Between Dimensions
22 Like Water And Wine!
E, foi tudo simples; regressei segura junto de Vergil para a central. Meu corpo suplicando um prolongado descanso, resíduos de cinzas revestiam minha pele deixando um aspecto imundo como se tivesse sido negligente o bastante para não ter tomado banho e continha sangue seco que trilhava caminho pelos braços. Diria que meu rosto estava fantasmagórico, nem carecia de espelho para saber algo evidente: por que meu estado de espírito refletia-se em minha aparência. Via os olhares de procuração de membros da organização, principalmente de David. Eles conversavam comigo sobre o que tinha, nem precisava ser um gênio para deduzir, o que ocorrerá. Minha mente parecia navegar em ondas contínuas, perdendo-se em cada chacoalhar das inquietas águas. Podia ouvir vozes diversas me cercando, fechando-se sobre mim, porém para mim eram vagas — sem nem ao menos coordena-las. Andava por entre a pequena aglomeração com a agilidade de um doente, completamente inerte e movendo-me pelo mais primitivo dos instintos.
Havia desligado minha vontade própria e razão, apenas seguia por onde deveria ir. Fazia o melhor disfarçando minha condição de zumbi, os dias passaram-se com uma lentidão angustiante. Adiantei relatórios que faltavam sobre as missões anteriores e meio absortas, divaguei sobre a localização de outra Chave. Na verdade, após o ocorrido elas ficaram em segundo plano em meus objetivos. O maior e pertinente seria o de encontrar Dante, o irmão gêmeo de Vergil e minha atual dor de cabeça. David orientava a maneira adequada e eficaz para agirmos na infiltração, eu fingia interesse só de ver a visível e quase palpável euforia de todos com o progresso. Os dados preponderantes, os que realmente prestei atenção, foram que estivesse na Itália numa comuna nomeada Údine.
Passara horas a fio pesquisando acerca dela, nada muito relevante — fora a origem celta e ter sido apelidada de Cidade da Guerra. Nesse ínterim, liguei para meus pais para dar notícias minhas, esse tipo de contato com eles era ocasional, uma obrigação para não preocupa-los. Para mim, ouvir a voz deles me reconfortava imensamente. Praticamente conduziam-me para o trajeto, pois sentia-me a deriva em meio aquilo. O planejamento e a viagem tinham sido rápidas na minha percepção, embora eu participasse de perto do assunto, não mudava essa sensação. As informações dadas e o percurso de avião não quebravam minha mortificação, meus pensamentos vazios. Eu não compreendia qual o propósito da minha mente e acreditava que, deliberadamente, me empurrava a uma espécie torpor de zumbi, repetindo de maneira incessante que tudo havia sido um sonho maluco, e forçando a crer naquele absurdo como se fosse a verdade absoluta. Convenhamos que o plano não fosse muito inteligente — discutir a veracidade de um determinado assunto consigo mesmo não é uma atitude sã e saudável —, o que gerou um árduo e exaustivo conflito interno.
De repente, voltei ao hospital no qual passei um bom período internada, após a perda irreversível das minhas memórias. Despertar em um lugar desconhecido com pessoas estranhas repetindo incessantemente que era a garota desaparecida — quase um ano sem notícias minhas segundo os médicos —, palavras desconexas e desorientada mal pude interpreta-las. O diagnóstico fora claro e preciso: Amnésia Psicogênica, sua causa e variação foi difícil de identificar no meu caso. Disseram que poderia ter sido estresse pós-traumático, um fato terrível que bloqueou minhas lembranças. Durante o tratamento psiquiátrico usaram todo tipo de métodos para me auxiliar a recuperar essas memórias e nenhuma deu resultados. Tantas perguntas a ser feitas e sem respostas, ou a escassez delas. Na época aquela, sem dúvida, fora a mais descomunal e devastadora tristeza para mim. E a sensação de vazio sem saber como preencher. Chorei dias afinco por uma coisa que nem entendia, ao menos queria ter uma razão plausível para sofrer e ter o coração partido. Não era justo. Uma parte da minha memória retirada de mim, muito pior, roubada. Arrancada sem misericórdia, deixando no lugar somente uma desolação oca — a lacuna —, nunca seria o mesmo. Nunca a teria de volta. Deram-me falsas esperanças de que retornassem espontaneamente, mas a certeza de que esse fato não se consumaria já estava fixo em minha mente. E já me conformei, só que parece que esses acontecimentos tentavam destruir o pouco de paz que possuía o que pude consertar mentalmente. A barreira que construí para proteger-me rachava-se com significativa rapidez, mais do que esperava.
— De acordo com as pesquisas feitas por David... Devia se concentrar na sua tarefa, Diva. Diva? — a voz de Vergil me tirou abruptamente do transe, rompendo meus devaneios. Absorvida em minhas lamentações nem acompanhei a conversa e o que Vergil tanto dizia — já que era raridade ele trocar mais de três palavras, um longo diálogo é impressionante —, sinceramente nem sequer notara que começamos a conversar. E no momento que a voz dele ressoou tão próxima a mim, tive um grande esforço para manter a compostura e não gemer. O timbre dele fazia meu cérebro processar um sentimento de familiaridade. Entretanto, o que me deixou extasiada e totalmente seduzida por uma estranha e embaraçosa sensação, que provinha do meu íntimo, era os olhos dele. As duas gemas azuis fixas em mim. Ao mesmo tempo, uma enxurrada de emoções contrárias me tragou; a angústia, ressentimento e a mágoa vertiam por meu corpo como um veneno corrosivo. Não queria olhar para aqueles que me traziam tanta dor. Ignorei Vergil e fiz a única coisa que tinha como dispor, o que nunca em sã consciência faria, olhar a vista da janela do avião. Meu medo nunca se compararia com o tormento de encará-lo, ainda que Vergil não tivesse culpa. Ele não questionou, se irritou um pouco como já esperava fazendo um muxoxo, mas respeitou minha decisão e a conversa deu-se por encerrada. Em determinada parte do voo, depositei minha mão na dele que mantinha recostada no apoio de braço. Uma parte minha necessitava disso: calor humano. Ele não se moveu, talvez não tenha se incomodado... Ou era uma reciprocidade.
Desembarcamos com tranquilidade e silêncio enfadonho, e, dessa forma, continuou até chegarmos a Údine. Tudo ali aparentava estar parado no tempo: as ruas, monumentos, casas e estabelecimentos comerciais. O local era fascinante. Fomos levados a um casarão típicos de filmes antigos. Revisei mentalmente meu papel na trama; eu me passaria por cuidadora-mais-conhecida-popularmente-como-babá e Vergil o mentor. Ajeitei meu cabelo loiro quase retornando para o castanho para que ficasse apresentável, causar uma boa impressão é essencial. A governanta nos atendeu com gentileza e nos explicou cada mínimo detalhe, porém quando chegaria a falar do mais importante, um garoto de uns oito ou nove anos surgiu. E de imediato meus olho capturaram a Chave no pescoço dele, um pingente com o pentágono. E, além disso, vi traços que me lembraram de duas pessoas em particular, nos quais vislumbrei nas lembranças oferecidas pela rosa. Tão pequeno e frágil que pensei no garotinho loiro. A força do olhar e atitude mais agitada — indiferente a limitação física — pensei no garotinho moreno. Dois em um.
— Oh, Ezio. Não deveria ter saído de sua cama. Está muito doente para andar por aí! — repreendeu em tom baixo e incisivo. O garoto fitou a mim e Vergil, sorrindo. Depois uma crise de tosse forte instaurou-se. E alguém tão jovem com a saúde debilitada é triste.
— Não se preocupe Nana — respondeu com mais outra e mais violenta tosse. — Só vim receber os novos moradores. Fazia muito tempo que não vinham pessoas para cá.
Ezio andou até mim com cuidado, ficando certa distância de onde permaneci imóvel.
— Bem vinda, Srta. Diva — diferente de outras ocasiões optei por ficar com esse nome, com a cabeça confusa poderia correr o risco de estragar o disfarce. — E Sr. Jonathan. É um grande prazer recebê-los em minha casa.
— Obrigada pela hospitalidade, — agradeci afável.
— Vou mostrar onde fica o quarto de vocês — proferiu Nana indicando a vasta escadaria.
As acomodações dedicadas a nós eram bem iluminadas e traziam requinte em todas as decorações presentes. O meu em especial tinha bastante flores, o que já me agradou logo de cara. Não obstante, uma prateleira com diversos livros de títulos conhecidos. Encontrei um exemplar do "Le Petit Prince" se destacando entre os demais. Com um suspiro profundo, me prontifiquei a organizar minhas roupas — o pouco que trouxera — no armário antigo e bem conservado. Refleti sobre meu propósito e a determinação implacável para esclarecer alguns assuntos pendentes com Dante. Meu primeiro obstáculo seria onde e como teríamos essa "estimada" conversa. Por hora agradeci que não houvesse trabalho e que tinha exclusivamente o silêncio como companheiro, poderia pôr em ordem meus pensamentos. A ansiedade borbulhava em meu estômago e o revirava vezes sem conta. Balancei a cabeça fervorosamente para repelir indesejáveis e inconvenientes pensamentos. Decidi concentrar-me no que faria para ter em mãos a Chave que estava na posse de Ezio. Permiti-me desfrutar da calma que pairava no ar conforme a brisa trazia o perfume delicioso das flores, impregnando o cômodo. E, de súbito, meus lábios formigaram num calor suave e toquei com uma vivida lembrança de ter sido beijada por um alguém específico. Deitei-me em posição fetal vulnerável devido as novas sensações que se deslocavam por meu corpo feito sangue, circulando com força tórrida pelas minhas veias. Escondi meu rosto no emaranhado de travesseiros sem saber o que, de fato, a circunstância pedia. Negar o que era nítido além de impossível, seria ridículo. Duas leves e quase inaudíveis batidas na porta me resgataram do meu raciocínio insuportavelmente bagunçado. Após meu consentimento e minha ágil reação em colocar-me de pé, Nana adentrou o quarto informando que o jantar estava pronto. Eram cortesias bem agradáveis.
Levei menos de cinco minutos para me aprontar e obrigar-me a esboçar um semblante mais contente. Reparei na decoração dos corredores que transmitiam a cultura italiana em toda singular essência. Ao entrar na sala de jantar os olhares voltaram-se a mim, a atenção indesejada me fez ruborizar. Deslizei para o assento mais próximo, o oposto do qual Vergil escolhera. Ele, não importava o que fizesse, possuía a capacidade de sempre me surpreender. A hipótese de ter uma situação normal — incluindo uma refeição — com ele, para mim só viria a ocorrer em última instância. O único que não pôde comparecer ao jantar fora Ezio, que recolheu-se aos aposentos pelo mal estar. O jantar fora um evento sem grandes contratempos, nem sequer troquei meias palavras com o mestiço.
Realmente ele nem fez questão.
Durante dias passava pela minha mente, de modo traiçoeiro, os inúmeros e inexplicáveis fatores que me atraíam a Vergil. A lista era extensa para me ater as principais causas. Pegava-me discretamente contemplando-o; nunca, em todo tempo de convivência, havia visto uma emoção transparecer em seu belo rosto. Vergil possuía uma autodisciplina invejável, mas não suportava a insensibilidade dele. E ironicamente, apesar dos lados negativos — muitos, devo ressaltar —, me atiçava e instigava nele. Talvez fosse o desafio de querer a todo custo eliminar esse muro sólido e impenetrável que o envolvia. Alcançar o alcançável. O desejo de tê-lo; e a intensidade desses sentimentos me deixava temerosa, pois um alerta dolorido pulsava sobre o quão errado é almejá-lo. Em determinado momento, senti um par de olhos em mim e descobri que me minha observação atravessara um limite perigoso: Vergil me pegara no flagra. Meu rosto tingiu-se de vermelho, sentia o ardor palpitar pelo meu pescoço e bochechas. De certa forma, minha intenção de olha-lo era inocente... Depois não pude conter as coisas impróprias que vieram a minha mente. A tentação de saber o gosto dos lábios dele, sentir o calor e a textura de sua pele. Bruscamente levantei-me e fui em direção ao meu quarto com o que sobrou de dignidade e sanidade.
Joguei-me na cama e ali permaneci, pensando tortuosamente sobre o incidente. Perguntava-me o que tinha de errado comigo para agir como uma adolescente boba — ou uma garota carente. Tive raiva e a explosão fora inevitável. Simplesmente chorei por tudo que se acumulara dentro de mim, chegando a transbordar. Tudo que senti pela falsa esperança de reconstruir minha memória e a latejante falta de algo me conferiu uma tristeza incontrolável. Sabia que não deveria me deixar levar, porém tem coisas que não se pode lutar contra. Elas somente vêm e te derrubam.
Aborrecida e embebida de coragem, em rude pressa agarrei o primeiro casaco que meus olhos depararam-se e, mais cautelosamente possível, sai do casarão para passear no bairro. O horário não era sugestivo para andar por um lugar que não conhecia direito. Eu estava empenhada a achar Dante usando todo arsenal que disponho, e queria testar a sorte. Ele sempre aparecia nos mesmos locais que eu.
A noite caira rápido com seu manto de escuridão e delicados pontos iluminados que se distribuíam no céu, as estrelas radiantes com seu fulgor característico e a lua em resplandecente prateado. As ruas estavam quase vazia, pessoas andavam de um lado para o outro embrulhadas em agasalhos e com expressões tensas e ocupadas. Algumas nuvens despontavam no céu dando um anúncio de chuva passageira. Percorri a sinuosa rua no qual o casarão endereçava, decidida a não ir muito longe. Planejava, no mínimo, fazer caminho até três quadras e se minha busca não rendesse frutos, retornaria sem grandes complicações. Não posso evitar sentir medo e insistentemente olhar para trás, somente para ter plena certeza de não estar sendo seguida. Dúvidas sobre essa maluca empreitada corroíam minha razão e o pânico sufocar meu peito. Depois do que parece como horas de caminhada, respiro fundo para recompor-me.
— Você já enfrentou coisas consideradas fora do conceito normalidade, por que temer estar sozinha em uma rua desconhecida? — resmunguei para mim, enraivecida. Vejo ameaça por trás de cada farfalhar e mudança de sombra, e também do uivo do vento. Meu cérebro começou a enviar imagens de todos os filmes de terror que assisti em minha vida, bem inoportuno, favorecendo minha vontade de dar meia volta e disparar em segurança para o casarão.
— Coisas te olham no escuro, Diva — tentei ser bem humorada sobre a situação, mas surtiu um efeito contrário, fiquei mais tensa e apavorada. Certos instintos humanos são piores conselheiros.
— É perigoso uma moça andar na rua essas horas — uma voz alertou carregada de humor. Busquei avidamente onde estava o dono da voz, vendo-o no telhado de uma das casas próximas.
Dante.
— Andar sozinha não é algo que não poderia lidar — fiz o melhor para soar durona, o tremor em minha voz denunciou meu medo.
— Foi o que percebi. Criou até hábitos de falar sozinha. — debochou, cruzando os braços. Um sorriso desenhava-se em suas feições, a raiva daquele gesto fluiu em mim.
— É uma boa forma de compensar a falta de companhia — respondi desbocada. — Se Vergil tivesse aceito, seria ótimo.
O sorriso não desapareceu do rosto de Dante, mas vi que o atingira um pouco — ferindo o orgulho dele.
— E, não que seja da minha conta, — o escárnio em seu timbre era quase palpável, certamente divertia-se em me deixar irritada e confusa. — a razão por ficar perambulando por aí... Mas como um cavalheiro poderia acompanha-la de volta.
— Não é necessário. Já encontrei o que queria — Dante ergueu uma sobrancelha em curiosidade. — Se não tivesse certeza... Eu suspeitei que o acharia. Você parece estar onde eu estou.
A gargalhada de Dante ecoou pela penumbra frígida.
— Desculpe decepciona-la doçura — Indiferente, ele saltou com elegância diante de mim. Sua velocidade o fez aparentar ser um borrão vermelho. Eu me lancei desajeitadamente para longe. O perfume forte dele invadiu meu espaço pessoal, enquanto uma prazerosa sensação me esquentava por dentro. — Dessa vez foi mera coincidência. Tenho meus próprios assuntos para tratar.
— Certo! Certo! — coloco ambas as mãos no quadril num misto de vergonha contida e falsa soberba. — Eu queria conversar com você, Dante.
— Não tem medo de ficar sozinha comigo? — questionou olhando sugestivamente para mim.
— Eu deveria? — sorri em resposta.
— Hm, não. Nunca faria nada contra você. Se não permitisse é claro. — meu coração vacilou e congelei. — Estou aqui como queria, então, o que quer falar?
— Prefiro ter essa conversa em outro lugar. — reformulei o que disse para que ele não interpretasse errado. — Não é confortável numa rua escura.
Dante sorriu maliciosamente, esfregando o queixo como se pensasse profundamente.
— Resolverei esse assunto outra hora — elucidou, engoli em seco. — Desperdiçar a oportunidade única que terei não é um bom negócio. Afinal faz um bom tempo que não levo uma garota para passar a noite comigo.
Ele me deixou muda, nem tive como lhe dar uma resposta esperta. Apenas estremeci.
— Venha! Eu vou te levar para meu apartamento para termos privacidade.
Sem mais, Dante virou-se e despreocupadamente andou rua à dentro. Minhas opções estavam escassas, incitada o segui. Ainda estava nervosa em ficar próxima com ele, odiava admitir, mas Dante tem um poder estranho sobre mim que me faz confiar cegamente nele.
Minha maior dúvida era: O quanto de mim esse mestiço conseguia influenciar?
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