Better Days
12 Capítulo 12
Thomas Benedito sempre sonhara em ter um pai. Talvez não sempre, mas desde que observara que todos os seus primos tinham um pai, assim como suas tias tinham o avô. Ele compreendia pouco do mundo, mas não parecia certo, não parecia natural. Apesar de ser uma criança, lembrava-se de todas as conversas que tivera com Elisabeta sobre o assunto.
A mãe sempre dizia o mesmo: nem todas as famílias são iguais, e ele tinha o avô e os tios. Mas Tom queria um pai. Alguém que o levasse para tomar sorvete no centro da cidade, e que o acompanhasse até a cachoeira, e fizesse tudo aquilo que seus tios faziam por seus primos.
Com o tempo o garoto percebeu que Elisabeta costumava ficar triste com as perguntas, e só as fazia quando precisava muito saber alguma resposta. Porém não deixava de pensar o que aconteceria se tivesse um pai. Será que moraria com ele, ao invés de morar na casa dos avós?
Era a primeira vez, portanto, que Tom olhava para seu pai. Gostava de Darcy. Ele o ensinava sobre muitas coisas, deixava que brincasse com seus cavalos, o colocava de ponta cabeça e conversava com ele. Tom gostava que conversassem com ele. As vezes os adultos da cidade fingiam que ele não estava ali.
Mas não Darcy. Darcy deixava que Tom falasse e prestava atenção nele. As vezes dava broncas, mas Darcy lembrava sua mãe. Fazia com que ele se sentisse importante, participava de suas brincadeiras e as vezes, quando tinha medo, Darcy também dizia coisas que faziam o medo passar.
Só que Darcy era seu amigo. Seu melhor amigo, como dissera aos primos alguns dias antes, e ouvira reclamações de todos eles. Não era seu pai. Mas o ouvira dizer que era, e sua mãe havia dito que era. E por isso Thomas sentia-se confuso e aflito ao olhar para aquele homem.
— Você é o meu pai? – ele disse, após um longo período de silêncio.
Darcy e Elisabeta não sabiam que estavam segurando uma respiração mais longa. Estavam sentados um ao lado do outro, em uma mesa de centro, em frente ao sofá onde o menino estava sentado.
— Sou. – Darcy disse, sincero.
— E onde você estava? – o olhar de Tom estava em Darcy.
— Eu estava na Inglaterra. – Darcy sorriu. – Mas não é isso que você quer saber, é?
— Por que você não estava aqui? – o menino desviou rapidamente o olhar para Elisabeta, e voltou à Darcy.
Ele respirou fundo, e fez o mesmo que o garoto. Elisabeta tinha uma expressão tranquila.
— Eu não sabia sobre você. – Darcy disse, e foi a vez de Elisabeta respirar fundo.
— Não? – Tom arqueou a sobrancelha, e voltou seu olhar para Elisa. – Você sabia que Darcy era meu pai?
Os dois ririam da inocência de Tom ao fazer aquela pergunta. Ainda havia muito o que ele não compreendia sobre o mundo. Mas não riram, pois havia um significado muito maior naquela pergunta, um significado que Elisabeta ainda não estava preparada para enfrentar.
— Sabia. – ela confirmou, e Tom ficou em silêncio.
— E você nunca contou? – a pergunta era para ela, uma pontada de mágoa na voz que fez o coração de Elisabeta pesar.
— Eu... – ela começou, mas sua voz falhou.
— Sua mãe tentou. – Darcy disse, decidido, atraindo o olhar de Tom. – Ela escreveu cartas, muitas delas. Mas elas nunca chegaram.
Tom assentiu, mas ficou em silêncio novamente. Um silêncio demorado, que pareceu eterno para Darcy, mas principalmente para Elisabeta. Ele era seu filho, afinal. Pensava como ela.
— Você mentiu pra mim. – Tom não olhou para Elisabeta. – Você disse que eu não tinha pai.
— Tom... – Elisabeta queria defender-se, mas sabia que havia dado a entender por tantos anos que aquela não era uma possibilidade.
— Você disse que nossa família era diferente.
Cada palavra do filho era uma martelada no coração de Elisabeta. Não havia escolha para ela. Não podia deixar Tom sonhar com um pai que não o queria. Mas Darcy estava ali, agora, com seu coração aberto, e cada vez parecia mais improvável que a história fosse a que conheciam.
— Você disse que nunca mentiria pra mim. – ele levantou-se, e finalmente olhou para Elisabeta.
Nada no mundo a prepararia para aquele olhar. Para a mágoa e a decepção que vinham de seu bem mais precioso. Não direcionados a ela. Falhara com ele. E sabia como Tom estava se sentindo, porque reagiria da mesma forma. Valorizava a honestidade, e tentara ser honesta com seu filho, à seu modo.
Elisabeta não conseguiu reagir quando o menino saiu pisando firme em direção a porta. Escondeu o rosto com as mãos e sentiu apenas Darcy acariciar seu braço, antes dele levantar e chamar por Tom.
O menino parou ao ouvir a voz daquele que, agora sabia, era seu pai. Sentou-se nos degraus de saída, e Darcy sentou-se ao lado dele. Elisabeta havia ido atrás deles alguns segundos depois, mas parou ao vê-los sentados. E não pretendia ouvir a conversa, mas também não conseguiu encontrar forças para retornar.
Os dois permaneceram em silêncio por alguns minutos, até Darcy iniciar a conversa.
— Eu não sei conversar com crianças. – Darcy riu, sem jeito. – E não sei o que se espera de um pai.
Tom mantinha seu olhar perdido no horizonte, e a semelhança com Elisabeta era tão grande naquele momento, que Darcy de repente sentiu-se calmo.
— Eu queria poder contar a você a história completa, Tom. Mas a verdade é que nem eu e nem sua mãe sabemos ainda qual é essa história.
Isso atraiu o olhar do menino, que o encarava com dúvidas.
— Sua mãe tentou me contar, mas eu nunca recebi as cartas. Por isso não tinha como responde-las, e sua mãe achou que eu não me importava. – Darcy desabafou.
— Mas você se importa. – o menino disse, aborrecido. – E ela poderia ir atrás de você.
— Não seja tão duro com sua mãe. – Darcy disse, sério. – Você ainda é pequeno para entender isso, mas o mundo pode ser um lugar cruel para alguém que tenha um filho sem o pai estar ao lado.
Tom ficou em silêncio, e Elisabeta precisou encostar-se na porta para não interferir na conversa. Aquele dia era repleto de surpresas, e apenas conseguiu manter-se escondida, sem evitar ouvir.
— E sua mãe escolheu lutar por você, amar você, e fez o papel dela, e o meu também. – Darcy suspirou. – Elisa é a pessoa mais honesta e verdadeira que eu conheci em minha vida, Tom.
— Mas ela mentiu pra mim.
— Ela não tinha escolha. Ela achava que eu nunca iria voltar, que eu sabia de tudo e nunca tinha aparecido. – Darcy acariciou os cabelos do filho. – E ela não podia dizer isso para você.
— Podia sim. – o menino argumentou.
— Talvez um dia, mas não agora. – Darcy sorriu. – Porque apesar de você ser muito inteligente, ainda é uma criança. E foi por isso que não contamos assim que eu descobri sobre você.
Elisabeta voltou para a sala. Não conseguiria mais ouvir aquela conversa. Era um momento deles. De Darcy e Tom. Pai e filho. Daquele homem que fora tão generoso ao defende-la, mesmo sem a certeza de que ela tentara contar a ele. Um homem que se assemelhava tanto ao que amava que a fez duvidar de suas próprias dúvidas.
Tom encarava Darcy, assimilando o que o homem dizia.
— Sua mãe sempre vai querer o melhor para você. E sempre vai fazer o que achar que é o correto. – Darcy suspirou. – E eu também.
— Você vai voltar para a Inglaterra? – Tom perguntou, inseguro.
— Não. Eu vou ficar aqui, nesta casa.
— Eu tenho que chamar você de pai? – o menino olhava para os próprios pés.
— Se você quiser. – Darcy não havia pensado sobre isso, mas a ideia o aterrorizou e encantou ao mesmo tempo. – Ou pode continuar me chamando de Darcy.
— Você está bravo com ela? – ele perguntou, depois de alguns segundos, seus olhos nos de Darcy.
— Não. – Darcy foi sincero. – E nem você deveria ficar. Eu sei que você está confuso, e eu vou ser sincero com você, eu e sua mãe também estamos.
— Verdade? – ele arregalou os olhos.
Darcy suspirou, e envolveu o filho em seus braços, em um abraço desajeitado. Tom era uma criança tão inteligente que, por vezes, esquecia-se que era uma criança.
— Eu estou morrendo de medo, e sua mãe está apavorada. – Darcy riu, beijando os cabelos dele. – Mas eu prometo a você que vamos fazer tudo isso funcionar.
O menino se afastou um pouco, buscando os olhos dele.
— Eu gosto de você, Darcy. – disse, com um sorriso contido. – Eu não escolheria outro pai.
Darcy engasgou ao ouvir as palavras de Tom. Era despretensioso, infantil. Mas significava tudo para Darcy. Seus olhos se encheram de lágrimas, e puxou o menino novamente para um abraço.
— Eu não escolheria outro filho, Tom. – disse, ao se afastar. – E como seu pai, eu acho que você deveria conversar com sua mãe.
O menino assentiu, levantando-se. Andou em passos lentos em direção a casa. Elisabeta estava sentada no sofá, o rosto escondido nas mãos. Respirava fundo, tentando conter as lágrimas, tentando se acalmar. Tom coçou a cabeça, sem jeito, ao se aproximar.
— Mamãe? – ele chamou, e Elisabeta assustou-se.
Ela secou as lágrimas de qualquer jeito e olhou para o filho.
— Me desculpe ter gritado com você. – ele olhou para os próprios pés.
— Tom... – Elisa suspirou, e estendeu a mão para que ele se aproximasse. – Não é você quem tem que pedir desculpas.
Tom sentou-se ao lado de Elisabeta, que o encarou com olhos tristes.
— Me desculpe ter mentido pra você. E me desculpe por tudo o que aconteceu hoje. – ela suspirou.
— Eu não gosto que mintam pra mim. – ele franziu o nariz.
— Eu sei. – ela sorriu. – E eu contaria a verdade quando você fosse mais velho. Pelo menos o que eu achava que era a verdade.
— Darcy disse que você está apavorada. – o menino abriu um sorriso tímido.
— Ah, Darcy disse? – ela arqueou a sobrancelha, sorrindo também. – Darcy está completamente certo.
— Mas ele disse que vai ficar tudo bem.
— Vai ficar tudo bem, meu amor. – Elisabeta abriu os braços, e Tom aconchegou-se em seu abraço. – Já está tudo bem.
— Eu gosto de Darcy. – o menino confessou.
— Eu também gosto de Darcy. – ela disse em um reflexo, ao mesmo tempo em que Darcy entrou na sala.
O inglês arqueou a sobrancelha, com um olhar sugestivo, e Elisabeta revirou os olhos para ele. Darcy sorriu e aproximou-se deles, beijando os cabelos de Elisabeta e bagunçando os cabelos de Tom.
— Agora que nos entendemos, onde estávamos mesmo antes dessa confusão começar? – ele cruzou os braços, fazendo Tom rir.
— Você havia comprado um presente absurdamente caro para Tom. – Elisabeta sorriu, ainda abraçando o filho.
— Tufão! – Tom lembrou-se do cavalo. – Eu posso andar nele agora?
— Se sua mãe deixar... – Darcy deu uma piscada para Elisabeta.
— Mamãe? – o garoto perguntou, esperançoso.
— Entenda-se com seu pai. – ela deu de ombros, sorrindo para Darcy.
— Vamos?
Tom correu até onde o pai estava, e os dois caminharam até a porta. Mas antes de sair da sala, Tom virou-se novamente para Elisabeta.
— Mamãe, eu amo você. – ele sorriu.
— Eu também amo você. – Elisabeta enviou um beijo para ele. – Cuide-se.
O garoto pensou um pouco, e então correu novamente para onde Elisabeta estava, jogando-se em seus braços. Elisabeta o apertou em seus braços, fazendo o menino rir e reclamar, logo em seguida.
— Você é a melhor mãe do mundo. – disse, ao separar-se dela.
— E você é o melhor filho do mundo. – Elisa piscou para ele. – Eu espero você para o jantar.
Elisabeta observou Tom sair em disparada, e seu coração de repente voltou a bater normalmente. Era a magia de ser criança, quando todas as mágoas se resolviam facilmente, quando havia menos drama e mais perdão. Quando voltou para casa, galopando com Tornado, havia alívio e desconforto em seu peito.
Alívio por Tom finalmente saber de tudo, por ter aceitado o pai, por Darcy parecer amar seu filho da mesma forma que ela fazia. E desconforto porque estava convencida de que aquele mesmo homem seria incapaz de negar-se a ser pai. E se as cartas de Darcy não eram verdadeiras, alguém era responsável por tudo o que acontecera nos últimos anos.
Não era um assunto para aquele momento, havia muito a ser feito por Tom, precisavam pensar primeiro no filho. Mas ela descobriria o responsável, cedo ou tarde.
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