Between Dimensions

2 Back To The Beginning!


It's a great illusion one never knows
When you think you're really alone
Feel the eyes of someone looking in on you

Os resquícios de sono foram estilhaçados e prontamente substituídos pelo alerta, ainda meio entorpecido pela súbito despertar. Lyana continuava encarando-me como se quisesse certificar de que realmente estava bem, e também saber sobre o tal sonho. Conseguia nitidamente saborear a curiosidade emanando dela, quase como se me pertencesse, porém Lyana respeitou meu silêncio e não me questionou. Mantive-me quieta e deitada em meio à bagunça de lençóis formados nas minhas atividades inconscientes de me livrar dos terríveis pesadelos, meu corpo encharcado de suor faziam os longos fios castanhos do meu cabelo grudar em minha pele desprotegida. Respirava profundamente e permaneci de olhos abertos olhando para o teto do quarto, tentando concentrar-me em algo para dar incentivo que necessitava para enfrentar o mundo real. Embora as noites conturbadas de devaneios drenassem minhas forças, eu preferia dormir a ter um dia truculento. Carecia de tranquilidade para organizar meus pensamentos antes que perca a razão. Tentei encontrar uma boa posição para voltar para o conforto — meio masoquista — dos sonhos, diferente do que gostaria Lyana tirou meu cobertor tão violentamente que pensei que fosse me derrubar da cama. Velhos hábitos vindos dela, e não me impressionaria se ela quisesse me puxar para algum lugar de gosto duvidoso. A única mudança significativa em Lyana nesses dois anos é sua aparência, seus cabelos vermelhos estavam curtos e levemente desfiados nas pontas e sua pele poucos tons mais escuros, ela sempre teve um bronzeado impecável e invejável. Podia traduzir o que ela transmitiu para mim vendo em seus olhos de incomum cor de sangue — sem lentes, totalmente natural. Sem muita empolgação e contragosto, sentei na cama e liguei a TV.

— Então Diva, deveríamos aproveitar... — Lyana fora interrompida por um anúncio no jornal diário. Esse tipo de notícia tem sido bastante corriqueira nesse último mês; segundo a repórter uma nova anomalia surgiu no céu de alguma cidade na Rússia, cujo nome nem conseguia pronunciar. Tais deformidades consistem em um estranho espiral que emite forte luminosidade, geralmente aparecem no céu, mas há testemunhas que afirmam tê-los visto em rios ou mesmo crateras em diversas partes do mundo, o que deixa a população alarmada. Ninguém tinha coragem o suficiente para estudar de perto, e como não apresentou nenhuma ameaça o assunto foi tratado como um fenômeno da natureza sem explicação científica — religiosos pregam que seja o fim dos tempos. Bufando impaciente, Lyana desligou a televisão resmungando sobre algo que não entendi.

— Vou ser direta, Ivy Valentine; eu vou te levar para sair e não aceitarei um "não" como resposta!

— Para onde pretende me levar? — indaguei desinteressada.

— Hoje vai ter um show de estreia de uma nova banda aqui na cidade e como a senhorita tem um gosto musical seleto vai gostar de saber que é, precisamente, um show de rock! — explicou esboçando sua firmeza e determinação.

— Hm, não, obrigada! — retornei a deitar ignorando os protestos de Lyana sobre viver isolada como uma planta, disso seria uma mulher amarga que viveria com vinte sete gatos (Eu não vejo um real problema nisso, eu adoro gatos). — E para que fique claro eu não disse só "não" acrescentei o "obrigado" para que veja que levo a sério o que você fala.

Ela fez um muxoxo embravecido.

— Não tem problema, eu te levo a força! — ouvi uma risada suspeita antes de ser, praticamente, arrastada da cama pela minha insana melhor amiga. No susto finquei minhas unhas nos lençóis na desesperada tentativa de escapar.

— Eu vou! Eu vou! — gritei exasperada, debatendo-me para soltar dos braços daquela maluca. — Me solta Lyana!

— Agora se arruma que vamos nesse instante — disse tão radiante quanto uma criança que ganha um magnífico brinquedo. Pensei em fugir, mas seria mais inútil e desnecessário quanto inventar uma desculpa para não ir. Durante esses dois anos Lyana tem me apoiado e estado comigo, isso é o mínimo que faria para pagá-la. Além disso, habituar-se a solidão não é a melhor forma de recuperar do trauma.

A noite cairá com seu manto escuro e a lua iluminava com seu gentil brilho prateado. Troquei-me, escolhi uma blusa justa preta de tecido que imitava couro, uma calça jeans e botas marrons. Nesse ritual demorei menos do que gostaria pensando, quando analisava o sonho não via nada concreto exceto que havia uma pessoa bastante familiar presente. Escovei meus cabelos e os prendi, olhei minha imagem no espelho estudando cada detalhe do meu rosto, se não fosse a testa enrugada de preocupação e a boca comprimida diria que estava muito bem. Lyana apressada pegou meu braço e puxou-me, ela queria me fazer acompanha-la de perto para ter certeza que não fugisse como já fizera uma vez.

O vento frio me obrigava a estar sempre ajeitando meu casaco a todo o momento, minhas bochechas congelavam e certamente fazia meu rosto parecer menos saudável e de aparência cadavérica — pela minha palidez anormal, já que me eximia de qualquer contato com o sol. Isso vem mais da vida atarefada que levo tanto pelo trabalho em meio período numa livraria, a faculdade e as sessões com psicóloga que eram apenas uma vez na semana, porém mais desgastante quanto trabalhar o mês inteiro e cumprindo horário extra. Não reclamo desse cotidiano, ele é tranquilo e, de certa forma, classificaria como uma zona confortável e segura para alguém instável como eu. E meio que andava paranoica nesses últimos dias, incluindo os tais fenômenos bizarros que surgiam e também com a impressão de ser constantemente vigiada. Naquele momento, não era diferente. Eu não prestava atenção no trajeto por conta da estranha sensação de estar sendo observada, mesmo as ruas agitadas e haver um aglomerado de pessoas que, consequentemente, parava para nos olhar passar, alguém conseguia ser mais incisivo. Era como se destacasse na multidão por ter um poder maior. Paramos diante de uma longa fila que levava ao nosso objetivo. O clube recém-aberto para os jovens que procuravam diversão e sossego da monotonia rotineira.

O lugar escolhido para o show era bastante grande, perfeito para acomodar tantas pessoas que vieram apreciar as músicas e aproveitar uma noite tão bonita. Por sorte não permanecemos muito tempo da fila, conseguimos adentrar e logo de início minha visão fora ofuscada pelas frenéticas luzes coloridas que piscavam sucessivamente. O som era alto e agitado, do tipo que faria até a pessoa mais controlada arriscar uns passinhos de dança. Lyana abriu passagem por entre a multidão, ela tinha o pode de fazer coisas assim com facilidade, ainda apanhada a meu braço.

Vendo a animação de todos, resolvi que deveria fazer o mesmo. Fazia o melhor possível para acompanhar os embalos da música e o ritmo energizante da cantora que, não somente transmitia carisma, também instigava todos a participar. Entre pulos, gritos e, ocasionais esbarros por parte da plateia excitada, a música pareceu mais lenta e arrastada para mim. Ninguém além de mim percebeu que algo estava muito errado, não tinha absoluta certeza, mas pressenti uma espécie de escuridão sufocante enchendo o ar; ela cresceu insuportavelmente gerando uma pulsação perigosa e gélida misturada ao ambiente. Lentamente buscava com olhos ávidos uma evidência cabível para tamanha apreensão, nada ali mostrava ser digno de considerar um mau presságio a não serem as investidas incomodas de alguns rapazes. Talvez meu sentido de premonição estivesse exaltado, por conta disso, me confundisse. Ignorando a implacável dúvida, concentrei-me unicamente no espetáculo de luzes e sons.

Uma ocasião rara que devia focar em esquecer meus problemas.

E igual a um sonho, um solavanco inesperado e o breu imperou. A multidão em polvorosa reduziu-se ao total e mais completo silêncio, podia ouvir resmungos e gemidos de descontentamento eclodindo em determinados pontos não muito distantes de onde fiquei imóvel administrando o estranho apagão. As luzes se acenderam novamente e podemos testemunhar um vórtice se desenrolando no palco diante de nossos olhares temerosos, ele assemelhou-se as anomalias que vinham sendo notícia nesse turbulento mês. Um dos integrantes — corajosamente estúpido — curiosos da banda inclinou-se ante a figura e a tocou, a princípio as pessoas se assustaram e outras alvoroçadas. Eu não pude desviar o olhar, por que no fundo estava tão curiosa que queria descobrir mais sobre essa coisa. O rapaz deu um sorriso tranquilizador antes de ser violentamente drenado para dentro do vórtice, este mudou de coloração para um rosa claro e por fim, para nosso terror, vermelho e a explosão de sangue jorrou respingando na plateia.

Os gritos e xingamentos ecoaram pelo ar.

Por um segundo acreditei desesperadamente que estivesse novamente presa dentro de um dos meus pesadelos, daqueles apavorantes no qual não se pode fugir e que podiam se mesclar com a realidade a um ponto que duvido da minha sanidade. O horror e a repulsa devem estar estampados em minhas feições, no entanto, não conseguia nem sequer sair do lugar devido ao choque avassalador mesmo com todo mundo em pânico correndo desesperadamente para fora. Persisti observando o vórtice que dele emergiu uma mão grotesca e, de repente, processei o ocorrido como se fosse um pesadelo, embora soubesse quão real era. Ainda meio inerte e absorvida em transe, senti Lyana me chamar e, em seguida, uma guinada eficaz que me pôs trouxe para consciência. Criaturas saíram e atacaram as pessoas, e o vórtice rompeu-se e formando o mais horrível quanto seria possível monstro. Lyana me guiou pela carnificina, porém ela não mostrava estar surpresa tampouco assustada. Tudo que era importante para ela é manter-me longe desse caos e de preferência bem protegida. Seguranças apareceram atirando contra os monstros que mutilava e matava sem piedade aqueles desafortunados que cruzaram seu caminho. Ver o massacre me deu um sentimento de frustração e impotência, eu queria mais do que qualquer coisa ajudar, mas sou uma mera humana e nada poderia fazer. Travei no segundo que vi um homem prestes a ser morto, Lyana me coagia a andar e insistentemente permaneci imóvel.

— Diva, vamos! — gritou a plenos pulmões, sua exaltação tremeu em sua voz obstinada. — Não seja maluca, o que pode fazer contra essas coisas?

— Eu quero salvar ao menos uma vida!

— Não, Diva! — Lyana tentou novamente me arrastar.

— Me solte Lyana! — grunhi e ela largou meu braço, bem como, se recebesse uma enorme descarga elétrica. Girei nos calcanhares e corri desajeitadamente, esquivando estrategicamente de ataques e me impressionava o fato de que impetrava naturalmente tais feitos. Impulsionada pela adrenalina, arremeti um soco na criatura que a lançou a alguns metros pela tremenda força exercida.

Minha mão doeu muito, mas a alegria fora uma injeção mais potente de ardor correndo nas veias que a própria dor. Estava exultante e surpresa pela minha extrema capacidade física, e ainda mais por ter salvado um inocente das garras da morte. Chacoalhei minha mão dolorida para amenizar a dormência e estendi a mão boa para o rapaz que sorriu e agradeceu por tê-lo ajudado. O lado negativo é que minha atitude agressiva atraiu atenção para mim, semelhante à borboleta hipnotizada pelo brilho de uma lâmpada. Lyana colocou-se frente a mim, resguardando-me. Sua postura indicava que estaria preparada para dar tudo de si para me proteger.

— Nesse trabalho não tenho direito de férias. Acho que um pouco de confusão para animar a noite não faz mal — Lyana revelou confiante. — Vá embora Diva!

— E te deixar aqui? Ficou maluca? — chiei irritadiça, esclarecendo minha contrariedade diante de sua loucura. Pisquei aturdida, e umas séries de disparos audíveis e consecutivos irromperam os ruídos que as criaturas emitiram.

Ela tem razão, é melhor que vá... — uma voz rouca e máscula enunciou, automaticamente encarei as sombras que pairavam ali. E nela pude vislumbrar rapidamente um par de olhos claros. Lyana ficou tensa e nervosa, pegou rudemente meu braço e correu o mais veloz que suas pernas lhe permitiam obrigando-me a acompanha-la a toda velocidade, o rapaz que salvara estava no nosso encalço. Mal pude ver quem era o homem e toda vez que me arriscava olhar por cima dos ombros, Lyana abruptamente me apertava para focar num único objetivo que seria escapar viva daquele inferno.

Paramos e quase tropecei.

Lyana jogou-nos de encontro ao chão quando fomos interceptados por um dos monstros, contudo no processo ela terminou se ferindo. A linda blusa preta fora brutalmente retaliada nas costas deixando um profundo corte sanguinolento, o temor tomou conta dos meus pensamentos e simplesmente apaguei.

Minha visão estava turva e me movia arrastada para alcançar a pistola de um segurança morto próximo a mim, meu corpo doía e a cabeça girava. Meus sentidos estavam atordoados e nem compreendia o que fazia, era como estar sendo movida por alguém — que tomou posse sobre minhas ações — que aparentemente sabia o que deveria ser feito. Usando minhas unhas para impulsionar-me para frente, peguei a pistola vacilante. Eu nunca tinha atirado com nada semelhante e morri de medo de acabar cometendo alguma atrocidade, entretanto apontei a arma para uma das criaturas mais próximas e disparei sem contrição, e todos os outros que ousaram chegar perto tinham o mesmo destino. Eu respirava pesadamente, intrigada por manusear tão formidavelmente uma pistola sem jamais tê-lo feito antes. Levantei-me com um pouco de esforço, mirando em todos os monstros presente sabendo onde atirar e de que maneira mais diligente deveria ser conduzido. Eu agia diferente do habitual, sendo outra pessoa e isso, de fato, me era deveras assustador. Tudo que fugia do meu controle me abismava.

Desmoronei quando não sobrara nenhuma criatura em pé — possivelmente mortas tanto por mim quanto pelo homem —, e olhei desoladamente para a pistola em mãos, parecia tudo fazia parte de alguma vida distante da que tinha. Percebi que chorava assim que as lágrimas caiam em minhas mãos, me perguntava se estaria sonhando ou enlouquecendo, pois seja qual fora a razão não suportava mais.

— Ah, céu... Quem eu sou...? — balbuciei transtornada em meio às lágrimas. O homem aproximou-se em passos lentos de onde jazia, e apontei a pistola na direção dele.

— Não chegue mais perto! — pedi alterada, prestes a puxar o gatilho. O homem abaixou-se ficando a minha altura, ele tocou meu rosto com a ponta dos dedos e encolhi instintivamente com o contato, ainda mais com um mero estranho.

— Está tudo bem — as palavras dele me serenaram. E com uma das mãos suavemente conduziu a arma, que mantive firmemente em punho, para baixo. Os olhos azuis dele me atraíram com a enorme força magnetizante existente neles, ao mesmo tempo em que, uma poderosa dor de cabeça vertiginosa me abateu severamente. Compeli meus olhos a focarem atentamente o rosto do homem, mas o esforço só causou mais dor e minhas forças se esvaíram, até que cedi à escuridão.

Notas finais
Até a próxima!