Between Dimensions
24 Out of Time!
A despreocupação diante de quaisquer adversidades eram uma das características naturais do mestiço, não importa quão terrível e sem qualquer sombra de esperança seja a situação, sempre tratava como um assunto simples e mostrando uma boa dose do seu humor ácido. Tinha sido desse modo desde que começou no ramo. Suas lutas tornavam-se acirradas e cheias de adrenalina quando desafiava seus adversários, tais quais suas vitórias eram mais deleitosas. Essa era a sua vida e assim que preferia viver. Entretanto, a exatos dois anos, tudo se desestruturou; e suas descobertas acerca de algo que nunca realmente refletiu chocou-se violentamente com ele. O impacto o fez sentir uma profunda preocupação de suas ações e o que poderiam acarretar. Dante podia perceber todo o peso da responsabilidade de anos, embora ainda tentasse manter sua postura mordaz, parecia que nada disso aplacaria essa sensação.
O mestiço olhou de esguelha para silhueta masculina familiar no qual conviveu durante algum tempo após a partida de Diva, sendo quase um vulto imperceptível com suas vestes negras. A aura que o envolvia tornava-o mais intimidador, fazendo Dante se comparar com ele quando mais jovem. Os olhos azuis, tão penetrantes e firmes quanto os próprios, o encaravam com certo desdém. Aquele significativo olhar o lembrou subitamente uma única pessoa: Diva. Dante incomodava-se mais do que deixava transparecer com a maneira rígida que era observado, nem mesmo Diva tinha tanto poder sobre ele quanto o garoto. E esse fato já impressionava. Havia uma diferença gritante entre os dois: Diva era a companheira dele, ainda que não o reconhecesse como tal, esse garoto... Ainda não conseguiu digerir que os laços que os uniam seriam tão poderosos. Dante demonstrou o máximo de tranquilidade que a circunstância exigia, fingindo que o olhar dirigido a si não tivesse efeito.
Encostado em uma das paredes em um ponto distante do cômodo e desdenhosamente de braços cruzados, o rapaz crispou os lábios insatisfeito. Não precisava ser um gênio para saber que o principal motivo do aborrecimento fora o ocorrido de horas atrás, ele deve ter testemunhado uma parte. Segundo o pouco que o garoto contou, Dante pôde notar traços da personalidade de Vergil no jovem. Não evitou a irritação. Ajeitando o tecido que encobria metade do seu rosto, o albino mais novo moveu-se feito uma névoa, silencioso e obscuro.
— Saio por algumas horas e, ao invés, de seguir conforme planejado você comete uma falta — censurou severo, sem a mínima consideração. — Se é isso que chama de "consertar" as coisas, creio que está indo muito bem. Realmente não entendo o que passa na sua cabeça para ser assim!
— Está reclamando demais para alguém que... — Dante ergueu uma sobrancelha em provocação sem precisar concluir a frase para ver uma rápida e eficaz mortificação do garoto, que o fuzilava com o olhar. — Seja mais compreensivo garoto, depois disso, se tudo desse certo poderíamos sair para beber.
— Isso não é uma brincadeira, Dante! — exclamou apático. — Temos assuntos mais importantes para tratar... Do que sua abstinência.
— Você tem uma péssima visão de mim, garoto. Não sou assim tão ruim quanto imagina. Isso me deixa até desapontado — Dante afirmou, sorrindo maliciosa e dissimuladamente. — Lembre-se que sua existência depende disso, Gael.
Em resposta, o garoto revirou os olhos.
— E que grande avanço devo dizer — retrucou sarcasticamente — Você, definitivamente, sabe como falar com uma garota. Tanto é que ela fugiu. Parabéns!
— Depois do que ela lembrou... — Gael fitou Dante, vendo o semblante quase melancólico estampado no rosto do mais velho. — De tudo que ela devia lembrar, justamente foi a pior de todas, agora Diva acredita que eu apaguei as memórias dela sem razão aparente.
— Você fez o que pensou ser o certo, eu entendo — ouvir aquilo o pegou de surpresa, Dante piscou incrédulo, eram raras as vezes que Gael se compadecia de suas decisões. — Mas é direito dela se sentir ferida. Convenhamos que vocês tomaram a iniciativa errada de escolher por ela. — Gael suspirou pesadamente. — Tirar o livre arbítrio de uma pessoa é o mesmo que arrancar suas asas, nunca mais poderão alcançar o céu. Essa é a consequência.
— Eu tenho consciência disso. Não espero que ela venha correndo para meus braços feliz depois do que fiz. E se ela vier é para me atacar. — Dante forçou um sorriso, automaticamente levando uma das mãos ao rosto e acariciando um dos lados. — O que me lembra de que Diva tem uma mãozinha pesada...
Gael disfarçou a risada que ameaçou irromper.
— Pretende ficar mais tempo aqui? — questionou.
— Não. Temos nossa própria missão pendente e não quero ficar de fora da festa. Além disso, vou dar o devido tempo a ela...
Gael rosnou constrangido.
— É em momentos como esse que me arrependo de ter te contado.
— Descobriria do mesmo jeito, seria apenas questão de tempo — entoou convencido, o sorriso cínico iluminando as feições do mestiço mais velho. — Você é "o futuro que veio do céu", não é, garoto?
Gael recordou-se o primeiro contato de ambos e quando revelou a Dante a verdade, ele constantemente o chamava assim.
— Tanto faz — respondeu o garoto encerrando o assunto. Dante não pôde controlar a risada.
Diva
Os primeiros raios de luzes surgiam no céu, criando uma suave distribuição de cores variando entre o rosa e o laranja que transformavam aos poucos à reminiscência da noite no mais resplandecente amanhecer. Observei o espetáculo atenta, experimentando todas as sensações agradáveis que vinham junto com a brisa acolhedora. Ela agitou a copa das árvores próximas e carregou para longe as folhas pendentes, estas voando sem nenhuma direção especifica. Aspirei profundamente o perfume fresco que aquela quietude e o farfalhar do vento proporcionavam. O cenário parecia surreal demais, tão bonito, tranquilo e aconchegante. Nunca fui muito fã de acordar cedo tampouco de contemplar a beleza do nascer do sol em sua plenitude. Talvez tenha mudado minha percepção de tudo que me rodeia. Automaticamente, fechei os olhos, querendo desfrutar ao máximo cada alteração no ambiente com intensidade. Ansiosa e eufórica, soltei o livro que até uns minutos antes estava lendo entretida. Era uma ótima oportunidade para limpar minha mente de preocupações e atribulações que atormentava-me, fantasmas que perseguiam-me incansavelmente desde o que houve poucas semanas atrás. As lembranças ainda estavam frescas, vez ou outra pensava acerca do fato. Apesar de algo relevante sobre o real motivo da minha amnésia, sentia que aquilo era só metade do iceberg. As pistas que tinha não seriam suficientes para extrair uma informação realmente conclusiva, Dante também mostrou evasivas nas respostas. Mas deveria confiar nas palavras dele?
Abri os olhos, de súbito, sentindo todo peso sobre meus ombros. As angústias e incertezas me tomaram, deixando-me tonta. Coloquei as mãos no colo, remexendo-as nervosamente sem saber que fazer. O momento apreciável de minutos atrás se dissolveu em uma cortina de fumaça jogada ao vento, obrigando-me a retornar a dura realidade. Tornei isso um hábito, minhas noites de sono eram curtas e para me ocupar passava boa parte das manhãs lendo ou caminhando pelo vasto jardim e vendo as flores da estufa. Não queria pensar, ficar ruminando o ocorrido, porém a tarefa era impossível. Eu continuava em processo de digerir, o assunto dava voltas e mais voltas na minha cabeça. O complicado que junto a confusão encontrava-se a dor lancinante, muito semelhante a que sentia quando iniciei o tratamento acompanhada de uma psicóloga. Escovei incontáveis vezes meu cabelo para trás em nítido nervosismo. Um longo e pesaroso suspiro escapou por entre meus lábios. Várias questões passavam apressadas pela minha cabeça gerando um incomodo tumulto; O que teria que fazer? Deveria continuar procurando resposta? Ou o melhor seria focar unicamente em minha missão? Qual vai ser o preço pelas minhas memórias?
Guiada pela fadiga psicológica, debruçando-me sobre a pequena mesa, deitei em meu livro. Passei o que pareceu ser uma eternidade ali, totalmente imóvel. Saboreando minha corrente desenfreada de emoções e pensamentos conflituosos. Presa entre o limbo e a consciência, ouvi uma melodia ecoar pelo ar como se fosse algo tangível. Ela me aqueceu e transportou-me para um campo de paz e confiança, embora não tivesse sido o bastante para me acalmar, foi bom. Apertei as pálpebras concentrando para despertar daquele transe e descobrir de onde vinha o som. Esfreguei o rosto nos meus braços afugentando a sonolência e virei para a fonte da música. Poucos centímetros de onde estava, havia uma delicada e bem confeccionada caixinha de música. Fiquei tentada a toca-lo, mas detive-me antes de tal. Ergui um pouco a cabeça para dar de cara com Vergil parado fitando a cena com interesse. Por instinto e surpreendida, encolhi-me na cadeira. Nesses últimos dias não conseguia definir o que sentia por Vergil, pois após a conversa com Dante, muitas lacunas foram preenchidas inclusive sobre meu real objetivo ao me juntar ao grupo de David. Nada disso fazia por mim de fato, mas por Vergil. Muito mais complicado que ter uma parcela de memória extraída é ter lembranças de uma vida toda apagada. O cruel e angustiante vazio de nem sequer ter conhecimento de si mesmo. Simpatizava com Vergil por conta disso, só que quanto mais tempo estava com ele, mais o queria por perto. Não unicamente pela motivação em comum, sim por gostar dele. Desculpas e sinceros agradecimentos não seriam nunca suficientes para lhe expressar o oceano de sentimentos que nutria por ele. E para arrastar minha consciência em indignação é que apesar de não ter culpa, descontei boa parte da minha frustração em Vergil simplesmente por ser gêmeo de Dante. Sentia-me uma completa cretina todas as vezes que cruzava com Vergil e o ignorava, ainda mais pelo apoio que ele me deu. Admito que semelhança sempre me assombra; a cor incomum prateado dos sedosos cabelos, a pele clara que constratava harmonicamente com as duas pedras preciosas em tons de azul celeste que compunha seus olhos, adornados por cílios quase translúcidos. E em sua companhia, bloqueava-o totalmente. Não queria estar perto dele tampouco senti-lo. Repetia incansavelmente que absolutamente não tinha como os comparar, suas características psicológicas distintas já denotava isso. Nem havia razão no mundo para ter tornado essa semana tortuosa sendo que descobri a preocupação meio camuflada de Vergil, ele era um bom homem — um pouco atormentado pelos fantasmas de um passado desconhecido — no fim das contas.
Reparei no modo em como o mestiço vestia-se, seu porte sempre orgulhoso e aristocrático. Sua calça escura constrava com a camisa branca e uma espécie de colete azul escuro, seu semblante rígido suavizado e os óculos realçavam sua altivez. Mesmo enquanto tentava presentear-me mostrava a igual seriedade usual. Intercalei meu olhar entre o pequeno artefato e Vergil, ainda pouco convencida do que significava aquilo. Fechei o livro, levantando-me. A melodia serena tocava, tão deleitável.
— Tem sido uma semana difícil — começou com calma, estudando o terreno antes de prosseguir. — Não faço questão de saber o que ocorreu aquela vez, mas incomoda ver você fugindo. Eu mesmo não sou o mais satisfeito com a situação, e nunca vi finalidade nessa simbiose forçada. No entanto, não sou indiferente a tudo isso, então se sinta livre para contar comigo.
— Obrigada, Vergil. — murmuro abrindo um fino sorriso.
— Podemos pensar nisso como um legítimo recomeço. De verdade dessa vez, para ambos os envolvidos. — declarou ameno. — Estou aprendendo a ser maleável com a concepção de grupo.
— Entendo perfeitamente. Como um lobo solitário. — Vergil deu um aceno positivo, o que me fez piscar aturdida.
— Possivelmente. — a música parou deixando um estranho silêncio no ar. — Espero que seja do seu agrado.
Coloquei a música para tocar novamente.
— Mais que isso, foi muita gentileza da sua parte me dar esse lindo presente.
Vergil estendeu a mão e eu imitei o gesto, porém ele a pegou tão gentilmente como se fosse uma peça de porcelana e beijou-a. Por um segundo, lembrei-me dos filmes no qual os homens faziam o mesmo, seja como um simples comprimento ou um artifício de sedução. Assim que me vi livre de seu toque, pressionei a mão contra o peito. A ansiedade borbulhando em meu estômago.
— Até outra hora. Tenho um novo conteúdo para aula e preciso organiza-lo. — assenti com um sorriso amarelo, checando uma última vez Vergil seguiu.
Fiquei olhando-o se afastar ao invés de dizer algo. É em situações como essa que a insegurança vem à tona. A garganta fica seca, o coração palpita, os pés adquirem consistência de gelatina, a mente torna-se uma folha em branco e as palavras fogem a boca. E a medida que se distanciava, um vazio inexplicável e o medo do abandono deu ânimo ao meu corpo, feito jato de adrenalina. Pequenas descargas elétricas alastraram-se pelo meu corpo, ativando-o e num rompante frenético começo a me mover. Minhas pernas ganharam velocidade e num único impulso, atirei-me de encontro a Vergil. As mãos agarradas firmemente o colete e o rosto enterrado em suas costas, enquanto resfolegava duramente para recuperar o fôlego. Vergil nada disso apesar de tê-lo pegado desprevenido, dava para sentir a tensão emanando e que lentamente desaparecia. Todas as palavras que deveriam ditas não seriam nada diante da bagunça que existia em meu interior, a verdadeira natureza dos meus sentimentos. Naquele breve instante, fomos embalados pela melodia da caixinha de música e os gemidos do vento. Uma das coisas proibidas havia quebrado: invadi o espaço pessoal de Vergil. Ele, no entanto, não me censurou ou com indiferença se desprendeu do meu desajeitado abraço. Ficou imóvel, permitindo que continuasse ali, pressionada contra si e sentindo o calor que dele irradiava.
— Promete que nunca vai mentir para mim? — finquei as unhas no tecido do colete. — E que nunca vai me deixar?
Vergil não respondeu, somente deslizou uma das mãos nas minhas até entrelaçá-las.
— Não posso garantir que irei cumprir essas promessas, mas tenha certeza que vou estar onde precisar. Espero que seja o suficiente para você.
— Eu... Eu te prometo que independente do preço a pagar, vou te devolver suas memórias. — Respirei fundo. —Mas saiba que não importa quem você realmente seja, para mim, sua verdadeira identidade e o passado não importam.
Por que nunca percebi antes? Estava bem na minha frente, todas as respostas, o tempo todo. No começo e com que soube poderia até ter sido uma atração devido ao suposto passado que unira a Dante, contudo, com a mente clareando, conseguia ver além do pequeno e confortável campo de visão. Muito mais além da névoa do esquecimento.
Afrouxei o aperto ao senti-lo se mexer, libertando-o para que ficássemos cara a cara. Suas feições sempre sérias e impassíveis, por muitas ocasiões exteriorizando pura frieza, agora neutros e cansados. Desejei o ímpeto de audácia daquela vez que o beijei, havia sido mais por desespero que vontade. Ele esteve muito perto de ser dominado pela sua besta interior e tentar trazê-lo de volta exigia que pensasse rápido em uma possibilidade. E tudo que mais queria era fazer isso por vontade própria, não para salvá-lo de si mesmo, e sim para mostrar com ações a imensidão turbulenta do que ele significava para mim após esses meses difíceis. Ficamos nos encarando sem esboçar qualquer reação. Se não houvesse a diferença gritante entre nossa altura, teria sido menos complicado me aproximar dele. A brisa matutina fluiu por nós, e conduzida por ela, ergui minhas mãos para alcançar o rosto de Vergil. Rapidamente detive-me, pois acima de nós alto e imponente a figura do sol, ou melhor, dois sóis. Um fenômeno que nem mesmo o mais completo dicionário teria palavras para descrever; lado a lado num alinhamento exato, dois sóis. Nunca pensei que fosse possível que tal pudesse ocorrer, está longe de qualquer lógica pré-estabelecida. Se eu não tivesse presenciado, visto plenamente com meus próprios olhos não acreditaria. O mesmo brilho quase insuportável para olhos desprotegidos, o calor e tudo mais. Vergil virou-se para descobrir o que tinha me deixado tão pasma.
— Não... Não pode ser possível — afirmei incerta, a boca tremulando de espanto. — Há dois sóis... Mas como? Vergil diga-me, quais são as chances de isso acontecer? Quer dizer, é improvável, não é?
— Não. Ao menos agora. É impressionante, no entanto.
— Primeiro foram aquelas distorções dimensionais, monstros e temos mais essa. Um segundo sol. Estamos perto do fim do mundo? — indaguei aflita.
— Fim do mundo? É uma suposição fantasiosa considerando o que já viveu, não acha?
— Foi por ter visto de tudo que tenho certeza, Vergil. — fechei os olhos, certa de que ao voltar a abri-los tudo não tenha passado de uma ilusão.
— Não precisa mais se preocupar, sumiu — tranquilizou-me e imediatamente voltei minha atenção ao céu, tão aliviada por ver só um sol que seria capaz de chorar.
— Esse foi um grande susto.
— Um fenômeno muito estranho, eu diria. — Vergil murmurou pensativo, com o semblante fechado ele se retirou.
Avistei Ezio correr quase sem fôlego na minha direção e para facilitar seu esforço, caminhei para junto dele.
***
"... Embora não tenha detalhes sobre o ocorrido, há pessoas que afirmam terem visto dois sóis..."
"Cientistas desmentem a aparição... Segundo um especialista, o surgimento de outra estrela como o sol, ou mesmo realmente, outro sol significaria mudanças notáveis no ambiente e clima. Entretanto nada foi registrado..."
"Estamos próximos do fim! Para os poucos que dizem ter presenciado a cena especulações foram formadas de um apocalipse..."
Grandes partes dos noticiários relatavam o mesmo, porém nenhum deles teve uma declaração lógica que correspondesse minhas expectativas.
Uma teoria sem uma real explicação.
Suspirei.
A encantadora e pacífica vastidão azul monopolizou por completo minha atenção enquanto impulsionava meu corpo para frente e para trás, continuamente. A brisa sussurrou pela bem cuidada vegetação do jardim, ouvia o farfalhar suave das flores e as folhas pendentes serem arrastadas. Inerte em meu próprio devaneio, velhas lembranças foram trazidas a tona como se eu as revivesse naquele instante, reabrindo dores e outras sensações vividas. Lembro-me de quando era criança e adorava ficar no balanço, sendo meu brinquedo favorito. Naquela época, era o mais perto que chegava de liberdade e adrenalina. Eu e Lyana passávamos horas tentando ir mais alto para, deste modo, voarmos. A saudade, de repente, penetrou tão intensamente em meu peito que obrigou-me a reduzir a força de meus movimentos no balanço. Sabia o quão estranho uma jovem da minha idade se entreter em brinquedos de criança enquanto o pequeno Ezio apreciava a companhia das lindas flores da estufa. Pisei firme com os pés no chão, arrastando a terra junto, para frear-me. Segurei as correntes até minhas mãos protestarem devido ao desconforto, tomando uma coloração branca. Uma rajada forte jogou meus cabelos contra meu rosto, chicoteando-o com as mechas rebeldes.
— Diva! — ouvi Ezio chamar, meu olhar pousando nele. Com um sorriso adorável e carregando um lindo buquê, o garotinho andava em passos comedidos.
Sorri maternal.
— Eu colhi essas flores para você. — admitiu com sua habitual serenidade. Projetei os braços para pegar o presente, mas Ezio o tirou de meu alcance.
— Não mesmo. Eu vou levar e colocarei pessoalmente para enfeitar seu quarto — determinado, deu-me a mão livre. Peguei a caixinha de música e o deixei que guiasse-me através do jardim e pela casa.
Não comentei sobre os dois sóis para ele, afinal parecia alheio ao assunto.
Aprendi bastante a respeito de Ezio durante esse tempo, diferente das demais crianças da sua idade, ele não possuía boa saúde o que o impossibilitava de brincar ou sair com muita frequência. Dois anos atrás a mãe dele, Cecília, morrera de pneumonia e essa tragédia fez com que o pai dele, Augustos, caísse em uma profunda depressão. Ele não passa muito tempo com Ezio como deveria e o vi poucas vezes de relance. Os cuidados básicos dele ficavam a cargo de Nana, que o amava quase como se fosse um filho.
Sem pressa, subimos a escadaria ainda de mãos dadas. Ezio fazia questão de ficássemos próximos, talvez tivesse tentando garantir que não me afaste muito. Ele, apesar de demonstrar o contrario, é um menino bem solitário e não o culpo por se sentir assim. O pai dele que tinha obrigação de oferecer a ele o apoio e o carinho necessário.
— Agradeço que tenha me acompanhado até meu quarto, jovem cavalheiro — brinco, ganhando uma risadinha travessa.
— Disponha, bela donzela.
Observo Ezio trocando as flores com todo cuidado, retirando as flores já quase murchas e depositando as que acabara de colher. Uma grande variedade de flores; cores, formatos e tipos. No entanto, a que me chamou a atenção fora à única rosa azul presente entre repetições de outras flores.
— Nunca vi um rosa dessa cor — admiti encantada.
— É mesmo difícil encontrar uma assim, na natureza não existe. Rosas azuis são artificiais. Elas são únicas.
— Únicas... — repeti meio absorta.
— O processo na criação e modificação é longo, mas o resultado fica incrível — afirmou, impressionou a forma tão eloquente que ele se expressava em tão tenra idade. — E pela sua expressão a ideia de trazê-la junto as outras flores foi boa.
Assenti.
Aproximei-me do arranjo de flores que Ezio preparou, aspirando o doce perfume delas de perto.
— Oficialmente serei eu que arrumara e enchera seu quarto com flores, Diva.
Recolhendo as flores descartadas, Ezio marchou para fora. Suas passadas ficaram lentas até seu pequeno corpo ir de encontro ao chão enquanto uma explosão de pétalas e folhas voaram ao seu redor.
— Ezio! — gritei horrorizada.
Fale com o autor