Between Dimensions

16 Extra: Cold Hearted Girl


Notas iniciais
Originalmente seria uma estória para dar a uma garotinha que adora personagens femininas e arqueiras, mas decidi postar aqui também :3 Dessa vez apresentando uma Arya mais jovem, arrogante e inescrupulosa e o caminho que trilhou e a fez mudar seu ponto de vista para se tornar a lendária mulher que se uniu a Sparda.

Avançando como o vento, o cavalo atravessou impetuosamente a entrada do pequeno vilarejo. Abrindo caminho entre aldeões impressionados, ele seguiu imponente e gracioso. O silêncio de expectativa era cortado pelo trote firme e desdenhoso do garanhão, ninguém ousara se interpor na direção dele. Do mesmo modo que demonstrava poder e uma postura digna de um animal bem treinado, fazia alguns moradores encolherem-se, temerosos. Ele parou, em espera saudosa. Intrigados com o incomum comportamento do animal, murmuravam entre si uma razão lógica, ainda que estivessem aflitos com a possibilidade de ter ligação com os assassinatos ocorridos recentemente na aldeia.

Uma rajada agitou o ar alertando todos da misteriosa presença que acariciava a crina sedosa do cavalo, ele aparentava afeição com a figura feminina. Esta vestida de preto e encapuzada representado à encarnação da morte. O grito apavorado e estridente desviou a atenção de todos para uma quantidade absurdamente grande de cadáveres, suas feições indicavam que não tiveram tempo para reagir antes de serem dilacerados. Perceberam que aquilo era obra da mulher, que ainda mantinha-se imperturbável ajeitando uma pequena bolsa de couro na sela. Ela carregava em uma das mãos um punhal de prata em detalhes dourados cobertos com sangue. Se tivessem dúvida da culpa dela, já estavam sanadas. Era surreal demais, tudo aconteceu bem diante deles e não viram. Ela os matou com incrível rapidez e silenciosamente...

Apesar do medo generalizado ali, ninguém teve coragem para sair do lugar temendo despertar a fúria da fria e cruel assassina. Ela tirou a capa que a ocultava de qualquer visão indesejada: seus longos cabelos castanhos deslizaram pelas suas costas em intermináveis e delicadas ondas, o seu rosto estranhamente vazio de emoções. Os olhos impassíveis estudaram cada centímetro do local e os rostos assustados dos moradores, ela sabia que sua chegada traria dor de cabeça. Os humanos tinham medo do inexplicável, fazia parte da natureza deles. E, no momento Arya, para eles, era a personificação de tudo que contavam para as crianças em antigas fábulas: um monstro. Isso pouco lhe importava, nunca se preocupou com a imagem e fama que os humanos definiram a si.

Pegando o arco em mãos, preparou-se para o próximo movimento que denunciaria os alvos. Havia matado dezessete demônios e ainda restavam três. Com o tamanho e pelo número de habitante razoável, difícil de acreditar que não conseguiram notar que abrigavam tantos demônios. Algo que julgaria fácil de identificar considerando os incidentes macabros que vinham ocorrendo com frequência irreparável.

Não podia esperar um progresso de criaturas simplórias e incapazes de enxergar o óbvio, mundanos vivam em um mundo ignorante. E aproveitando-se da estupidez deles, demônios infiltravam-se em velocidade alarmante até terem controle e força suficiente para destruir e massacrá-los. A missão que lhe designaram mostrava como estava certa sobre tudo: os seres humanos seriam dependentes e fracos. Constantemente oprimidos e pisados feito insetos. Frágeis e pequenos lhe caiam bem. Arya pegou uma flecha permitindo que o sangue provindo do corte no dedo vertesse pela fina estrutura de madeira. Não precisaria de esforço, seu sangue lhe conferia poder para matar demônios somente pelo toque. Seu clã atribuiu codinome graças a tal poderosa e inestimável habilidade: a escolhida, filha dos céus, princesa vermelha entre outros. Nunca soube de quem herdara esse sangue venenoso tampouco conhecia sua linhagem completa para ter uma base de pesquisa.

Afugentou pensamentos inconvenientes que atrapalhariam sua concentração, acima de dúvidas e sentimentos arbitrários, tinha uma obrigação a cumprir. Sua visão em relação aos humanos não era das melhores, em sua perspectiva não encontrava neles nada que simpatizaria ou despertasse apreço. Entretanto, não os abandonaria pela promessa que fizera quando decidiu seguir como uma guerreira — optando cuidar dos humanos. Anos de duro treinamento lapidaram seu desempenho com arco, deram experiência para tornar-se a melhor arqueira.

Por essa razão Arya nunca errava, sua mira era exata.

Posicionou-se e atirou, o projétil atingiu um homem que se desfez em uma cortina de fumaça com um uivo gutural. Vendo que não tinha escolha, os dois últimos revelaram-se, deixando a forma humana e mostrando o que escondia por trás do disfarce. Arya os encarava, sua atitude arrogante não se abalou diante dos adversários duas vezes maiores que ela. Foi rápida e certeira, eliminou as duas bestas com uma única flecha. Seu pai lhe instruía a ser perfeita quando questão era caçar: atacar para matar sem hesitação. Se falhasse, ocasionaria sua morte e daqueles que deve proteger. E tal fraqueza não seria permitida. Arya guardou suas armas, sentindo incontáveis olhares sob si. Seja de medo, horror ou até mesmo alívio. Todos direcionados exclusivamente a ela. Dois em especial conseguiam ser muito mais incisivos, presos aos seus movimentos.

Ela crispou os lábios em desdém.

— Morando onde vocês acharam ser seguros... Demônios vivendo entre vocês... — afirmou com frieza, subindo em Abysus. O cavalo pronto para partir.

— Como podemos retribuir por ter salvado nossa vila? — o ancião pronunciou-se, seus passos pesados e lentos devido sua idade avançada.

— Não há o que pagar — declarou com firmeza. — Se não querem morrer tenham mais cuidado, afinal não terão a mesma sorte de alguém como eu estar por perto.

As palavras proferidas por ela intimidaram as pessoas. A jovem possuía uma indecifrável aura obscura que compensava seu tamanho e aspecto adolescente de modo que a transformara em um ser ameaçador. Ela era como uma força implacável e insensível, uma violenta tempestade. Tanta indiferença estampada nos belos traços de seu rosto com os olhos de tons nunca vistos antes penetrantes e afiados, carregando um brilho maquiavélico. Só por estar ali gerava terror que nem sequer se comparava a uma horda de demônios sanguinários de outrora.

Satisfeita pelo trabalho bem sucedido, deu um toque suave no dorso do animal que respondeu ao comando e pondo-se a cavalgar em ritmo lento. Nada mais a prendia ali. E embora tivesse partindo, sentiu. Seu instinto não a enganara, havia alguém a vigiando de longe. Saiu do vilarejo ainda com aquela sensação. Irritada com tamanha insistência, a jovem guerreira desceu do cavalo e olhou para o trajeto que fizera para fora. Sombras projetadas pelo sol da tarde vinham até onde estava, na sua direção. A pouca distância lhe deu uma boa visão dos perseguidores: duas crianças. As pequeninas criaturas apertaram o passo, ansiosos para alcançarem-na. Arya virou-se e andou segurando os estribos, queria ter certeza de que sua suspeita tivesse cabimento. E que as duas crianças estejam, de fato, acompanhando-a. Qual seria o motivo para essa sandice? Ficar no mesmo ambiente que ela significaria morte certa!

As largas passadas da jovem dificultavam a aproximação das crianças. Isso, no entanto, não as fez desistir. Estavam empenhadas a segui-la sem se importarem com os perigos que enfrentariam. "Ou são estúpidos, ou tem desejo insano de morte", pensou sentindo a impaciência ferver em seu interior. Arya parou, permanecendo imóvel. O menino mais atrevido tocou sua perna, quase como um pedido mudo de consolo. A jovem o chutou para longe usando um pouco de força para assustar o menino e avisa-lo a nunca invadir seu espaço pessoal, talvez esse sinal bastasse para que recuassem.

— Não sou uma benfeitora, então voltem para onde vieram antes que se machuquem de verdade — informou impiedosa.

O menino levantou-se e ignorando o alerta, abraçou novamente a perna de Arya. Olhando-o com um semblante ilegível, ela desferiu um chute mais potente que jogou o garoto a poucos metros dali. A garotinha correu ao socorro do irmão, a disposição dele para recuperar o fôlego e repetir o ato de afeição dirigida a Arya agitou seu estômago. Ele estava querendo arriscar tanto para receber carinho de uma desconhecida?

Não a comoveriam por tão pouco.

Arya retomou seu caminho, mas não demorou a sentir passou em seu encalço. Perguntou-se que seu impulso em refreá-los não surtiu com o efeito contrário do que realmente gostaria. Tinha que louvar a coragem que os movia, mas não se compadeceria deles. Girando em seus calcanhares, pegou a fina espada e, em um rodopiar ágil, brecou a lâmina centímetros próximo do pescoço pálido da garotinha. Os grandes olhos cheios de perplexidade infantil a admiravam, tão profundamente que era como se lessem sua alma.

Arya respirou fundo, soltando todo ar que não percebeu que prendera. Pela primeira vez em anos, ficou impotente, sem saber como agir. Uma parte sua guerreava ferozmente contra aquele misto confuso de sentimentos que se acumulava em seu peito, a outra queria abraçar os detalhes mais simples de todas as sensações que experimentara naquele breve instante. Um conflito interno criou um tumulto em sua mente. Desde que nasceu e após a morte de sua mãe, ocupou todo tempo em treinamentos e responsabilidades para futuramente subir como a nova líder do clã. Toda sua vida era em função disso e não existia lugar para uma infância comum, uma convivência saudável com pessoas da sua idade. Dedicou-se para ser honrada e poderosa como uma verdadeira líder deve ser.

Então, por que não disso fazia sentido enquanto refletia sob o olhar da menina?

De repente, lembrou-se de ser somente uma garota de quinze anos. Lembrou-se do coração selvagem que batia em seu peito e dos ensinamentos de sua mãe. O impacto da constatação a fez repensar. Não era do seu feitio a compaixão, porém não resistiu à doçura e a inocência daquela menina. Com um muxoxo inconformado, Arya foi até o menino atordoado e o segurou nos braços. Ajeitou as duas crianças na sela de Abysus para que não tivessem que penar pelo percurso. Ambos apresentavam claros sinais de cansaço e fraqueza. Admitiu ter cedido à emoção, ter tomado para si a missão de cuidar daquelas crianças para que não sofressem. Em algum momento se lamentaria da escolha, porém, nada substituiria o calor agradável e gentil que a aqueceu por dentro. Era o correto a ser feito.

Sua mãe teria orgulho disso.