borradas, nem conseguia distingui-las. Vagamente, com fervorosa, meus pensamentos foram para Vergil. Fiquei angustiada com a possibilidade de nunca mais vê-lo, nunca estar com ele ou observá-lo. Apertei entre meus dedos a lama, esta escorria por eles. Contive a ansiedade, lutando contra o cansaço extremo e o frio que obrigava-me a pressionar os braços junto ao peito, levantei sem equilíbrio.
A chuva limpava boa parte da sujeira que me cobria, eu agradeci mentalmente por isso. A escuridão parecia uma companheira antiga e íntima, não ameaçadora. Estava tranquila, sobretudo, voraz e impiedosa em relação a meu atual foco. Vislumbrei a imagem do rosto de Noctis, o sorriso diabólico, o desprezo. Cada centímetro de meu corpo, clamando com todo empenho, para terminar de uma vez por todas aquele jogo macabro.
Com as pernas cambaleantes, deslizei cuidadosamente em direção a uma estrada. Talvez uma via pouco usada. Certamente garantiria que nunca encontrassem a cova na qual fui abandonada. Havia marcas de pneu que desciam para a estrada, deixando manchas no asfalto. Como se quisessem fugir de algo. Respirei fundo, a essa altura o selo estaria visível em minha testa como uma exótica tatuagem. Se eu ainda tinha hesitação no que faria, ela não existia mais. Forcei meus olhos a ver através das sombras, sentindo o rasto de aura se apagar paulatinamente. Adquiri velocidade à medida que concentrava-me nela, correndo com rapidez que superava proezas humanas. Minhas pernas mal encostavam-se ao chão, quase como se flutuasse. Ao localizar um ponto onde casas e estabelecimentos eram mais evidentes, resolvi saltar de telhados em telhado. Apesar de nunca tê-lo feito antes na minha vida, a sensação de liberdade vibrante e adrenalina eram incrivelmente agradáveis. Sorri satisfeita ao, finalmente, achar o alvo. Não precisou que fizesse esforço, a tranca da porta estava semi travada, o que não foi problema para destrancar. Sem perder tempo adentrei no recinto, tentando identificar com a precária iluminação que lugar era aquele. Prateleiras com objetos antigos dispostos, organizadas uma do lado da outra, alguns outros expostos como obras de um museu. Então reconheci a loja de antiguidade. Myu levou-me aqui certas ocasiões para explorar locais que, segundo ela, valia a pena. Peguei um par de adagas pendentes na parede e sai. Habilmente contornei caminho pulando para dentro da escuridão, deixando-a me envolver como um manto protetor, misturando-me a ela.
Um som retumbante de um trovão soou alto, encobrindo qualquer ruído provocado pela minha pressa em correr entre os telhados. Não tinha tempo para preocupar-me com detalhes irrelevantes quando se tratava de um assunto como aquele. Meu instinto assassino conduzia-me, lembrando-me do que deveria fazer e jamais falhar. Próximo uma casa aparentemente abandonada, grande e destruída pelos anos. Ali, pelo que pude sentir com o último fulgor do rastro de aura, ele estava. Repassei o esquema que construí enquanto aproximava-me do local. Nada muito elaborado, não tinha cabeça para tal. Através da janela pude ter uma visão — não muito objetiva — de dentro, uma pequena fonte de luz — talvez uma vela — presente fornecia uma boa iluminação. Ajustei meus olhos, acostumando-os com o novo ambiente, e entrei pela janela. O único indício de que passara ali seria a vidraça entreaberta, que prontamente fechei. Silenciosa e com a sutileza de uma verdadeira assassina — a lá Assassin’s Creed —, percorri os longos corredores tendo cuidado para não denunciar minha presença antes de iniciar o ataque. Ouvi ruídos que indicavam alguém estar por perto, então esperei. Kyle andava na direção em que me abrigava — totalmente ocultada—, meio tenso, ainda assim, inconsciente de minha presença. Agarrei-o e coloquei a mão em sua boca para evitar que ele gritasse. Uma mão brandindo o punhal, este que mantinha perigosamente preso a garganta dele, exatamente onde — o pouco que conseguia recordar das aulas de anatomia — ficava a artéria carótida.
— Meu Deus! — gemeu, assustado.
— Não, é apenas eu. — sorri sarcasticamente. — Se não quer ter um destino ruim é bom que me diga: cadê ele?
— Ah... No saguão! — afirmou sem pestanejar. — Fico feliz que esteja viva, me senti mal por tudo aquilo...
— Poupe-me desse discurso de arrependimento! — sussurrei irritada. — Você e aquele desgraçado me jogaram numa vala pra morrer igual uma indigente, seu filho da puta!
— Realmente sinto muito! — disse, por algum motivo ti sinceridade em seu olhar. Soltei-o, fazendo sinal para ele ir embora. Girei um dos punhais na mão e sorri, deleitando-me com a euforia que banhava meu corpo como uma droga vacilante. Agilmente andei para o corredor que dava a escadaria, em seguida ao saguão. Ainda escondida entre as sombras, observei meu alvo. Ele parecia indiferente, a mesma pelo qual me drogou e me enterrou. Permiti que a luz quente e dourada engolisse as adagas, dando a elas mais resistência e poder. A dor atordoante não possui mais tanta força para me deter. Noctis virou-se, inexpressivo, olhando diretamente para mim.
— Não digo que estou surpreso em te ver, mas bem impressionado por estar aqui — entoou com tédio. — Posso presumir que veio exclusivamente para me matar
— Pode-se dizer que vim acertar as contas — respondi com rigidez. O fulgor das chamas bruxuleantes das velas revelou que ele carregava uma arma, mas apesar da óbvia vantagem ele não a sacou de imediato. Aproveitei para avançar, desferindo uma série de golpes com as adagas, revezando entre tentativas de cortá-lo à chutes que passavam raspando por ele. Minhas experiências em combates corpo-a-corpo se resumiam a treinamentos árduos com Vergil que por muitas vezes me finalizava antes que conseguisse sequer tocá-lo, e ainda ficava determinada em derrubá-lo e mostrar a supremacia feminina — algo que nunca ocorreu. Vergil por natureza possuía uma paleta de habilidades superiores as minhas, nem as memórias afetadas com a amnésia as reduziram. Diante daquele desafio, duas coisas estavam em jogo: minha vingança — não levando em conta que estava muito irritada e qualquer um no meu lugar faria o mesmo — e integridade física. Noctis demonstrava ser alguém capacitado, provando ser mais difícil de atacar do que esperava.
Estudei seus movimentos calculados, procurando uma brecha na sua postura defensiva. Pisei firme no assoalho, rachando-o. Chutei as lascas da madeira nele para assim uma distração, para se proteger ele colocou o braço sobre o rosto. Num ímpeto, joguei-me contra ele, golpeando seu estômago. Noctis pegou meu braço e arremessou-me para longe. Um corte em sua camisa cinza e o resíduo de sangue gotejante fez com que eu abrisse um sorriso satisfeito. Ele tateou o ferimento, contemplando o sangue em seus dedos. Seu olhar frio se cruzou com o meu, ele deu meia volta e marchou para a escadaria. Seus passos eram calmos, lentos e altivos. A raiva fervilhou, borbulhando em meu estômago. Corri para alcançá-lo e assim que se virou na minha direção, tirando proveito do segundo que baixei a guarda, atirou em mim. O ruído da bala rompeu o ar. Não pude desviar do disparo, acertando-me em cheio. A força do impacto, obrigou-me a recuar alguns passos. A nova dor, de repente, amofinou meus sentidos. Dedilhei a lateral do meu rosto, sentindo o estrago criado pela bala: uma cavidade molhada e aberta, dolorida e grotesca. O pior: eu havia perdido o olho direito. E o mais ilógico, que quebra qualquer lei fundamental do universo: estava viva. Um tiro que destroçou o lado direito do meu rosto, um ferimento que supus ser mortal, que ninguém sobreviveria. Minha coordenação motora intacta, tal como meus reflexos e raciocínio. Eu não era humana, minha mente fez questão de lembrar. No entanto, consciente disso, ainda era inacreditável que tendo um ferimento nessa gravidade não ocasionou um efeito colateral. E, pela primeira vez desde que o conheci, vi a sombra de incredulidade atravessar seus olhos castanhos que fora substituída por repulsa.
— O que você é? — questionou, a pistola apontada pra mim. Não dei o gosto a ele de saber a resposta, pois no momento seguinte, Noctis lutava com Kyle pela posse da arma. Alheia a batalha, deixei que meu corpo exausto caísse no chão, que rangeu. O cheio enjoativo de sangue somado ao odor bolorento do local revirou meu estômago. Não soube dizer quem venceu, mas quando vi de relance Noctis imóvel caído com uma quantidade grande de sangue saindo de seu corpo, entendi o que acontecera. Kyle veio até mim, visivelmente chocado, nervoso e prestes a explodir de tensão. Ele falava comigo, e não pude acompanhá-lo, escutar suas palavras. Estava mais centrada no meu monólogo mental sobre a perda parcial de meu rosto que em alguma outra coisa. Os olhos de Kyle brilhavam sob a luz, ele aparentava um misto confuso de medo e ressentimento. Com todo cuidado, como se eu fosse uma delicada peça de porcelana, ele rasgou seu casaco criando um curativo improvisado para esconder a deformação em meu rosto.
Manchas vermelhas invadiram meu campo de visão, tremulas e inexplicavelmente inquietas. A perda de sangue, até demais para medir considerando o tamanho do buraco, deve ter confundido-me em alguma alucinação devido a falta de oxigenação adequada. Kyle gentilmente deitou minha cabeça em suas pernas, vez ou outra checando se estava bem e viva. Ele também, embora não quisesse admitir, queria uma explicação aceitável e lógica para depois de ter explodido com meu rosto, não somente respirava como pensava. O desejo de me ajudar tenha sido mais forte que a curiosidade, então ele não pronunciou uma só palavra.
Perguntei-me distraidamente se o selo ainda estaria visível a olhos desacostumados, se a marca — como uma tatuagem — em minha testa ainda exigia atenção para si. Julgando que com o uso indiscriminado de meus poderes estive perto de entrar em colapso físico e psicológico graças a extremo — um exagero meu que não poderia se repetir mais. Minhas pálpebras — mais precisamente do único lado inteiro — pesavam, um rouco gemido meu irrompeu o silêncio. De imediato expulsei a sonolência, não consentindo que ela se apoderasse de minha consciência. Kyle desajeitado com a situação fazia tudo que podia para passar palavras de consolo, pedindo para que não sentisse como se ele fosse um inimigo e que descansasse, mas meu problema não era esse. Uma aura extremamente agressiva e poderosa se aproximava dali, e era isso que me preocupava.
— Pelos deuses, Aya! — uma voz gritou. O mundo girou ao meu redor ao tentar ficar em uma posição mais confortável, Kyle arriscava ajudar-me, o esforço excessivo só gerou mais dor e tontura. Minha cabeça doía muito, uma dor atordoante, incapacitante e violenta. Era um milagre ainda estar acordada e não ter desmaiado.
— Oh! Aya! — Myu tocou minha mão em um gesto condescendente. — Você...
— Vou ficar bem — sorri.
Vi o dono da poderosa aura: Vergil. Normalmente ele não exibia seu poder desnecessariamente, certificando-se de mantê-la para si, ainda que a própria presença imponente dele já fosse uma característica básica do seu poder. Os olhos azuis celeste dele encaram-me com o brilho frio e analítico, parecia que seria capaz de decifrar os segredos mais sombrios da minha alma. Seu incômodo olhar sob mim me alertou da minha deplorável imagem.
— Não me olhe! — pedi aturdida, querendo algo que bloqueasse ou escondesse meu rosto. De repente, senti como se fosse uma aberração no circo dos horrores. — Por favor, não me olhe!
Vergil estalou em desprezo.
— Devia estar preocupada com sua vida, não com sua aparência. Bom senso e prioridades, Diva. — recriminou. Myu apertou-me contra si, aquecendo-me. Vergil pisou firme, tomando parcialmente sua forma demoníaca, sem dar tempo de recuperação, segurou Kyle pelo pescoço tirando-o do chão. Ele, comparado a Vergil, amedrontado e confuso, se assemelhava a um boneco fraco sendo castigado. Conhecendo Vergil já sabia que viria a seguir: ele com um simples toque — algo que pra ele era fácil — partiria o pescoço de Kyle. Uma nova onda de dores, surgindo de algum ponto do meu corpo que não pude identificar, deu a mim força o bastante para, cambaleante, pará-lo. Não queria ver Vergil manchar as mãos com sangue inocente. O corpo de Vergil enrijeceu e ele soltou o rapaz, o calor e a sensação de serenidade em meu interior após seu gesto parecia assegurar-me de toda certeza e confiança que depositara nele. Vergil virou-se bem a tempo de deter minha queda quando não suportei mais. A última coisa que lembro era do sussurro tranquilizador de Vergil antes de ceder a exaustão.
Fale com o autor