Between Dimensions
49 The Secret Pact!
De repente, simplesmente, a música cessou. O ambiente mergulhou em um silêncio opressor. Diva paralisou aterrorizada com o grito preso na garganta, soando como um leve choro engasgado de uma mulher sentenciada, pega pelo terror do pesadelo no qual não havia saída. Ela baixou a cabeça deixando os cabelos negros cobrirem seu rosto melancólico e os braços caíram flácidos, igual a uma boneca cujas cordas de manipulação arrebentaram deixando-a a deriva. Dante travou, tudo ia bem no concerto, Diva manteve sua razão na superfície e combatia internamente a entidade, porém, como se alguém apertasse um interruptor, ela desligou-se do que acontecia ao seu redor. Inerte em um transe inexplicável. Cogitou gritar seu nome para lhe trazer de volta, mas não sabia se resultaria em algo bom. Ainda tinha a possibilidade muito grande de não conseguir nada, arriscar não importando os danos causados era o que normalmente fazia — junto com um evidente rastro de destruição — e quem sofreria as consequências eventualmente seria ele caso falhasse, só que não poderia expor Diva ao perigo mesmo que significasse ver em primeira mão o duelo de duas almas com o objetivo de ocupar inteiramente a mente e o corpo. A plateia agitou-se com a falta de ação e o comportamento estranho da bela cantora. Lyana entrelaçou os dedos em uma oração muda para fortalecer a esperança de que nada tenha dado errado e que a Diva continuasse a mesma. A medida que os minutos passavam a expectativa aumentava. Dante preparou-se para agir no mínimo sinal de descontrole de Diva.
E, naquele momento, notou a mudança brusca.
Ele elevou o símbolo edificado da sua vitória plena e absoluta: Diva não debatia-se mais com a pressão que sua mão exercia sobre o rosto pálido dela enquanto ele absorvia o poder necessário para romper as correntes de seu corpo esquecido e enterrado nos confins dos mundos. A Chave final que lhe garantiria o despertar de seus poderes há muitos séculos aprisionados pela garota que agora lhe servia como uma hospedeira temporária. Alimentou-se de cada partícula do estado mais puro de Luz que ela liberava, vibrante e calorosamente inebriante, o suficiente para comparar ao mais doce néctar e ambrosia. Nunca se saciaria completamente do sabor requintado que penetrava sua forma espiritual e preenchia-o languidamente, a essência da vida encarnada. A onda de poder fluía pelas terminações mais sensíveis como uma descarga controlada. O prazer invadiu seus sentidos, lhe concedendo mais e mais energia quase a um nível ilimitado. Contudo, estipulou para si mesmo um limite do que teria que retirar dela, indo aos poucos. Como um organismo parasita extraindo tudo que encontrava, sedento, devorando paulatinamente centímetro por centímetro de poder. Adiaria mais ainda o derradeiro destino da garota, embora ela tenha lutado bravamente e empenhando-se ao máximo para resistir a posse dele em seu corpo, subjugando sua alma, estava muito longe de terminar. Diva grunhiu quando os dedos dele prensaram a estrutura óssea do seu rosto, debilitada ainda teve forças para agarrar o braço que a erguia querendo afastá-lo. Ele adicionou mais firmeza em sua mão ganhando um grito estrangulado. Nesse ínterim aproveitaria para destruir aquilo que ela amava.
Ansiou tanto por esse momento, poder esmagá-la e fazê-la sofrer como nunca antes. Ele a odiava profundamente, e isso era algo que estava enraizado em sua alma. Uma roseira cheia de espinhos crescendo agarrada a seu coração que não pulsava mais. Talvez essa fosse a última remanescência de emoções que possuía já que não existia mais nenhum outro, resumindo-se em nada além de ódio. E ele representava a destruição e morte, sendo a personificação das Trevas. Com indiferença, ergueu a jovem. Saboreou o último resquício de Luz, largando-a em um estado de sono ilusório induzido para que não retomasse sua consciência. Dividir a posse do corpo não está em pauta. Ela não o atrapalharia.
— Chega de jogos! — anunciou chamando atenção de todos os presentes, principalmente Thanatos e Amon. Todo o espaço comprimiu-se, o ar sufocante e insuportavelmente denso, o peso da gravidade empurrando-os para o chão pareceu repentinamente forte demais os prendendo diante da amostra da aura obscura que ressoava de Diva. Ela permaneceu imóvel no palco, os espectadores aflitos sentiam os efeitos devastadores da voz distorcida da cantora. Uma comoção incontrolável iniciou-se após uma série consecutivas de mortes. A cantora assistiu o pânico instalar-se em velocidade alarmante, vendo as pessoas morrendo conforme seu desejo.
— Diva... — Amon sorriu, fazendo uma breve reverência.
— Não me chame assim. Diva... Ivy Valentine não existe mais. Finalmente estou tendo domínio completo deste corpo. — estendeu a mão para o auditório. — Está na hora do sonho dessa vida terminar, assim como os sonhadores dentro dele.
Os gritos de horror criaram cacofonia macabra e sanguinária. Os dois Pecados puseram-se lado a lado da garota, em visível atitude protetora. Dante compreendeu. Cerrou os punhos com força suficiente para dilacerar a carne e fazer o sangue escorrer livremente pela ferida aberta. A imagem de uma Diva sorridente fora substituída por uma Diva de expressão vazia. Aquela não possuía nenhum traço da Diva, como se a existência dela tivesse sido apagada. Ele fixou seu olhar na entidade, por um breve segundo seus olhares se cruzaram: nos dele raiva e nos dela desprezo.
Ela misturou-se com a escuridão e esvaeceu nela.
***
Os genes dele obtiveram maior influência no desenvolvimento físico do garoto. Os olhos possuíam o azul predominante com uma parcela de franqueza e benevolência que, a julgar a própria personalidade, teria herdado da mãe. A incomum tonalidade branca dos sedosos cabelos que eram uma marca registrada daqueles que descendem de Sparda, estavam ligeiramente bagunçados indicando certo relaxo por parte do garoto. Um contraste harmônico de mechas rebeldes que emolduravam as feições desconfiadas. Vergil reparou que, até nos aspectos mais banais, a semelhança entre Nero e ele não deixava dúvida. Ele tinha distraído-se o suficiente para conceder ao estado vulnerável de curiosidade uma oportunidade para agir. Seu ócio culminou em uma avaliação discreta e incalculada no jovem poucos metros dele. Tudo nele transmitia ondas intermináveis de energia, embora seu atual estado roubou metade dessa aura.
Vergil geria o fato de estar com seu primogênito, na verdade, ainda era uma condição que nunca se imaginou. A definição de paternidade ia bem longe de sua jurisdição, desde sempre. Formar uma família parecia mais algo que associaria ao irmão, sendo mais susceptível aos laços emocionais que ele próprio rejeitou. Confrontado com o passado, Vergil escolheu restringir qualquer emoção inconveniente que atribuiu a Nero, seria muito melhor para ambos delimitar adequadamente a ligação familiar que compartilhavam. Vergil desviou o foco de sua atenção, mirando o excêntrico feiticeiro que tempestuosamente irrompeu pela sala. A preocupação e irritação estampada em seu semblante e os músculos sob as roupas escuras blindados em visível tensão. Ele mordiscou a ponta da unha do polegar cuidadosamente em meditação. Seu impulso inicial tinha sido ingerir dores altas de cafeína que surtiram como um estranho combustível para sua inquietação, potencializando-a. A substância amarga e ardente mesclada com doses absurdas de ansiedade desencadeou uma crise nervosa em Holy que, com um esforço inútil, disfarçou. Os dias resumiram-se em conflitos sem motivos e humores oscilantes após o ocorrido com Diva.
Na corrida contra o implacável tempo, estavam em desvantagem. Vergil incomodava-se com ideia de não saber por onde pisar quase às cegas em meio ao nada, seguindo o instinto primitivo e senso comum para se situar. Enquanto o mundo acabava, desabando sob suas cabeças, estavam estagnados. Retrocedendo ao invés de progredir. Aquilo esgotava sua paciência. Nero ajustou-se no sofá, buscando uma posição mais cômoda para recostar sem o ocasional surto de dores. Holy afundou no assento acolchoado da poltrona com um suspiro de alívio e borbulhante indignação. Um ronronar seguido de ruídos de garras encravadas em grosso tecido amenizou a atmosfera monótona. A gatinha quimera — metade laranja cujo olho era verde e a outra preta com o olho azul —, apareceu saltando alheia a tensão construída ali, nas almofadas próximas de Nero, aninhando-se ignorando deliberadamente os presentes. Ela lambeu a patinha e esfregou no focinho, suas ações levianas e calmas. Holy piscou diante da perspicácia da doce gatinha.
— Vênus! — elucidou com vigor renovado. — Onde estava todo esse tempo?
Vênus miou dengosamente.
— Você sumiu por tanto tempo que pensei que não voltaria mais — afirmou em falsa censura. — Tão independente, mocinha!
A gargalhada incontida e involuntária ecoou enquanto Nero cobria o rosto para evitar olhar a cena, quebrando o clima de seriedade.
— Qual a graça? — Holy questionou franzindo a testa.
— Você falando com ela — apontou a gatinha que bocejou entediada. — Não consegui resistir.
— Ora, Vênus não é uma gata qualquer. Ela tem nível de raciocínio mais elevado que os outros gatos. — explicou em tom debochado. Nero se contorceu em uma alta e contagiante risada. Holy riu junto acariciando a cabeça peluda de Vênus. Ela chacoalhou-se e contornou o espaço e os obstáculos com destreza e graça, parando no sucintamente colo de Vergil. O mestiço mais velho encarou a bola de pelos que aparentemente nutriu uma empatia por ele, acomodando-se preguiçosamente nele. Nero mordeu os lábios fortemente, engolindo repetidas vezes a ânsia de rir. A diversão proporcionada pela gatinha converteu o ambiente em algo mais tranquilo. Vergil cruzou os braços e Vênus exigiu atenção miando sem parar, mas conservando a postura neutra ele advertiu severamente para si mesmo que não cederia aos desejos daquela bola de pelos. Intuitivamente repousou os dedos na cabeça de Vênus, massageando atrás da orelhinha dela arrancando um ronronar apreciativo.
— Se rir vai ser uma estadia direto pro inferno — Holy alertou pigarreando.
— E quem está rindo? — Nero inquiriu, numa ridícula tentativa de sufocar o ímpeto de rir. Vênus deitou e adormeceu, agradada.
— Daqui a pouco você vai chorar Nero — Holy acusou com um sorriso convencido. — Vergil, Vênus gostou mesmo de você e ela é bem seletiva quando se trata de aproximação de estranhos.
— Devo me sentir honrado? — Vergil arqueou uma sobrancelha em descaso e foi à gota d'água para Nero, que disparou em uma histérica gargalhada.
A dinâmica natural do momento criou uma relativa sensação de serenidade, enevoando o conflito de outrora. Nem mesmo depois de longos minutos de silêncio promoveu um desconforto entre eles, a convivência e a aclimatação trataram de estabelecer um tipo de parceria estável. Certamente uma meta em comum era uma forma eficaz de unir um grupo de pessoas em prol da realização dela, todos disposto por uma causa, um bem maior. Fazia muito tempo que não trabalhava no que classificaria como lado bom do negócio, geralmente ele não se misturava com nada relacionado. Também nunca se preocupou com a humanidade para justificar seus supostos atos de heroísmo. Ele apenas movia-se de acordo com a própria conveniência, até divergente relação com Diva. A menção do nome dela deslocou um fraco, mas bastante estupidamente perturbador, frio em seu interior. Um rosnado baixo fora encoberto pelos lábios contraídos em contragosto. Estava sendo empurrado para dentro de um turbilhão de emoções que bombardeou e sensibilizou sua percepção sensorial. Condenou-se por ainda preservar qualquer vínculo emocional com ela, isso seria um problema que não poderia lidar com tanta facilidade. Com prudência conseguiu bloquear todas as ligações com Diva, queria acima de tudo manter sua sanidade e pensar nela não ajudava. Absorto na sequência de suas memórias recentes, vislumbrou o último e igualmente desastroso reencontro deles, a essência de Diva obscurecida e submetida a um tipo de violação completamente envolvida pela entidade esteve perto — muito perto — de capturar Nero. Não era uma busca lógica cujo intuito fosse relevante, ela brincou com eles. Colocou-os em seu estratégico jogo, manipulando-os conforme sua vontade. Ela queria mexer no psicológico, escavar bem o mais fundo da mente, desvendar algum segredo e a partir dele projetar e conduzir suas fraquezas. Explorar minuciosamente aquilo que poderia utilizar como arma, golpear onde doeria mais. Cortes e lacerações físicas não comparavam-se a feridas psicológicas e emocionais.
Sentiu mais empatia por tudo que Diva estaria passando refletindo sobre sua experiência como escravo sem alma de Mundus. E, de certa maneira, devia a vida a Diva e talvez nada seria o suficiente para pagar. Mesmo não confiando totalmente nele lhe ofereceu uma segunda chance, retornando ao mundo dos vivos e deixando para trás a prisão no qual estava condenado. Seu olhar vagou para a empoeirada caixinha de música na mesa de centro, um presente dele para Diva. Poupou a si mesmo da realidade impressa e dura, que não admitiria, e recusava a tal, de possuir a fraqueza do irmão. Vergil expulsou as dúvidas e impôs uma barreira segura na ordem de seus pensamentos, mantendo um ritmo que poderia administrar. Aquele monólogo mental o induziria a loucura caso aprofundasse demais no conteúdo dele. Mais alerta, percebeu a conversa que se desenrolava com agitação. Tomando consciência, Vergil escutou com usual apatia.
— Ela parecia realmente outra pessoa. — Nero anuiu pensativo.
— Não descobri muito sobre a entidade que se apossou de Diva, apenas que ele esteve seguindo-a através dos anos.
— Um demônio?
— Não. Está muito acima de um.
— Sem uma fonte segura de informação, restam deduções do que seria — Vergil avaliou cético.
— Sem nenhum conhecimento concreto toparemos em várias "paredes" — Holy pronunciou enfaticamente fazendo aspas com os dedos.
— Isso é complicado — Nero suspirou. — Você esteve com Diva esse tempo todo, não é?
— Se acham que por isso tenho algum dado diferente, perderam tempo.
— Não, isso é algo que sabemos. Diva estava com amnésia, então, obviamente, não se lembraria de nada. Estamos na estaca zero.
— Dante falou sobre você — Nero começou incerto. — O dono original da Yamato.
Vergil ateve seu olhar em Nero. Ele coçou a nuca em um gesto de constrangimento.
— E segundo ele, você morreu... — arriscou uma rápida escolha de palavras para soar menos incisivo.
— Estive morto. — Vergil objetou, Vênus remexeu-se sem acordar.
— Morto... Você foi beijado pelas trevas e está aqui? — Holy estreitou os olhos.
— Beijado pelas trevas? — Nero indagou.
— É um termo genérico de morte. Alguém que foi beijado pelas trevas é uma pessoa que passou pela quase transição da pós-mortem, mas no caso se aplica também para aqueles que atravessaram essa condição, chegando a verdadeiramente morrer. — Holy cruzou os braços. — Só que quem morre, não pode ser trazido de volta. O que está morto, está morto!
— Essa observação foi confusa e meio poética, Capitão Óbvio — Nero ironizou com um sorriso mordaz.
Holy revirou os olhos impaciente.
— O que quero dizer é que Vergil permaneceu um período longo no mundo dos mortos, não tinha como voltar sem um poder exterior envolvido.
— Diva — Vergil sussurrou ameno.
— Como presumi, isso explica a sintonia da sua aura com a dela — Holy sorriu, levantando-se e metodicamente recolhendo os livros da escrivaninha sem procurar nada em especial. — É chamado Linha do Carma.
O termo desconhecido causou uma reação negativa. O suspense soprado no ar como uma melodia incompleta e sem significado prolongou-se por infindáveis minutos. Holy escovou os cabelos para trás, estudando cuidadosamente o que iria revelar. Usaria a sensatez para articular suas palavras.
— Linha do Carma é uma conexão, hã... Digamos, rara. Não. Rara não é adequada. — o feiticeiro torceu o nariz, organizando mais efetivamente suas ideias. — É complicado, por que não trata unicamente de um vínculo emocional entre duas pessoas... Abrange muito mais que isso e sinceramente não é muito boa. Quando Diva te resgatou do mundo dos mortos, — Holy resfolegou. — uma ligação espiritual se forjou. Ela doou parte do poder do Espírito dela para você, nascendo a Linha do Carma. Bem, sendo mais preciso, sua alma está atrelada a dela, contudo, se caso fizer algo ruim é ela que vai sentir o peso dos seus atos. Você pode matá-la com isso, por esse motivo é... Carma.
Vergil ligou os fatos, alinhando-os e encaixando-os com tudo que experimentou com a nova vida, desde sensações intensificadas à pensamentos partilhados. A analise tornou o incompreensível em algo plausível.
— Particularmente pensei que a Linha do Carma fosse uma lenda, um conto de fadas. É como mencionei antes: são raros quisá impossíveis.
— Mas isso ainda não esclarece absolutamente nada! — Nero expos. — Tem tanto pra desvendarmos e estamos andando em círculos!
Vergil entrelaçou os dedos, reflexivo.
— O importante é saber com quem estamos lidando, a face do nosso inimigo.
— Talvez eu possa ajudar nisso — uma voz invasora anunciou.
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