Berlock Safe
4 Ponto de partida
Berlock depois de prestar as devidas informações às autoridades e fazer um boletim de ocorrência, voltou à praça para pensar sobre o futuro.
"Vou conseguir, o senhor verá, terei uma casa própria, um negócio mesmo que pequeno e ainda uma esposa. Eu vou mudar."
Era o que queria dizer quando pedisse desculpas por gritar com seu pai, mas não pôde dizer mais nada a ele, porém, ele ainda pode fazer o que pretendia.
Berlock seca as lágrimas.
Olha o movimento na praça lotada, quase 15 horas, ele tinha consigo as roupas do corpo e o B.O. Esse é seu marco zero, seu ponto de partida.
Ele começa a pensar.
Sabe que precisa de dinheiro para tirar a segunda via dos seus documentos e que no mínimo levam 5 dias para ficarem prontos.
Até lá, tem que se manter por meios que não exijam documentação, como trabalhos informais, e vai precisar de um lugar para ficar e poder descansar, passar a noite.
Se tivesse dinheiro para um mês de aluguel, já dava para fazer algo; se tivesse para três meses, então seria uma "mão na roda".
Berlock não conseguiria dinheiro assim de forma simples em qualquer lugar, ou conseguiria?
— Empréstimo — diz a si. Não seria algo ruim, afinal, ele sabe como economizar e poderia fazer um bom negócio investindo em algo, só precisava voltar a estudar como sempre fez.
Perguntando pela região, descobre um lugar que fazia empréstimo de forma fácil, mas, no mínimo, ele precisa de um comprovante de residência, que era algo que não tinha e não conseguiria tão cedo.
Na fila, ele estava apreensivo, não só não se socializava assim há meia década como também não sabia se conseguiria. Ele estava nervoso e quase suando. Os sentimentos do luto estão fervendo por dentro, mas Berlock não demonstra tanto.
Várias vezes o intimidaram para fazer os trabalhos de graça durante o ensino médio, nessas e outras, Berlock foi aprendendo a ler melhor as pessoas e também a não demonstrar o que estava sentindo.
Na outra fila, uma jovem observa o recluso. Ela aparenta estar apreensiva, poderia estar em uma situação que precisasse muito de dinheiro de forma rápida.
Se fosse o caso, ela quem sabe entenderia como as coisas funcionavam por ali.
Berlock vai até a jovem que se destaca no local pelo seu cabelo cacheado que, na visão do recluso, combina bem não só com a pele morena dela, mas também com os olhos castanhos claros.
A jovem se mostra surpresa com sua aproximação.
Berlock pensa que ela vai ficar desconfortável contigo... agora já foi, talvez eles serem quase do mesmo tamanho deixaria o clima mais leve.
Poucos antes de iniciar a conversa, ele percebe na jaqueta da jovem a logo da universidade que pretendia estudar. Ele pergunta se ela iria pegar para pagar livros ou algo do tipo.
— Não, não, quem dera fosse para isso — ela termina a frase com um sorriso sem jeito.
— Mensalidade? — Berlock pergunta.
— Também.
A jovem pergunta se ele está precisando de livros. Berlock aparentava ser alguém que estava estudando.
Ele diz que não e explica que está desempregado, sua casa pegou fogo, consumindo tudo que tinha.
Berlock não cita os anos de reclusão e nem que perdeu os pais na noite anterior.
— Vai recomeçar do zero — a jovem adulta comenta enquanto vê por cima o B.O. de Berlock que confirma sua história, ela não vê os outros detalhes.
Ela tem empatia por Berlock e diz que realmente precisava de um comprovante de endereço para pegar empréstimo ali, então ele não conseguiria sem um.
— Eu tentei quando cheguei na cidade, mas não cederam. Só depois de alugar uma quitinete pequena.
Berlock pede desculpas pelo incômodo e começa a sair da fila, precisava continuar procurando por um empréstimo fácil. Ali não conseguiria nada.
A jovem encara as costas do recluso, a garganta dela fecha por um instante, está nervosa, mesmo assim o chama.
— Olha, v-você poderia pegar junto comigo, eles já têm o meu endereço, podemos dizer que estamos dividindo o quarto, as pessoas fazem isso, né?
Berlock encara a moça e entende que ele pegou para lidar com gastos, não foi o suficiente e agora está endividada, por isso pegará mais um empréstimo para lidar com isso. Uma bola de neve.
— Se pensa em pegar de novo porque não está conseguindo lidar com as dívidas atuais, vai só se afundar.
— Eu sei, mas, sabe, não tem outro jeito.
A dupla conversa mais um pouco, ela se chama Bianca Andrade e ele, Berlock Safe. Eles decidiram se chamar de BA e BS para agilizar a conversa na fila.
BA conseguiu uma bolsa menor do que esperava para a faculdade de gastronomia. Como teria que gastar mais do que havia planejado, pegou um empréstimo para lidar com as despesas iniciais.
Mesmo que não tivesse pegado, ela ainda estaria com dívidas devido à sua organização bagunçada.
Para todos, o que ela faz fica uma bagunça, mas para ela está tudo no lugar.
BA era o oposto de BS em quase tudo, além das diferenças mais óbvias como o sexo e tom de pele. Ela é bem sociável enquanto ele é fechado, ela é uma tagarela e ele é calado, ela é uma gastadora profissional e ele é seguro, ela pouco sem noção e ele tem foco no longo prazo.
BS chega à conclusão de que logo BA irá desistir da faculdade e passar a trabalhar só para pagar as dívidas.
Depois voltará para sua cidade sem nenhum retorno do investimento dos pais, no fim ela poderia ser uma decepção para eles depois de tantas expectativas e investimentos...
BS se toca nesse momento que seus pais não o viam como decepção. Ele enraizou a ideia de que quem não alcança seus objetivos é uma decepção. Não podia pensar assim de todos, só tinha a si como base de comparação para esse tipo de caso.
— Entende sua situação? — BS pergunta após explicar o que vai ocorrer com BA devido às contas dela.
— Entendo, mas... olha.
BS volta sua atenção a BA.
— Você é bom com isso, né? Que tal assim? — Ela se afasta um pouco dele — Eu te deixo usar meu endereço e você... planeja meus gastos, isso!
"Já não ia me deixar usar?", BS pensou.
Não era como se ele tivesse muitas opções. Lugares com empréstimo fácil com certeza tinham meios para recuperar seu dinheiro de volta, então ele poderia acabar em risco tentando pegar em qualquer lugar.
Formar parceria com BA pode ser uma boa, ela tem um endereço, ele pega a grana, encontra um lugar e quando recuperar passa a parte dela, mas não era muito prático, BS tinha uma visão diferente de BA quanto à forma de parceria.
— Não vai dar tão certo.
— Como não?! — Ela questiona com os olhos tristes.
— Nós pegamos o dinheiro, cada um morando no seu canto e acumulando juros e dívidas, não faz sentido.
— Não? — Não.
— Se só um pegar para cobrir as do mês já é alguma coisa, não podemos nos dar ao luxo de acumular mais do que conseguimos lidar no mês.
— Saquei.
A dupla se encara, Berlock não tem coragem de propor o que tem em mente.
— Quer... morar... comigo? — BA pergunta enquanto olha para o chão.
Um silêncio se forma e eles não sabem o que dizer em seguida, até então BA começar a falar.
— Se dividir o quarto, as contas ficam mais fáceis de lidar, não é? Um pega para pagar as contas do mês e o outro não.
— É nessa linha.
Ele pergunta o quanto ela pretende pegar de empréstimo, ela responde que não sabe ao certo, o mínimo que precisa é de R$ 3.667,34 para tentar se recuperar esse mês.
Ela tem quase certeza de que não conseguiria pegar um novo empréstimo nesse valor...
— É pior do que parece — BS diz e pensa —, mas dá para lidar, quase sempre dá.
"Conseguir uma moradia fácil que tem como brinde uma dívida mensal de 2 mil por mês, será que compensa?"
— Não tem para onde correr, topa? — BS pergunta e BA o encara por um instante.
Ela solta um "Isso!" e BS quase se assusta. Após se conter, a dupla discute sobre como vão pegar o empréstimo.
Eles decidem que só BS vai pegar algo, a dívida de BA já é alta e aumentar só iria complicar as coisas.
BS pensa em aliviar a dívida desse mês de BA e então pagar a primeira parcela do empréstimo em pelo menos dois meses.
Dessa forma, teria um mês para conseguir um emprego.
Seus primeiros salários serão evaporados, mas é preço baixo a se pagar.
Ele tem em mente que, se ambos estiverem estabilizados em relação às dívidas, será mais fácil crescer, e BA pode até vir a ajudar em possível empreendimento futuro, já que estuda gastronomia.
BS consegue fazer o empréstimo usando o endereço de BA que confirma os dados.
Foram pegos R$ 2.500, dos quais ele passa uma parte para BA, pagando todas as despesas dela. Isso dá aos dois mais um mês para se organizarem.
Se BS não tivesse com BA, ela precisaria mesmo pegar um valor mais alto.
Ele está atento aos gastos e está procurando usar somente o necessário, como o colchão onde irá dormir.
Como BA já tinha comprado comida, não era mais necessário, então o saldo positivo de BS até o momento. Eles vão para casa.
Ela é uma quitinete de 3 peças bem pequena, até mesmo para BA, que é uma jovem relativamente magra, o lugar lhe era um pouco apertado.
Na divisão, há o quarto de BA que contém sua cama e a mesa onde estuda. No corredor entre o quarto e o banheiro, fica sua cômoda com suas roupas. O banheiro era simples.
Na cozinha, uma pia, o frigobar e um fogão elétrico de uma boca e agora também o colchão de BS.
BS e BA se organizam colocando na ponta da caneta tudo com que precisam lidar. BA normalmente precisa atingir o valor mensal de R$ 2.192,54, isso cobre todas as dívidas previstas. Ela apresenta seus gastos para BS ficar ciente, sendo as mensalidades da faculdade e o empréstimo os mais pesados.
Nas contas da casa, a água está inclusa no aluguel. BA gasta pouca energia, então paga a tarifa mínima da região, mais a taxa da quitinete. Sendo assim, seus gastos aqui são atualmente fixos.
Ela também diz que faz diárias três vezes durante a semana, o que rende um extra. Seus custos com comida são financiados pelas gorjetas dos clientes, então ela ganha um pouco mais que usa apenas para alimentação própria.
BS analisa e diz que não está tão ruim, ele se precipitou, os gastos mais variáveis que são os da casa são fixos, então fica fácil de prever o total mensal mesmo com a chegada de uma nova pessoa.
Ele aponta que o salário mínimo atual é de R$ 1.412 e a primeira parcela do seu empréstimo de R$ 2.500 é para daqui 45 dias, começando hoje, 1 de agosto, então dará em 15 de setembro.
Se somar o que BS tem com o que BA vai conseguir das diárias, eles terão R$ 1.218,99 e ainda precisarão de R$ 1.616,43.
As coisas começaram a complicar se BS não conseguir um emprego, ele tem um mês para resolver isso enquanto eles estão no verde.
BA faz cara desanimada e BS diz para ela se animar, vai ser trabalhoso, mas dará resultados.
Ela muda sua expressão enquanto faz pose.
— Ok. Vou acreditar em você.
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