A escuridão estendeu-se no horizonte, ocultando a inócua luz do sol em sua corrente de nuvens visivelmente carregadas. Aos poucos transformou o céu azul claro em cinza opaco e sem brilho, a premonição de uma iminente tempestade que se desencadeava sem pressa. Havia uma camada branca acinzentada deslizando no gramado abaixo de nossos pés, quase imperceptível que dançava conforme o vento as transportava aos arredores. Elas adquiriram mais densidade e espalharam-se rapidamente para os mais diversos pontos do enorme campus, cobrindo tudo com sua cortina branca sem deixar rastros do que existisse lá embaixo. Absolutamente nada poderia ser vislumbrado, nem mediante esforço.

Eu não me declarava perita em nada, mas a mudança brusca do tempo não serviria como uma concepção adequada de normalidade. Em geral, sempre ocorriam ocasionais alterações no clima, pois em ressalva eram bastante instáveis. Entretanto, o dia prometia ser um agradável ensolarado e agora se despontava em nuances negros de um vazio nublado. O nevoeiro prosseguiu deslocando-se e dando a impressão de estarmos entre nuvens, principalmente devido a aparência. De todo modo, para mim tinha um significado muito mais além de uma imprevista chuva passageira, servira como um alerta de que mau agouro espreitava-se taciturnamente nas sombras aguardando o momento propício para revelar-se. E esse pressentimento me atormentava, por que, de certa forma, não me acostumara direito à rotina desestruturada para conservar essa identidade na missão — por muitas vezes quase corrijo as pessoas que me chamam de Alexandra —, embora algumas questões possuir desenvoltura para conciliar sem complicações.

Imersa em um monólogo mental, uma corrente de ar gélido me fez emergir de volta a realidade. Se não estivesse protegida pelo casaco correspondente ao uniforme, a queda de temperatura teria causado um efeito maior e até devastador. Abracei meu corpo para afugentar um pouco do frio que tentava alastrar sob qualquer brecha, esfregando meus braços para gerar atrito. Fazia um grande sacrifício para controlar o impulso de bater os dentes graças às impiedosas rajadas de vento, meus cabelos eram jogados em meu rosto sem sensibilidade. O vento em si eu não considero um aliado fácil de lidar. A tarefa mais árdua que me dispus a perpetrar, no qual falhara mais vezes que pude contar, era domar minhas madeixas castanhas fora de meu foco de visão — por que não há nada mais incomodo que isso.

Com um suspiro de resignação, projetei minha mente em um único e ideal objetivo, este sendo acompanhar concretamente os eventos que se seguiam após a longa e exaustiva conversa — com finalidade de explicar com riquezas de detalhes minhas supostas capacidades psíquicas. Apesar de ser novata nessa questão, poderia encontrar uma utilidade para tal poder. Para todos os efeitos tornaria uma grande vantagem no decorrer da missão, e para sanar qualquer possibilidade de atividades infrutíferas (Falta o essencial: achar a Chave).

O topo da torre avaliava como um lugar afastado da atenção — bem como ignorado —, totalmente discreto, pois segundo que soube raramente alguém ousava invadir essa localidade, os poucos corajosos desistiram da remota chance antes de tentar — nem realmente assustador é. A razão para isso eram vagas, na verdade, não me preocupei em colher informações mais aprofundadas sobre o assunto.

E como os dois últimos períodos eram livres, já que com a proximidade de um evento, os alunos concentravam-se exclusivamente nos preparativos, meio que lhes permitia usufruir seus tempos livres em coisas mais proveitosas que simplesmente aprender a usar o Teorema de Pitágoras ou desvendar reações químicas — grande parte, sejamos sinceros, nem usamos realmente. No meu caso, utilizei essa oportunidade para ter um franco e mais receptivo diálogo com Vergil em prol da nossa missão. O silêncio instalou-se depois de alguns breves minutos de esclarecimento, naturalmente o ambiente se preencheu com e desconfortável sensação de tensão.

Vergil permaneceu em sua postura séria e aristocrática usual, os braços cruzados e recostado na parede de mármore parcialmente escura. Do meu ângulo não podia ver claramente suas feições, mas não precisava ser gênio — ou leitor de mentes — para concluir sem erros que ele estava concentrado na própria linha de raciocínio. Talvez refletindo sobre os fatos lançados, sendo pragmático em suas decisões e pontos de vista.

Chutando uma pedrinha no parapeito, desviei minha atenção para outro ponto que não fosse observar Vergil inerte em pensamentos. Às vezes, pensei entediada, quando a quietude é em demasiada não gera benefícios e, sim transporta-nos a campos proibidos de nossa mente, cuja força obriga a ser mais racional, consequentemente, ter ideias inoportunas sobre tudo. Inclusive a minha relação com Vergil. Apesar dele não ser exatamente do tipo falante — em compensação era um bom ouvinte —, lidar com alguns aspectos da convivência era estranho. A principio não era muito fácil habituar-se a uma pessoa tão diferente de mim, propriamente dito, não tínhamos nada em comum, somente que almejávamos recuperar nossas memórias fragmentadas. Em termos de personalidade além de reservado, não gostava de ter seu estrito espaço pessoal ultrapassado — invadido. Ironicamente eu sempre fazia isso, porém ele nunca realmente se irritou — provando o quão paciente era. Existia em mim uma ínfima partezinha que apreciava esse comportamento, contudo a outra detestava profundamente.

Chacoalhei a cabeça, censurando-me diante de tais distrações, ainda mais referente a um indivíduo emocionalmente estável. Deveria ter sido agraciada com um manual de maneiras eficazes para lidar com Vergil, mas como milagres desse nível são improváveis, restava unicamente ser mais calma e conformada. Admito que ficarmos ali, imóveis, sem falar uma palavra sequer me enlouquecia.

— E com tudo me disse, me admira que não esteja surpresa. — olhei-o de soslaio, metade de seu rosto encoberto na escuridão, não dava para estudar sua expressão. — Na verdade, posso até arriscar que já sabia. Ou isso é apenas uma impressão minha?

— Tem razão, não me surpreendi em descobrir. Mas não tinha consciência de nada disso, embora assimilasse a uma coisa comum.

Fitei minhas mãos que estendi frente a meu corpo, observando-as metodicamente.

— Creio que essas experiências tenham me dado uma mente mais aberta ao inexplicável. — murmurei sincera. — Vendo por uma perspectiva mais exata: isso, meio que, já estivera preparada.

Aquela constatação surtiu um positivo efeito no meu atual ponto de vista, e não somente isso, cessou minhas dúvidas. E em passos milimetricamente calculados, Vergil aproximou-se de mim deixando as sombras para trás. A espécie de aura que o encobria deu lhe mais poder e, comumente, um ar intimidador. Sua atitude causou comoção em meu interior que parecia ter sido acometido por intermináveis ondas de água gelada. Se ao menos pudesse ler sua fisionomia, teria êxito em antecipar seus movimentos antes que me assustasse. Ele me guiou para longe do parapeito da torre, cambaleei e com facilidade impressionante, Vergil me firmou diante dele. Passou um misto de expressões pelo seu belo rosto, e nenhuma identificável.

— Leia minha mente — ordenou subitamente, em resposta fiquei desnorteada. — Talvez haja um vestígio de alguma memória, e com esse poder possa ser extraído.

— Eu... Não sei como ativar ou usar. É espontâneo. — proferi nervosa, temendo que isso fizesse ele se irritar. — E nunca testei para saber a fundo. E sou novata nesse quesito.

— Essa é a sua chance para testar. Faça!

— Eu não sei se posso. E se for perigo?

— Não existe uma definição mais clara de "perigo" para alguém que retornou da morte. — incentivou confiantemente, ainda que meus impulsos não quisessem, cedi ao pedido dele.

Depositei minhas mãos uma em cada lado, posicionado-as acima das orelhas. Meu medo de infligir dano a Vergil nessa empreitada devido a minha inexperiência me impedia de relaxar completamente e me entregar ao poder que se acumulava nos nervos de meus dedos. Fechei os olhos, rechaçando quaisquer barreiras que me atrapalhavam de continuar adentrando sua mente. O ar ao redor, de repente, ficou tão leve que aliviou a pressão que blindava meus músculos.

De início não esperava enormes avanços, porém conforme me livrava dos receios consegui desdobrar uma passagem em seus pensamentos. Semelhante a um bosque deserto e incontáveis caminhos que muitas vezes não davam a lugar nenhum, ou a obstáculos impossíveis de passar. Logo fui recepcionada pela escuridão sufocante, eu não imaginaria que existissem tantas sombras dentro de alguém. Havia vozes distantes que repetiam ininterruptamente frases desconexas, elas comprimiam desagradavelmente o espaço e, no meio daquela confusão sensorial, senti uma desconcertante solidão me entorpecer. Lutava para escapar dali, por que o sentimento frio queria me afogar nas águas escuras, prender-me naquela dor desgastante. Eu, nem sequer, posso conceber que haja uma pessoa solitária dessa estirpe, de certa forma, não me julgava preparada psicologicamente para tais coisas. A lógica apontava que essa era a razão para Vergil ser desprovido de tato ao lidar com os que rodeiam.

Tentei romper as muralhas constituídas de mais escuridão, portanto impenetráveis. Independentes do que desferi para destruí-las, ainda assim mantiveram-se intactas. Elas consumiam tudo, o que era deveras preocupante. O turbilhão de emoções conflitantes, gradativamente, cresceu. E não me pertenciam, mas a Vergil. Quem sabe nem ele se desse conta disso. E diante de tantas dificuldades, não restou outra opção a não ser desistir. Estava pronta para abandonar a mente dele, e ao invés de tê-lo feito como originalmente planejava, detive induzida a uma voz sôfrega que murmurava ao ouvido.

"Estou sozinho!"

E essa declaração destilava tormento, por pior que a umbra me fizesse sentir nada se comparava a angústia proveniente da voz típica de uma criança. Por um instante, desejei oferecer alento ao pequeno ser que sofria tanto, a impotência me corroeu igual o ácido em minha corrente sanguínea.

"Mais poder... Mais poder... Preciso de mais poder”.

A segunda voz tratava-se de um adulto, este possuído pela sede implacável de poder. E sabia que ambas eram da mesma pessoa, tirando as fases que destacavam a diferenças, as duas tinham uma grave reserva de raiva e solidão. Uma linha tênue entre elas, e as equilibrava.

Regressando a minha consciência, o choque abrupto me fez recuar. Experimentar sensações e sentimentos de outras pessoas através de uma peculiar maneira desbravadora drenou minhas reservas de energia, e não obstante confundiam a mim. Grossas lágrimas deslizavam pelas minhas bochechas, enquanto o torpor envolvia meus sentidos. O gosto amargo do doce e sal interceptou meu paladar, pude, desesperadamente, notar que um filete de sangue escorrendo de meu nariz.

Vergil se ajoelhou, definindo-se a minha altura e pôs a minha disposição um lenço. Tremula recolhi-o, em seguida, limpando os rastros do líquido rubro próximo aos meus lábios e que já manchava o chão de madeira conservada.

— Desculpe por isso, acho que é muito mais difícil usar esses poderes assim. Deve algum tipo de mecanismo do meu corpo para avisar que não devo transgredir certas linhas impostas.

— Isso é o de menos. Sente-se melhor?

Assenti.

— Tem certeza? Seu rosto ainda estava com aspecto cadavérico. O sangue que perdeu não foi muito, então há outro motivo. O que viu?

— Nada, exatamente. — decidi que omitir detalhes era uma boa escolha, pelo menos por enquanto. — Estava bastante escuro, isso deve ser resultado da amnésia.

— Creio que sim, mas agradeço pela tentativa.

— É o mínimo que posso oferecer, afinal somos parceiros, não é? Devemos nos ajudar mutuamente.

— Talvez. — respondeu monossílabo. Eu tenho que aprender a decifrar sua linguagem, esse "talvez" vi como algo positivo.

— Vamos voltar, daqui a pouco vira alguém procurar por um de nós.

Vergil concordou, após tranquiliza-lo sobre estar plenamente bem e esboçar meu mais convincente sorriso tenro, ele partiu na frente comigo no encalço. Como minha interação com Vergil limitava-se a coisas que implicavam na missão, não era fácil conquistar um diálogo sobre assuntos comuns e supérfluos. Agora, ao menos, não nos víamos como dois completos estranhos.

— Ah, aí estão vocês! — um chamado estridente e virei-me para ver quem deveria ser o escandaloso. Olhei-o à medida que ele diminuiu a distante que nos separava. O garoto parecia ser mais novo que eu, e seu entusiasmo lhe transmitia mais infantilidade.

— Vocês devem ser Vergil e Diva — ele fixou seu olhar em mim, sorrindo.

— Primeiro: não diga alto, pode estragar nosso disfarce. Segundo: quem é você? E como sabe? — indaguei indócil.

— David me falou sobre vocês. Se soubesse que a famosa Diva é tão bonita teria vindo antes, você faz jus ao nome que tem. Meu nome é Amon, bela donzela.

— Obrigada — respondi mecanicamente, o rosto queimando levemente.

— Adoraria que fosse minha modelo... — disse com visível expectativa, seus olhos brilhavam com a possibilidade.

— Você é pintor? — questionei interessada e deslumbrada (Quem não gostaria de algo assim? Isso vai muito além de um elogio). — Muito obrigada, realmente ficaria lisonjeada, mas não creio ser adequada para ser modelo de alguém...

— Você é perfeita, como disse, adoraria que fosse minha modelo... E apreciaria mais se me desse à honra de pinta-la nua.

Naquele momento, não tive reação, nem soube o que reagir mais precisamente. Quis muito bater nele por tamanha ousadia, mas controlei meu instinto. Amon esgueirou-se para perto, e quando ergueu a mão para me tocar, outra o deteve.

— Não exceda seus limites, posso não ser tão agradável para tolerar isso. Se não quiser perder a mão, conheça seu lugar. — o tom que Vergil usou me deu calafrios. A gentil notificação nem era destinada a mim, e me assustou muito. O olhar gélido e sombrio me fez ter a certeza de uma única coisa: quero morrer amiga desse homem. A força exercida por ele me deu a impressão de estar prestes a partir o braço de Amon ao meio, quase pude escutar o ruído pavoroso de ossos quebrando. Amon recuou e Vergil se viu obrigado a larga-lo, contragosto.

— Hm, você deveria aprender dominar seu ciúme! — exclamou debochado, um petulante sorriso iluminava sua face. Vergil crispou os lábios em desacordo, nitidamente impaciente.

— Não diga bobagens! — intercedi, nervosa. — Não há mal ele querer me proteger, isso não, necessariamente, significa que sinta ciúme.

— Oh, não é ciúme? Pensei que fosse, até por que no lugar faria o mesmo. Nessa questão, você é idêntico a seu irmão.

— Irmão? — repeti absorta, administrando suas palavras com cautela.

— David não falou?

— Sim, ele avisou. Tanto que esse irmão tem causado problemas para vocês.

— Realmente ele tem sido um pé no saco.

— Chega de brincadeira, você não está aqui para dizer sobre as atividades do meu irmão. Diga o que quer e suma.

— Como consegue suporta-lo, bela dama? — Amon piscou contendo o riso. Nem fiz questão de responder.

— Eu estou aqui como uma espécie de representante dos interesses de David nessa missão, queria ver de perto o que ambos faziam para concluí-la. Espero que não se importem.

— Estamos bem cientes da nossa tarefa. Não precisamos de supervisão ou ajuda. Retorne e diga isso a David, pois não serei tão complacente na próxima.

— Ora, não seja mal. Estou aqui para aliviar a carga de vocês por um breve período.

— Eu já dei minha última palavra, não irei repeti-la uma segunda vez. Isso será feito da maneira que acharmos melhor, sem estorvos no caminho. Sua presença aqui é dispensável.

Amon girou nos calcanhares, andando uma direção oposta a nossa.

— Independente de não gostarem, continuarei fazendo meu trabalho. Até logo. — acenou alegremente.

— Era só o que faltava! — resmunguei.

— Cuidamos disso depois. Você vá para o dormitório. Eu vou buscar informações na sala dos professores.

— Certo, nos vemos mais tarde. E mais: Tome cuidado. Por alguma razão sinto que há algo rondando o colégio, não sei exatamente o que, mas está em toda parte. — confessei incerta.

— Descobrirei sobre isso, deve ter uma ligação com a Chave. E não se preocupe, eu vou ficar bem. — para minha surpresa, Vergil deu um rápido afago no topo da minha cabeça tendo cuidado para não bagunça-los. Fiquei paralisada e seriamente desconcertada. Apesar do semblante estoico, ele se esforçou para ter esse ato gentil comigo. Algo que, aparentemente, não era acostumado. — Descanse, já fez o bastante hoje.

— O-obrigada! — me xinguei mentalmente por me atrapalhar ao pronunciar uma palavra simples. Eu sabia bem que meu rosto estava vermelho quanto possível.

Corri em direção ao dormitório. Eu tinha um trabalho a ser feito e me ajudaria a afugentar pensamentos indevidos.

***

Havias mais livros do que posso contar, vários deles espalhados por diversos pontos do cômodo. Como parte das regras do colégio de não podermos usar indiscriminadamente a internet, ou só em casos de estrema urgência. O acesso era permitido somente nos fins de semana, sendo unicamente para contatar parentes. Os alunos se submeteriam a aprender de maneira mais árdua a fazer seus trabalhos com disciplina e rigor, sem distrair-se com coisas inúteis que facilmente encontra-se nas redes — adeus Facebook e semelhantes. A biblioteca possuía um majestoso acervo dos mais interessantes livros, de qualquer matéria exigida. Não tivemos dificuldade ao procurar exemplares para usarmos na pesquisa, esse é um dos motivos de haver tantos no quarto. Queria ter tido colegas tão empenhados num trabalho na época do ensino médio, teria me poupado estresse. Cassie formulou a tese, Sofia — que estava mais a vontade com nossa presença — criava e escrevia inúmeras provas para complementar e eu, além de organizar utilizava meus conhecimentos avançados para compensar em explicação. Horas de ocupação beneficiou nosso término, não demorou a acabarmos com sucesso.

— Finalmente! Estamos livres afinal! — exalou, estendendo as mãos aos céus. — Agora sei como os escravos se sentiram quando a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea!

— Somos uma boa equipe — afirmei satisfeita. Ambas concordaram.

— Agora que tiramos esse peso, vamos aproveitar o restante da noite. — Cassie anunciou sugestiva.

— Você prometeu contar histórias.

Cassie inclinou-se no armário e retirou de dentro uma caixa de papelão, vasculhou o conteúdo e tirou três velas. Ela apagou as luzes e sentou-se no chão, depositando cada vela acesa perante nós, formando um triângulo.

— Em geral as lendas não são terríveis, ainda que um pouco assustadoras. — seus óculos emitiam um estranho fulgor devido às chamas bruxuleantes. — Há quem diga que a escola é assombrada por um espírito.

— Bem, isso não me parece amedrontador.

— E também que alguns incidentes que estão diretamente relacionadas esse espírito, dentre eles o suicídio de duas garotas. O estranho do caso, ambas compartilhavam semelhanças como cabelos ondulados castanhos e olhos da mesma cor. Ninguém sabe como ou o porquê, então fecharam o inquérito sendo proibido para os alunos mencionarem.

— De alguma forma, surtiu como uma indireta. — disse pensativa, tocando minhas longas e onduladas madeixas castanhas.

— Não se preocupe, Alex. São coincidências, nada mais. — Sofia expôs, sorrindo amigável.

— Tem mais: além dessa série de eventos bizarros, há um mistério. A santa Natasha padroeira dessa escola, ironicamente, tinha essa aparência. Você viu a estátua no jardim, não é?

Forcei minha mente a lembrar de qual ela referia-se. E, enfim, relembrei da figura feminina graciosa que portava o Halo do Sol em uma das mãos, posicionando-se como se oferecesse o delicado artefato aos céus.

— Ah, sim. O que tem?

— Aquela é a santa Natasha. Ela presenteou o fundador do colégio com o Halo do Sol, reza a lenda que ele é uma das “portas” de algo. Uns dizem que é provedor do paraíso, outros do inferno. Mas todos concordam que é a chave para algo grande.

Minha respiração travou, e engoli em seco tentando aplacar a ardência em minha garganta.

— Ele existe... Esse Halo do Sol? — inquiri, curiosa.

— Ninguém sabe. Atrás da estátua tem escrituras antigas que talvez expliquem onde ele realmente esteja escondido, mas desconhecem o significado da tal língua antiga. E também mesmo que o tivessem em mãos, somente o sangue certo pode fazê-lo "voltar à vida" — Cassie fez aspas com os dedos com uma dose de desdém. — Essa escola é cheia de mistérios.

— Acho que todas são, só que umas são mais nefastas do que outras, não concordam? — Sofia enunciou encarando a vela.

— E podemos tirar esse clima e fazer uma coisa divertida e do outro mundo. — exclamou sem conter a agitação.

— E o que seria?

Cassie não respondeu de imediato, pegou a uma vela e novamente se pôs a mexer na caixa, dali retirando uma tábua.

Um tabuleiro de Ouija.

Basicamente uma tábua simples feita de madeira que consistiam das letras do alfabeto, números e as palavras "Sim" e "Não" gravados, o instrumento cujo intuito de comunicar com espíritos que nos cercam, mais precisamente relacionado a necromancia.

— Vamos ver se esse espírito existe mesmo.

— Não sei se é uma boa ideia mexer com coisas que vão além do nosso entendimento. — Sofia murmurou alarmada.

— Idem — concordei.

— Parem de ser medrosas!

Eu tinha minhas dúvidas sobre esse jogo, posso não ser muito supersticiosa e nem crédula, porém a má fama desse item desperta meus sentidos de precaução. Embora se cogitasse cientificamente: a indução e a participação ativa dos jogadores criassem algo conhecido como efeito ideomotor — nome dado a influências causadas por movimentos inconscientes e involuntários. Reunidas e velas em seus respectivos lugares, o tabuleiro fora posto no chão.

— Olha, vamos só descobrir se tem ou não um espírito. Não iremos perguntar que dia morreremos ou quais são as respostas da prova de trigonometria da semana que vem.

— Menos mal! — ironizei, irritada.

Nunca tive uma experiência com Ouija, mas sabia como funcionava. O indicador moveria-se para introduzir uma mensagem para esse plano, e seria dessa forma quando os espíritos quisessem se expressar conosco.

Tomando coragem, pus meu dedo no indicador de plástico junto com Cassie e Sofia.

— Vamos limpar a mente e nos concentrarmos ao que nos rodeia. — Cassie proferiu serenamente.

Lentamente expulsei pensamentos inquietantes ou que não serviriam para a situação, visando meditação absoluta.

— Cada uma fará uma pergunta. Serei a primeira. Há alguém entre nós?

O indicador moveu-se.

Reprimi um grito. Não era possível que ele se mexesse, todas aplicavam pressão em distintos ângulos, obviamente opostos. Entretanto, o pequeno triângulo deslizou na superfície de madeira e parou com exatidão no "Sim".

Sofia soltou um gemido ao chegar sua vez.

— Qual é o seu nome? — questionou afoita.

E o indicador pousou no "S" e permaneceu ali.

— O que você quer? — minha pergunta saiu mais autoritária quanto se exigisse uma explicação para um ato cometido imprudentemente. O triângulo, de início, locomoveu-se devagar no tabuleiro e tal como se estivesse puramente energizado por uma quantidade perigosa de cargas elétricas prontas para descarregar, ele nos repeliu. Em seguida, o indicador traçou o próprio ritmo frenético no tabuleiro e um por um formou:

"VOCÊ"

Eu, assim como as outras garotas, estava imóvel seja de pavor ou por incapacidade de processar apropriadamente o acontecido. E ainda persistiu a se movimentar conforme se conduzia nas letras para criar uma nova frase.

"EU QUERO VOCÊ"

Respirei fundo, tentando inutilmente acalmar meu coração.

"NÃO IMPORTA ONDE ESTEJA E QUANTO TENTE SE ESCONDER. EU VOU TE ACHAR. LEMBRE-SE DISSO”.

E em um impulso impensado, chutei furiosamente a tábua para longe. Esta bateu contra a parede e caiu num ruidoso baque no chão, o indicador quicou e rolou sucintamente e estagnou poucos centímetros dos meus pés. As chamas das velas repentinamente extinguiram-se, a janela abriu-se e uma rajada de vento gelado adentrou o quarto. Embriagada de medo e adrenalina, atirei o triângulo para fora sem me abater as constantes provas de uma maligna entidade que se interpôs entre nós. Seja quem for, queriam nos intimidar.

Olhei para as árvores que graças à iluminação da lua desenhava silhuetas tenebrosas nelas, e tive a nítida impressão que estava sendo observada.

Notas finais
Antes que me esqueça, vou avisando que possivelmente o próximo capitulo pode demorar a ser atualizado. Por que tenho prova e vou me isolar do mundo (Embora esses últimos tempos entro cada vez menos '-') durante um longo mês para estudar ç-ç Mas caso surja tempo, vou postar. Espero que não seja tão drástico, de qualquer forma, não abandonarei vocês... Eu acho HUSHUAHUS xD (Calma, é brincadeira '-' Não vou abandonar ninguém não u-u) Até a próxima!