Between Dimensions
41 Blood Ties!
Ela atravessa a escuridão semi perpétua de um beco estreito em direção a rua do lado leste que mais a frente levaria a uma intersecção, o qual poderia chegar no luxuoso hotel destinado a si. Seu objetivo inicialmente seria de explorar mais a cidade, sem a constante presença dos sete pecados. Embora a existência deles resumia-se a servi-la fielmente, dedicando suas vidas para satisfazer seus desejos, ela optou simplesmente agir sozinha e ver o que o novo mundo proporcionaria. Mais de três séculos aprisionada em relativo estado de hibernação sem muito contato com o exterior, seu conhecimento sobre a evolução humana era inferior, senão, inexistentes. Vez ou outra divagava sobre ver tudo por outros olhos, daqueles que supriam sua necessidade de saber. E desfrutando da liberdade que lhe correspondia, vagou por várias ruas, percorreu quilômetros incontáveis e durante boa parte do trajeto estudou os humanos. Ela os repudiava, mas tratou de não demonstrar abertamente seu desprezo. Notou também que assim como mariposas são atraídas para a luz de uma lâmpada, olhares de fascínio eram dirigidos a si. Não seria surpresa, tudo que foge do falso conceito de normalidade humana, inconscientemente chamava atenção. O inumano era um atrativo perigoso. Andando silenciosamente com a sutileza de um fantasma, ela caminhou pela rua deserta, mal ouvia-se os seus passos. Seu vestido dançava na brisa que jogava seus longos cabelos negros para trás. Ainda que a noite fosse uma armadilha, um temor para os humanos, era revigorante e lhe conferia mais força para estabilizar-se nesse corpo.
Parou ao avistar um homem interpondo-se em seu caminho, logo outros juntaram-se a ele cercando-a. De acordo com sua breve analise, ao todo eram cinco homens. Ela não se intimidou pela quantidade tampouco pela forma como a abordaram, seguindo em frente até ser novamente barrada. Ergueu os olhos com visível indiferença para encarar o empecilho que precisa ser eliminado.
— Tiramos a sorte grande, não é, rapazes? — o que julgou ser o líder do bando comemorou, um coro de concordância maligna respondeu. Ela não moveu um músculo, fazendo-os acreditar estar aterrorizada demais para reagir. Aquilo atiçou o desejo doentio do grupo, então dois deles se puseram como urubus sobre a refeição, segurando cada um o braço. O líder contornava a faca no rosto da jovem que transparecia uma frieza capaz de congelar a alma com uma troca de olhares, vendo que sua estratégia de exercer pânico falhou, resolveu usar métodos mais radicais, rasgando parte do decote do frágil vestido.
A jovem esboçou desagrado.
— Faremos você gritar até não poder mais gracinha — um quarto murmurou em êxtase.
— Entendo. Humanos sujos. — enunciou sem emoção, os dois que a prendia gritaram alto e agonizantemente. Algo que assemelharia a um apelo de terror. Toda extensão que compunha os braços reduziu-se a massa sanguinolenta desintegrada, derretendo sobre os ossos que desprendiam e estilhaçavam. Ela virou-se, os olhos escarlate brilhando vivaz, sedento e carregado de escuridão. Do verdadeiro significado da escuridão. Como um mar revolto, os cabelos dela chicotearam seu rosto. Os outros três membros totalmente paralisados de medo, quase catatônicos assistiam enquanto a garota brincava com suas vítimas: de um tratou de mutilar, com que para eles era uma espécie de poder invisível, arrancando pele e vísceras sem piedade. O rapaz chorava compulsivamente por socorro antes do sangue borbulhante entupir suas vias respiratórias e os únicos órgãos restantes intactos fossem seus pulmões e coração. Sangue respingou no tecido do vestido. Realmente não lhe agradou a ideia de ter um vestido estragado. O segundo balançava a cabeça, os olhos fixos nela a medida que se aproximava, balbuciando um sufocado "não". A garota riu, tão rapidamente o coração dele parou.
— Vocês serão um aviso a qualquer outro que ousar me desafiar.
Recuperando-se, dois desajeitados tentaram fugir, ela acompanhou-os mais lenta e desdenhosamente, rompendo os ligamentos muscular e ósseo do joelho de ambos. Caído e desesperados, rastejaram para se salvarem da punição. Da mulher cruel, do demônio com a aparência de anjo. Nada daquilo parecia abalá-la, uma mera distração. Conforme eles arrastavam rastros de sangue eram formados. Diva estendeu a mão, fechando o punho como se esmagasse algo entre os dedos com precisão. O crânio de ambos explodiu em névoa escura de sangue pintando a calçada com esguicho de substância cerebral. O último praticamente convulsionava de puro terror, o medo mudo e imobilizador. E como um choque repentino, ele livrou-se do transe, urinando-se. Em um ato instintivo, sacou um revólver e disparou sem parar nela, porém os projéteis se desintegraram antes de tocá-la. Por obra de algum poder... Sobre-humana saia ilesa.
O mais assustador era o sorriso dela, uma mistura de deleite e ingenuidade.
— Demônio... Demônio!
Obviamente os humanos com a mentalidade tão fechada a classificariam com o nível mais baixo da hierarquia. Ela estava acima deles, muito além da compreensão humana.
— Uma palavra para melhor defini-lo seria patético — anunciou, vendo o homem entrelaçar os dedos em um claro gesto de clemência, pedindo, orando para ser salvo.
— Reze o quanto quiser. Seu deus não vai ajudá-lo — informou em tom cortante como uma navalha. — Claro, no entanto, pode culpá-lo por estar aqui.
Mais sangue fluiu. Gritos silenciados. Não planejou terminar a noite em carnificina, mas sem remoto arrependimento não objetou em dar cabo de suas detestáveis vidas. Olhou descontente para os sapatos imundos com resíduos de sangue e vísceras, mesmo tendo cuidado pisou em partes dos cadáveres o que resultou nessa visão fantasmagórica e de aspecto imundo de si. David apreciou o espetáculo de um ponto mais distante, ela correu na direção dele.
— Não me surpreende ter me achado e estar atrás de mim — se não soubesse quem realmente escondia por dentro dessa casca, facilmente seria seduzido pela inocência e o inteligente maneira sutil de manipulação que ela usava como artifício.
— O que faz aqui?
— Fui dar um passeio — ela mostrou o rasgo com um semblante ininteligível. — Olha, estragaram meu vestido!
David sorriu.
— Não se preocupe, te comprarei quantos quiser — prometeu guiando-a pelo braço.
— Ah, quero que reúna todos na estufa. Tenho algo para tratar com todos vocês.
— Como desejar, minha senhora.
Os Sete Pecados reuniram-se na sala ladeada por finitas variedades de plantas, distribuídas harmonicamente entre intervalos de vasos e cercados. Particularmente essa noite parecia ser mais agradável para todos os convidados, embora uns mantivessem a postura calma e altiva de soldados em posição perante um membro superior, os demais se deliciavam com os vinhos das melhores safras. Diva estava sentada frente a mesa projetada para debates de um determinado número de pessoas — no caso oito se a incluísse na contagem —, sobre folhas e pétalas de rosas azuis e vermelhas. Ela retirava pétala por pétala de cada flor que encontrava. Seu vestido novo azul escuro e de leves e bufantes mangas longas contrastava com os cabelos negros e a rosa que prendeu na lateral da cabeça.
— Não creio que viemos aqui para comemorar, certo? — Amon elucidou, em um ligeiro tom de deboche. — David naturalmente não faria isso sem um motivo.
— Eu os convoquei aqui — a voz suave de Diva ecoou, ainda que estivesse mais interessada em destruir as flores que se dispor a concentrar-se na reunião.
— David informou sobre sua escapada, doce Diva — Amon afirmou, rindo. — E pelo visto divertiu-se bastante, pequena fugitiva.
— Amon, abstenha-se! Fale com devido respeito a nossa Senhora! — Jae ordenou severamente.
— Não seja tão rude, irmão. Nesse momento, nossa pequena deusa das trevas está tão intimamente ligada a alma da hospedeira que, como todos percebemos, possui complexos um tanto quanto infantis. Afinal, esse nem é seu verdadeiro corpo. — deu de ombro, ignorando a postura ameaçadora de Jae.
— É por essa razão que vocês estão aqui — ela pronunciou-se. — Não há necessidade na presença de todos vocês ao meu lado. Em breve deixarei esse corpo e preciso que esteja tudo pronto para meu retorno, e vocês devem estar fazendo todos os preparativos.
— É nosso dever como os seus cavaleiros te proteger e zelar por você, isso é loucura. Quer dizer, temos que ficar sempre com você! — Thanatos rematou, levantando-se em um rápido e abrupto movimento, derrubando a cadeira atrás de si.
— Thanatos — David recriminou.
— Minha decisão está tomada. Esse é meu desejo. É minha ordem. — disse aspirando o perfume de uma das rosas. — Vocês devem partir imediatamente para Babel. E Thanatos, você será minha única acompanhante.
— Como desejar — sussurrou.
Diva elevou-se, pisando deliberadamente em uma flor vermelha que fazia lembrar certo alguém. Em sua mão direita havia uma rosa azul, esta também lhe enchera de recordações e sensações.
— Quero encontrá-los. Traga-os até mim.
Todos olharam-na, cada um reagindo de maneira diferente. Eles nunca descumpririam a vontade dela, independente do que fosse.
— Vergil e Dante... Levem eles até mim. Quero vê-los. — com um sorriso jovial, desmanchou a rosa, antes cheia de cor e vida apodreceu e secou em suas mãos. — Onde estás amor? Nada me resta, apenas escuridão e sangue... Meu coração sangra por vocês, por vocês eu rastejo dentro da... Escuridão. — Ela cantarolou sem se interromper, uma música que ribombou pelo espaço.
***
Dante olhou de soslaio para a garota encolhida na poltrona, calada e melancólica. Ela abraçava os joelhos contra o peito, em um ritual estranho de desolação pelo que considerava um indício de que o afeto que compartilhou todo esse tempo com Dante não estivesse mais sendo retribuído. A quietude instaurada no ambiente serviu para duplicar a tensão e o desconforto. Ela remexeu-se, incomodada. As emoções dela, sem prévio aviso, invadiram sua mente. Isso acontecia mais vezes do que Dante tinha tempo para acostumar-se com elas, muitas ocasiões pareciam cargas pesadas e difíceis de controlar, até de dividi-las e separa-las das suas próprias emoções que por si só compensavam o desequilíbrio. Eryna alertou sobre o poder e a responsabilidade dessa ligação, e que aparentemente uma das partes seria a receptora, no caso ele. Diva estava desanimada com as recentes desavenças e por conta do ataque de Ace, seu estado de espírito deteriorou-se a medida que Dante estabeleceu um certo limite, inclusive deixando de dormir no mesmo quarto. E ainda que suas intenções de dar espaço a ela fossem boas, percebeu que não funcionava como gostaria. As consequências lhe atormentavam como um resultado de uma tentativa falha. Pelo pouco que sabia sobre mulher, considerando seu histórico, era que elas eram mais susceptíveis a inseguranças. Embora Diva tenha evoluído bastante no quesito personalidade, ela ficava mais sensível que o normal. Em questão de prover consolo, acabou afastando-a. O jeito era consertar seu erro.
Diva esticou o braço para alcançar o livro esquecido na mesa, quando encostou a sua mão na de Dante, num gesto involuntário, como se levasse um choque e seu cérebro enviasse um estímulo repulsor, recolheu-se timidamente. A reação dela não lhe surpreendeu, mas sendo o mais descarado possível pegou a mão dela e entrelaçou seus dedos. O sorriso travesso formando em suas feições tranquilas. Não pôde evitar sentir privilegiado por conseguir o feito de tirar o fôlego dela.
— Ei, Dante — ela chamou num murmúrio, se Dante não tivesse sentidos um pouco mais aguçados que de um ser humano nunca teria ouvido.
— O que foi, doçura?
— Promete? — questionou, jogando a pergunta ao vento, em seguida, focalizando seus olhos nele. — Promete que não importa o que aconteça... Você vai estar comigo, sempre? E que nunca vamos nos separar mesmo que o mundo e as circunstâncias não permitam?
— Prometo. — respondeu convicto. — Faria qualquer coisa por você, doçura. Sem hesitar.
Ela sorriu contente.
— Até me matar?
Dante despertou em rompante, o sonho quebrou-se e evaporou igual a uma cortina de fumaça com a precipitação do vento, desfazendo a embriaguez de sua consciência. Ele sonhou com o passado, o período no qual viveu com Diva na outra dimensão. Ela ainda lembrava-se dele, amava-o mais que tudo, até tinha o cabelo curto que sempre o fazia compará-la a uma menina. No entanto, o desdobramento dele tomou outro rumo, Diva nunca sugeriu a possibilidade de matá-la em nenhum momento.
Matar ela? Isso nunca, em hipótese alguma, faria.
Seus olhos cansados vislumbraram o teto baixo e uma lâmpada florescente em formato de metade de uma bola, um artigo peculiar de iluminação. A princípio não reconheceu o local, estudando-o vagamente, buscando algo que refrescasse sua memória. O sofá grande não o acomodava bem, apesar de ter pegado facilmente no sono nele. Vergil lia um estranho livro de ocultismo em uma escrivaninha a poucos metros de onde estava, tão imerso em sua leitura que ignorava tudo ao redor. Sem o longo casaco, trajando uma camisa social e um colete azul escuro, Dante reparou uma fita azul amarrada no braço do irmão. Vergil raramente aderia a um acessório, ainda mais uma simples fitinha... Mas conhecia-o suficientemente bem para saber que aquilo deve representar algo para o irmão que ele não entendia. Não julgaria sua preferência.
Lembranças surgiram do ocorrido de horas? Dias? Quanto tempo passou desde que Diva desapareceu? Sua percepção de tempo foi danificada.
Lyana os trouxera para a casa de Olly por que, inocentemente supôs, que ele localizaria Diva através de alguma magia. Dante dormiu nesse ínterim sem notícias de algum avanço. Olly apareceu, as tatuagens visíveis reluziam conforme seu poder crescia, em suas mãos o diário de Diva. Era uma das últimas coisas que ela tocou antes de sumir, então pelo rastro de aura poderiam ter, ao menos, um ponto de partida.
— É estranho... — Olly observou, enquanto o caderno flutuava em suas mãos. Sua voz ressoou como uma canção lacônica. Tanto Dante quanto Vergil fixaram sua atenção no feiticeiro.
— Passei horas usando tudo que podia para obter uma pista, ainda que quase nula, de onde Diva está, mas...
— Mas? — Vergil incitou, sua expressão fechada.
— É como se ela estivesse simplesmente sumido da face da terra, ou sequer existisse...
Antes que Dante esboçasse uma reação, a porta fora abruptamente aberta, revelando uma corada e abismada garota. Lyana tinha dificuldade para se recuperar do susto e da corrida frenética que realizou para chegar a casa de Olly. O assombro no rosto dela denunciava algo que palavras não explicariam.
— Dante! — gritou entre respirações irregulares. — Você precisa ver isso! É urgente!
Ofegante, Lyana correu para fora, sem alternativa, Dante foi ao encalço dela. Percorrendo ruas que pareciam desertas, como um set de filmagem abandonado. Árvores e plantas tomavam conta... Embora tivesse certeza que elas não estavam lá quando veio pra esse lugar ignóbil.
— Olhe! — apontou para um estabelecimento em particular. Dante, totalmente estarrecido, reconheceu. Não era possível que existisse duas e em dimensões diferentes. O vermelho neon no letreiro piscava o nome Devil May Cry atiçando a curiosidade de quem por ali passasse.
— Algo muito ruim está acontecendo... É como se as duas dimensões estivessem se juntando... — Lyana analisou receosa. — Será que isso tem relação com o sumiço da Diva?
Dante entrou na Devil May Cry sendo seguido de perto pela ruiva. Era realmente sua agência, vendo seu interior não podia mais duvidar.
— Temos que descobrir se tem uma relação — respondeu, por fim, a pergunta da mestiça.
Lyana com um aceno deixou-o sozinho. Dante olhou para cada móvel, recordando o que vivera naquele lugar. Dúvidas a respeito do que houve e o que ainda estaria por vir invadiram sua mente, estas que dificilmente seriam sanadas. Tinha feito tudo ao seu alcance para proteger Diva, sabendo que isso poderia significar nunca mais estar com ela, preferindo apagar as memórias dela para se certificar disso. E nada tinha saído como deveria. No momento que se encontraram, naquele dia quando a salvou após ter chegado a sua dimensão, que nada seria como antes. Diva não pertencia mais aos humanos, nunca teria uma vida normal de novo. E mesmo que simplesmente nunca mais tivessem se visto, de um modo ou de outro, ela acabaria sendo jogada a esse mundo sombrio e repleto de criaturas vindo diretos dos pesadelos mais terríveis dos seres humanos. A presença dele adiantou o processo.
Ele olhou os dois porta-retratos que jaziam em sua mesa; um com o retrato de sua mãe e a outra de Diva. Uma camada de poeira embaçava a fotografia, Dante limpou com extrema delicadeza.
— É como se eu estivesse voltando no tempo. — tentou sorrir, mas estava psicologicamente esgotado. — Vou te encontrar Diva, eu prometo. Nem que tenha que varar o mundo. Espere por mim.
Depositou o porta-retratos na mesa, saindo em seguida. Refez sua trajetória para retornar, sem prestar muita atenção nas casas e locações ao seu redor. Ao chegar, viu que a tensão propagava-se pelo ambiente, que o recebeu com um sopro quente e obscuro. Vergil estava com os braços cruzados irradiando perturbação, Olly ainda carregando o diário olhava para um ponto na parede sem realmente enxergá-la, inerte em pensamentos.
— Que bom que voltou — Lyana proferiu, balançando uma carta estranha entre os dedos. — Esse convite é para você.
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