Between Dimensions
23 Disillusion!
There is a darkness
Há uma escuridão
I check my habit true
Eu checo meu hábito verdadeiro
Durante parte do trajeto não pude desviar minha atenção do mestiço que emanava tranquilidade e virilidade, quase jorrando pelos poros, atraindo-me como mariposa a luz, enquanto andávamos pelas ruas escuras. Havia incontáveis razões lógicas para estar tão abalada com a presença marcante dele, sendo que uma delas era a óbvia semelhança com meu atual sonho de consumo — levando isso como uma piada interna — o irmão gêmeo de Dante, o enigmático Vergil. Questionava-me sobre eles serem tão parecidos e, do mesmo modo, tão particularmente diferentes. E fixos os olhos, hipnotizados e fascinados, a figura masculina que trilhava passos confiantes e de ar sereno, impenetrável couraça de sensualidade e pretensão. Fiquei intimidada por ter tido audácia de querer ir ao ambiente fechado e, perigosamente, a sós com ele, alguém que me dá calafrios da cabeça aos pés e, ainda assim, por ironia me inspirava uma absoluta e improvável confiança.
I can't erase it
Eu não posso apagá-lo
Believing you'll come back to me
Acreditando que você voltará para mim
Meus pés adquiriram um ritmo próprio para que o acompanhasse, ficando sempre uma distância segura entre nós. Realmente não tinha medo dele, só garantir que teríamos apenas um contato básico para aquela conversa, sem intimidade. E a medida que nos afastávamos da minha zona de conforto, a poucas quadras do casarão, sentia-me mais vulnerável e insegura. A minha determinação implacável dissolvendo-se gradativamente, vacilante. Para ficar calma e não demonstrar o receio, formulei um mantra e repeti-o vezes sem conta para que através dele, encontrasse estabilidade. Pensei no horário, considerando que não era muito tarde quando sai, e adicionado ao interminável tempo que passamos caminhando, já passara das dez. Talvez não tivesse certa quanto às horas, meu senso comum e minha habilidade matemática poderiam pregar peças. Em minha mente, concentrava-me somente em afugentar pensamentos sombrios e um tanto quanto incoerentemente constrangedores, dentre elas questões supérfluas sobre se Dante e Vergil tinham tudo igual como o tamanho do traseiro — a visão bem privilegiada, diga-se de passagem. Ouvi uma risada abafada e franzi o cenho, estarrecida. Sem sombra de dúvida, fora a mais enfadonha e desconfortável curta viagem que me dispus a realizar. O causador disso parecia divertir-se as minhas custas.
That is the notion
Agora é a noção
Just between you and me
Apenas entre eu e você
Chegamos a um lugar que não soube o que era, aparentava ser uma pensão ou hospedaria. A senhora da recepção olhou-me brevemente, um sorriso simpático iluminando as feições meio murchas devido a idade avançada. O espaço era aconchegante; um balcão de madeira conservada disposta perto de armários e prateleiras bem organizadas, um mural de avisos compunha a parede e, por fim, uma espécie de cabideiro com ganchos de chaves. Não seria o maior e mais luxuoso local no qual frequentara, porém sua simplicidade e o conforto eram a marca registrada do ambiente. Dante meneou a cabeça, cumprimentado a senhora. Admito que tive receio de ficar com ele sem nenhuma testemunha por perto, a atitude dele não deixava sombra de dúvida de seu caráter: apesar do jeito meio descarado e insolente, Dante comportava-se bem quanto se tratava de respeitar certo limites. Subimos um pequeno lance de escadas que deu início a um sinuoso corredor, ele prosseguiu até parar frente ao seu objetivo: a porta do quarto dele. A ficha caira com tal brusquidão que, subitamente, perdi o chão. Tentava não transparecer meu pânico na mera possibilidade de ficar trancada com ele. Queria, acima de tudo, preservar meu autocontrole e ser mais impassível quanto o que aprendi com o melhor tutor nessa arte que conheci, o próprio Vergil. Eu o invejava por ser provido de grande virtude como a calma insuperável e tamanha percepção analítica, algo que nem em meus sonhos mais selvagens teria. Praguejei mentalmente, enumerando motivos plausíveis para jogar o nervosismo para escanteio.
(You got me urging)
(Você me fez pedir)
No waiting out anymore
Sem mais espera
Dante abriu a porta e, de maneira teatral, abriu passagem, curvando quase como um gesto debochado. Revirei os olhos, entrando tempestuosamente para dentro do cômodo. Tinham razão ao afirmar que a primeira impressão é a que fica; a minha sobre Dante era clara e objetiva, ele possuía hábitos de alguém desordeiro e preguiçoso. Vagarosamente varri toda a extensão do quarto com olhar incrédulo, meu rosto retorcendo-se a cada nova bagunça captada, aos engradados de refrigerante e caixas de pizza jogados pelo chão. Não pude evitar torcer o nariz. Uma das minhas manias — recentemente obtidas — era inspecionar os lugares e ver qual era o nível habitável em meio ao caos, logo querendo limpar. Dante fechou a porta num baque indicando, mais um ruidoso pronunciamento, da sua ação privativa. Ele queria mostrar que estava fechando para que depois não fosse pega de surpresa. Todas as emoções que afogara no mais profundo da minha mente, voltaram com força total, atingindo-me sem piedade. Resfoleguei aturdida quanto ele passou muito perto de mim, fazendo nossas roupas roçarem. A ansiedade transformou meu estômago em geleia, esta girando enjoativamente. Novamente, com demasiado esforço, retomei minha inspeção no quarto. Uma janela mediana dava a vista para a rua silenciosa e escura, um armário pequeno próximo a ela e, engoli em seco, a espaçosa cama de casal que se encontrava estrategicamente no meio do quarto. Minha mente lembrava-me constantemente de onde estava e com que estava, soando um alerta irritante de risco. Muito semelhante aos que anunciavam uma contaminação de alta escala ou de um extremo ataque. Dante tirou o sobretudo vermelho, atirando-o na pequena poltrona e foi ao frigobar, pegando sem cerimônia uma cerveja. E eu, imóvel, observava tudo sem me pronunciar. Escolhendo sabiamente que palavras usar sem parecer uma presa amedrontada diante do predador.
I'm in a maze of fears and sorrows
Estou num labirinto de medos e infortúnios
Save me from here so somebody please
Salve-me daqui, então alguém, por favor,
Desire burning out of control
O desejo se queima fora do controle
— Vejo que gosto por manter o ambiente limpo não é bem seu gênero — comentei distraída ganhando uma risada abafada. Seria um típico lar de um homem solteiro que não tinha inclinação de pôr em ordem o caos que produz.
Os tímidos passos que perpetrava fazia o assoalho ranger, Dante deitou na poltrona bebericando a cerveja. De repente, voltou seus olhos intensamente azuis em minha direção e minhas bochechas arderam.
— Pode ficar tranquila, doçura. Eu já disse que não mordo, a não ser que peça — ele riu do próprio comentário, evidenciando o duplo sentido. — Ofereceria uma para você, mas sei que não bebe.
Ele tinha razão, eu detestava bebidas alcoólicas. Não via finalidade nenhuma em desfrutar algo do qual diminuía a capacidade racional de uma pessoa.
— E fique a vontade — enunciou categórico.
Em movimentos mecânicos e travados, sentei na cama, o constrangimento ainda presente. Permanecemos em silêncio, o clima mudou e não pude deixar de reparar, a tensão que projetava meus músculos de forma dolorosamente rijos, aos poucos, abandonara meu corpo.
— Como você sabe tanta coisa sobre mim? — perguntei cortando a quietude com instável e abrupta frieza. — Não, mais especificamente, você me conhece?
Dante parou de beber, olhando para um ponto qualquer no teto, seu olhar meio vago como se relembrasse uma época agradável para si. Então balançou a garrafa, mexendo o conteúdo com visível tédio. A irritação impaciente queimou dentro de mim, borbulhando.
— Você me conhece? — repeti a pergunta mais enfaticamente.
I sacrificed my pain to satisfy myself
Eu sacrifiquei minha dor para satisfazer a mim mesma
Don't wanna lose your love
Não quero perder seu amor
Instead I deal in lies
Ao invés disto, eu aposto em mentiras
— Sim. — a resposta foi firme e sem margem para qualquer dúvida. — Eu te conheço muito bem, doçura. Dormimos juntos algumas vezes.
Do completo choque ao horror precisou de apenas um sorriso dele, um sorriso malicioso. Não pude sustentar meu olhar nele por mais tempo, encarei minhas mãos que nervosamente agarravam-se uma na outra.
— Como... Dormir juntos? — minha mente não processou totalmente suas palavras e o raciocínio lento não contribuiu em nada. Fingindo uma indiferença que não possuía, fitei-o.
— Não sabe o significado disso? — ele olhou-me de soslaio, sua boca curvando-se em um fino sorriso de escárnio. — A amnésia foi tão grave que se esqueceu de uma das necessidades básicas, ou senão a fundamental, de uma pessoa?
Bufei indignada.
— Sendo mais preciso, doçura: nós já fizemos sexo, algumas vezes.
— É uma piada, não é? — ousei questionar temendo a verdade. — Esse tipo de brincadeira não é muito engraçada, sério, foi a pior que já ouvi.
— E quem disse que é piada? — depositou a garrafa sobre uma mesinha, Dante veio até mim e instintivamente, num sobressalto, levantei-me e recuei. — Não seja tímida, você pode negar ou não acreditar nisso, não mudara a verdade. E eu já sei que te causo algumas coisas que são difíceis de controlar.
Your soul is worth a shot to satisfy my soul
Sua alma é pior que um tiro para satisfazer a minha alma
I'm calling out your name
Eu estou chamando seu nome
Because of you I know I feel insane
Por sua causa eu sei que me sinto louca
— Você e seu ego cabem no mesmo lugar? — esbravejei sentindo o rosto pulsar diante da ousada afronta. — Saiba que essa tentativa de sedução não funcionou comigo!
Contornei o espaço vago, esquivando da invasiva de Dante, e por um descuido quase desequilibrei no amontoado de caixas e restos de pizza. A simples ideia de uma aproximação dele, invadindo meu espaço pessoal, meu coração disparava e o sangue congelava.
— Fingirei que acredito nesse seu delírio — o encarei sem pestanejar, querendo convencer a mim mesma de que era forte para resistir às investidas dele. Dante, por sua vez, coçou o queixo portando um sorriso cínico.
— Delírio, huh? — repetiu, reflexivo. — Não diria bem isso, não seria uma definição digna do que era.
— Afinal, o que você quer? — minha voz saiu rígida e agressiva. — E qual seu problema comigo?
— São muitas perguntas não acha? Considerando que não tenho obrigação nenhuma de responder — disse em tom de desinteresse.
This guy hopeless
Esse cara é um caso perdido
Worth this stop his crime
Vale a pena que pare com seu crime
— Não se faça de bobo! — percebi o ligeiro divertimento em suas feições ao ouvir minha, não muito boa, cota de insulto. — Chega de joguinhos; responda de uma vez!
Dante encenou estar afetado a minha rude atitude.
— Calma, doçura. — ele riu em falsa rendição — Ainda que goste quando fica brava, convenhamos que não possa fazer nada para me convencer a cooperar, não posso ajuda-la.
— Certo, o que você quer? — rosnei com o pouco de paciência que me restava, o encanto fora substituído pela frustração. Em outra circunstância nunca cogitaria me expor, ainda mais para um desconhecido. Sufocando minha vergonha e qualquer senso comum, desesperada, fiz menção de tirar minhas roupas.
Why don't you feel it
Por que você não sente isso
You make me so crazy for you
Você me deixa tão louca por você
Dante enrugou a testa, incomodado e surpreso. Segurou minhas mãos e detendo meu avanço.
— As coisas não funcionam assim — alertou sombriamente.
— Preciso de respostas que só você pode me fornecer, por favor, se realmente tivemos algo, diga-me tudo que sabe! — minha respiração tornava-se irregular a cada palavra que saíra de meus lábios trêmulos. — Essa é a única esperança de recuperar minhas memórias!
— Eu já disse o suficiente, mais do que precisa saber nesse momento — puxei o ar com força desmedida para os pulmões, estes protestaram dolorosamente como se tivesse jogada água fervente neles. As lágrimas começaram a arder em meus olhos, ameaçando escaparem a qualquer minuto. Dante aparentou não saber bem como reagir aquilo, mas também havia a empatia pela minha dor.
The rain is fallen
A chuva está caindo
To wash your sins away
Para lavar seus pecados
Ele deu um longo e audível suspiro.
— Detesto vê-la chorar — confessou com amabilidade estarrecedora. Suas mãos foram postas delicadamente em meu ombro, esfregando-os. Dante era muito mais alto que eu, a nossa desigual estatura ficara nítida, antes sentia-me frágil e desprotegida, podia finalmente relaxar, pois tinha certeza de que com ele nada de mal me pegaria. O contato inesperado mexeu comigo, desenterrando sentimentos de um terreno desconhecido. Quando ele, num gesto que não pude registrar, me tomou em seus braços o tempo e tudo em nosso entorno parou. Meu corpo estremeceu tamanha intensidade. O calor que vinha dele era calmante e encheu-me de doces sensações. Constatei abismada, ele passar demoradamente os braços ao meu redor, trazendo-me para mais perto de si exatamente como se recolhesse os pedaços estraçalhados do meu coração e alma, unindo-os com a força suave e controlada que exercia sob mim. O abraço que juntava os cacos para consertá-los. As velhas feridas que pudessem ser curadas como se nunca tivessem existido. Entreguei-me ao conforto, na medida em que dava lhe permissão para prosseguir, Dante afundou a cabeça na curvatura do meu pescoço inspirando o perfume dos meus cabelos. Receosa, tomei o impulso de retribuí-lo, encravando as unhas no tecido escuro da justa camisa que usava, a ponto de rasgá-la. Com um rouco gemido, tentei me apertar ainda mais contra ele, desejando me fundir por completo nele.
(I said I told you)
(Eu disse "eu te avisei")
But how can my care welcome
Mas como eu poderia me importar de boa vontade
Standing in along with all my courage
Esperando com toda a minha coragem
— Ah, Dante — murmurei extasiada, meu corpo entrava em estado hipnótico. — Ah, Dante...
— Estou aqui, doçura. — com essa frase o mundo começou a consolidar-se a minha volta. E ficamos assim por infindáveis minutos, enquanto eu absorvia a serenidade e a segurança de sua proximidade. Inseparáveis no mundo que criamos e que nos envolvia no casulo seguro dos nossos próprios braços.
— Dante... Eu... Amo você — algo que nunca, em hipótese nenhuma, imaginei que se concretizaria. Essas palavras eram proibidas e, ainda tive, a loucura, inebriada no turbilhão de emoções, de proferi-las facilmente. O som delas agitavam-me, sobretudo, não faziam nenhum sentido. Como poderia ser possível?
Os lábios dele roçaram nos meus, não completando o que gostaria, tendo o admirável ato de espera permissão ou algum incentivo ao estímulo. Eu nada fiz, totalmente petrificada. Meus lábios ficaram entreabertos, querendo provar os lábios dele. Tive o ímpeto selvagem de beija-lo, porém o contive antes que me desse uma dor de cabeça e arrependimento. Certas partes da minha mente estavam quebradas e lacunas em branco, e todo o ocorrido e a corrente de emoções confusas, fragmentos se conectaram. Memórias colocaram uma avalanche em meu estômago, frio e dolorido.
Holding my play
Aguardando para fazer minha jogada
But no body knows
Mas ninguém sabe
My heart is clean and searching for love
Meu coração está puro e procurando por amor
Um flash passou pela minha mente, Dante me abraçando e sussurrando frases carinhosas a fim de me consolar. O meu estado de desespero dava a entender que impuseram uma condição que não queria, meu comportamento abalado era justificável. Ele explicava sobre coisas que, meus pensamentos afoitos, não conseguiam adequadamente compreender. Os músculos se contraíram devido a dor lancinante que acometia minha cabeça, seria como vários cacos de vidro penetrasse tão ferozmente quanto possível, em todos os ângulos ao mesmo tempo. O porejar insuportável. Seus lábios pressionaram-se contra os meus, forçando-me a ingerir um líquido estranho. E, fui tomada pelo verdadeiro propósito dessa fraca lembrança, quem era responsável por me privar de minhas memórias. O lampejo fora o bastante para que uma forte descarga elétrica instalasse por todo meu sistema nervoso, culminando a fúria e repulsa. Num impulso de força, empurrei Dante para longe, obviamente não dera muito certo, pois ele quase não se moveu. Atirei-me para trás, de modo que, existissem poucos metros que nós separássemos.
— Você! — cuspi feroz, possessa. — Você... Causou isso! Transformou minha vida no inferno!
A princípio ele não assimilou o meu ato violento e ríspido, e ao avaliar minha postura, percebeu o que houve.
— Por sua culpa não tenho minhas memórias! Você as tirou de mim! — Dante pareceu arrasado e tentou uma reaproximação, afastei-me o máximo que o espaço permitiu.
— Foram dois anos! Dois longos e terríveis anos me lamentando por algo que não sabia o que era... Chorando por um vazio que nunca seria preenchido... Horas e horas tentando decifrar as razões dessa amnésia... Quantas noites tive que passar com lágrimas escondidas e perturbador sentimento de tristeza sem fim... Você não sabe como é!
I sacrificed my pain to satisfy myself
Eu sacrifiquei minha dor para satisfazer a mim mesma
You're killing on my heart
Você está arrancando meu coração
It's why I give it up
É por isso que desisti
Mordi o lábio inferior no intuito de focar no lado racional ao invés de agir com sentimentalismo.
— Não devia ter confiado em você! — vociferei colérica. — Como não? Um homem que teve a frieza de matar o próprio irmão não poderia se esperar outra coisa!
— Não sabe o que está dizendo — rebateu com uma ilegível máscara de seriedade. Em uma velocidade sobre humana, arrastei-me para a porta.
— Sei muito bem! — girei a chave que ainda estava na fechadura, minhas mãos tremiam insistentemente tornando a tarefa mais complicada. — E também não posso entender como me envolvi com você, se é que realmente tivemos algo. No entanto, isso não importa! Não quero vê-lo mais!
Your soul is worth a shot to satisfy my soul
Essa alma é pior que um tiro para satisfazer a minha alma
But never reach again
Mas nunca alcançar novamente
All I can do
Tudo que posso fazer
Is always feel my pain
É sempre sentir minha dor.
O peso daquelas palavras atingiu-me com poder devastador, obrigando-me a olhá-lo uma ultima vez. Bati a porta ao sair do quarto e, enquanto incontroláveis lágrimas transbordavam em meus olhos, corri para as ruas escuras e na direção do casarão.
I sacrificed my pain to satisfy myself
Eu sacrifiquei minha dor para satisfazer a mim mesma
Don't wanna lose your love
Não quero perder seu amor
Instead I deal in lies
Ao invés disto, eu aposto em mentiras
Your soul is worth a shot to satisfy my soul
Sua alma é pior que um tiro para satisfazer a minha alma
I'm calling out your name
Eu estou chamando seu nome
Because of you I know I feel insane
Por sua causa eu sei que me sinto louca
E naquela escuridão mortal pude sentir algo movendo-se lânguida e soturnamente, vigiando-me. O tumulto de minhas ideias era tão doloroso que, independente de uma ameaça real, estava incapacitada de qualquer atividade que não fosse correr avidamente. De preferência para um lugar longe do suplício e de Dante.
To satisfy myself
Para me satisfazer
You're killing on my heart
Você está arrancando meu coração
It's why I give it up
É por isso que desisti
This soul is worth a shot
Essa alma é pior que um tiro
To satisfy my soul
Para satisfazer a minha alma
But never reach again
Mas nunca alcançar novamente
All I can do
Tudo que posso fazer
Is always feel my pain
É sempre sentir minha dor.
***
O silêncio e a gentil temperatura amena em contraste com a fria da rua receberam-me assim que entrei, passos calculados e sem ressoar nenhum som. Não queria ser pega de surpresa e enfrentar olhares perspicazes. Ansiavam com desconcertante agonia um intervalo para, finalmente, digerir o ocorrido com toda serenidade que carecia.
Apoiei minhas costas na superfície bem trabalhada da porta, lentamente deixando-me escorregar por ela até despencar no chão. Olhava o ambiente parcialmente engolido na escuridão com apatia e ligeira melancolia, por ali as sombras tomavam formas anormais. Meu torpor de zumbi me impedia de ver algo significativo perambulando pelo local, tão sem importância quanto olhar gotas de chuva cair. E meu humor mudara com a divergência emocional, fazendo-o menos tolerável.
Reparei que uma linha quase imperceptível de luz que provinha da fresta da porta que dava acesso à biblioteca. Analisei os prós e contras de ser induzida pela minha curiosidade, considerando minhas atuais experiências catastróficas. Passou o que pareceram séculos quando, por um repetitivo e lamentável protesto do meu corpo fadigado, resolvi averiguar quem é que ainda estava acordado. E com a mesma cautela que usara para entrar no casarão, empreguei no meu propósito de ficar incógnita enquanto direcionava-me para o único foco de luz. Respirei fundo, limpando a mente e arrumando coragem onde pensara não ter mais. Toquei a porta tratando de empurra-la devagar, para que não produzisse algum ruído que acabasse sinalizando minha posição. Parei de movê-la ao deixar espaço suficiente para visualizar seu interior: a biblioteca possuía várias prateleiras enfileiradas perfeitamente organizadas — assemelhando a de filmes antigos —, no centro dela um ponto específico tinha uma lareira, uma parte do chão revestido por um tapete, sofás de assento acolchoados e a mesinha.
Meus olhos que passeavam pelo amplo cômodo fixaram na figura sentada com um livro em mãos, totalmente absolvido na leitura. Talvez tenha sido algum barulho que, sem querer, fiz que capturasse a atenção dele. Vergil ergueu a cabeça minimamente, seu olhar de imperturbável firmeza gélida e uma ponta de surpresa. Encarei-o sem me preocupar de ser apontada como sem educação ou qualquer preceito moral de conduta, enfim, nada disso me importava.
As joias azuis tão profundas que viam através de mim, despindo minha alma. A semelhança era o que esperava-se de gêmeos idênticos, porém essa noite trouxera-me junto a indignação, a visão mais clara das coisas que me rodeavam. Não soube quanto tempo tive trabalhando nessa conclusão; aquela altura já podia catalogar cada diferença. Vergil estreitou os olhos num gesto mudo por uma explicação razoável a minha óbvia falta de bom senso. Cruzei a porta, igual uma criança procurando refúgio, joguei-me de joelhos e chorei impetuosamente no colo de Vergil. Lutar com as lágrimas que vinham sem controle não mais faziam efeito, elas transbordavam e embaçavam meu campo de visão. Ele ficou imobilizado e perplexo a um ato tão inesperado. Ouvi o livro cair com um baque surdo no tapete. Sem dizer nada, Vergil tomou três longas respirações, recuperando-se. Desajeitadamente, ele acariciou minha cabeça transmitindo condescendência e relutante afeto. Tudo que eu fazia era debulhar-me em lágrimas, querendo esquecer e desfazer o que houvera nessa fatídica noite. Subitamente sentia-me frágil e vulnerável o bastante para que uma rajada de vento me quebrasse em milhares de pedaços. Chorando por minutos a fio sem cessar e agradecendo mentalmente pela paciência admirável de Vergil, quão árduo seria para ele aguentar meus lamentos.
Em algum momento devo ter adormecido, pois na manhã seguinte estava na minha cama com as mesmas roupas de ontem. Relativamente sem ânimo, aprontei-me e desci as escadas. Nana interceptou-me antes de saltar o último degrau, com seu olhar amável designou minha tarefa por hora. Forcei um sorriso querendo retribuir o carinho dela, então segui para onde meu protegido estaria segundo Nana.
O pequeno Ezio encontrava-se na estufa, entretendo-se cuidando da variedade de flores e plantas que ali cultivava.
— Bom dia, pequenino — saudei experimentando a animação de estar num ambiente cheio de boas vibrações.
— Ah, bom dia, Diva — disse alegre e virando-se para mim. — Dormiu bem?
— Hm, sim. — respondi distraída. — Esse lugar é muito bonito e prova que o dono é caprichoso.
— Essa estufa era da minha mãe — sorriu cabisbaixo — E eu cuido dele desde que, bem, minha mãe morreu. É uma forma de manter a lembrança dela viva.
— Entendo — observei o garoto com afeto quase maternal. E, quase por ironia, vi a Chave balançando inocentemente pelo pequeno pescoço dele, um lembrete claro de qual era minha missão.
Não posso esquecer meu objetivo, e nada nem ninguém vai me atrapalhar.
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