Between Dimensions
48 The Original Sin!
Dante observou-a de longe, do ponto onde estava oferecia uma vista mais ampla tanto do local quanto da dona da sua atenção. A figura feminina delicada arrastando o vestido longo e escuro que era guiada para o complexo de edifícios que constituíam Lincoln Center. Teria que contentar-se em ficar em uma distância razoável para que não denunciasse sua presença. Estiveram aguardando essa oportunidade de reencontrá-la, não estragaria por nada. O sutil aperto em seu braço trouxe de volta a realidade. Lyana deu um sorriso de consolo transmitindo empatia.
Ele tinha muito a agradecê-la, mesmo que pelas circunstâncias iniciais não passassem de meros conhecidos, aos poucos ela ganhou seu respeito e pôde pensar nela como uma amiga muito importante. Dante entrelaçou o braço no da mestiça, exatamente como mandava o figurino. Se quisesse passar despercebido entre pessoas esnobes e que esbanjavam falsa superioridade nesse ambiente glamouroso, deveria agir igual a eles. Não era algo que se acostumaria, mas por uma causa nobre faria-o com perfeição. Disfarçou uma risada, ele estava tão parecido com o irmão que se ambos estivessem lado a lado nunca identificariam quem é quem. Lyana direcionou a Dante um olhar confuso, em resposta sorriu.
Locomoveram-se no fluxo de pessoas. O evento daquela noite prometia ser um grande espetáculo. As luzes ofuscantes e a variedade de decorações nos sinuosos corredores eram atrativos para os que ali perambulavam. Lyana sinalizou para um caminho mais reservado no qual levaria-os aos camarins. Passaram entre a multidão com a mesma sutileza e graça de uma brisa fugaz. Estudaram a planta daquele terreno durante os dias que chegaram em NY. Lyana recebeu instruções de um potencial — anônimo — informante de todos os passos de Diva, cada localidade e data com exatidão. Teriam um trabalho extra ao burlar a segurança que provavelmente fora comprada pelos homens sob o comando do tal David.
Concentrou-se em todas as formas sensíveis de poder ao seu redor, selecionando e ignorando as auras não compatíveis. O laço da cor do luar cintilou com a força do seu desejo. Usou o sentido aprimorado que recebeu através do Cordão Prateado como um recurso bastante útil na localização do outro lado, como Diva fizera para achá-lo no Inferno. Sentiu na beira da sua consciência a quase extinguida aura dourada como o sol. Os bastidores ficavam no andar inferior do palco, um corredor não muito grande estendeu-se diante deles com várias portas paralelas umas as outras. A iluminação suave trazia uma sensação de animação e serenidade. Dante rumou a última porta enquanto Lyana permaneceu imóvel não querendo interferir em um assunto que não lhe pertencia.
Diva entrou na inócua claridade.
Seus pés assumiram ritmo próprio e conduziram-na a um cenário escuro e úmido que associou a percepções desagradáveis de que algo ruim espreitava ali. Sua memória é somente um espaço em branco, um vazio total. Sequer lembrava o propósito de estar nesse lugar, embora tivesse a ligeira impressão de estar vagando por infindáveis dias. Talvez meses? Anos?
Vestia trapos: um tecido velho e escuro que encobria sua nudez e em sua mão materializou uma espada. Era estranho andar sem ter um destino fixo, o ponto final. Simplesmente marchava curso ao nada. Conforme penetrava na inóspita neblina com o cheiro desagradável que revirava seu estômago, percebeu que um instinto íntimo liderava seus passos.
Prosseguiu incerta, examinando a própria sanidade. Para onde ir realmente?
Ah, sim, ia para casa.
Sorriu ao ouvir a certeza de que retornaria a segurança do seu lar. Em sua exaltação titubeante, escorregou em algo quente e pegajoso. Olhou para baixo perplexa: sangue e cadáveres largados ao relento. O modo como morreram sugeria terror sem a mínima chance de defesa, como se os pegasse desprevenidos. Isso acontecia muito, geralmente as pessoas nunca sabem quando ou como vão morrer, ao menos, quem escolhe já tem uma ideia.
Horrorizada, levou as mãos tremulas a boca para abafar os ruídos de pavor que emitia ao ver os rostos distorcidos e mutilados. Sentiu-se o ser mais desprezível por tudo que foi obrigada a ver, ela tinha sido tão cruel: tirou incontáveis vidas sem demonstrar misericórdia muito menos remorso, ousou também ferir pessoas que, em alguma parte de seu coração, lhe eram preciosas. Desviou seu olhar das imagens que surgiam dolorosamente para lhe condenar, fazê-la sofrer impotente. Desejou que tudo fosse um sonho e que logo despertaria, e o fim daquilo lhe traria paz de espírito.
Engoliu a ânsia de vomitar, lutando contra o enjoo.
Forçou-se a acessar as diversas camadas da sua mente que deveriam guardar lembranças, obtendo o mesmo resultado fracassado. Sua única conexão com seu antigo eu, um conhecimento primário, era sua identidade: Ivy Valentine. Diva. Sempre optaram chamá-la assim, soava mais familiar e reconfortante. Vasculhou mais incisiva e profundamente em sua mente, ganhando fortes dores.
Frustrada e emocionalmente instável, continuou andando sem rumo, seguindo seu instinto natural de direção. Viu de longe fumaça escura sobrevoar uma construção em ruínas, e impulsionada por um sentimento que não soube explicar, correu com o máximo de rapidez que suas pernas permitiam. Tropeçando algumas vezes, como se o tempo não fosse suficiente. E nunca é. Diva foi recebida por uma enxurrada de memórias ao cruzar a entrada em formato de arco, todas com o nome de Arya. Os farrapos transformaram-se em um vestido de meados do século XVII, vagamente moldado no estilo barroco na época. Pôde resgatar inclusive tudo que lhe convinha a respeito de quem viera procurar inconscientemente. Fechou os olhos e, com determinação fervorosa, avançou. Ela conhecia o cenário, vislumbrou-o em alguns de seus pesadelos recentes. Corpos. Chamas. Sangue. Cheiro amargo e podre. Raiva. Dor. Agora, no entanto, estava vivenciando ao vivo. Pisou mais firmemente até encontrá-lo.
O rosto sujo com sangue que não lhe pertencia. Ele jogou um cadáver e estreitou os olhos. Não havia nenhum sinal de divertimento na expressão dele. Na verdade, não era possível identificar nenhum traço de emoção nele. As palavras que queria dizer morreram, ainda que balbuciasse algumas frases desconexas, nenhuma saia de acordo com sua vontade. A princípio, experimentou uma série de sensações contraditórias, queria tentar conciliar e compreender o que sentia, mas a principal delas foi o choque absoluto e negação. Era como se revivesse realmente os eventos da queda do seu clã e o momento que os caminhos deles tiveram que se separar. De todas as pessoas, de tudo que testemunhou, das coisas que enfrentou... Aquela era a pior. Nada poderia comparar-se aquilo.
— Você... Você matou minha família, meu clã...! Seb...!
Seu passado foi e sempre será marcado pelo sangue daqueles que tiveram suas vidas arrancadas precocemente. Ela era culpada direta e indiretamente. A necessidade de chorar foi prontamente mascarada pela ira crescente. Um grito desesperado e furioso escapou por entre seus lábios semicerrados e ecoou com o vento. Por essa tristeza e ódio que ela o selou há muito tempo. Agora estavam diante um do outro como inimigos que se tornaram. Suas roupas mudaram, o longo vestido deu lugar a um mais curto e versátil. Sacou a espada e apontou para seu alvo sem hesitar, sem receio de empunhar sua arma para matar. Como Vergil lhe instruirá certa ocasião. Esse seria um erro que não repetiria. Nunca mais. Resistiria a posse dele em seu corpo.
— Lembro-me de tudo! Absolutamente tudo! — afirmou sem fôlego, balançando a cabeça para afugentar o peso da responsabilidade de si. Seu rosto contorceu em um misto de melancolia e fúria. — Eu sei o que tenho que fazer, meu verdadeiro propósito... Eu vou matar você! Tenho que te matar!
Os olhos dele brilhavam com vermelho vivo, os lábios dele formaram um sorriso macabro.
— Me matar? E como pretende fazer isso, minha doce irmãzinha? — Inquiriu com apatia. — Se não foi capaz naquela época, agora não será diferente. No entanto, é sempre um prazer poder testar suas habilidades.
— Você não é meu irmão! — vociferou. — Morra!
Riscou a lâmina no chão de pedras perfeitamente alinhadas, deixando uma significativa quantidade de sangue vertesse pelos sulcos. Disparou contra ele, desferindo um ataque bruto que criou uma leve explosão de ar, porém facilmente bloqueada. Ele esquivou de cada uma das séries de golpes executados. Seu nome quase fora pronunciado pelo hábito, ainda lembrava como se chamava, mas preferiu não lhe dar nenhum tipo de irmandade enquanto estivesse em meio a um confronto. Diva saltou para longe, ficando poucos metros dele. Nenhum dos parecia lutar a sério, ainda que ela soubesse que era capaz de mais, mas seu corpo não acompanhava sua mente.
Ela abriu os olhos. Seus olhos. Estava sentada ante o espelho de uma penteadeira, escovando os longos — lisos? — cabelos negros. Diva mal reconheceu seu reflexo. Era uma mulher totalmente diferente de si mesma, contudo, não deixava de ser ela. Tocou na superfície fria e regular buscando algo que remetesse a ela, não a ele... As características que lhe pertenciam originalmente.
Dante girou a maçaneta devagar, sendo recebido por uma música que Diva cantava como ela mesma. Como sua real personalidade.
— Grito no silencio, sonho que um dia posso ouvir minha voz e venha me salvar... Posso esperar e procurar um milagre, mas só o que virá é tragédia medo e dor... Se repetindo num eterno ciclo, esse mal se esconde em meu próprio abismo derramando sangue sem parar...
Diva virou-se imediatamente ao vê-lo, o semblante assustado e confuso. Os olhos castanhos carregavam um inalcançável sofrimento. Passaram tanto tempo desde a última vez que estiveram juntos. Ele tinha feito muita falta a ela, muito mais que revelaria em singelas palavras.
— Dante... — sibilou nervosamente.
Dante agarrou o pescoço dela em questão de segundos. Tudo que Diva conseguiu fazer devido à pressão em sua traqueia fora soltar um arquejo com o ar arrancado de seus pulmões. Seus pensamentos fervilhavam incoerentes tentando explicar o que estava acontecendo. Viu o mestiço erguer uma faca dourada tendo como objetivo seu coração. Mas, de repente, tudo se encaixou, dando um sentido inequívoco e entendeu o que ele pretendia fazer, então baixou a guarda e relaxou em seu aperto para mostrar lhe estar conformada, e que nunca seria uma ameaça. Tudo que ele precisava naquele momento era perfurar seu peito e atingir seu coração, não se defenderia.
— Diva...
Depois de ter se infiltrado ali e encontrá-la coincidentemente sozinha, tudo de acordo com que planejaram. No entanto, não contou com esse impasse, suas emoções rebelando-se e jogando-o em intermináveis questões algumas nas quais duvidou da eficácia do artefato. Caso desse errado definitivamente... Ela morreria. A arma tremulou em sua mão suada e débil de esforço.
Ele carregaria o peso da morte dela em suas mãos e nunca se perdoaria, nem o irmão faria-o. Sua determinação vacilou, ele não moveu um centímetro sequer para concluir aquela missão. A imagem do corpo sem vida dela surgiu em sua mente como um pressagio tortuoso. A mão que manteve pressionada firmemente em seu pescoço afrouxou-se, aliviando o estrangulamento. Diva tossiu e massageou onde outrora a mão de Dante estava.
Desmoronou aos pés da jovem, ajoelhado incapaz de olhá-la. Falhou miseravelmente. Não teve coragem suficiente. Futuramente arrependeria-se dessa decisão, mas por hora apagou o remorso e qualquer pensamento acusador para aproveitar aqueles curtos e preciosos minutos na presença de Diva antes que fosse novamente, perdendo-a. Abraçou-a, tirando um arfar de espanto dela, surpreendendo-a com o gesto. Ela estremeceu quando envolveu sua cintura e a puxou para bem perto. Reconheceu o perfume dela e também o calor que emanava, ainda que estivesse bem fraco. Timidamente Diva acariciou os cabelos claros dele, mexendo em algumas mechas rebeldes. Dante sentiu-se confortável com o toque dela, havia tanta amabilidade projetada na maneira que bagunçava seus cabelos que se segurou para não interrompê-la. Era a primeira vez que o famigerado, sempre seguro de si, caçador Dante mostrou um traço de vulnerabilidade.
— Oh, Dante... Se você duvidar e não tiver empenho... Se não tiver disposto a sacrificar nunca poderá salvar nada nem ninguém — Dante sabia que apesar da dura verdade e da distância emocional dela, dava crédito a Diva. — Eu preciso ir... Perdoe-me, por tudo...
Diva desvencilhou-se da zona de conforto que ele lhe proporcionava e saiu. Thanatos esperava do lado de fora, Diva passou por Lyana. A mestiça sentiu-se tentada a pará-la, mas não adiantaria. Eles não estão preparados, física e psicologicamente. Enquanto a vissem como alguém que amavam, nunca levantariam o punho contra ela e Diva tinha conhecimento disso e fazia o possível para quebrar essa condição. Estava apostando todas as fichas nisso, renunciar a vida para levar com ela essa entidade e queriam que realizassem seu desejo.
Thanatos trocou um breve olhar desolado a ela. Lyana assistiu Diva partir com o coração destroçado. Dante apareceu logo depois, em igual ou pior estado. Ele esmurrou a parede, abrindo um grande buraco.
— Espero que tenha dinheiro para pagar esse estrago — Lyana forçou um sorriso, Dante rosnou e apressou o passo. — Ainda não Dante... Ainda não podemos...
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