O resplendor dourado enterrado no busto — realizaram o seu desejo.

A boca dela se abriu com um gemido estrangulado emergido do epicentro da dor, porém nenhum som saiu, retido e sufocado pela falta de oxigênio e o choque. O líquido quente subiu pela garganta obstruindo as vias respiratórias enquanto seu cérebro entrava em estado de emergência, um frenesi compulsivo para recobrar as funcionalidades do corpo sem o coração operando. Seus olhos reviraram nas órbitas no ápice de adrenalina. Com a falta de circulação sanguínea, por efeito da interrupção drástica do fluxo, os órgãos começaram a parar por insuficiência e os tecidos morriam. Imediatamente mergulhou em um estado de sonolência, quase como se estivesse a deriva.

Dante empurrou a faca, a lâmina afundou na carne lacerando o coração, uma quantidade ínfima de sangue espirrava à medida que apunhalavam mais insistentemente o peito dela. Ardeu minimamente o contato na pele, mas não o suficiente para causar um dano severo. Ao mesmo tempo, em uma sincronia perfeita, ele e Vergil retiraram as facas e em resposta a ação brusca mais sangue verteu.

Ambos afastaram-se, posicionados em uma distância razoável, localizados a poucos metros de onde estava Diva. Ela permaneceu de pé, imóvel como uma boneca de cera na qual possuía uma palidez fantasmagórica. O vestido curto rasgado embebia-se com sangue fresco que deslizava pelas pernas, revestindo-as com o denso vermelho, derramando e correndo pelos sulcos das fissuras no chão. Ela emitiu um ofego débil tossindo filetes de sangue pelos cantos dos lábios quebradiços e, como se tomada por uma série de descargas elétricas poderosas, gritou a plenos pulmões. Algo que parecia mais como um som animalesco nunca ouvido, estridente e ensurdecedor capaz de gelar a alma. Uma extensão de dores jamais interpretadas — expandindo, dominando e desgastando, excedendo as limitações que a sanidade suportaria. Ecoando em contínuas ondas sonoras no vácuo silencioso, na ausência de iluminação.

Dante experimentou as mesmas sensações dolorosas dela, um reflexo espelhado fruto da conexão que partilhavam. A confusão sensorial obrigou-o a se curvar, travando o maxilar com um gesto aleatório na necessidade quase desesperada de aplacá-la. Tinha consciência que apenas sentia uma parte da aflição infligida a ela. Diva debatia-se de maneira inexplicavelmente assustadora suas mãos iam nervosamente para o face querendo arrancar a força algo impossível de captar com os olhos, que somente ela via e que lhe fazia muito mal. Percorrendo seu sistema nervoso, desligando-o e a queimando-a com a igual intensidade de ácido em suas veias, submergindo em veneno. O rugido monstruoso e lancinante ampliou-se conforme o corpo esporadicamente convulsionava em profundo transe, imersa no casulo de infinitas dores abrasadoras que surgiam em diferentes pontos dentro de si — rasgando, quebrando, rompendo — que não podia identificá-las separadamente, não sabendo onde cada uma começava. Bolhas ásperas subiam a garganta arranhando-a, tornando a agonia dela mais insuportável de testemunhar. Os olhos arregalaram foscos e sem vida.

E finalmente, em meio à visão atordoante, perceberam a transição: os tons escuros do cabelo minguando para os mais claros em ondulações. A escuridão na esclera e na íris sendo substituído pelo reconhecido branco e castanho. Ela soltou um grunhido abafado rangendo os dentes. As chamas negras que a envolviam em um véu protetor mítico, repuxaram-se inibidos pela translúcida iridescência que dela manava. As Trevas arraigaram-se intrinsecamente nela e, feito um organismo parasita, recusava a abandonar sua hospedeira. Ainda que a vontade dele fosse consolidar mais poder, extrair até a última centelha da essência da vida dela, seu tempo se esgotara. O corpo físico não o suportava mais e rejeitava-o, e nada podia ser feito para adiar o inevitável.

A voz grave e anormal masculina, um urro bestial e brotando do estômago, transformou-se em um engasgado choramingo de uma mulher prestes a receber sua sentença, intermináveis minutos de tortura que a tragavam para águas escuras e fundas da inconsciência absoluta e sem volta. Incrivelmente exausta demais para nadar, resistindo a uma correnteza jogando-a de um lado para outro, e não se afogar na imensidão aterrorizante. Atrás dela, ainda absorvida no processo de abstração, a massa vibrante sem definição palpável saia, manifestando seu poder obscuro. Do mesmo modo que, ao apossar-se da garota, seus segmentos de trevas enroscavam-se no centro nervoso firmemente e alongavam por toda tração de consciência ali, agora, era friamente desmembrado.

Desvinculados. Dividindo as duas consciências antagonistas.

Em um impulso enérgico, ele a libertou do seu controle, dilatando-se no ar e alcançando os céus com a velocidade de um foguete. Diva desmoronou sob a escuridão nebulosa recém-aderida a silhueta humana. Ela não esboçou nenhum tipo de movimento para assegurar o sucesso da remoção. Dante disparou até ela, segurando cuidadosamente nos braços, estudando sua feição apática em estado de paz. Tranquilizou o fato de todo sofrimento empregado no torturante procedimento não tivesse lhe suprimido e a dona legítima se reafirmaria logo. No entanto, a imobilidade dela o desconcertou; não ouviu a sua respiração, o ritmo calmo do peito subindo e descendo no exercício de inspiração e expiração. Checou o pescoço, tentando não se alarmar com a inexistência de pulso.

Engoliu em seco.

Nunca tinha estado assim, realmente notado como aparentava serenidade, visto com totalidade a beleza dela. Os anos lhe concederam mais suavidade nos traços, sem nenhuma ação do tempo como se não lhe afetasse. Mas ainda era jovem, esbanjando vivacidade cálida, então demoraria a isso mudar. Embalou-a com ternura, balançando-a para despertá-la do mundo dos sonhos, fazê-la reagir. Certificar que aquele medo era infundado, e não existia razão para estar inconsolável. Tinha prometido não desistir, que a traria sã e salva, repararia pelos erros do passado.

Queria que a primeira coisa que visse ao abrir os olhos fosse ele sorrindo, e que Diva lhe retribuísse com a doçura que só correspondia a ela. Desde que se reencontraram, raras ocasiões que pôde contemplar um genuíno sorriso dela e geralmente não eram destinados a ele.

Vergil aproximou-se do irmão com um semblante cansado e indecifrável, havia rastros de sangue seco na mão que ainda segurava a faca prateada, uma evidência da também imunidade dele. Voltou atenção para a garota desfalecida repousada em seus braços, aguardando, alimentando a falsa esperança, de ela deixar claro que estava lutando contra a morte. Que todo esforço a duras penas tivesse a resgatado bem a tempo, antes do tardio final.

A chama bruxuleante e tênue, como de uma vela, da vida dela apagou-se.

— Doçura? — agitou-a, chacoalhando-a, os membros pendiam flácidos. — Diva? Acorde! Vamos, por favor. Você não pode morrer. Eu não vim até aqui para perder você agora. Ainda temos muito que viver. Juntos, como deveria ter sido.

As palavras dele eram um apelo da alma. Um sentimento que transcendia qualquer outro. Estava novamente perdendo alguém que se importava, que amava. Vergil virou-se, ignorando arduamente a pontada ferina no coração.

— Diva! Abra os olhos. Perdoe-me por ser egoísta e não querer que você parta. — sussurrou no ouvido dela, mesmo que não o escutasse — Eu preciso de você aqui. Diva!

Aninhou-a ao seu corpo, sentindo a temperatura fria dela roçar nele. Inúmeras perguntas assaltaram sua mente, a maioria encontrara uma resposta e outras iriam continuar em branco. Teria sido diferente se não tivesse escolhido devolvê-la ao mundo no qual ela pertencia originalmente?

— Eu amo você e ainda assim conseguiu me destruir, doçura. De todos os ferimentos que recebi esse nunca será curado. Espero que esteja satisfeita. — conteve o timbre neutro de voz, a lágrima solitária escorreu caindo na bochecha dela. — Demônios nunca choram.

A sua mão livre esmigalhou uma rocha, a raiva explodindo e vazando por seus poros. A boca dele retorcia-se de raiva presas cresceram, longas e afiadas, quase cravando no lábio inferior. Um sorriso ensandecido do ápice do lado demoníaco.

Lyana aproveitando a distração de Thanatos na figura condensada de pura escuridão assistindo a cena, arremeteu um soco preciso na lateral do rosto dela. Derrubando-a com truculência no chão. Pegou Yamato, pronta para terminar a luta, quando capturou no ar duas auras em fúria. Foi em direção a Dante e Vergil, deliberadamente deixando Thanatos esquecida recompondo-se do ataque inesperado.

— Não! Diva, não! — lamentou num murmúrio, levando as mãos à boca. Lágrimas grossas fluindo livremente pelo rubor de compaixão e consternação.

O peso do significado do que via lhe desorientou, lançou-se pesarosa para Dante que carregava Diva nos braços. Tirou-a dele em prantos, abraçando-a.

— Cuide dela — exigiu a voz grossa e inumana. Tudo que fez fora assentir. Colocou-se sobre Diva usando a si como escudo. E ao menor sinal de ameaçava a resguardava com seu corpo, não permitindo que sofresse mais lesões. O vento ainda transmitia tensão, esta faiscando, provocando um estímulo motor para gerar chamas. A escuridão — a névoa materializada — olhou para eles, sem realmente vê-los.

— Irá pagar por isso — Dante rugiu.

Os dois mestiços nunca seriam páreos para ele, afinal fora a escuridão dele que os moldou. A criatura não será capaz de matar seu criador.

E, de súbito, o mundo banhou-se com a luz cegante. Convertendo o breu no firmamento, cheios de pontos reluzentes constituídos por estrelas.

— Chega de jogos! É a minha vez!