Between Dimensions

40 The Two Brothers!


Dante cruzou a entrada do depósito vazio cuja porta pendia sem sustentação nas dobradiças enferrujadas. O espaço do terreno era amplo, ideal para uma batalha reservada e discreta longe de olhares humanos, as paredes compostas por ligas de metal e placas de madeira estavam tomadas por plantas que cresciam enroscadas na estrutura, o teto ali era alto e triangular ligeiramente irregular e o chão de terra batida. Havia materiais de construção esquecidos nos cantos e aberturas com vidro cobertos com uma grossa camada de sujeira que supostamente foram criadas no intuito de permitir que a luz solar entre. O brilho alaranjado conferia ao local uma aparência mais acolhedora, tal como a situação pedia. Passaram-se anos que eles se separaram, um vivo e outro morto. E em todos que ainda puderem ter a chance de reviver a reunião familiar, acabara no campo de batalha travando uma disputa mortal, cada um com um objetivo fixo. Dante fazia o típico papel de irmão que corta o barato do outro, atraindo antipatia. Eles tinham sido rivais desde sempre, enquanto o mais novo protegia os humanos, o mais velho optou por obter poder sacrificando inocentes. Isso, no entanto, nunca foi realmente um ódio, um leve desprezo mútuo. E, as vezes, o afeto fraterno em meio aquelas violentas lutas se manifestava. E novamente o destino os colocou um contra o outro, por que eles pareciam ter nascido exatamente para isso, confrontando-se até só um deles ficar de pé. Vergil partiu como Nelo Angelo sob o controle de Mundus, uma morte não muito pacífica ou honrosa para alguém orgulhoso como o mestiço mais velho. E ficou surpreso revê-lo vivo, realmente vivo. Soube que, de algum modo, Diva conseguiu trazê-lo de volta. Independente das circunstâncias, ele ficou feliz — levemente enciumado, algo que nunca admitiria — por ter recuperado uma ínfima parcela de tudo que lhe é importante, sua família. O tempo beneficiou ambos, tal como moldou suas personalidades, não era a mesma coisa de antes: Dante reconhecera o irmão, mas Vergil o via com um olhar mais frio e distante.

No centro a sua espera, encapuzado, ocultando sua identidade, um homem com a postura rígida como uma escultura de gelo. Ele moveu o braço revelando uma espada pronta para ser desembainhada. Dante não agiria tão impulsivamente como fizera no auge da sua juventude quando abriu Devil May Cry, seria mais sensato. Não estava lidando com um inimigo medíocre no qual poderia zombar livremente, mas com um oponente digno de sua atenção. Agarrando a barra da capa, o homem puxou com rapidez suficiente para confundir olhares mal acostumados, e num intervalo de milésimos de segundos, duas espadas se riscaram. Um impasse acirrado entre a pressão das lâminas. A pressão atmosférica levantou uma fina nuvem de poeira, atirando tudo num raio de poucos metros pra longe. Em questão de força e destreza, o empate era óbvio. Nas investidas nenhum encontrava brecha para um ataque mais direto que decidiria quem estava na vantagem. Sem escolha, ambos lançaram-se para trás a uma distância segura. Aquela altura, o nível de adrenalina subira drasticamente, fazendo-os beirar entre humano-demônio. Se o lado demoníaco tomasse conta, nessa luta reduziriam tudo a cinzas. E não era algo que Dante desejaria. Não com pessoas do lado de fora que acabariam se ferindo, ou morrendo que seria muito pior. Pequenas descargas elétricas percorriam as terminações nervosas do seu corpo, os músculos contraiam-se continuamente gerando espasmos involuntários e sentia suas forças aumentando de um modo quase prazeroso. Dante respirou fundo, concentrando-se o máximo que pode para conter seu demônio interior. Uma onda de sensações estranhas o engolfou subitamente, mas ignorou aquilo. Distração naquele momento significaria, talvez, a morte.

— Como nos velhos tempos — Dante sorriu, colocando Rebellion sobre os ombros em sua pose assinatura. — Isso lembra como era divertida nossas calorosas reuniões familiares, mas uma coisa que não muda é... Você continua sem saber como fazer uma festa, irmão.

— Sinto muito que não tenha conseguido preparar nada do seu agrado, como deve ter percebido, estive ocupado... A sua espera. — Vergil proferiu com indiferença, seu tom menos incisivo.

— Não tenho problemas quanto a isso, uma festa como essa não se tem todo dia — com um olhar mais feroz, o mestiço acrescentou: — Nada melhor que reviver um pouco o passado.

Novamente uma chuva de faíscas raspou o ar, os dois iniciando uma sequência veloz de cortes direcionados um ao outro, sem sequer alcançar seus alvos. Parecia uma batalha infindável, sem vencedor. Eles se desgastariam até não aguentarem.

— Há tantas coisas que preciso recordar irmão — Vergil disse enfaticamente, quase acusador. — A sombra da morte privou de coisas que você não imagina. Agora poderei lhe mostrar o quanto você me fez falta.

Vergil desferiu um golpe que Dante não pôde acompanhar, sendo arremessado para trás com o impacto e um fino corte no peito. A gravidade do dano não fora maior graças a regeneração sobrenatural e o segundo de esquivo do mestiço. A colossal e agressiva aura vinda de Vergil salientava sua ensandecida vontade de acertar as contas. Dante sacou Ebony e Ivory disparando consecutivamente, o tilintar suave das cápsulas quebrava o monótono silêncio. Vergil ricocheteou cada projétil sem precisar gastar sua energia desviando delas, fazendo-as atingirem localidades aleatórias. Então projetou espadas espectrais azuis em uma quantidade que bloqueava qualquer tentativa de fuga, todas focadas em um único alvo. Todas indo ao mesmo tempo em Dante. Ainda que indicasse a alta probabilidade de sua vitória, Vergil não ousou um minuto sequer baixar a guarda. Não subestimaria seu irmão e seu talento nato para escapar ileso das portas da morte.

Em meio a poeira, Dante ergueu-se, sua aura vermelha em contraste com a azul do seu gêmeo, e sem nenhum arranhão visível. Lyana observou com apreensão a tensão palpável que contaminava o ar, tornando-o pesado e desconfortável para respirar. Certamente eles estavam dispostos a ir com tudo que tinham para subjugar o outro, uma contenda interminável. A oscilante metamorfose, indo e voltando, de sua fisionomia humana e demoníaca já não poderia ser mais apaziguada. Um interruptor ligado que ocasionou uma sobrecarga. O fulgor vermelho envolveu Dante em centelhas de descargas elétricas e Vergil grunhiu no instante que chegou ao clímax da mudança. A versão escondida por trás da beleza humana, dois demônios. A pressão no ambiente fez o galpão tremer, lançando uma película de poeira sobre eles. Sem hesitação, jogaram-se em uma ataque brutal, partilhando de combate em pé de igualdade. As lâminas chocando-se inúmeras vezes, rasgando o ar, estraçalhando vigas de metais e reduzindo o terreno ao caos e parcial destruição. Se usando o mínimo de seus poderes causavam tamanho estrago, se persistissem nisso viraria um massacre sem precedentes.

— Parece que nem com a morte perdeu a boa forma, irmão — Dante comentou com humor negro, a voz grave e ruidosa.

— E você continua tão patético e tolo como sempre. — Vergil estranhou a princípio o rumo das suas palavras, mas deixou-se levar pela familiaridade delas. — Os anos não te beneficiaram como deveria. Não estou surpreso, no entanto.

— Eu não diria isso, ainda estamos apenas nos aquecendo.

Aquecendo?, Lyana pensou pasma. A disputa ainda era mais brutal, mesmo na aparente irresolução.

— Não importa o quanto tente, tudo terminará a meu favor.

— Você consegue ser mais chato que antes. — Dante debochou, ganhando um olhar mais frígido do irmão. — Mas, nós mudamos.

Vergil estreitou os olhos, interpretando o que Dante deixara nas entrelinhas da frase.

— Eu não sou mais o mesmo Dante. E você não é o mesmo também. Estamos em mundos diferentes. E sinceramente, nunca tive melhores e mais emocionantes batalhas que não fosse com você, até consigo lutar a sério e nunca vou me cansar disso. Mas, desde que você voltou irmão, tudo que eu quero é saber se ainda posso ter a felicidade de reaver o que sobrou da minha família.

Com os ânimos mais calmos, Dante retornou a forma humana, seu semblante indecifrável.

— Foram anos difíceis e solitários, irmão. Para nós dois.

Vergil recuou, uma avalanche de emoções que fortemente suprimia, libertaram-se. Nunca sentira-se mais desamparado, ao mesmo tempo, que o calor que lhe abraçava a alma preenchia o buraco de anos terríveis e solitários. Memórias vieram em velocidade alarmante, sem lhe dar chance de deter, elas fluíam sem parar. Muitas para assimilar, articular, organizar para que fizessem sentido. Vergil humano, pressionou as mãos na cabeça largando a espada no chão num baque mudo, os dedos firmes entre os sedosos cabelos de incomum branco, desarrumando-os. O desespero atravessou o olhar do mestiço. Lyana entrou ansiosa e aflita pelo ocorrido, correndo para perto de Dante que assistia tudo sério. Ela fez menção de ajudá-lo, mas Dante impediu dando um aceno de cabeça em sinal mudo que não deveria se preocupar.

Ela tentou imaginar que tipo de sofrimento a mente dele lhe submeteria com a progressiva linhas de memórias sendo repostas, a amnésia ou seja lá o que ele tinha não o atormentaria mais. Logo Diva também passaria por isso, embora torcesse que demorasse um pouco mais para tal. Conhecendo-a — desde que nasceu —, Diva, além de furiosa, exigiria uma lista de explicações para terem retirado suas memórias. Na pior das hipóteses, ela torturaria todos os envolvidos sem exceção. Imersa em pensamentos, Lyana não percebeu Dante desmoronar ao seu lado, urrando e expelindo sangue. Ela virou o rosto após registrar em estado letárgico o mestiço tossir.

— Oh, merda! — ela arquejou, pondo-se de joelhos. — Dante, você está bem?

Ele não respondeu, olhou as gotas rubras que pingavam no chão. Um medo que não lhe pertencia o atordoou. Não havia nenhum corte no peito, tampouco no coração, mas a dor era real. Ele a sentia tão presa, agarrada em suas entranhas, que ficou alguns segundos experimentando sensações insuportavelmente físicas que pensou estar enlouquecendo. Em um torpor semi-instintivo, tateou as costelas checando se realmente existia uma ferida sangrenta ali, pedindo atenção. Parecia estranhamente como uma alucinação, a extremidade de um pesadelo abalando seu estado de vigília. E, de repente, ouviu um apelo gorgolejante e sem fôlego, uma necessidade incapacitante por ajuda. Alguém precisa dele. Seu corpo embalado pelo sentimento de desprendimento, explodiu em ápice do seu Devil Trigger. Lyana fora praticamente lançada a poucos metros devido a força da explosão. Dante abriu as grandiosas asas, agitando-as e criando correntes de ar, alcançando voo e sumiu.

Lyana endireitou-se, sentindo-se intrigada e preocupada com a reação de Dante, pois isso significaria algo ruim. Muito ruim. Ela convivera o bastante com ele para decifrá-lo. Limpou suas roupas e preparou-se para seguir o rastro do mestiço, ciente de onde ele estaria. Ela resetou, freando-se, uma lâmina fria e afiada de uma espada quase cortou a pele sensível do seu pescoço, exatamente na zona da artéria carótida. Um movimento em falso e morreria instantaneamente. Vergil se recompôs, ajeitando os cabelos rebeldes e alinhados em um penteado impecável. A garota que acompanhara Dante estava sob sua mercê e não hesitaria em tirar informações dela através da força.

— Leve-me onde Dante está indo! — ordenou. Lyana não estava em posição de protestar, porém a raiva de receber ordens de um bastardo arrogante como o gêmeo de Dante, culminou em um desejo de retaliá-lo.

— Agora!

***

Lyana ofegou ao contemplar com horror o cenário revirado e destruído: móveis distorcidos de maneira animalesca que impossibilitou a identificação do que eram, livros espalhados e folhas voando sem destino, destroços de partes da parede que milagrosamente permaneceram de pé e supôs que um grande poder destrutivo tenha causado aquilo. Dante estava ajoelhado em uma poça de sangue... Ela balançou a cabeça, negando a si mesma o fato consumado. Procurou nos outros cômodo a amiga e assim ter certeza que estava enganada, que nada do que pensavam aconteceu. Sob os escombros, um caderno com capa de veludo azul aberto junto a uma fotografia não muito antiga. Ela suspeitou que invadiram seu apartamento e Dante comentou sobre ter descoberto quem fizera isso. Cedo ou tarde, Diva encontraria esse diário e a redoma que construiu ao redor dela para protegê-la de um mal invisível iria se desfazer, igual a um castelo de areia sob a ondas. Questionou se fizera certo em esconder a verdade por tanto tempo... Lyana soltou a ar que prendeu ao ver respingos de sangue em determinadas páginas. Ela não ousou tocá-lo para provar de quem era o sangue. Olhou Dante, depois Vergil que se manteve quieto e calmo o percurso todo e diante de toda cena apocalíptica que se desenrolava, mas vislumbrou uma sombra de inquietação em seu olhar que ele tratou de esconder. Sua armadura se reergueu com a brusquidão de um blecaute. Pelo pouco que soube, ele e Diva passaram esse período juntos — e cogitou o que aquilo implicava e o quão juntos estariam, o quão íntimos —, o que atiçou o ciúme de Dante, por que mesmo o mestiço fingindo não se importar aquilo o deixava irritado e só ela percebia bem a variação de humor dele sendo uma das suas especialidades, a análise de emoções. Vergil não era indiferente, só conservava a atitude austera. O perfume adocicado do sangue pairou no ar, misturando as essências naturais da floresta e o sutil cheiro de queimado. Como se disperso de um recipiente, o líquido seguiu fluxo nos intervalos de espaçamento do assoalho. Apesar do sangue em contato exclusivamente com Dante causar somente leves corrosões devido a imunidade que aparentemente só ele possuía, não tinha como duvidar. O estômago dela deu um solavanco brusco querendo pôr pra fora o que comera.

Dante fincou as garras no assoalho, o sangue ainda fresco verteu pelas extremidades até os buracos ficando ali. Acima do rastro sanguinário, escrito em um idioma desconhecido, uma mensagem. Ela conferiu para melhor visualizá-lo. Alexander lhe ensinara diversas atividades e línguas antigas, isso foi aperfeiçoando conforme o passar dos dias, ela nunca se esquecera da importância daquele conhecimento. E naquele momento, usaria-o da melhor maneira. Lyana aproximou-se mais, examinando. Dante prostrou ao seu lado.

— Parece irlandês antigo... — opinou, agachando-se para confirmar sua dedução. — Aqui diz "Por anos a escuridão, sob dezesseis selos, permaneceu trancafiada... Fiz o que pude, não posso mais impedir... Quando penso em todo sofrimento que ele vai causar... Talvez eu devesse ter posto um ponto final naquela época, no entanto, é tarde... Inevitavelmente abandonei a esperança e a fé, por aqui já as trevas passaram...” — Lyana resfolegou, lendo o ultimo trecho: —“ Ele está vindo...”.

Ele?

— Isso soa tão... Assustador. — Lyana exalou, seu corpo estremeceu. — E quem será "ele" que Diva se referia?

— Vamos descobrir — Dante disse sombriamente. Nem o inferno o seguraria, ele faria sangrar aqueles que fizeram tamanha barbaridade com Diva.