Just a matter of time, it's another lie
When the fire turns cold, who's here?
It sure looks like it's me

Fui trazida para a vertiginosa consciência pela dor excruciante na cabeça, porém permaneci imóvel sem emitir um único som somente o leve ressoar da minha respiração ritmada. Sentia meus reflexos mais lentos e a necessidade quase enlouquecedora de aplacar a sede que chegava a queimar minha garganta. Meus músculos protestavam por estarem sendo forçados a continuar parados e o fato do meu pescoço estar inclinado num ângulo torto apenas piorou o desconforto. Embora sentisse o impiedoso frio alastrando-se por todas as células do meu corpo, algo grande e cálido impedia que a umidade gélida me tomasse completamente, protegendo-me. Possuía um perfume familiar; uma mistura de pólvora, álcool e outras essências que não pude identificar ao certo e que traziam um imenso sentimento de nostalgia. Eram tantas percepções novas para distinguir e compreender que me deixava desnorteada, prestes a entrar em colapso sensorial. O sono ainda entorpecia minha mente, empurrando-a para a névoa branca e acolhedora do esquecimento. Lutei para resistir a ela, querendo saber o que acontecia em meu entorno. Conseguia captar diversos sons; sirene de policiais, ambulâncias, lamentos e gritos de pânico. No entanto, concentrei-me exclusivamente na conversa sussurrada que se seguia próxima de mim.

— Espero que tenha uma boa explicação para tudo isso, ou melhor, algo convincente! — rosnou a voz feminina que identifiquei sendo Lyana. — É muita coincidência que apareçam demônios e depois você surja tão... Repentinamente! Há quanto tempo está aqui e como chegou...?

Ouvi uma risada sarcástica.

— Não está querendo muita informação para uma noite? — objetou o homem, seu tom de deboche era evidente. — Indo direto ao ponto: estou aqui há pouco tempo, essas anomalias estão causando tantos problemas são portais. Você pode acreditar ou não, essa parte já não é da minha conta, mas estou investigando o surgimento delas. Eryna me pôs a par de toda situação caótica, segundo ela a algo muito grande por trás.

— Não é possível que portais apareçam do nada, ao menos sem alguém que os crie.

— Ela...?

— Não, o selo continua ativo. E ela mal sabe dos poderes, embora por incontáveis vezes eles tentem se manifestar. — um estrondo brando indicou que Lyana havia esmurrado o chão para conter a raiva e atenua-la, e usando a primeira coisa que visse para desferir o soco. — Isso é incrível! Pensamos que estaria segura aqui e olha que acontece? Isso é uma merda de uma ironia!

— Isso não é algo que pudéssemos prever, até por que já deve saber: não tenho bola de cristal, essas coisas combinariam com Eryna. De qualquer forma, você fez um bom trabalho mantendo-a salva — os passos suaves alertaram a aproximação de alguém e o toque quente em meu rosto fez um pequeno suspiro escapar pelos meus lábios, então lentamente abri os olhos. Um par de olhos azuis me fitava atentamente, talvez quisesse ver se não tinha me machucado naquela agitação incessante de outrora. Meu campo de visão estava meio fraco e as imagens borradas como um vidro embaçado pelo nevoeiro. Esforcei-me para enxergar melhor, piscando inúmeras vezes. Fiquei tão desesperada para poder ver nitidamente o rosto desse homem que sentia a frustração expurgar a razão. Dessa vez não vi motivos para temer, embora uma parte bem racional e ponderação dissesse — gritava — que deveria fugir dali, manter uma distância segura e evitar ter mais contato com ele. Agora tudo que minha mente e corpo careciam era de um bom e longo descanso, pois já nem sabia se estava sã ou delirando.

— Ah, ela acordou... — Lyana arquejou segurando minha mão, aquecendo entre ar suas. — Mas parece que você roubou toda atenção dela.

— Há quanto tempo, não é doçura?

— Quem...? — indaguei tonta, sentindo-me embriagada de sonolência. — é você...?

— Isso não importa, tudo que precisa saber é que estarei tomando conta de você.

E, de repente, meu sangue ferveu e a raiva me deu uma — completamente louca e estúpida — vontade de chorar. Não entendia a natureza das minhas emoções, elas inconvenientemente eclodiam e, de certa forma, nas piores ocasiões e sem um nexo — uma motivação plausível. Havia uma infinidade de coisas amargas engasgadas na garganta, elas estiveram dormindo por um longo período e transbordavam descontroladas iguais as águas oscilantes de uma torneira quebrada. Meu maxilar trancou e sem força, tive o impulso de cerrar os punhos. Ainda que não quisesse transparecer o ressentimento, raiva, humilhação, frustração eram, estranhamente, visíveis — e o que mais? Chateada? Cansada? Ah, um misto de emoções que deteriorava o bom senso. E mesmo estando confusa sobre tudo que ocorreu, minha ira, para mim pelo menos, era justificada e a teologia em si tinha fundamento — sem explicação —, mas ainda assim tinha.

— Eu não preciso de você — a frase articulou-se com minha voz, sendo proferidas pela minha boca seca, mas o tom rude e carregado de inimizade e os sentimentos negativos e doloridos não me pertenciam, de fato. Apesar de claramente não estar confortável com sua presença e a adversidade encher o espaço, deixando uma forte tensão pairando, ele sorriu inabalável.

— Ela continua tão feroz e orgulhosa quanto antes.

— Esperava o quê? — disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Na verdade, eu fico até feliz que ainda tenha sobrado nem que seja um pouco daquela Diva. — queria ouvir mais sobre o assunto, ele parecia me envolver diretamente — tanto que citaram meu nome como se referissem a outra pessoa —, todavia o sono me afogava em águas escuras da falta de sentidos, um a um iam esvaindo-se: — E ela ter te rejeitado torna esse prazer ainda maior.

— Certas coisas não mudam, estou habituado a ser amado e odiado. Todo herói precisa ter uma pedra no caminho, não é mesmo?

— Idiota!

— Eu já tive muito para assimilar por uma noite e ainda não entendo totalmente o que houve — murmurei, minha voz fraca e rouca devido a queimação na garganta. Minha cabeça doía mais do que podia aguentar, mais do que concebia. O tal homem tentou me auxiliar e com o pouco de força que me restava, dei-lhe um ruidoso tapa na mão. Uma reação bastante arisca e puramente desprezível. Pronto, as primeiras lágrimas rolavam pelas minhas bochechas congeladas. Eu não deveria chorar... Ou deveria?

Não quero que me toque... Perto de você me sinto nervosa... Traída... Você me desperta algo ruim... — confessei virando com dificuldade para o lado oposto, sem coragem para olha-lo de frente ainda mais com cílios molhados e os olhos vermelhos, uma expressão patética para alguém na minha posição. — Eu nem te conheço... Mas... Isso não faz sentido...

Encolhi-me buscando o calor do meu próprio corpo para aquecer a nevasca que afligia meu estômago. Lyana pousou a mão em minha perna e mexendo-a, gerando atrito e consequentemente o calor. A presença do homem não deixou o local e por intuição — inquestionável —, conclui que permaneceu ali, calado. Lyana observava-me com pesar, e então franziu o cenho. Sua boca colorida de batom vermelho se abriu num "O" de interrogação e surpresa. Lentamente passei os dedos no nariz e neles o líquido carmesim tingia.

— Ei, little baby, você está bem? — Lyana interrogou com aparente apreensão. A dor em meu crânio me fez desejar que tudo que ocorreu nessa noite que deveria ser divertida e, em uma violenta guinada, virou um tenebroso pesadelo fosse um dos meus habituais devaneios. Este no qual anseio acordar antes que me veja presa, uma mera refém da ilusão macabra. Minhas pálpebras pesaram e persistentemente forcei-me a ficar desperta.

— Oh, Diva! Ela está perdendo a consciência novamente, Dan...

Sucumbi à pressão, permitindo que a inconsciência me dominasse por completo.

Meus sonhos e memórias interligam-se em uma linha tênue de encontro à razão. Há tantas coisas que não foram devidamente explicadas, mentiras jogadas ao ar como verdades absolutas, fatos que estão intimamente ligados a mim e que somente através de minhas memórias poderia decifrar e o estranho sentimento de falta — de algo ou alguém. Uma abstinência desoladora e insuportável, quase uma vontade louca de buscar o elemento final para me ver livre disso, por fim me completar. A única certeza concreta e imutável que possuía era de escondem um grande — realmente grande — mistério de mim e que está atrelado ao passado perdido. Por muitas vezes me perco sobre tudo que me rodeia, se são obras da minha mente ou tão real quanto essa confusão que assola meus pensamentos. Existe algo muito obscuro envolvendo o passado, isso é uma certeza concreta e absoluta. Sei que há muitos segredos que me ocultam, Lyana é a principal delas, posso notar que por trás da sua atitude alegre e entusiasta camufla o sorriso falso e a preocupação inexplicável.

No que mais devo acreditar?

A nítida impressão que tenho é que estou vivendo em uma mentira.

Imagens desconexas invadiram minha mente enquanto lutava com unhas e dentes para voltar a ter plenos poderes sobre minha consciência. Sentia-me presa a uma cadeia de eventos terrivelmente sem coerência, onde se encontrava intermináveis direções para distintos trajetos cujo final era vago. Aos poucos o caos fora se esvaindo, dando lugar a uma sequência mais legível de fatos. Eu corria perdida nas sombras profundas de mais outro pesadelo, estava tão habituada com aquilo que se não estivesse fazendo-o por um golpe do acaso, consideraria que tivesse errado. E essa tem sido minha sina, pois já fazia semanas que era só isso que fazia. Outro ponto importante é que seria a segunda vez que sonhara com essa ambientação digna de um cenário espectral e influenciado pela escuridão, em consequência disso à claustrofobia dava a impressão que estava presa numa cela, apertada e sufocante. Ainda tinha liberdade de fugir, embora não houvesse o rumo a seguir. Eu apenas me sustentava firme com a vontade de encontrar segurança e o empenho para prosseguir meu trajeto, a fixa ideia que seguindo em frente pudesse achar o que tanto almejava. Contudo me contentava só por conseguir me movimentar para escapar do, seja lá o que for, bem escondido na umbra. Na verdade, eu alimentava um medo irracional de algo que nunca, até certo ponto, chegou a sequer me tocar.

Geralmente esses sonhos sempre me faziam redescobrir novas percepções e também me mostravam o quão louca estava — como diria a minha auto declarada terapeuta Lyana: estou doida de pedra.

Com os pés desprotegidos, a corrida ganhou um nível de dificuldade ainda maior. Junto com o frio, escorregava no lodo a todo instante e machucava minhas pernas tanto pela velocidade sem precedentes quanto pelas pedras afiadas no terreno irregular. Meu corpo estava perto do limite, mas determinada do jeito que estava não parei e aos tropeços e cortes, fiz minha passagem pela vegetação selvagem imersa no escuro. Enquanto restabelecia o melhor e mais eficaz ritmo, percebi que não corria por medo realmente; e sim, esse esforço todo, servia para descobrir quem era — e aquilo que me perseguia pode ser claramente uma parte de mim que significava expor-me ao perigo. A rapidez exacerbada e a rajada de adrenalina me jogaram contra o chão graças a meu maravilhoso equilíbrio. Meu pé enroscou-se em um gume de terra e raízes, levando-me a mais ridícula situação de cair de cara. A queda teria sido bastante dolorosa se a grama macia não absorvesse o impacto, e a minha sorte é que o único ferido era o meu orgulho. O frio conseguia atravessar os limites das minhas roupas e roçar que cruelmente em minha pele, automaticamente projetei-me para perto de uma das duras construções para que assim pudesse garantir o mínimo de conforto e segurança. Fileiras de pedras finas apareciam através do nevoeiro que se arrastava pesadamente pela grama úmida, o orvalho impregnava minhas roupas com lama e água.

O forte aroma de terra adentrou minhas narinas trazendo um estranho torpor, tal como o incômodo de estar completamente encharcada. Pude identificar as lápides de mármore desgastado, pequenos monumentos de querubins e seus rostos petrificados que formavam túmulos. A névoa cinzenta rodopiava ao meu redor, obscurecendo meu campo de visão. A sensação aflitiva pulsava no ar, o escuro oferecia mais desconforto e o constante estado de alerta. Meu cérebro enviou comandos para todos os músculos resetados, que demoraram a administrar minhas ordens. Respirei pausadamente, buscando recuperar-me do susto. Meus longos cabelos formaram uma densa cortina, bloqueando minha visão. Não durou nem um terço de segundo para que, cuidadosamente, me pusesse de joelhos, embora minhas mãos escorregassem no lamaçal. Naquele momento, lutei para ao menos ficar prostrada corretamente no chão sem aparentar estar sob efeito de alguma droga pesada — que não fosse a letargia. Adoraria poder achar algo que me fornecesse calor, visto que minhas roupas estavam muito úmidas e grudavam na pele. Estabilizada no lugar, encarei a silhueta imóvel diante de mim. E pela pouca iluminação — quase inexistente —, consegui desvendar a misteriosa figura sendo um homem sentado numa das lápides. Ele me olhava de volta, sem demonstrar interesse. Sem enxergar adequadamente não pude ver como ele era, mas isso não me importou muito. Os olhos azuis me serviam como identificador; o par de gemas com a tonalidade azul celeste mais bonita que já vira.

Pisquei desorientada.

— Você é o homem daquela vez! — arfei perplexa. O homem desviou o olhar, tomando minhas palavras com um sutil escárnio. Os olhos comprimiram-se ante a minha euforia e fecharam-se, dando a entender sua inexpressividade. Estava prestes a lidar com uma pessoa cuja personalidade não seria agradável e um sério desafio a paciência.

— Ah, bem... — fiquei atrapalhada sobre o que perguntar. — O que faz nesse lugar?

Ouvi um muxoxo descontente, em seguida, um silêncio cortante que se prolongou pelos minutos seguintes.

— Essa questão me corresponde, afinal foi você que inesperadamente apareceu por aqui. — sua resposta fora direta e frígida o suficiente para desejar nunca ter começado o assunto. E concordo, eu que invadi... Espera, esse é meu sonho e podia fazer o que quisesse!

Cruzei os braços, irritada.

— Estou meio perdida, morta de exaustão, ferida, molhada e gostaria que a única vida presente nesse sonho fosse um pouco menos desagradável ou tentasse ser gentil! — revirei os olhos. — Não peço demais, não é?

— Sonho? É isso que pensa? — seu tom era monótono, calmo e distante. Ele crispou os lábios em discordância.

— E se não é um sonho o que mais seria, Sr. Misterioso homem sábio? — usei meu timbre mais dócil, porém com uma pontada de cinismo.

— Certamente um local onde pessoas como você não são bem vindas — respondeu indiferente, usufruindo todo o estoque de crítica mordaz existente. Foi semelhante a um afiado punhal de gelo — talvez receber um golpe doesse menos que a atitude rígida e invasiva daquele curioso homem.

Hm — fora tudo que lhe disse. — Não é solitário? — inquiri inquieta pelo ar congelante que fazia minha respiração sair em vapor. A tensão e o silêncio constrangedor me causavam uma crise de ansiedade. — Aqui, sozinho nesse lugar?

— Ao passar dos anos tende-se a acostumar a certas privações; essa é minha vida.

— Faz muito tempo que está...? — nem precisei completar para que ele entendesse perfeitamente.

— Mais do que posso me lembrar — esclareceu apático.

— E sua vida antes? — ousei questionar. A princípio pensei que ele não respondesse ou mesmo me daria uma resposta atravessada, mas ele prosseguiu ponderado.

— Eu não sei; esse lugar é minha única casa. Não tive outra vida antes dessa, ou se tivesse apenas se tornou parte de um passado que não conheço — anuiu cético, voltando sua atenção a mim. Engoli em seco, sentindo o meu rosto queimar denunciado meu rubor.

— Você não se lembra... — sussurrei compreensiva. — Mas não gostaria de viver num lugar cheio de luz, Sr. Misterioso?

Levantei tão depressa que minhas pernas quase cederam à gravidade, limpei as mãos e estendi a ele. A expressão dele era indecifrável, uma incógnita de sentimentos passou pelo seu rosto levemente camuflado nas sombras.

— Sonho ou não, venha comigo... Você afirma que podemos nos acostumar com esse tipo de limitação, mas... Eu não penso assim, a solidão não é e nem nunca será uma opção. — sorri amigável — Aliás, eu sou Diva e você...?

— Talvez você esteja certa, menina — torci o nariz em insatisfação pelo modo que ele me chamará. — E meu nome...

Despertei com algo preso na garganta, uma simples palavra travada atrás de uma língua teimosa e uma mente conflituosa. O susto atordoou-me demais e mais ainda por não reconhecer de imediato onde estava. O alívio e a gratificação por estar na segurança da minha casa não eliminaram a nuvem negra que pairava sobre minha cabeça, repleta de dúvidas crescentes e o temor angustiante. Nada semelhante acontecera antes nesses dois anos, tanto que me conformara à ideia de nunca mais lembrar — da especifica — das memórias que desapareceram. Atualmente elas, que antes se continham enclausuradas, estavam prontas para se libertarem não importando se o preço a pagar seja destruir minha mente no processo. Minha concentrada linha de pensamentos se interrompeu assim que ouvi o som da porta sendo aberta.

Lyana apareceu sorrindo segurando uma bandeja que deduzi ser o nosso café da manhã, ela o depositou no meio — entre nós duas. Havia uma parte minha que me impulsionava começar a questiona-la sobre tudo que houve até então, e a outra só queria seguir a vida sem perigo e de preferência com nada relacionado a esse incidente. Escolhi o lado sensato, recolhendo qualquer intenção que não fosse unicamente comer — um bom plano é tentar por parte. Convicta nesse pensamento, devorei o pedaço de torta em questão de segundos e tomei o suco com a rapidez de um raio. Meu apetite me surpreende pelo quão voraz possa ser (Comida é e sempre será uma boa distração). Lyana ria da minha desenvoltura para comer, fazendo a tensão desaparecer por completo e todos os maus presságios derreterem esquecidos. Mantemos o mínimo de conversas possíveis, talvez minha atitude indiferente possa tê-la feito acreditar que tudo o terror de ontem não me afetasse. Considerando que nem toquei no assunto desde que acordara, seria um grande trabalho para ela me explicar e cansativo para mim, por que tinha ciência que a verdade jamais seria revelada facilmente. E esperar uma novidade de Lyana é uma perda de tempo. Não custava dizer algumas palavrinhas em relação ao ocorrido.

— Bem, eu tenho que ir. Cuide-se, Diva! — disse beijando minha testa e levando a bandeja dali.

— Lyana sobre ontem...

— Esqueça isso, Diva. Não houve nada. — contrapôs esquiva, cruzando a porta. Fiquei somente encarando o nada, analisando a singular circunstância.

— Droga — resmunguei.

Contragosto, joguei os lençóis para longe e pulei para fora do conforto da cama e dar uma injeção de energia e adrenalina nos meus sentidos. Diante do espelho olhei intrigada para as olheiras proeminentes, para meu desagrado, bastante evidentes indicando minha falta de sono — noites mal dormidas. Lavei meu rosto com a água gelada da torneira, esse gesto pareceu afastar a sonolência. Depois de fazer minha higiene matinal, recolhi meus pertences para dar um passeio e me distrair um pouco de tanto problema acumulado. Do lado de fora, longe da proteção dessas paredes caia uma chuva torrencial. Não seria um bom momento para pegar um ar depois de um sonho absurdamente ilógico, entretanto precisava espairecer um pouco. Troquei de roupa, vestindo as primeiras peças que encontrei. Examinei rapidamente como ficara e prendi meus cabelos, por que nada incomoda mais que a unidade suprida neles após um banho de chuva. Peguei um guarda-chuva e segui para a porta. Nas ruas semi desertas algumas pessoas corriam para buscar a segurança de um local seco, qualquer um com o mínimo de consciência faria o mesmo para não se molhar. Por alguma razão incompreensível pressentia que aquele homem rondava por aqui, e se o visse novamente terei certeza de dar um grande soco nele — ou seja, pretendia arrancar a verdade dele na porrada mesmo — e se possível fazê-lo falar tudo que sabia sobre mim, por que se de uma coisa tenho confiança era que ele me conhece muito bem.

Detive meus passos, então procurei pelos bolsos meu celular ciente de ter posto a mão quando julgasse necessário. Disquei os números de uma pessoa que podia ouvir meu desabafo: Alexis, minha psicóloga. Ela disse que sempre que precisasse de apoio e conselhos a qualquer momento e ninguém viesse me socorrer, era para chama-la. Não demorou muito para que ela atendesse.

— Disque emergência — brincou.

— Sinto muito pensei que fosse da pizzaria! — retruquei arrancando uma gargalhada dela.

— Que bom ouvir a voz da minha paciente preferida.

— Se os outros ouvirem isso não vão gostar nada.

— Brincadeiras a parte, o que houve?

— O de sempre; sonhos estranhos, situações loucas que fogem do meu controle e etc. — suspirei abatida.

— Seja mais específica, por favor.

Não queria ser muito detalhista nos fatos, até por que nem a pessoa mais ponderada acreditaria.

— É confuso demais até para falar. E ainda continuo tendo a impressão que Lyana esconde algo.

— Diva relaxa. Assim vai surtar de vez. Respira fundo — fiz o pedido, respirando profundamente e inspirando, repeti esse processo até me acalmar. — Já tentou conversar com ela?

— Varias vezes, mas parece que até uma parede me ouviria mais que ela. Ah, Alexis tudo que eu quero é escutar de alguém que não estou enlouquecendo.

— Diva, sinto lhe dizer: Você é um caso perdido.

— Nossa, valeu essas palavras confortantes e o apoio moral. — fingi incredulidade.

— Sabe que pode contar comigo, madame.

— Espero que tenha remédios pesados para me receitar, por que estou um caco. — Alexis abafou uma risada.

— Você sabe que não tenho esse tipo de coisa, pelo menos não de graça. — tentei disfarçar o riso com tosses.

Observei incontáveis gotinhas caírem dentro de uma poça de água.

— Amanhã na sua consulta espero que me conte tudo mais detalhadamente.

— Eu farei, e espero que não me bote uma camisa de força e... — a frase morreu quando um relâmpago cortou o céu nebuloso e opaco.

— Diva? — o celular resvalou das minhas mãos e tombou no chão molhado. Meu estado de choque me impediu de praguejar a perda do dispositivo, meu foco era excepcionalmente o individuo que se aproximava debilitado enquanto o aguaceiro revolveu seu maior desafio. Nas condições dele, qualquer um se incapacitaria ante a força da natureza.

— Vergil? — o nome manifestou assim que recordara do sonho.

Notas finais
Posso visualizar as poker faces de todo mundo depois dessa re-reviravolta super tensa e que deu um novo sentido a palavra guinada louca de 360º HUAHUAHUA xD Desde o começo estava marcado que nosso ilustríssimo Vergil apareceria na historia, [abri spoiler]até por que junto com o Dante, tem um papel muito importante na terceira temporada [/fecha spoiler] Além disso, eu adorava do jeito frio e prepotente dele KKKKK' Sei lá, eu tenho tendência a gostar de personagens com certos graus de maldade -q E também ele ira dar mais graça a louca e confusa vida da protagonista (Uma troca entre o Dante e o Vergil ~fugindo para as colinas~) Até a próxima!