Between Dimensions
9 Action in the Dark!
Apoiei meu corpo na fina estrutura da janela, tentando ver através do sutil nevoeiro se havia alguém ali. Estava transtornada após o ocorrido com o Ouija — este que me rendeu os mais tenebrosos segundos da minha vida com uma mensagem nada amigável, seja quem fosse a entidade responsável, tinha uma espécie de antipatia por mim, ou pior: odiava-me profundamente — ressentia qualquer premonição, podendo ser muito bem obra da minha imaginação. Ainda compelida em descobrir quem nos vigiava com interesse, forcei minha visão limitada à nitidez total. Não houve sucesso nessa empreitada, algo que me frustrou muito. Independente do que fosse, eu queria desvendar se minha suspeita tinha fundamento. Arranjei coragem onde nem sabia que tinha — uma reserva bem dividida —, e com um único propósito sai às pressas do quarto sob o protesto de ambas as garotas. Quando o medo se dissipou ao léu, a raiva predominou e pude recuperar a compostura para perpetrar passos decididos para chegar a meu objetivo. Nem me importei com a política do toque de recolher, por que essa norma é uma das mais imprescindíveis, sendo terminantemente proibido se retirar do quarto sem justa causa. E se tiver um pouco de sorte não terei grandes complicações e um encontro desagradável com a coordenadora.
A brisa gelada me recebeu assim que alcancei o ambiente aberto do pátio, designando-me para o jardim.
Podendo pensar mais calmamente, a ideia de ficar sozinha depois de uma experiência traumática não consideraria genial, embora minha curiosidade mórbida me conduzisse a prosseguir uma busca quase inútil para alimentar um medo irrefutável. Talvez, ainda que sem querer, estivesse fugindo e a vontade de permanecer procurando me ajudasse a aplacar o temor. De súbito, as palavras de Cassie passaram rapidamente pelos meus pensamentos: a estátua da santa Natasha, lá contém as respostas para revelar a localidade da Chave. A luz fornecida pela lanterna não era suficiente para iluminar adequadamente o trajeto, mas pude obter um ritmo para não cair nas armadilhas da noite. Ao avistar a antiga estátua, foquei a lanterna no rosto no qual escorria uma quantidade significativa de água, dando a impressão de estar chorando. Com um misto de admiração e incredulidade, vislumbrei as gotinhas que brotavam exatamente canto dos olhos vidrados e sem vida do monumento. Preferi acreditar em uma explicação lógica de que aquilo fosse água condensada que vazara pela mudança brusca de temperatura do que relacionar com uma atividade paranormal — algo que só é real em filmes. Vasculhei a superfície de mármore, procurando alguma informação relevante. Abaixo da silhueta feminina de mármore conservado, havia escrituras antigas e desgastadas. Cassie dissera que ninguém pôde traduzir o significado por trás delas, contudo eu lia perfeitamente.
“Sábio é aquele que compreende seus limites para alcançar a própria luz”...
“E a compartilha para iluminar outras vidas”
Se eu entender o que essa frase representa, indicaria a existência da Chave nos domínios do colégio. Uma lufada repentina chacoalhou a copa das árvores próximas e suspendeu folhas soltas, trazendo o frescor gélido da noite. Ponderei muito antes de retornar ao quarto, Cassie e Sofia me interrogaram devido a minha estranha atitude. Inventei uma desculpa convincente e me aprontei para dormir. Amanhã seria um longo dia para uma investigação mais precisa. Adormeci ciente do que faria ao amanhecer, estaria disposta a ser mais eficiente quanto possível.
Um aroma de carne podre e óleo queimando impregnou o ar, meu estômago revirou-se violentamente em repulsa. Abri lentamente os olhos, vendo as chamas altas crepitando. Dei um passo vacilante, quase tropecei na barra do longo vestido que usava. Toquei-o, sentindo a maciez do tecido e a forma que se adequava a meu corpo. Em outra circunstância, teria apreciado e admirado mais, porém o ambiente não me inspirava tranquilidade para reparar em detalhes. Tudo que vira era o caos reinar soberano. O desespero me induziu a perpetuar passadas mais ágeis na superfície irregular, escorregando na lama misturada com uma pungente substância que identifiquei sendo sangue, conforme avançava. Habituei-me desde que lembrava à solidão, na verdade, ainda que fosse uma antiga companheira preferia compartilhar minha angústia com alguém para que pudesse diminuí-la — ainda que soubesse que contaria com Vergil. E aquele lugar, embora nunca tivesse estado anteriormente, julgava ser muito familiar. A veracidade dessa constatação atingiu-me com tudo, minha cabeça girava vertiginosamente e a visão turva dificultava bastante minha percepção. Uma voz sussurrante me conduziu pela confusa e opressora atmosfera, fétida e lúgubre.
Com minha experiência em semi-inconsciência, supus ser similar a um daqueles sonhos distorcidos de cunho desconexo e inexplicável no qual era acometida durante esses dois anos. Entretanto, a natureza surreal deste me deixava angustiada demais, quase como ficar presa no fundo escuro de uma caverna, sem saída e amargamente sozinha. Não havia o que compararem concretamente os outros, pois além de apresentarem características assustadoras nunca seriam mais que devaneios que se evaporam brevemente — não havendo nada a temer. Os sussurros na relva assemelhavam-se ao canto fúnebre da reminiscência da vida, agora extinguida. A lua em sua plenitude tece com sua radiante luz prata sob o macabro cenário que se estendeu diante dos meus olhos, contemplando em primeira mão a complexa realidade da guerra e consequência de um campo de batalha em sua resoluta e derradeira forma. O ar carregado com o perfume sanguinário e enjoativo da morte, espalhando-se rapidamente por todo espaço. Chamas altas consumiam as ruínas, construções destruídas se desvaneciam na espessa fumaça escura, tapetes de sangue escorreram languidamente, inúmeros cadáveres largados inescrupulosamente nos destroços, havia desde pessoas idosas a crianças, todos igualmente mutilados e caracterizados no mais puro horror. Eu não sei explicar como pude suportar de pé ante tal barbaridade, era demais para meu psicológico. Meu corpo resistiu ao frio congelante trazido pelo vento, embora sua presença não aplacasse o fogo que devorava tudo. O longo vestido que trajava estava imaculado pelas cinzas e sangue provenientes do meu descuido ao percorrer o sinuoso local. As lágrimas que a custo contive, derramavam-se sem freio. Não é como se isso me fosse indiferente, ainda que não me consentisse a liberdade de extravasar minhas emoções. Conforme prosseguia naquela tortuosa busca em meio aos estragos, mais vislumbrava imagens que não apagaria facilmente da minha memória e se tatuariam em minha mente.
Eu estava pronta para desistir e fugir para longe, onde a dor não me alcançasse, porém meu orgulho se interpôs a essa vontade, eliminando-a sem deixar rastros. Era doloroso para mim, olhar aquela crueldade do ato presente no mais simples e avassalador ataque, para pôr um fim a milhares de vidas inocentes. Uma trilha de corpos me guiaria para o precursor desse extermínio. Paralisei diante do algoz, vendo suas roupas manchadas de sangue, a ânsia de vômito agitou-me por dentro. Contudo, ao virar-se para me confrontar de frente o grito travou na garganta, seja de terror ou surpresa. Ele olhou desdenhosamente para mim, nenhuma expressão realmente legível para identificar o que pensava a me ver depois de presenciar tais atrocidades. De seus lábios foram proferidas palavras que não conseguir entender, ainda não recuperada do choque. E nos braços trazia protetoramente um menino, ele pareceu estar dormindo visto que seu semblante era angelical de paz. O delicado véu azul que cobriu o garotinho caiu e, finalmente, vi o sangue jorrando na perfuração do peito.
— Você falhou! — ele cantarolou, sorrindo. Então marchou para longe, temi não pará-lo a tempo, antes que algo de maior proporção possa ser desencadeado pela fúria destrutiva dele. Acarretaria resultados desastrosos e culminaria numa guerra sem precedentes.
Fora a primeira vez, que senti como se tudo que vivi até o momento fosse um realmente sonho, por que não pude me mexer com rapidez suficiente. Meus pés pesavam igual chumbo.
— Não! — gritei a plenos pulmões tentando alcançá-lo. — Não!
Despertei num rompante, um grito estrangulado na garganta quanto uma das mãos erguidas no furor do clímax do pesadelo. Nunca tive um sonho desses, o mais macabro que tudo já vivenciado. Fiquei aliviada em ter me livrado a tempo, jurava que ficaria aprisionada naquele tenebroso pesadelo. Levantei-me e meu corpo prontamente notificou os pontos doloridos em cada membro, me incapacitando por determinados segundos. Aprontei meu material, ao menos o que seria necessário para ginástica. Nada mais animador que iniciar um dia que promete ser um porre com exercícios que vão diminuir sua resistência a dor e te fadigar. Minha noite atribulada proporcionou uma manhã desagradável e a sensação de uma aura negativa pairando no ar, igual uma nuvem negra que propiciava vigilância. Entrei no vestiário com aspecto de zumbi a procura da primeira vítima, ele estava deserto, porém ouvi um ruído baixinho que devido ao vasto espaço desocupado, ecoava mais ampliado. Cautelosamente, na pontinha do pé, procurei a origem do som.
Ao abrir uma das portas do trocador, pude ver a dona do lamento de cortar o coração, a pequena e frágil figura escolhida, chorando copiosamente. Desde que a conheci pressenti que havia uma forte afeição que me ligava a ela, embora guardasse grande parcela das feridas, criando um muro para se proteger da influência externa, para mim não era difícil perceber seu sofrimento. Eu possuía uma grande capacidade de me sensibilizar com os sentimentos alheios, não por que tinha certa perícia em psicologia, mas sim por acreditar que de mais integro na humanidade é ser solicito com os problemas de outro. Compartilhar dores com o propósito de criar forças e assim enfrentar todo e qualquer tipo de diversidade. Ajoelhei-me e toquei os cabelos desajeitadamente amarrados, Sofia assustou-se e com os olhos brilhando pelas lágrimas acumuladas, que agora deslizavam por toda extensão de seu rosto. Eu não lhe disse nada, apenas esperei que ela colocasse para fora o que a machucava por dentro. Ela se aconchegou em meus braços como uma criança que carecia de proteção, acima de tudo ser acolhida e amada. Ela pareceu relutante à ideia de nos retirarmos do vestiário, sejam quais fossem suas razões, seu medo chegava a ser palpável. Segurei a mão dela, demonstrando meu apoio para que pudesse confrontar os olhares reprovadores dos urubus que se esgueiravam preparados para dar o bote na primeira oportunidade. E exatamente como previ, inúmeros pares de olhos ávidos e censuradores espiando enquanto cruzávamos a entrada e rumamos para o dormitório. Sentia-os perfurarem minhas costas sem restrições. Levei Sofia para o quarto, ela resmungava sobre algo que nem dei importância.
— Tire o dia para descansar um pouco, vai se sentir muito melhor depois de dormir. — aconselhei serenamente, olhando para um retrato ao lado da cama. Na foto Sofia estava com semblante feliz, uma criança adorável lhe acompanhava tal qual um homem de meia idade.
— Hm, obrigada por... Bem, por me ajudar. Conhecemos-nos tão pouco e você ainda cuida de mim. — sorriu melancolicamente, encarando as próprias mãos ansiosas que constantemente remexiam nos lençóis.
— Não me agradeça! — afaguei gentilmente suas mãos, tirando o foco da sua atenção do fino tecido. — Amigo servem para não só ajudar, mas para dar sermões quando necessário e oferecer o ombro para chorar caso não tenham palavras de incentivo. Além disso, não é correto as pessoas se julgarem!
— Você não diria isso se soubesse... Talvez ficasse contra mim como todos... — ela tentou manter o sorriso abatido, mas novamente estava com o rosto banhado em lágrimas.
— Seja o que for, não justifica eles agirem dessa forma e creio que não deve ser tão grave.
— Eu...
— Faça o que eu disse: recupere suas forças. — interrompi séria.
— Antes preciso que saiba.
— Não se sinta obrigada a contar se lhe causa sofrimento.
— É um pouco tarde para isso — riu, sem emoção. — Concordo que sou culpada por tudo que estou passando. — fiz menção de retrucar, Sofia me impediu. — Escute e tire suas conclusões: ocorreu muito antes de você ser transferida. Eu nunca me enquadrei em nenhum grupo por ser muito tímida, dificilmente conseguia me relacionar com outras pessoas. Então, certo dia, fui convidada para uma festa da nata popular do colégio. Vi como uma segunda chance para me encaixar e ser aceita... — Sofia respirou fundo, pegando fôlego. — Até certo momento, estava tudo bem. Eu pude me divertir e explorar um novo mundo. Sabe, eu gostava de um garoto que pertencia a esse meio. Ele me ofereceu uma bebida, eu nunca nem sequer tinha coragem para tomar cerveja. A partir daí, me senti mal e tonta, ele me disse que acompanharia para meu quarto para dormir. Claro, que aceitei... — engoli em seco, nervosa. — Eu não me lembro de muita coisa... Na manhã seguinte, acordei na porta do meu quarto com a horrível sensação de estar suja. Não conseguia entender o motivo para tal, mas nesse mesmo dia virei chacota... Eles tiveram o cinismo de filmar... Eu não me lembrava de nada daquilo...
A história que ela me narrou, processei devagar, enjoada demais para assimilar com clareza. Eu estava sobrecarregada com diversos sentimentos: o pesar, a fúria, impotência, tristeza. Tanto para conciliar que minha mente e coração não poderiam lidar.
— Eles devem ter colocado algo na minha bebida para ter agido daquela forma. Estou envergonhada comigo mesma!
— Não foi culpa sua! — vociferei apreensiva, a raiva transpirando pelos poros. — Eles que são os monstros!
De sobressalto, andei de um lado para outro no cômodo, sem saber o que dizer para confortá-la. Quando nos defrontarmos com uma situação que se diferencia de tudo que estamos acostumados, logo nos tornamos impotentes, ratos presos em uma poderosa gaiola. No meu caso, eu me denominava mais inútil do que poderia, nem me prestava a consolá-la. Movendo-me no modo automático, abracei Sofia firmemente em sinal de que estaria ao lado dela sempre quando precisar.
— Alex... — ela murmurou constrangida.
— Não permita se abalar com que pessoas de má fé tentem fazer para te ferir.
— É difícil ignorar quando fazem questão de te lembrarem. Às vezes seria melhor desistir, sabe.
— Não diga bobagens! — rosnei repreensiva.
— Você vai se atrasar para o segundo período, já que graças a mim perdeu o primeiro. — cortou, abatida.
— Isso não tem muita importância.
— É, mas acho que não deve perder mais tempo. Vou ficar bem, então não precisa me vigiar.
— Okay — enunciei desanimada — Assim que terminar as aulas eu volto para te ver.
Fechei a porta atrás de mim com uma batida suave, as emoções que contive ameaçaram romper a qualquer instante. Estava frustrada por não ter uma atitude auxiliadora para livrar a pobre garota do tormento que os outros a submetiam. Caminhei pelos corredores quase sem vida, visto que a maioria dos alunos encontrava-se no pátio ou em suas respectivas classes. Para mim a solidão funcionou como uma confidente, e nela estabilizar a sobrecarga que insistia em sair. Minha mente trabalhava a mil e despontava em uma terrível enxaqueca.
— Isso foge do nosso propósito nesse lugar. — Vergil alertou, visivelmente impassível. — Temos um objetivo e devemos nos concentrar somente nele, se envolvendo profundamente com as pessoas está fora de cogitação.
— Eu sei disso... Não posso evitar. — expliquei num fio de voz.
— É essa fraqueza que poderá atrasar no objetivo principal — censurou.
— Então o que faço não está certo? Devo simplesmente ignorar?
— Depende, se tirar o foco do que realmente importa, não. Ainda assim, não te responsabilizaria por isso. Faz parte da sua natureza querer ajudar, só que seja mais prudente. Esteja ciente dos seus limites.
Suspirei desolada.
— Mas, não posso impedi-la de agir como bem entender. Você é dona do seu próprio destino. — Vergil confessou monótono, deixando-me surpresa. — Vá para sua sala.
Vergil tinha razão, contudo não pude relaxar após saber daquilo, ainda que não tivesse a mínima ideia do que deve ser feito. Restava-me unicamente ser uma mera telespectadora.
***
Cassie franziu a testa, atenta a algo no celular. Na verdade, todos a imitaram carregando o dispositivo e olhando algo que exigia bastante atenção e, consequentemente, monopolizando-os. Uns portavam feições de repulsa, outros diversão ou confusão. Aproximei de Cassie, ela nada disse — o que já indicava um péssimo sinal — apenas mostrou o vídeo que compartilharam para ela e os demais.
Era o de Sofia.
Dei meia volta, partindo para a diretoria com a intenção de dar um jeito nessa brincadeira que escapou do controle. Não é justo fazerem uma crueldade nesse grau para satisfazer seus egos, por pura diversão maldosa. De longe, observei Sofia conversando com um dos professores, seu estado lamentável. Pelo rumo da conversa e a expressão de ambos sugestionava que estavam no meio de uma discussão. Ela foi embora aos prantos sem notar minha presença.
— O que houve, Sr. Colson? — indaguei fingindo ignorância, sendo o mais inocente possível.
— Não se preocupe, Srta. Alexandra. Um pequeno problema que teremos que resolver. Volte para sua sala, está bem?
— Mas quanto á Sofia?
— Como expliquei antes: não se preocupe que faremos tudo que estiver no nosso alcance para ajudá-la. Esse assunto está sendo discutido por todo o corpo de professores. — ele cruzou os braços com uma expressão cansada. — Presumo que deve saber do viral.
— Eu sei, e Sofia está muito abalada. Ela mal pode se concentrar nas aulas e tampouco quando se é intimidada e humilhada por babacas. Uma escola de tanto prestigio ser indiferente aos preceitos morais e permitir que pessoas sofram com esse tipo de problema, não é tão boa assim!
— Estamos tentando valer as regras para que essa situação seja controlada. Mas não podemos agir como se não existisse a responsabilidade dela no caso, apesar de ser uma aluna aplicada.
— Sofia precisa de apoio e suporte de todos! — proferi exaltada. — Pelo que vejo, sou a única exceção, então eu farei o possível para ampará-la.
Contragosto, retirei-me da diretoria para retornar a sala de aula. Vagamente percebi que o sinal tocara, anunciando o horário de outra disciplina. Deslizei em um assento vazio fixando meus olhos na professora sem realmente vê-la, alguns burburinhos irrompiam o silêncio perturbador. Uma garoa fraca caia lá fora, as explicações da Sra. Miller sobre as influencias nazistas no mundo contemporâneo pareceram longínquas enquanto olhava as gotinhas batendo no vidro da janela, embaçando-a. Entretanto identifiquei uma figura turva caminhando sem direção, sem saída. Nos segundos que se seguiram, a silhueta sumiu do meu campo de visão. Vergil entrou a sala após o toque da mudança de aula, nem percebi o tempo passar.
— Ei, professor já deu uma olhada no viral do momento? — um dos garotos perguntou rindo perversamente. Vergil ergueu os olhos azuis do livro que lecionava para encarar o engraçadinho, um insensível e frio modo de olhar. Como se aquele assunto não lhe interessasse em nada, coisa que de fato era verdade.
— Não desperdiço meu tempo com futilidades, o uso para algo proveitoso. — pronunciou severo, transparecendo sua calma invejável.
— Ah, mas às vezes é divertido deixar as responsabilidades de lado para curtir! — um ruivo articulou sorrindo.
— Ainda mais se tratando de uma das nossas colegas.
A raiva acossou-se de mim, mordi os lábios para controla-lo. A impressão que tive era de que o ar em minha volta sufocava, como se houvesse uma extrema pressão. A sensação de calor nasceu, embora chovesse intensamente. Levantei-me repentinamente, o ardor penetrava meu peito juntamente com a convicção de mau agouro. De repente, soube o que significava. Corri para fora, meu pés adquiriram uma velocidade impressionante e tudo por que no fundo do meu coração seria a motivação que tinha que detê-la. O trovão ressoou imponente. Procurei nas alas que teria acesso, no jardim e por fim no quarto, nenhum deles encontrei-a. Resolvi apelar a uma busca mais aprofundada usando a telepatia. Concentrei-me nos padrões de pensamentos que compusera a ela, fazendo uma espécie de mapa mental. No espesso bloqueio, visualizei uma escadaria e uma porta no final dela. A princípio acreditei ser a torre, mas não tinha semelhança. O único lugar que seria provável era o terraço do dormitório. Decidida à sorte, reiniciei o percurso para o terraço esperando estar certa da escolha. A porta semiaberta tirou minhas dúvidas remanescentes, e subi empenhada degrau por degrau mais rápido que meu fôlego permitiu.
— Pare! — gritei, respirando asperamente. Sofia que se preparava para avançar a beira do piso, parou. — Não faça isso, Sofia!
— Vai embora, Alex! Não deveria estar aqui! — deu-me as costas e continuou se posicionado para atirar-se.
— Venha para cá! — pedi, estendendo a mão. A chuva nem importava mais. — Você não precisa fazer isso!
— Não, eu não posso aguentar! — Sofia virou-se, seu rosto vermelho e suas lágrimas misturavam-se a chuva. — Prefiro terminar com isso agora.
— Não dessa forma, é uma decisão que custará caro!
— Nada se equipara ao que sinto agora. Absolutamente nada! — Sofia soluçou, sôfrega.
— É preferível desistir?
— Sim, assim é mais fácil. Agradeço que mesmo nos conhecendo tão pouco tenha sido uma boa amiga, mas não adianta mais nada. Deixe-me!
— Nunca! Não estou disposta a desistir de você! — exalei segura. — Você é minha amiga!
Ousei executar alguns passos para perto de Sofia.
— Fique longe! Pare se não me atiro! — ordenou confusa. — Estou falando sério!
— Estou aqui por você. Venha.
— Eu sei que você quer me ajudar, eu serei sempre grata, mas... É melhor que seja dessa forma. Nada importa agora!
— Todos nós passamos por momentos difíceis, isso faz parte da vida. Estamos sempre lutando por algo melhor, buscando a felicidade e consertando erros. Não existe uma única pessoa que não tenha sido capaz de cometer erros e se machucar, são através deles que aprendemos e nos tornamos pessoas melhores. Então, você não precisa passar por isso sozinha. Deixe que eu te ajude.
— Alex, eu... Fico feliz que se importe comigo, eu me sinto confortada...
— Os amigos devem ser aqueles que te seguram quando está prestes a cair. Onde se encontra a tranquilidade e nos fornece momentos divertidos. É a luz quando o mundo se faz escuro.
— Estou muito confusa, estou vivendo um pesadelo no qual não posso acordar. Eu queria por um fim nisso, definitivo.
— Vai jogar sua vida fora? Vai fazer as pessoas que se importam com você sofrer?
— Ninguém se importa, e se tiver a dor vai passar logo. E também, podem postar noticias e imagens do que acontecer na net, ficara para sempre lá como esse vídeo. Não é a toa que a chamam de grande rede.
— Seja mais forte que eles, muito mais para enfrentar esse problema... Garanto que depois isso vai se tornar uma lembrança distante. Confie em mim!
— Eu confio, ainda assim... Eu...
— Viva por aqueles que te amam, no seu quarto eu vi o retrato... Da sua família. Eles sofreriam muito.
— Eu os amo muito, minha irmãzinha e meu pai. — sussurrou chorosa.
— Venha, prove para si mesma e para todos o quão forte pode se tornar. Transforme essa dor na fonte de seu poder. Como já disse: eu sou sua amiga.
— Obrigada, Alex.
Durante uma fração de segundos, me senti aliviada por ter obtido sucesso em parar Sofia antes que pudesse cometer a maior e definitiva loucura, a plena serenidade ao salvar uma jovem vida que esteve prestes a perder-se na inóspita escuridão. E com os olhos toldados de lágrimas, Sofia afastou-se da beirada para dar um fim na minha ansiedade. Ao projetar o corpo para frente, Sofia escorregou no chão, que graças à chuva tornou-se mais liso e propenso a causar eventuais quedas, exatamente o que houve. Lancei-me ferozmente na direção dela, sem perder o ritmo e empenho, segurei sua mão e o preço pela investida emergiu sem pudor. Para salvar Sofia, acabei por desabar no chão e o impacto violento deslocou meu ombro. A dor drenou uma parcela de minhas forças, mas contive-a e canalizei-a para não suprir por completo a pressão que exercia no aperto na mão para que Sofia não caísse para a morte. Abaixo de onde nós estávamos, formou-se um aglomerado de espectadores preocupados e um perceptível fulgor dourado que imergiu da estátua da santa Natasha. Havia mais fatores contra mim do que a favor: o ombro deslocado, costela dolorida, a umidade que dificultava meu esforço em segurá-la. Foquei-me em Sofia, eu enfim entendi o que significava a frase.
— Sinto muito! Olha o que minha loucura nos levou. Talvez nem valesse a pena o seu sacrifício.
— Cale-se; falando sem parar não ajuda em nada! — sibilei, um sorriso ameaçando desenhar-se em meus lábios. — Além disso, amigos em primeiro lugar, não é? Somos nós contra o mundo!
Forcei meu braço livre a dar um sustento extra e trazê-la para cima. Meu ombro clamava por descanso nos mais simples movimentos, pontadas doloridas em diversos ângulos do pescoço que passava por toda extensão do braço. Sofia e eu jogamo-nos com vontade para longe do perigo, indo direto ao chão molhado. Sofia tremula se aconchegou em mim, e com cuidado a abracei. Esperamos que chegassem reforços, embora nenhum tivesse se ferido gravemente deveríamos, no mínimo, tiver um médico para cuidar do assunto. O susto culminou num comoção tumultuada: professores, equipe médica e alunos curiosos nos cercaram. As ocorrências seguintes arrastaram-se rápidas, nem consegui acompanhar. Optaram em levar Sofia para o hospital para tratar quaisquer complicações, seja de cunho físico ou psicológico. Uma enfermeira me questionou se queria ir também, porém neguei a possibilidade de precisar de cuidados hospitalares. O ombro porejando não era um pretexto forte o bastante para tal. Os estudantes pareciam muito chocados pelo que aconteceu, e permaneceram imóveis no local. Pedi discretamente para Vergil me acompanhar até a escultura perfeitamente esculpida, ele incomodou-se ante minha atitude enigmática. Pressionando o braço débil junto ao corpo, estagnei próxima a figura feminina em mármore. A dor pulsou insípida, toquei o ponto dormente na tentativa de aplaca-la.
— Deveria ter ido com eles.
— Uma leve contusão no ombro não seria um motivo forte. Estarei bem se recolocar o osso no lugar. E tenho coisas a fazer, ou esqueceu-se da missão? — brinquei, rindo rigidamente.
— Suas condições não lhe dão razão para piadas. E sendo eu um dos principais envolvidos nessa busca, não esqueceria jamais. — Vergil se prontificou a pressionar o osso em seu devido lugar, reprimi um grito estridente perante a ação.
— Hm, obrigada! — agradeci mexendo meu braço para constar que estava realmente bem. — Acho que sei onde está a Chave, ao menos deduzo.
Coloquei-me na ponta dos pés para desprender o adereço que a mulher trazia em mãos, desencaixando-o para libera-lo.
— Ele estava bem no nosso nariz — peguei um grampo de cabelo e desferi um corte na pele alva e delicada da palma da minha mão, o líquido carmesim surgiu do minúsculo ferimento. — E o sangue certo. Cassie me disse algumas coisas que foram importantes para criar uma suposição: a santa Natasha tem as mesmas características físicas que eu, uma entidade presente nesse colégio está ligado a ela e isso me inclui, já que sou parecida com ela. Eu consegui ler a citação que até então ninguém conseguira e o que esta exprimia. Em outras palavras, creio que sou a única que possui o sangue para dar a vida ao artefato.
O sangue gotejou no objeto que originou uma intensa luminosidade, o mármore fora substituído pelo dourado vivo e radiante.
— Eis a primeira Chave! — sussurrei exultante.
Vergil pegou-a, avaliando.
— Ora, vejo que conseguiram! — a exuberante exclamação veio de trás, fazendo com que tanto eu quanto Vergil nos puséssemos a olhar a presença.
Amon sorriu vitorioso.
— David ficara satisfeito. É uma pena para mim, eu queria ter trabalhado com vocês. Farei questão de dizer o êxito na missão. — Amon semicerrou os olhos — Se for conveniente poderia me dar para entregá-lo a David.
— Não, nós vamos fazer isso! — alertei ríspida.
— Uh, como desejar, bela dama. Espero vê-la novamente, quem sabe não aceite minha proposta.
Amon acenou, contente.
— Agora precisamos encontrar mais seis — ponderei pensativa. Uma cintilante claridade emergiu do frágil item, aproximadamente similar ao do sol — fazendo jus ao nome que possui: os desenhos gravados, pequenos símbolos e joia vermelha do centro.
— Mais seis... — Vergil repetiu, seu tom rouco e misterioso.
Tive a impressão de haver algo errado com ele, muito sério.
Fale com o autor