Between Dimensions

17 Touched By The Shadows!


Contemplei com falso interesse as acomodações designada a mim durante esse cruzeiro. Depois de recuperada não havia necessidade de permanecer na ala médica, embora tivesse que tomar remédios para anemia ferropriva — causada pela deficiência de ferro no sangue. Isso, no entanto, não seria um problema que devesse considerar num grau de seriedade elevado em comparação a valiosa missão que me integrava a David e o grupo dele, e sabia que ficaria doente só pelo fato de não estar me alimentando adequadamente desde que tudo se iniciou. Sentei na banqueta frente à linda penteadeira com três espelhos interligados, posicionados de maneira estratégica. Encarei meu reflexo descontente com que via: minha pele que sempre indiscutivelmente pálida e rosada, estava tão branca quanto papel e escuras olheiras ladeavam-no e meus cabelos desalinhados. Peguei a escova para desfazer a bagunça evidente na vegetação dourada — da próxima oportunidade incluirei de me lembrar para pintá-lo de castanho — que deveria ser minhas longas e onduladas madeixas, puxando levemente para baixar o volume. Tem vezes que me arrependia de tê-lo deixado crescer tanto, pois era um grande sacrifício arrumá-lo quando armava. Pacientemente desembaracei minha franja e vejo um desenho estranho, uma espécie de tatuagem no centro da minha testa. De tonalidade azul escuro, as linhas formavam três espirais que se distendiam por finos vasos e delicados padrões de linhas.

Larguei a escova e observei mais atenta aquela coisa estampada em meu rosto, e seu aspecto causava-me repúdio. Meu estômago revirou-se violentamente, ameaçando soltar o pouco que tinha comido naquela manhã. Ela nunca havia estado ali antes, porém agora parecia salientar sua opulência. Respirei fundo, concentrando minha mente em pensamentos relaxantes para, mais tranquila, pudesse ter uma visão mais clara da situação para escolher como agir. Não poderia ser precipitada em uma circunstância adversa. Entoando esse mantra, prossegui minha tarefa que interrompera devido ao choque. Meus olhos mantinham-se fixos no local, vendo até onde aquela marca se estendeu pelo meu rosto; se restringindo unicamente na região da testa, têmpora e olhos. Não percebi nenhuma diferença na textura da minha pele ao tocá-las, nem mesmo a temperatura fora do comum.

Com um longo suspiro resignado, guardei a escova e sai do quarto ciente de que somente uma pessoa poderia me ajudar. Passando por sinuosos corredores, notei a agitação das pessoas que transitavam de um lado para outro, distraídas demais para prestar atenção em mim. Parei frente à porta metálica, repensando o meu propósito atual para assim tomar coragem para abri-la. David parecia muito ocupado lendo um livro envelhecido — levando em conta o desgaste da capa e as folhas amareladas —, seu semblante sério e compenetrado. Havia dúzias de mais livros espalhados pela mesa e escrivaninha, além de outros objetos como canetas, arquivos, fotos e dispositivos eletrônicos de suma relevância para tudo que engloba pesquisa e comunicação. Vislumbrei algumas das papeladas esparramadas pela mesa, as que me atraíram foram às imagens das Chaves restantes a serem catalogadas: o colar do Pentágono, o punhal dourado e outro artefato que supus ser amuleto com símbolo egípcio no qual o nome não recordava. David elevou a cabeça e a carranca fechada transformou-se em serenidade e sutil surpresa, depositou o livro na mesa e impulsionou-se para trás, a cadeira deslizando de modo perceptível.

— Algum problema, Diva? — questionou afável.

— Sim... — afirmei cabisbaixa. — Sei que estou te atrapalhando, mas não posso esperar.

— Diga o que deseja — pediu paciente, abrindo um meio sorriso encorajador.

— Agora pouco, quando estava me arrumando, vi algo anormal — retirei minha franja da frente para mostrar a bizarra marca proeminente. David levantou-se para analisar de perto.

— Sabe o que pode ser? — perguntei esperançosa.

— Sem dúvida nenhuma, é um selo. E não é qualquer um, no entanto — ele franziu o cenho e apontou para pergaminhos quase ocultos na bagunça de papéis — esses são manuscritos muito antigos, muitos sobre lendas e todo tipo de coisas que se relaciona ao assunto. Bem, o que realmente quero dizer é que muitos informam sobre selos. Não é de se admirar que nem consiga usar a metade de seus poderes, mas, ainda assim, com um selo extremamente poderoso tenham capacidades fora do comum. Segundo o que pude traduzir: esse selo possui a finalidade de bloquear ou mesmo anular poderes de larga escala, muito eficiente, contudo, aparentemente não funciona por completo em você. É compreensível que tenha tantas enxaquecas e fique mais debilitada ao valer-se de tais habilidades.

— Ah! — chiei aturdida. — Está querendo dizer que essas dores de cabeça são, na realidade, efeitos desse selo para conter meus poderes...?

— Seja quem for que tenha te selado, queria garantir que nunca viesse a utilizá-los. É um método radical e eficaz.

— Nem tanto, mas é difícil de acreditar.

— E não se preocupe, a marca sumiu. — David sorriu tranquilizando-me. — Tente não pensar muito nisso, eu vou achar um jeito de rescindir esse selamento.

— Tem razão, quando mais esquentar minha cabeça com essas loucuras mais perto da insanidade eu fico. E obrigada. — dedilhei o contorno da minha testa, consternada. — Aliás, essas são as Chaves que ainda temos que recolher.

— Ah, sim. — ele pegou as fotos, rapidamente verificando-as. — Estou trabalhando na localização delas, estamos próximos do final dessa busca.

— Só tem uma coisa nisso tudo que quero saber — expus, ligeiramente mais incomodada. — Afinal, o que tem de tão importante nessas Chaves?

— Não é somente o que elas têm, mas o que elas podem fazer. — David corrigiu, adquirindo uma postura mais inflexível como um instrutor prestes para ensinar uma lição vital. — Essas Chaves são essenciais na manutenção do mundo que conhecemos. Você, mais do que qualquer outra pessoa, deveria saber, sendo a reencarnação de Arya.

— Ainda estou me acostumando com a ideia. E não me lembro da minha vida passada, já deve ter percebido isso.

— As Chaves são "portões" — prosseguiu, ignorando meu comentário. — e através deles se podem criar uma prisão.

— Prisão? — repeti em alarde. — Isso é muito confuso... Mas... Nunca pensei que pudesse ser algo tão grande assim...

— O fato é que há mais de trezentos anos, Arya selou uma entidade poderosa e terrível para impedi-lo de inundar o mundo nas trevas absolutas. E depois de tanto tempo preso, esse ser está prestes a renascer nessa era. As Chaves serviriam para prendê-lo assim como você fez. Precisamos encontra-las para salvar esse mundo e o outro, a outra dimensão.

Minha boca abriu-se num "O" de puro assombro, e instintivamente recuei alguns passos absorvendo e digerindo cada frase proferida por David. As palavras ecoavam em minha mente sem se ligarem para formar algo coerente. David colocou as mãos em meu ombro, fitando-me com cautela e convicção.

— Por isso, como já mencionei antes, preciso da sua ajuda. Somente com seus grandes poderes obter as Chaves será possível. E creio que como todos que se empenham para essa função, você não vai querer que o mundo que habitamos desapareça, não é?

— Não! — exclamei determinada. Sabendo da verdade, de repente, sinto mais motivação e uma força renovadora me preenchendo e aquecendo por dentro.

— Diva, estamos contando com você. — exprimiu, ajoelhando-se perante mim como se eu fosse alguém da nobreza e merecesse tal tratamento. — Por isso servimos os seus interesses, minha senhora. Agora se recolha aos seus aposentos e descanse um pouco.

Assenti meio atordoada.

Dei meia volta e cruzei a porta em passos largos. Durante esse tempo estive enganada em relação á David, no começo é claro, não confiava totalmente nele pela atitude sua evasiva e enigmática... Depois de saber disso, tudo se ajustava para compreender a real gravidade da nossa posição atual: o mundo está a beira de um colapso e essas Chaves são a única garantia de salvá-lo.

Nem pensei duas vezes, me atirei na cama e permaneci lá.

Eu estava suspensa em uma corda bamba, o corpo pendendo de um lado para o outro sem disposição para se estabilizar seguramente. Não existia nada ali no qual pudesse utilizar para compensar o desequilíbrio, nem podia contar com a força das minhas pernas. Previa que em algum momento, não o mais tardar possível, cederia e o abismo me engoliria sem misericórdia. Senti-me vaga, sem discernir os acontecimentos e a mente exausta e vazia. De tudo que ocorrerá nesse dia, o caos que se instalara, os efêmeros minutos que estive deitada com os olhos fixos no teto baixo do quarto, foram os mais proveitosos até agora. A carência de ferro e o cansaço psicológico extinguiram o restante de minhas forças, obrigando-me a ficar na irritante inércia.

Em parte, o conselho de David sobre dormir pareceu tentador na hora, contudo, com a mente operando a mil a ansiedade ruía à vontade por completo. O estresse consumia as fibras do meu corpo e não me ocupar com algo produtivo não ajudava em absoluto. Afundei o rosto nos travesseiros no intuito de relaxar e poder dormir um pouco, mesmo que fosse um sono superficial. Naveguei brandamente nas correntes negras do inconsciente, meu corpo se induzindo ao estado letárgico. Abri meus olhos, e a forte luminosidade me fez fecha-los. Uma fonte de luz desconhecida e que ardeu em minha retina sensível, pisquei repetidas vezes para me adaptar a ela.

Era estranho.

Captando o espaço onde estava, com certa dificuldade, pude identificar o meu quarto. Nada de diferente, nada de novo. O que me intrigou era a sensação de que algo se espreitava na infindável escuridão, apesar do foco de luz que provinha do abajur. Elas tremiam ininterruptas, prestes a se apagar inteiramente. Projetei meu corpo para frente, no entanto, algo limitou meus movimentos. Não conseguia distinguir o que tenha me inibido. A luta para me libertar pareceu que não teria fim: pequenas e finas mãos cadavéricas surgiam de vários pontos no chão e da minha cama. E, tudo fez sentido, pela primeira vez sentir que mergulhara num pesadelo. O teto descamou-se, uma camada quase invisível de tinta desaparecendo; as paredes encobertas por correntes grossas que emitiam um estridente e ensurdecedor tilintar e elas se anexavam a mim, deixando-me imobilizada e vulnerável. O pânico enraizou-se em meu sistema nervoso, tudo que minha mente processava era de que tinha que sair. Ao meu redor, para meu desgosto, não existia nada mais que a escuridão.

— Ah, é terrível a sensação de estar presas as trevas, não é? Sozinha e desesperada... — a voz anunciou ao vento, carregada de calmaria e, no meio daquele timbre suave, uma nuvem funesta de poder e ódio racional.

— Q-quem é você? — gaguejei alarmada.

— Não se recorda de mim? Anos à espera desse dia, quando nos reencontraremos e você mal se lembra de quem sou... Ah, Arya... Sua alma antiga despertar de uma crisálida, no qual a lembrança de uma memorável guerra... Uma guerra que travamos há anos, então venha comigo... — recitou cândido e duas gemas vermelhas se acendiam no breu, olhando-me friamente. — Suma nas sombras que tanto teme...

E ganhando alento, as trevas que só estiveram, ali presente, rodeando-me em silêncio, devoravam meus membros. Engolindo-os no nada. À medida que ele alastrou-se, e percebendo quão inútil meus esforços tornaram-se, resignei a esperar que ela tomasse tudo. E com uma aflição que machucava minha alma, queria que viessem me libertar. Desejava ardentemente que me alcançassem, me abraçassem para extrair a solidão que rasgava meu peito, dilacerando-o ferozmente. Um apelo atordoante para que alguém, quem quer que fosse, estendesse a mão e cortasse a escuridão que, aos poucos, me tragava para o fim inevitável. Nunca, em toda minha vida, quis tanto isso — estar com alguém. Nesse ínterim, um solavanco, não somente me salvou, como espalhou uma calorosa luz que expurgou as sombras, feito raios de sol nascendo. A mão que me içava pertencia aquele cujo poder era capaz de destruir o mal. De imediato, não enxergava meu salvador graças a iluminação ofuscante. A imagem estava borrada e o máximo que via eram cores enevoadas: branco, preto e vermelho. Recordava desses traços em meus sonhos longínquos e visões que minavam minha sanidade, o preço a pagar pela lacuna em minhas memórias de um acontecimento marcante de dois anos atrás. E um sorriso acolhedor que inundou meu coração, de uma forma que, me desconsertou. Ele palpitava contra minhas costelas, transbordando um sentimento que não pude descrever em simples palavras. Nada nesse mundo resumia com perfeição a esmagadora emoção que o contato com aquela figura e seu sorriso me transmitiam. E, no fundo do meu ser, sabia que daria minha vida por ele. Entretanto, da mesma maneira que a bonança me invadiu, o pesar e consternação me corroeram. Esfreguei meus olhos, necessitava e agoniada, para vê-lo nitidamente.

— Dante...? — indaguei num fio de voz, a infelicidade entorpecendo meus sentidos. — O que faz aqui?

— Você me chamou aqui, por isso eu vim — explicou, ternamente. — Derrotar o cara mal e salvar a mocinha, é algo que já estou acostumado, doçura.

Aquilo fora como um choque, uma injeção de adrenalina direto na veia, o frio percorreu minha espinha e, de repente, a fluidez de sua voz e a familiaridade de cada verbo que escapara de seus lábios convidativos, me preencheram de fortaleza de inerentes e íntegros sentimentos. A princípio, confortada no calor que os braços dele me proporcionavam, não vi uma razão para aquilo; Dante aparecer em meu pesadelo, mal trocamos meias palavras no último encontro. Para mim, ele não passava de um desconhecido. O jeito que ele me fitava era tão intenso que ruborizei. Dante demorou a me firmar no chão, meio contragosto, mas estabeleceu uma distância razoável entre nós.

— Afinal, por que tanto me atormenta? — interroguei consternada, mas tinha sido pronunciado em tom baixo o bastante para somente eu ouvir, era um lamento da minha alma e nela a dorzinha despontou em meu âmago. — O que quer de mim? E por que me ajuda?

— São muitas perguntas, não acha? — brincou, aproximando-se de mim.

— Agora nem acredite em minhas intenções, mas me importo com você. E em algum lugar aqui — apontou para meu coração. — sabe que estou sendo sincero. Tudo que peço é que me espere, quero poder conversar cara a cara com você e esclarecer as coisas.

Dante tem o poder de me deixar em situações extremamente sem nexo e perturbadoras. Um especialista em mexer comigo e a barreira que criei em meu entorno.

Acordei sobressaltada, o grito sufocante preso em meus lábios entreabertos, porém era mais um gemido engasgado de uma mulher sentenciada e confusa. Sons irromperam a quietude do quarto, móveis que flutuavam devido a minhas habilidades ativas durante o frenesi do sonho, arrebentaram-se no chão em acordo com meu violento despertar. Milhares de estilhaços espalhados por onde a mobília despencou. A porta se juntou ao caos, num rombo abrupto e a potente força motora do impacto a jogou no chão com um baque audível. Vergil adentrou meu quarto sem cerimônia, vasculhando o compartimento do banheiro, em seguida, deu uma varredura na dimensão da bagunça e destruição ali. A expressão séria de seu rosto dava a entender que, para ele, ao ouvir sons de coisas quebrando pensou que teriam invadido meu quarto e me atacado.

— O que houve aqui? — perguntou, uma careta de desaprovação aflorando-se em seu belo rosto.

— Sonhos ruins devem ter desencadeado meus poderes inconscientemente... — expliquei com um demorado suspiro. — Acho que estou tendo as mesmas crises nervosas que me davam pesadelos.

Forcei uma risada, Vergil se mostrou irredutível com a postura incógnita.

— Das suas memórias perdidas...? — não tinha sido realmente um questionamento, ainda assim, um pouco daquele muro de gelo que o protegia pude ver um centelha de preocupação.

— Sim, em parte, mas sinto que tem algo muito maior que somente isso. David me disse umas coisas que me deixaram intrigada e assustada, a verdadeira razão por trás das Chaves.

— E qual seria essa razão?

— Eles as querem para aprisionar um mal antigo que quer reviver nessa era. E as Chaves vão possibilitar e muito essa façanha. — abracei meus joelhos, procurando abrigo e calor em meu próprio corpo.

— Parecem bem razoáveis, considerando o grau de importância desses artefatos. — expôs cético. — Mas você não está muito segura disso, está?

— Oh, não! Não é isso! — exalei exaltada, apertando em mãos o tecido macio do lençol quase o retalhando com as unhas. E era a ponta do iceberg. — Eu acho que conheço esse Outro Poder, o ser maligno que David quer selar. Ele está atrás de mim!

— E por que ele te quer?

— É exatamente isso que não sei, tudo que entendo é que ele me odeia! — declarei abatida.

— Ninguém odeia o outro sem motivo, mas seja qual for, reforça que cabe a nós procurar essas Chaves. — de maneira instintiva, enquanto Vergil falava, meu olhar titubeante vagou pela extensão do braço amputado, envolto em ataduras, parando espantada e imóvel no braço inteiro. Meus olhos não viam alucinações ou minha mente pregava uma peça, realmente havia um braço, ele tinha recuperado como se o que tivesse ocorrido dias atrás não fosse nada. E eu estava enganada em um determinado ponto do meu raciocínio, não era perfeito, aquele membro possuía uma deformação visível e seu um aspecto bestial que nunca presenciara antes.

— C-como... Seu braço? — nem foi preciso dizer tudo para que Vergil compreendesse o que queria saber, ele encarou o braço com profunda e ilegível feição. Totalmente distraído em seus próprios monólogos mentais.

— É uma nova condição, meu corpo tratou de se restabelecer ao que era. Mas não é humano — estreitou os olhos, sagaz e impassível. Levantei num rompante de expectativa, Vergil não recuou ao pegar em sua mão — já que uma mera e desrespeitosa invasão em seu espaço pessoal era proibido —, curiosa para sentir aquela novidade de perto. Minha empolgação era notória.

— Fico muito contente, Vergil! — o júbilo de vê-lo bem me encheu prazerosamente por dentro, tanto que apagou a preocupação que tomara meu tempo. Um misto de sentimentos transpassou pelo seu rosto que até o momento estivera sereno, seus olhos azuis presos aos meus, aquele mar claro e limpo perdeu a calma e escureceu em uma tempestade impetuosa e hostil. Vergil, grosseiramente, como se recebesse uma descarga elétrica afastou-se de mim e saiu do quarto sem dizer nenhuma palavra. Fiquei lá, paralisada e tentando entender o que tinha feito de errado para ele ter tido essa reação.

***

Era desconfortável, depois de um longo tempo reclusa, estar em um evento social e cheio de pessoa mais velhas e experientes que eu e que me fazia sentir uma criança — sem contar os olhares direcionados a mim, como se eu fosse uma atração, uma aberração.

Eu dignamente interpretava meu melhor papel, sem demonstrar o quão incomodada estava por trás da máscara. Portando um sorriso falso enquanto fazia passagem em meio a tantas pessoas reunidas. Todos estavam animados com uma folga e o evento festivo, não era sempre que podiam se dar ao luxo de se divertir considerando o trabalho grandioso que pretendem executar. Nossa vantagem de ter em mãos duas Chaves — uma delas a lendária Excalibur que trazia comigo em meu pescoço —, já nós permitiu respirar Nair aliviados. David me apresentou aos funcionários que não tive o prazer de conhecer; Abel, um dos especialistas em vigilância e combate furtivo, ele tinha um jeito encantador que manava de seus olhos verdes; Jae um homem alto de pele cor de chocolate, o mais experiente em manuseio a armas de fogo e estratégia militar; por último e não menos importante: Thanatos, a única mulher do grupo de especialistas principais. Ela possuía longos cabelos loiros que de tão claros pareciam brancos e de todos que David me apresentou, Thanatos fora a única hostil e arisca. Pessoalmente me senti ofendida por ter sido tratada com indelicadeza por uma pessoa que mal conhece, mas David explicou que ela era assim com todos, o que me deixou desconfiada em relação àquela mulher.

Atravessei o salão em busca de uma pessoa em particular, querendo ter certeza de que estaria ali para me fazer companhia. Tive que usar as desculpas mais elaboradas para fugir das investidas e convites de dança que lançavam a mim, poderia ser algo bem bobo da minha parte, mas queria compartilhar a primeira dança com Vergil. Sabia e conhecendo bem, que ele nunca aceitaria uma proposta como aquela, e teria que apelar para meu poder de persuasão. Terei que arranjar uma forma segura para conversar as sós com ele, nem que seja trancado num quarto — o que implica a uma situação muito estranha. Não o encontrei em parte alguma do vasto salão, e verifiquei na popa, sendo este o único local quieto naquela noite.

Vergil estava lá, mirando o céu estrelado sem animação, seus braços cruzados numa postura vigorosa e indiferente. Aproximei em pisadas lentas e suaves, porém o salto gerou um ruído estalar no chão.

— Pensei que nem tivesse vindo — sussurrei contente.

— E não viria, não gosto de aglomerações. — respondeu sem tirar os olhos do horizonte.

— Também não sou muito fã, ainda mais quando te olham como se fosse uma aberração de circo — confessei apoiando meu corpo, sem colocar todo peso, na amurada.

Tomando coragem, estendi minha mão na direção de Vergil.

— Quer dançar? — ele olhou para mim e depois para minha mão.

— Eu não danço. — disse simplesmente.

— Vai negar uma dança para uma dama? — brinquei. Vergil não respondeu, e quando estava prestes a fazê-lo meus olhos se fixaram na lua. Não somente naquele astro, mas o circulo vermelho sangue que o rodeava. Um anel radiante e anormal cobrindo o prateado dela.

— Um anel de fogo na lua... Significa mal pressagio...

Notas finais
Estou aqui, finalmente, colocando os capítulos em dia :v Na verdade, agora a estória está mais avançada e vou colocando tudo aos poucos. Então espero que gostem o Até o próximo!