Lyana varreu toda extensão da igreja abandonada com olhos felinos, tendo o máximo de atenção e não perder nada de vista. Queria ter absoluta certeza de que não teria nenhuma companhia desagradável além de ratos. O ambiente vazio e a quietude lhe transmitiam a sensação de estar sozinha, verdadeiramente isolada de telespectadores curiosos.

Vitrais multicoloridos lançaram sob o altar luzes pelo reflexo da lua, a escuridão criou um efeito magnífico. A imagem parecia ter saído de uma pintura surrealista, bela demais para pertencer a um lugar decadente. O ruído oco de seus passos ecoaram à medida que encaminhava-se para contemplar de perto o espetáculo de cores. Sua natureza como mestiça lhe dava uma grande afinidade com a lua, o símbolo da beleza em meio às trevas. Lyana escovou com as mãos os curtos cabelos vermelho escarlate, sentindo a sedosidade emaranhando-se em seus dedos. Aquele momento solene acendeu sua preocupação e, ao mesmo tempo, permitiu que grande parte da angústia acumulada e que chegara a um nível perigoso, fosse tirada de si. Seu suspiro entediado cortou o silêncio. Eles estavam atrasados, isso devia ser obra do mestiço.

Checou o horário pelo celular e deduziu que se tivesse sorte, ambos chegariam antes que ela perdesse a paciência e os caçasse. Algo que faria sem hesitar e com imenso prazer, ainda mais considerando seu histórico. Em meio as sombras uma figura tomou forma, ágil e com uma incrível aura obscura. Ele estava impecavelmente vestido como sempre: calças jeans pretas, botas e casaco. Dessa vez, no entanto, optara não participar da reunião com seu cachecol que normalmente usaria para cobrir metade do rosto e seus incomuns cabelos prateados. Andando com elegância, Gael juntou-se a Lyana que o fitava com uma expressão nada receptível. Apesar de estar consciente de que o único culpado ainda apareceria, não pode evitar repreendê-lo com seu típico olhar "esperava mais de você".

Imediatamente ouviu as portas desgastadas rangerem e desmontarem devido a força bruta da nova presença, o mestiço adentrou o local do mesmo modo que entraria em um bar, sem prestar respeito e com todo ar de despreocupação. O mestiço sorriu em falso gesto apologético. Tanto Lyana quanto Gael o encararam como se fosse um completo idiota exibido. Dante aproximou-se do mestiço mais novo, colocando o braço sobre os ombros dele. Lyana não conhecia tão bem o relacionamento de pai e filho deles, mas pelo pouco que sabia sobre Gael era que odiava esse excesso de contato físico, ainda que fosse receptivo quando se trata de Lyana. Jurava que a personalidade do garoto lembrava muito a de Diva; enquanto a aparência era a cópia esculpida de Dante, no quesito temperamento era a própria Diva.

Gael desvencilhou-se de Dante com um semblante rígido, e cruzou os braços. A falta de companheirismo por parte do mais novo não influenciou o humor de Dante, que riu da reação do garoto.

Com um impulso exasperado, Lyana girou em direção ao fundo do altar. Fios vermelhos cobriam lhe os olhos, e mesmo em uma ação tão abrupta, mantinham-se perfeitamente penteados. Se houvesse algo que se orgulhara em ter uma parcela de essência demoníaca era sua beleza e graça intactas. Nem os anos lhe tocavam como fazia aos humanos. Disposta sob a luminescência colorida, ela passou a mão pelo rosto. Podia sentir os músculos faciais tensos e a testa com um vinco de preocupação. Desde que tudo começara, perdeu o controle da situação: anomalias estranhas surgindo, Diva viajando com o gêmeo de Dante que não deveria estar vivo e outras séries de complicações lhe deixam com a cabeça cheia. Muitas coisas para administrar e vinham em velocidade alarmante contra si. Queria poder concentrar a mente e pensar em uma solução.

— Espero que nos tenha chamado aqui por um bom motivo — Dante exalou firme. — Se tiver algo para nos dizer é melhor ser direta.

Lyana não tinha uma boa referência de Dante, tampouco lhe agrada o humor fora de hora dele. Ela quis realmente socá-lo, por que esse caos é resultado da bobagem que o mestiço convenceu todos a fazer há dois anos. Em parte também se culpava por ter cedido.

— Para começar, que tal calar a boca e só ouvir? — pediu venenosa, a cabeça erguida em desafio. — Você automaticamente se torna atraente se manter a boca fechada

— Admite que sou atraente? — Dante sorriu, sentando preguiçosamente em um banco que estalou com o peso. — É algo que se percebe a quilômetros, sou extremamente atraente.

Gael bufou com a apresentação excessiva de autoconfiança de Dante.

— Modéstia não é uma das suas qualidades, sem dúvida.

— Modéstia é só uma desculpa que as pessoas feias usam para camuflar o que já sabem e encher um pouco seus egos. Eu, pelo menos, sou verdadeiro com meus atributos. — Dante deu de ombros, sorrindo arrogante. — Não dá para ver isso olhando para mim?

— Tem pessoas que superam certas expectativas do excêntrismo — Gael se pronunciou irritado. — No seu caso, a visão do ser esnobe.

— Qual é garoto? — Dante encarou Gael, sem tirar o sorriso. — Não vou ficar esperando que digam o que já sei, admito; sou esnobe. Só que o mundo é feito por nós enquanto os outros tentam ser como nós.

— Não estamos aqui para lidar com seu ego — Lyana observou cética. — Mas fiquei decepcionada por não terem trazido Diva de volta

— Queria que fizéssemos o que? — Dante contrapôs, dando um muxoxo de insatisfação. — A amarrássemos e a trouxéssemos a força? Sinto muito, não faz meu estilo.

— Ah, claro! — respondeu em tom sarcástico. — E deixou que ela viajasse por aí sabendo dos riscos que corre, ainda mais com o selo ativo.

— A ideia do selo foi sua, então não acrescente na minha lista — Dante ergueu uma sobrancelha em descaso.

— Pensei que fosse o melhor para ela — Lyana suspirou abatida.

— Ao invés de discutirem quem tem mais culpa, poderiam encontrar uma solução. — Gael expôs com seriedade palpável.

— Estranhos acontecimentos tem afetado esse mundo, como um grande desequilíbrio ocasionado por algo ou alguém. Primeiro foram às fissuras dimensionais, depois as criaturas, os dois sóis e também a aparição de uma cidade fantasma na China — Lyana mordiscou a unha do polegar, pensativa. — Tem algo realmente errado nisso tudo, seria loucura, mas tenho a impressão de que as dimensões estivessem prestes a se chocar.

— Na pior das hipóteses — Dante completou.

— Ora, que cara de desânimo é essa? — uma voz musical anunciou alto, o som retinindo pela igreja. Surpresos, procuraram o penetra por todo lado. O esforço parecia inútil. Se não tivessem escutado claramente, teriam relevado. Nenhum indício de outra presença pôde ser sentido, absolutamente nada. Dante sacou Ebony e Ivory pronto para pôr o que sobrou da construção a baixo. Acima deles em uma das janelas circulares, havia uma silhueta que não estava lá antes. Eles a teriam notado se tivesse, o que não era o caso.

— Quem é você? — Lyana questionou, suas unhas transformadas em afiadas garras.

— Não seja rude, Lya — gracejou. Lyana reconheceu a voz, porém não assimilou a quem pertencesse. A figura com graça e tenacidade saltou de encontro ao grupo, movendo-se igual a um gato, discreto e despojado. As luzes ofereceram a Lyana base para identificar o intruso: as roupas singulares que constituíam-se de calças negras com detalhes em cinza, a camisa vermelha como sangue sob o colete preto e cinza. Os cabelos escuros com padrões azuis límpidos. Havia uma série de tatuagens desenhadas harmonicamente em seu rosto, cujo design exótico deixava qualquer pessoa encantada e abismada, elas iam do topo de sua cabeça no qual um símbolo que nunca vira antes se centrava e até onde as roupas permitiam mostrar. Transmitindo toda presunção e serenidade, os olhos bicolores: o direito verde igual esmeralda enquanto o esquerdo violeta. Uma mistura impressionante em uma única pessoa... Que ela conhecia.

— Oh, céus... Olly? — Lyana gemeu, atordoada demais para conciliar o que seus olhos viam.

Ela o conhecera com Diva, sendo que o rapaz tinha se tornado um grande amigo.

— Veja só, parece que finalmente lembrou. Segundo a lei dos bons costumes, ao menos para criaturas como nós, é apropriado que nunca esqueçamos amigos e aliados em potencial. Humanos esquecem rapidamente, então esse tipo coisa não se aplica a eles — um fino sorriso formou-se em seus lábios, tanto pela satisfação quanto pela reação que causara.

— Olly... O que faz aqui? O que quis dizer com criaturas como nós? E o que você é?

— São muitas perguntas para uma noite — afirmou, fazendo um gesto pensativo. — Para ficar mais fácil para os envolvidos, me chamem Rá-Al ou pela minha nova identidade, Holy. Seja como forem me chamar, não me importo — o homem moveu-se, incitando Lyana a recuar. — Devem estar se perguntando como não sentiram minha presença, não é?

Rá-Al evaporou em uma nuvem de fumaça com diminutas fagulhas cintilantes dançavam ali, como se tivesse despejado diamantes sobre ele, emitindo o brilho semelhante a estrelas. Reapareceu atrás de Lyana e quando a mestiça se deu conta, girou o corpo. Ele estava muito perto dela, o suficiente para suas roupas roçarem. Naquela distância ela teria sentido outro ser próximo, isso por que seu lado demônio lhe confere percepções mais aguçadas comparadas aos humanos.

— Esse é o privilégio de ser mestre de magia, mais precisamente um feiticeiro de alto escalão — Lyana pisou firme, quase a ponto de atacá-lo. — Vocês só sentiriam minha presença se eu quisesse, mas não levem para o lado pessoal.

Rá-Al não parecia intimidado com a iminente retaliação, e esse traço de sua audácia era um incomodo. Dante que pressionava o gatilho de suas armas, ficou tentado a estourar os miolos do feiticeiro. Entretanto, aprendeu que o certo seria sempre perguntar e depois atirar — ser politicamente correto não era fácil como presumiu. Tudo por que seu instinto que esteve quieto, manifestava a necessidade de resolver as coisas como se acostumara.

— Estou ciente do que houve com a Diva — o feiticeiro pronunciou, fechando os olhos. — É tão raro encontrar alguém como ela atualmente, deve ter sido isso que me atraiu. Fora ser tão parecida com Arya.

— O que você quer dizer?

— Simples: mesmo que não faça ideia Diva consegue atrair qualquer criatura do submundo. — Rá-Al cruzou os braços preguiçosamente. — Iguais a vocês dois, um meio demônio e um súcubo.

Gael ficou inquieto quando o feiticeiro o circulou com atenção, estudando-o de cima a baixo.

— Um viajante do tempo? Não deveria estar aqui, sua presença poderia causar um lapso no continuum espaço-tempo.

Gael desviou o olhar, ligeiramente irritado.

— E é igual à Diva, presumo que seja sua mãe.

— Como você sabe...?

— Não precisa ter um conhecimento aprofundado do assunto, pois, em geral, os filhos herdam fragmentos das auras dos pais. — ele explicou — No seu caso não é diferente.

— Olly, por que nunca contou?

— Essa é uma questão pertinente Lyana, até por que você não contou sobre o que era. Estamos quites. — Rá-Al sentou despreocupadamente em um dos bancos, apoiando os braços no encosto. — Mesmo não tratando de assuntos da minha jurisdição, creio que tenho que dar a vocês um ajuda. Vocês já perceberam que há algo ruim vindo, certo?

— Algo ruim? Está falando das estranhas ocorrências?

— Isso é apenas a ponta do iceberg, há muito mais que esses meros detalhes.

— E eles envolvem a Diva — Dante completou.

— De fato. Talvez alguma profecia... — o feiticeiro concordou. — Se bem que eu não acredito em profecias. Basicamente elas consistem em um idiota tendo que se arriscar para salvar outros tão estúpidos quanto ele. Gostaria de saber quem inventou isso... — ele limpou a garganta e conteve a vontade de rir. — Seja o que for, será a pior coisa que a humanidade já enfrentou...

***

Senti um aperto no peito conforme a sonolência evaporava, lenta e sufocante. Era como despertar depois de ser induzida a inconsciente através de remédios fortíssimos: o corpo pesado, a tontura e a sensação de que meu estômago não suportaria digerir nada. Não havia acontecido nada significativo quando cheguei, Myu me mostrou o templo que cuidava com sua avó e tivemos uma breve refeição antes de optar por dormir o resto do dia. Afugentei qualquer pensamento de que pudesse estar doente, aprendi que devo controlar primeiramente a ansiedade que fazia com que qualquer sintoma eu considerasse algo grave. Talvez tudo isso poderia ter sido ocasionado devido a mudança e não estar ainda adaptada aquele ambiente.

Por precaução vasculhei minha bolsa em busca dos remédios para anemia, prontamente ingerindo-os. Peguei o uniforme e fui me arrumar meio contragosto. Escovei delicadamente meu cabelo, embora tivesse um pouco de dificuldade de desfazer os nós. Terminado a tarefa, encarei meu reflexo no espelho, contemplando a imagem de uma garota com uma expressão de sono e fazendo o melhor possível para aparentar saúde. Olhei para as roupas que constituíam o uniforme escolar do colégio que frequentaria a partir de agora. Fiquei meio incomodada com o tamanho da saia, mesmo que não fosse tão curta assim. Decidi não me aventurar procurando Myu por que considerando o horário ela deve estar cumprindo sua tarefa como sacerdotisa. Aproveitei o tempo disponível para organizar meu material para escola.

Não gostava nem um pouco da ideia de atuar novamente como uma estudante. Geralmente as pessoas passam suas vidas tentando fugir da rotina escolar e quando concluem a parte sofrida de adquirir conhecimento, tem que fazer tudo de novo. Enfrentar as mesmas atividades monótonas comuns e aturar colegas chatos. Não vou dizer que era uma estudante rebelde quando ainda estudava, sendo que, na verdade, sempre fui meio nerd. Não o estereótipo desse termo, não era superdotada de inteligente ou um exemplo a ser seguido tampouco usava roupas ridículas e essas bobagens que atribuem aos nerds. Minhas notas sempre foram um pouco acima da média, ou na média. De qualquer forma, preciso ser uma colegial normal e agir como tal. Verifiquei o celular para ter certeza que não tinha novas informações ou instruções para a missão. Nenhuma mensagem recebida, significa que estava largada a própria sorte.

Ainda distraída mexendo na bolsa encontrei a caixinha de música que Vergil tinha dado para mim. Tracei os contornos dela com a ponta dos dedos, sentindo uma estranha vontade de ficar ali sem fazer nada, apenas ouvindo a melodia do artefato. Guardei a caixinha de música lembrando-me das palavras de Vergil, tínhamos um importante trabalho a fazer e não poderíamos atrasá-lo por motivos pessoais. Tudo devidamente organizado, fui a procura de Myu e a vi varrendo Sandō — o caminho para o templo. Ela trajava uma hakama — calças largas de cor vermelha ligeiramente pregada amarrada com um laço e um haori branco —, seu cabelo escuro estava preso e seus olhos concentrados. Observei ela limpar sem chamar sua atenção, mas pelo pouco que pude perceber dela é sua intuição que é bastante poderosa.

— Ohayo, Aya-chan! — saudou com sua animação natural.

Confesso que ainda não me habituei com o dialeto japonês, embora Myu também falasse fluentemente o inglês, o que me poupava ter que usar o que aprendi vendo animes. Como farei o papel de estudante de intercâmbio, não teria problema em não saber o idioma.

— Olá, Myu. Quer ajuda? — perguntei apontando para a vassoura em sua mão.

— Não precisa, muito obrigada — Myu me encarou por alguns segundos com as sobrancelhas erguidas e a boca aberta em um ligeiro “O”. — Hã! Já está na hora da escola?

Myu largou a vassoura, deixando-a cair em um suave baque enquanto sua expressão comicamente se retorcia em caretas. Por um breve momento ela ficou pensativa, depois seus olhos se arregalaram e eu simplesmente não compreendi a reação dela.

— Não me diga que estamos atrasadas? — Myu bateu na própria testa.

Dei uma discreta risada.

— Não, não estamos atrasadas — tranquilizei, fazendo um gesto com as mãos de negativo. — Só me adiantei. Como não conheço nada e ainda estou confusa pelo horário, preferi me adiantar para não ter riscos.

— Ainda bem! — ela suspirou aliviada. — Vou seguir seu exemplo e trocar de roupa para irmos para escola!

Myu levantou o braço, empolgada. Então se virou com toda determinação para casa, porém ela tropeçou na ponta do hakama e caiu com tudo no chão. Ela levantou dignamente e riu sem jeito.

A manhã estava amena e agradável para fazer caminhadas. Myu teve a cordialidade de indicar qual caminho seguir e a segui, escutando suas instruções. A cidade ficava bem distante tanto da escola quanto do templo, então passamos por um grande trajeto rural no qual a vegetação colorida reinava. Esse ínterim fora conveniente para que pudesse rever meu plano: até o momento não possuía nenhuma informação concreta sobre a Chave, o que seria o mesmo que não ter um ponto de partida para começar as buscas.

Nossa presença foi notada assim entramos nas imediações, olhares curiosos e austeros direcionados a nós, mais especificamente a mim que era a novata — eles não são nada discretos ao ficarem encarando insistentemente alguém que nem sequer conhecem. Mas sabia que não passaria despercebida, como a novidade, ao menos enquanto durar, seria o centro das atenções.

Myu me auxiliou tanto na entrega da papelada quanto na comunicação. A julgar pela reação dos alunos não recebiam muitos novos integrantes, de certa forma, a maioria das pessoas escolhiam grandes centros, e se o objetivo delas for um lugar mais isolado e calmo viriam viver aqui. Por sorte — talvez pela grande influência de David — Myu e eu ficaríamos na mesma sala, o que daria vantagem para me enturmar. Ainda que não me sentisse à vontade com nada ali. Esse era meu problema, nunca conseguia realmente me encaixar em nenhum lugar, fingia perfeitamente o contrário, mas ao perceber isso, a sensação de estar deslocada crescia.

Deslizei para uma cadeira vaga, olhando desinteressadamente o professor dar a palestra sobre boa convivência e outros assuntos que não me dignei a ouvir. Segundo o que ele dissera, incluindo eu tinha mais dois alunos de intercâmbio — introduzidos na classe poucas semanas antes de mim. Os demais alunos pareciam fascinados com a possibilidade de ter contato com outras culturas e fazer novos amigos.

Inerte em pensamentos, não vi um dos novos alunos virar para trás até ele me chamar.

— Terra chamando... — brincou, estalando os dedos frente ao meu rosto.

— Desculpe, estava distraída.

— Nem percebi — ironizou rindo. — Me chamo Kyle e a senhorita distraída é...?

— Aya — respondi um ato quase instintivo. Em todo esse tempo que estivesse trabalhando para David, me acostumei tanto a mentir sobre minha identidade que se tornou quase um hábito.

— Nossos nomes combinam — afirmou com veemência impressionante.

— Essa cantada funciona para você? — questionei com uma sobrancelha erguida em deboche.

— Nunca usei, mas espero que para primeira vez funcione.

Acabei rindo da tentativa dele. Para minha surpresa, havia atraído atenção indesejada para nós. Menos uma. Um garoto permaneceu inalterado em sua postura, ignorando tudo ao seu redor. De tanta gente reunida ali, conversando e interagindo ele não se destacava — ou melhor, era o único que não mostrava euforia, isso fazia ser notado independente de não participar daquilo. O garoto virou-se na minha direção, como se tivesse sentido que o observara. E no instante que vi seu rosto, algo em meu interior se agitou aflito. Um misto de apreensão e espanto tomou conta do meu corpo.

Um déjà vu...

Ele era tão familiar... Mas não os mesmos olhos. Lembro que eram vermelhos... Vermelhos como sangue.