Between Dimensions
58 The Birth of Daylight!
Meu corpo.
O pronome possessivo soou como um deleite, um prazer quase que proibido. Estava feliz, muito mesmo. Um tipo de felicidade que só se tinha quando adquirimos algo de muito valor, não material, mas sentimental que podemos nos orgulhar veemente de chamar de nosso. Era reaver um direito que cabia única e inteiramente a você e que lhe fora tirado. Recuperar a essência da individualidade há muito transgredida, ocupar a posse de sua mente e ações como sua legítima dona sem interferências. E encontrar a própria liberdade. Estive presa por um longo tempo, muito mais que pude contar, em um confinamento solitário e estritamente hostil. A sensação de viver como uma prisioneira em sua mente e ver tudo que provocaram em seu nome, as injustiças cometidas e as faltas graves que não eram para ter acontecido, mas aconteceram, encheu-me com uma tristeza que por muitas ocasiões pensei que fosse melhor ter morrido — a morte, contudo, não atenuaria a carga de sentimentos negativos, mas concederia-me a falsa pena pelos tantos crimes. O remorso parecia um líquido ácido que ao entrar em contato com a pele queimaria corrosivo, e para mim esse efeito era duplicado e circulava dolorosamente pelas minhas veias em um jorro abrasivo, deixando vestígios de corrupção.
No entanto, estava em paz meditativa, como se todo meu corpo tivesse sido inundado de pura e miraculosa luz, calma e calorosa. Um apelo suave aos sentidos mais intensos e íntimos. Sentia-me incorruptível, intocável e flutuando. Leve demais para permanecer no chão. Nem a gravidade era forte suficiente para firmar no lugar. Em meio às variadas e sublimes emoções, estava contente por não ouvir mais gritos; os ecos da minha dor. Tudo que sabia é que flutuava em um limbo espiritual criado especialmente para mim, à deriva no mar tranquilo no qual tinha absoluta certeza que não me afogaria.
Ergui minhas mãos. Minhas. Enevoadas por conta da energia em inflexível circulação. Meus cinco sentidos estavam aflorados em um patamar mais elevado, tanto que tinha uma percepção mais ampla da verdadeira natureza das coisas — sem restrições.
Tive medo de não lembrar mais de como eu era — e quem era —, minha real aparência: a vibrante garota dourada, que foi de uma garota humana para uma sobrevivente de um clã extinto. Constituí uma imagem diáfana de mim mesma, baseada nas minhas reminiscências onde estou vendo-me refletida no espelho. Meu nome é Ivy Marie Valentine e, embora costumasse ser uma jovem adulta que adorava se entreter com jogos e livros, gastando dinheiros em músicas no iTunes e comendo todo tipo de alimento classificado como junk food, passava longe de ser tipicamente comum. Olhando para mim ninguém diria que eu fosse atípica — ou escondesse algo especial na fachada de não suspeita. O conceito normalidade aplicado a mim tinha desaparecido do meu vocabulário, não se enquadrava mais naquela fase da minha curta vida. Para incluir no meu currículo: uma nova sabedoria que minha alma guardava. Em outra vida — no ciclo inicial de encarnações —, como a líder guerreira Arya Lunier, incumbi-me de uma tarefa que somente eu seria apta a cumprir.
Toquei a tez macia de meu rosto, delineando os traços e contornos com as mãos ávidas de um artista ao estudar seu modelo. E, naquele breve momento de auto descoberta, percebi o quanto era bonita para meus próprios padrões estéticos. Nunca tinha me visto com totalidade e plenitude, nua de impurezas. Não era uma beleza física, carnal e fácil de ler e contemplar, e sim de espírito que só quem possui sensibilidade poderia enxergar com clareza, um dom para poucos.
Estava experimentando a harmonia de conectar-me com energias poderosas em curso, cuja textura aveludada envolvia-me como um abraço materno, preenchendo qualquer necessidade do meu coração. Mas, como se um doce sonhos estivesse desfazendo diante dos meus olhos, um pensamentos me ocorreu: alguém me esperava. Ouvi seu clamor de amor perdido que me feriram por dentro, incontáveis vozes carregadas de sofrimento. A carência e o frio melancólico da dissolução. Havia pessoas que significavam muito para mim e quando a escuridão engoliu-me, estive prestes a esquecê-los, reuni toda coragem e esforço para gravá-las como uma tatuagem que não seria apagada facilmente a mercê da vontade dele. Não era minha intenção machucar ninguém e tinha consciência que precisava confrontar meus medos, dar um basta naquela situação que atingiu proporções alarmantes. Quis voltar, lembrar do real motivo de estar ali, mas não encontrava respostas coerentes para a tempestade de questões irrompendo em pensamentos inquietantes. Alguém chorou por mim e isso me comoveu. Provei o sabor amargo da tristeza daqueles que amava. Doeu. Sangrou. Em uma overdose. Naquele momento quem chorava era eu. Saboreei uma raiva incontrolável, direcionada a uma presença mais obscura.
Ele...
Ele estava lá, em algum lugar. Antigo e cruel, que vagou no linear da minha mente. Não pertencia a esse mundo, e fora trazido para corrompê-lo. Enchê-los com as trevas primordiais. Uma existência antes mesmo da existência. Ele viveu antes de tudo ser criado e tornar-se o que é hoje, tinha sido um agente criador também. A Escuridão dele deu forma ao Inferno e o Submundo, assim como as seres que neles existentes. E me odiava, mais que detestava a humanidade. Éramos inseparáveis em uma época distante, quase como se fôssemos irmãos biológicos, embora pelas nossas almas singularmente fôssemos irmãos. Nascemos no mesmo clã, sob o conceito de equilíbrio de duas grandes forças essenciais, e vivemos a maior parte daquele tempo juntos igual uma família. E então, nos separamos e esse amor fraterno mudou para ódio abstrato. Acreditava que no fundo a ambição e a raiva dele foram desencadeadas por fatores externos e que iria voltar à razão, mas diferente da minha crença ingênua já faziam parte dele desde o começo.
Naveguei mais profundamente nas águas turvas repletas de memórias fragmentadas. O nome dele recusava-se a sair pelos meus lábios, e com as memórias nostálgicas e vívidas desenrolando-se, era como reabrir velhas feridas. Forcei-me a dizer, permitir que o passado enterrado ganhasse uma identidade, e involuntariamente escapou: Seb... Sebastian. O conflito interno veio, precipitado e dilacerante, como uma reação imediata ao nome. Estremeci instantaneamente. A presença dele me acompanhou toda minha vida e não me dei conta, principalmente em pesadelos. E ele matou Alexander...
Tudo se encaixa.
Tínhamos estado em uma espécie de exposição forçada, condicionados a uma associação parasitaria com o propósito de destrancar o acesso ao verdadeiro corpo dele adormecido. O último selo, a oitava Chave, exigia o mesmo Poder que o aprisionara, e ele obteve através de absorção de uma parcela da minha alma. David dissera "minha vida em troca da dele" e foi assim que tudo se originalizou.
O calor do sangue fluiu pelo meu sistema circulatório de maneira dolorosa — formigando —, aquecendo os músculos e levando oxigenação adequada. Meus pensamentos entraram em erupção a medida que empurrava-me para a vigília. Enquanto uma parte convencia-me que o sonho era melhor e mais acolhedor que a realidade. O senso de responsabilidade sacudia-me para luz da consciência, na tentativa de recobrar os sentidos. Bruscamente puxei o ar desesperada para meus pulmões, tossindo para amenizar a secura em minha garganta. Meu coração saltou, batendo descompassadamente e pulsando em meus ouvidos.
Mais raiva.
Mais voraz.
Destrutiva.
Criando uma atmosfera pesada e enfadonha.
Não!, gritei mentalmente, incapaz de me concentrar para ouvir minha própria voz. O choque de auras prontas para colidir, deu-me ânimo para expulsar a névoa que me encobria. Nadei, estabelecendo o ritmo constante nas águas nebulosas e gélidas, atravessando a correnteza e emergindo na superfície com o cérebro à mil. Abri meus olhos, vendo o véu negro das trevas acima de nós. Pisquei algumas vezes, ajustando meus olhos para discernir as várias formas na escuridão.
— Um céu tão escuro não é muito apreciável, não acha? — balbuciei rouca, sem fôlego. Lyana ofegou, mas nada pôde dizer além de expressar sua alegria doce e contagiante em lágrimas que deslizavam pelo rosto outrora marcado de lamentos. Pontos luminosos brilhavam: estrelas solitárias e constelações que reluziram ao meu silencioso pedido. Virei a cabeça, não surpreendida por vê-los: Dante e Vergil. Eles não abaixariam a cabeça e cruzariam os braços ante o inimigo declarado, apesar de estarem em completa desvantagem. Conhecia-os bem para saber que não desistiam daquilo que queriam, podendo até ser teimosos na busca implacável para executar seus planos. O rugido de Dante alcançou meus ouvidos. E os olhos da silhueta escura, duas gemas escarlate, estavam presos a mim.
Lyana auxiliou-me para firmar-me no chão arenoso e irregular. Meus movimentos ansiosos e descoordenados, quase cambaleantes, atrapalhavam minha capacidade de equilíbrio e tive a impressão que reaprendia como usar as pernas. Com meus pés plantados na terra, o desejo de pular, andar, correr para sentir o suor e o cansaço dos ossos e músculos trabalhando em uma corrida, me tocou com uma inocente alegria infantil. Embebendo minha alma com afabilidade e o poder, puro poder se expandir por todo meu corpo.
— Chega de jogos! É a minha vez! — o tom e a cadência sugeriam uma confiança insuperável. Todas as atenções focalizaram-se em mim, a luz imaginária de holofotes incidiu em mim: Dante encarou-me, confuso e impressionado. Vergil mantinha um sorriso discreto que somente eu podia interpretar.
— Espero que não os tenha feito esperar muito — ao me ouvir articular as palavras, vagamente, comparei a minha voz suave e amorosa a cristais cintilantes. Como se ela fosse clara e opalescente, um lago profundo de águas límpidas.
— Não, chegou a tempo — Vergil respondeu com respeito e altivez.
— Eu... Vocês nunca desistiram de mim, afinal — meus olhos arderam, lágrimas escorreram sem que as tivesse chance de deter. Deixem que meus sentimentos suprimidos viessem a tona, uma almágama desordenada. — Nunca pensei... Nunca pensei... Que veria você chorar por mim. Geralmente sou eu que cumpro esse papel, não é?
Dante sorriu.
— Você me deu um susto infernal, doçura.
— Sinto muito, não foi minha intenção. Mas fiquei tão feliz de saber que... Sente tanto por mim a ponto de chorar. Egoísta, não?
Dante acenou negativamente.
— Eu vislumbrei a morte bem de perto, preparei-me para o fim. Escolhi morrer em oposição a minha vontade egoísta de viver e levá-lo junto comigo. — respirei fundo, recuperando o fôlego. Ainda não estava habituada as limitações da retomada do meu corpo. — Consolava-me saber que o arrastaria de volta para onde nunca deveria ter saído. Sebastian!
— Faz séculos que não ouço chamarem esse nome — o tom neutro e desprovido de emoções ressoou como trovões de uma noite tempestuosa, antiga e atiçando meu instinto de sobrevivência. — Três para ser mais exato. Trezentos anos confinado a uma prisão...
Um arrepio percorreu minha espinha, congelando meu sangue.
— Uma da qual você me sentenciou. Estive esperando por um longo tempo esse momento. Essa,no entanto, não é uma reunião adequada.
— Não deveria estar aqui — cortei áspera. — Já não tem mais um corpo que comporte nesse mundo, então não faz sentido que continue nele... É inútil prolongar essa batalha desnecessária. Seu lugar não é aqui, retorne ao selamento e volte a dormir um sono sem sonhos.
— Não está em posição de dar ordens — ele elevou a mão agrupando e canalizando energia, feixes desse poder transformaram em algo semelhante a milhares de agulhas afiadas contra nós. Usei um campo de força para ricocheteá-las, criando uma parede protetora invisível e instável. Não a manteria por muito tempo com as reservas indiscutivelmente baixas de energia, o risco de acabar enfraquecendo a todo ataque que testar sua durabilidade é muito grande. Havia um receio pinicando minha pele que ele tivesse percebido quão debilitada me encontrava e resolvesse, em sua fria vingança, ativar a antimatéria. Dependendo do grau e intensidade empregados, os danos seriam imensuráveis e catastróficos. Nas minhas condições atuais, não suportaria rebater esse imenso poder destrutivo.
A chuva mortal diminuiu e a resistência da parede rompeu, partindo-se como vidro. Horrorizada, tentei evocar uma nova barreira, mas meus esforços não rendiam frutos. Nada funcionava. O fulgor de ouro não respondia meu comando. Receberíamos em cheio os feixes pontiagudos, e tudo que meu corpo fisicamente esgotado se permitiu fazer: esperar as dores dos golpes rasgando minha carne. E nada aconteceu. Dante e Vergil tinha se interposto na linha de fogo, bloqueando os ataques com seus corpos.
— Ah, não! Não! — engasguei aflita. — Céus, não!
— Não está nos meus planos te perder novamente, Diva — Dante e Vergil retiraram as agulhas da pele revestida de uma couraça característica da forma demoníaca deles, esmigalhando-as.
Sebastian moveu a mão.
Todo o ar escapou dos meus pulmões, meu olhar perplexo vagou para o deslocamento incessante e rotativo do poder que ele convocava. Seu tamanho aumentava tornando o céu estrelado um espaço para ocupar uma estrela maligna, trazendo uma recordação das empoeiradas pilhas de conhecimento antigo do período escolar sobre a companheira hipotética do sol, a Nêmesis. Com um displicente gesto de mão, arremessou aquele poder sobre nós. Assustada, sem alternativa e cansada, sem meios para retardá-lo, tive que conter o impulso de gritar. Impotente e vulnerável. Odiava sentir-me fraca, uma flor delicada que se curvava aos estímulos da natureza, sendo abatida pelo mais leve sussurrar de uma brisa matutina.
Sebastian oscilou ligeiramente. As auras dos dois mestiços me confortaram, abraçando cada extensão de meu corpo e abrigando-me em uma fortificada redoma. E, fascinada com a constatação, liberei minha aura transbordando ternura e amor incondicional. Em breves segundos de apreciação: eu era uma chama de vela, pequena e frágil, e eles focos de um incêndio abrasador, um combustível inflamável. A corrente de ar parou. Os gêmeos estavam prostrados na minha frente, seguraram o poder em sua forma mais pura e materializada, interrompendo a trajetória e impelindo-a. E eles absorviam o impacto da estática e opulenta massa de matéria escura, uma definição mais abrangente da energia de trevas. Neutralizaram-na para não passar o limite e o domínio que eles impuseram com os braços estendidos no balanço invariável de auras, uma querendo subjugar a outra. A pressão multiplicada os arrastava para trás e a gravidade afundava-os na terra que também se desintegrava aos seus pés.
— Vocês... — a frase morreu em meus lábios, emocionada por ter o suporte deles e ver o quanto dispostos estavam para lutar. — Muito obrigada.
Assim como Alexander me instruiu no passado, transformei minha energia dourada em um arco e fecha, mirando-a na energia convertida que os gêmeo bravamente retinham.
— É o fim da linha, irmãozinho.
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