Se fosse para ser sincera comigo mesma — algo que tenho dificuldade de admitir —, não estava conseguindo digerir tudo que vem ocorrendo com a absurda indiferença que demonstrou. Eu possuía uma vasta experiência de camuflar meus reais sentimentos, portanto fingir estar bem quando, na verdade, o receio e a perturbação se instalam em sua mente feito ervas daninhas que se enroscam por espaços vagos e alastrando-se lentamente a cada nova provação imposta é um desafio no qual já me habitara. Estava bastante angustiada com o rumo que as coisas tomaram, e para piorar perco o controle de praticamente tudo. E, no entanto, apesar desse grande fardo corroendo meu sistema nervoso, daria o melhor de mim para ter êxito nas próximas buscas pelas Chaves. Ter descoberto o potencial desses artefatos significou uma motivação extra, então não me deteria por conflitos internos e esqueceria quaisquer sentimentos que pudesse atrasar meu dever — inclusive gravar em mente que meu propósito seria exclusivamente as peças restantes das Chaves, sem nunca desviar dessa meta. Quando tudo terminar e vier o alívio de um trabalho bem sucedido poderia me chafurdar em auto piedade até ver o suficiente. Agora que me decidi; vou abraçar meu destino.

Com os votos renovados, segui junto a Vergil para o desembarque. O sol estava a pino no céu, criando uma atmosfera meio abafada para aquela hora. Não havia tido tempo para pesquisar mais afundo sobre o clima quando David deu um ultimato na localização da quarta Chave. Até onde supus sobre países europeus, a temperatura sempre varia, mas em geral o normal era dias frios e de fortes ventos. A mudança de horário ainda me afetou e muito, depois de passar poucos dias navegando em alto mar e bruscamente ter que ser tirada de sua zona de conforto para embarcar em um avião para uma cidade francesa cujo nem fiz questão de me informar — algo que me arrependo —, tirou minhas forças e meu corpo entrou em estado de Jet Leg. Não poderia usufruir tempo para descansar, pois ainda teríamos que nos situar no "ponto certo". David nos alertou dos riscos do negócio onde nos infiltraríamos, uma árdua e estritamente mortal tarefa. Se houver falhas, nossas cabeças estariam marcadas. E por incrível que possa parecer, não me preocupava com desse mísero detalhe; desde que nos dedicamos a busca das Chaves, estávamos cientes de tudo que enfrentaríamos. O mercado negro francês não seria nossa derradeira missão.

Os relatórios passados por David eram minuciosos e diretos sobre nosso papel, havia uma grande probabilidade da relíquia que procuramos estar nas mãos do pessoal do mercado negro sendo contrabandeado para um restrito grupo de colecionadores. São as fases do tráfico de objetos de arte cujo valor estimado pode pagar uma viagem inteira ao redor do globo. Muitas vezes peças são encomendadas para serem vendidas de maneira ilegal, e nem sempre aqueles que adquirem são apreciadores da arte. Seja qual for o destino da Chave, nós tínhamos que recuperar não importa o que arriscaríamos para tal. Um exemplo digno a se destacar é que minha parte nessa empreitada: eu estaria nas condições de escrava — uma humilhação, devo acrescentar. Quando se pensa em escravidão nos dias atuais, nunca realmente emprega o sentido nas épocas onde eram normais. As Américas exportavam escravos da África para usá-los em trabalhos desumanos, porém como é algo proibido, seres humanos, principalmente no mercado negro, são somente mercadorias em meio a tantas outras — o conhecido tráfico de pessoas.

E no meu caso, eu pertenço a Vergil.

Enquanto estivéssemos com esse disfarce, minha obrigação seria servi-lo e respeitar suas ordens. Conhecendo bem meu querido mestiço, sabia que ele não fazia o tipo presunçoso que se aproveitará da situação e isso me deixava tranquila. Iniciado os preparativos — documentos e o necessário para atuarmos —, partimos para um hotel que ficava próximo a um bar onde, supostamente, encontraríamos uma pista dos contrabandistas ou aqueles que poderiam nos levar aos chefes — o pessoal que fazia tudo por baixo dos panos. Nesse comércio obscuro, muitos leilões são administrados por indivíduos — de índole duvidosa — que tem encontros comerciais nesses locais. Era uma chance e dela nos valeríamos.

Peguei o celular que David me dera para eventuais necessidades, e fiquei tentada a ligar para meus pais já que não falava com eles tem um bom tempo. Ou mesmo ligar para Lyana, mas depois de ter ido embora sem comentar nada com ela, certamente me encheria de sermões. Eu queria desabafar com alguém, extravasar esse estresse acumulado para poder relaxar sem temor, mas não queria envolver ninguém nessa perigosa jornada. Mecanicamente dirigi minha atenção a Vergil que tratava do braço recém-recuperado, ajeitando a atadura de maneira que o cubra por completo. Em nenhum momento, após ter percebido esse milagre, vi em que condições o braço dele estava. Ele dissera que a aparência não era humana, e não me impressionou esse ponto, possivelmente vem dos genes demoníacos que restauraram seu membro perdido. Falamos pouco um com o outro, era como se a relação amigável entre nós nunca tivesse existido e Vergil age mais friamente comigo. Refletia sobre tudo que fiz nesse intervalo para que pudesse me odiar e não chegava num consenso, definitivamente temos um problema de comunicação — ou a falta dela.

Distraída, persisti encarando-o mais discretamente, vendo finalizar o rito curativo no braço e guardar os utensílios médicos. Às vezes me pegava contemplando os significativos gestos perpetrados por Vergil, e de uns dias pra cá, isso tem sido quase instintivo e frequente. Talvez eu tenha me tornado uma garota carente e solitária com meus próprios carmas e fadada a um inescrupuloso caminho ao desconhecido, e a convivência com Vergil tem feito com que criasse coragem para confrontar os percalços e supria minha melancolia. Entretanto, havia algo mais profundo que isso, que me fazia querer sempre estar perto dele. Era como se em outra vida tivéssemos compartilhado sentimentos fortes e intensos, um elo inquebrável e afeto incondicional. É uma bobagem pensar algo assim, se bem que essa filosofia não teria o mínimo sentido se não soubesse que eu possuía uma vida anterior a essa.

Vergil virou repentinamente, olhando-me com uma expressão que não pude decifrar, seus olhos azuis celeste escureceram e estreitaram-se sutilmente. Meu rosto, aos poucos, foi esquentando por ter sido flagrada no ato constrangedor. Rapidamente levantei no intuito de espairecer e não ter que suportar minha vergonha, Vergil segurou meu braço ainda com feição séria e tensa.

— Não sei o que está acontecendo, mas seus pensamentos estão me atrapalhando. Sua linha de raciocínio tem tirado minha concentração e se isso for obra dos seus poderes, pare de usá-lo indiscriminadamente em mim. — exigiu neutro, um leve tom autoritário em sua voz. — E controle suas emoções, elas me sufocam.

— Eu não sei do que está falando, e garanto que não estou te manipulando com meus poderes! — esbravejei nervosamente, tentando me desvencilhar do doloroso aperto de Vergil. Passamos por tantas desventuras para chegarmos nessa etapa como dois estranhos, o companheirismo gerado pelo objetivo em comum evaporou ao léu.

Desprendi-me do da algema que a mão de Vergil criou e, desesperadamente, sai do quarto. Não tinha sido o meu melhor plano de escape, nem poderia sair do hotel para explorar as ruas, pois se dependesse do meu maravilhoso senso de direção facilmente me perderia — ainda mais quando meu francês era o pior possível. Meu orgulho me impediu de retornar ao quarto, e uma confusão de emoções transbordava em meu peito; estava com muita raiva e muito atordoada. Como se recebesse sensações que não me pertencessem. Resolvi divagar no restaurante no terraço, e aproveitar a estadia nesse lugar para esquecer o incidente com Vergil.

Ou tentar ao menos.

No curto trajeto, pensei em tudo que, com a proposta de David e o retorno dos mortos de Vergil — teoricamente ocasionando pelos meus poderes —, mudara na minha vida. Minha insaciável sede de descobrir sobre minhas memórias desaparecidas, me trouxe até aqui. Se fosse classificar em uma lista de tudo amedrontador que houve, seria infindável. Deslizei para um dos assentos disponíveis, observando a movimentação do local com interesse.

— Deseja algo, senhorita? — um jovem rapaz usando um avental e segurando o bloco de notas, um sorriso gentil estampado em seu rosto.

— Oh, você fala minha língua... — aquilo havia soado bem estúpido, e o rapaz apenas sorriu simpático sem se incomodar com minha falta de cortesia e raciocínio lento. — Um sundae de morango, por favor.

— Somente isso?

— Sim, por enquanto — o rapaz partiu para buscar minha sobremesa. Era incrível que a menção de uma coisa tão simples me desse uma profunda nostalgia, e tornou imensamente mais forte quando o rapaz depositou o sundae na mesa. Degustei lentamente o delicioso doce, sentindo-o derreter em minha boca.

— Isso me lembra alguém... — acusei para mim mesma, forçando minha mente a decifrar essa lembrança fragmentada. Os resultados obtidos foram o já esperado: absolutamente nada. Embora estivesse acostumada, era insuportavelmente frustrante não conseguir nem que fosse um detalhe relevante. O mesmo rapaz que me atendera há poucos minutos, veio recolher a taça assim que terminei. Permaneci distraidamente olhando as pessoas em suas rotinas que transitavam por ali, dando-me tranquilidade para que a vontade de cochilar me dominasse totalmente. Repousei minha cabeça em meus braços cruzados sobre a mesa, sendo embalada pelos sons usuais de cidade grande.

A parte racional da minha mente dizia com segurança que aquilo era outro pesadelo. Por mais terrível que possa parecer e com a sentença de uma entidade maligna que possuía domínio de tudo nesse plano, ainda mais com as defesas baixas devido ao cansaço súbito, estava propensa a ser influenciada com mais facilidade, tentava não permitir que o medo interferisse.

Entre a realidade e a bizarra alucinação, ainda estava no restaurante do hotel em que nos hospedamos. Contudo, ao redor não existia vida presente. A escuridão — uma marca registrada dos piores pesadelos — submergiu com seu manto escuro o ambiente, deslocando-se e consumindo tudo. Levantei num rompante da cadeira, derrubando-a na agitação implacável de perigo a espreita. Girei nos calcanhares e na máxima velocidade que minhas pernas suportavam iniciei uma corrida frenética para fugir de algo ali, não soube explicar o que deveria ser, mas meu instinto gritava para não deixar que viesse atrás de mim. A primeira porta que avistei torci para que estivesse aberta, e nem pegara impulso para me chocar contra ela quando notei que estava emperrada. Aos tropeços vaguei para a seguinte, que se encontrava nas mesmas condições da outra, porém com esforço empurrei a porta o suficiente para abrir uma brecha no qual meu corpo ultrapassasse sem problemas. Numa última e decisiva pressão contra a superfície de madeira, lancei-me sem querer para dentro da sala. O impacto gerou dores pelos meus membros superiores e a extensão do tronco. Arrastei-me para longe de onde a escuridão pudesse me alcançar, até conseguir me firmar de pé. Na ala para o corredor, tudo estava turvo e formas ameaçadoras se esticando para se esgueirar para mim. Havia algo ali, tomando vida e me queria... Morta. E a própria escuridão coalescendo para desenvolver uma forma tangível, conduzindo-se para meu encontro.

O susto ao sentir aquela pessoa perigosamente próxima de mim, congelou meus músculos e travou o grito que estive prestes a emitir. Ele estendeu a mão para me tocar e um estratégico solavanco me puxou de volta a consciência a tempo, muito antes que pudesse ser tarde demais. Abri meus olhos, sem me mexer do assento, absorvendo a cena final do pesadelo. Eu realmente havia dormido na mesa do restaurante, e para meu deleite a escuridão não se fez presente e nada no ambiente trazia sensações negativas ou repressoras. Olhei em meu entorno, endireitei minha postura para que ninguém reparasse em mim. Meio desorientada, rumei para o quarto-suíte que dividia com Vergil.

Ele crispou os lábios, impaciente pelo meu atraso no instante que cruzei a porta.

***

Como ainda tinha uma parte da missão em processo, Vergil foi sozinho para poder se infiltrar conforme o planejado. Enquanto eu tive que ficar aguardando pacientemente no quarto uma resposta positiva dele, que tivera êxito. Não era como se nós fôssemos amigos, mas me preocupava muito com ele — por que, diferente dele, sinto um inerente afeto. Se tratando do tipo de negócio sujo que estamos perto de entrar, minha angústia era duplicada. Peguei um caderno pequeno e grosso que topara jogado na mesinha e me concentrei em uma atividade que não fazia há anos, após um período tão grande sem praticar queria arriscar se continuava tão boa quanto outrora. Foi difícil arranjar inspiração para desenhar com a mente lotada e o estresse impregnando-se pelos meus sentidos, e amenizá-la tinha se tornado algo impossível. Andei de um lado para o outro, contornando o espaço livre com caderno nas mãos. Pensava em desenhar algo simples e produtivo que pudesse desfocar minha mente de tudo que não fosse exclusivamente o desenho. Acreditei que quebraria a caneta tamanha a força exercida sobre o frágil item.

— Ótimo! Agora estou tendo uma crise de ansiedade! — resmunguei destilando meu sarcasmo. Graças a Alexis aprendi a controlar essas crises, porém elas vieram com mais poder do que pude administrar. Respirei fundo, entoando um mantra para me acalmar e contando mentalmente até dez.

— Eu nem deveria estar me preocupando com Vergil, ele sabe muito bem se cuidar sozinho! — afirmei em falsa convicção. — E também, ele é um idiota insensível! Idiota! Idiota!

Cogitei rir da minha atitude, eu estava agindo como uma adolescente furiosa. E quando buscava a razão para estar, praticamente, colérica nada me iluminava. No entanto, talvez o que tivesse desencadeado isso tenha sido o modo como Vergil age. Não era do seu feitio ser gentil e sempre amável, porém ele mantinha uma postura cordial e respeitosa que fazia parte da personalidade dele. Se houvesse uma coisa no qual estava certa, era de estar muito chateada e com muita vontade de bater em Vergil. Num gesto brusco, atirei o caderno com força no intuito de vê-lo se chocar contra a parede e, para minha surpresa não atingiu meu alvo inicial. Encarei abismada o caderno cair num baque mudo no chão, enquanto o semblante de Vergil se escurecia e tornara-se carrancudo. Não soube entender se estava impressionada com a aura agressiva que ele manava ou pelo fato de ter obtido a façanha de jogar um esdrúxulo caderninho no rosto de Vergil com precisão sendo que ele possuía reflexos rápidos e incríveis para facilmente desviar. Ficamos alguns minutos em silêncio, a tensão pulsando no ar e me deixando desconfortável.

A culpa disso era dele, que surgiu no momento errado — espero que ele não tenha escutado chamando-o de idiota.

— Como foi? — perguntei em tom meio ríspido, e nem fora de intencional. Na verdade, estava ignorando com todo empenho o evento constrangedor de minutos antes.

— Bem... Antes de ser recepcionado por um bloco de notas. — respondeu enfaticamente, cruzando os braços numa postura rígida.

— Não posso fazer nada se atravessou meu caminho quando tive a brilhante ideia de jogar coisas na parede — dei um sorriso cínico e mordaz. — Mas quem imaginaria que você não esquivaria, você tem tão bons reflexos.

Vergil, por poucos segundos, exprimiu uma reação do que me pareceu ser desagrado e ligeira indignação — como se aquilo fosse uma infâmia imperdoável. E restabeleceu a seu semblante frígido e apático me encarando com sua habitual maneira incisiva.

— Pelas informações obtidas, haverá um leilão ainda hoje de relíquias furtadas. E há uma possibilidade de que a Chave esteja entre essas peças à venda. — comunicou cético.

— Então temos que estar lá também — suspirei conformada. Dediquei o escasso tempo para me arrumar da melhor forma que pude — dando uma veloz ajeitada no cabelo e trajando um vestido negro com uma fenda lateral — e concluído, Vergil e eu seguimos para onde ocorreria esse leilão. Diante de um amplo publico — dentro dos limites do território do mercado negro —, terei que me portar o mais dócil quanto presumível e manter próxima a Vergil, atuando sem levantar suspeita. Assumo que era custoso, ainda mais vendo os sórdidos olhares lançados a mim — e até a Vergil, que não se importou. Andava apressada atrás de Vergil, fazendo muito esforço para não ficar olhando para os lados. Era intolerável conceber o fato de ser escrava, naquela encenação, eu não era uma humana somente uma mercadoria. Significava que podia fazer qualquer coisa comigo... Bem, isso seria algo só meu “dono” poderia.

É um pesadelo!

Uma mulher por volta dos trinta e cinco aproximou-se de Vergil, flertando descaradamente e na minha presença — naquele ramo, sendo uma serva minha existência era desconsiderada. Suas roupas exalavam vulgaridade e suntuosidade: o longo vertido vermelho vibrante colado às curvas que possuía e joias enfeitando sues braços e alguns adereços no cabelo negro e curto. Ela tragou fundo o cigarro, e torci o nariz ao sentir o cheiro pungente invadir minhas narinas.

— Oh, vejo que encontrei uma agradável companhia para esta noite. — afirmou impudente.

— Sinto lhe dizer, não estou aqui para servir de brinquedo para mulheres de baixo nível. — disfarcei uma risada, vendo o rosto enrubescido da mulher e ela me fulminou.

Fiquei extremamente satisfeita com a cena que nem me incomodava em ser “escrava”.

O leilão começou e todos pegaram seus devidos lugares, de longe vi a mulher mordiscava a unha raivosa. O orador explicou sobre os artigos em exposição e seus valores estimados, todos mostraram entusiasmo para adquirir tais itens.

A primeira peça quase me obrigou a controlar o ímpeto de pegá-lo e fugir – não seria uma atitude inteligente.

— O lance inicial é de cinquenta mil euros. — noticiou o orador. — Então meus caros, essa peça é uma antiguidade muito bem conservada e de belíssima modelagem.

— Duzentos mil euros — Vergil proferiu seriamente.

— Um milhão de euros pela peça — a mulher pronunciou, sorrindo diabolicamente.

Definitivamente ela queria comprar guerra!

Notas finais
Até o próximo!