Berlock Safe
5 Cardíaca
No dia 7, Berlock buscava efetivamente bicos para ir se acostumando à nova rotina, fazendo alguma coisa aqui e ali poderia ir vendo no que se adequava mais. Seus ganhos não eram animadores e ainda esperava ser chamado para alguma entrevista.
Depois de duas semanas, descobriu que na região não queriam pessoas sem experiência, mesmo na sua área de destaque. BS até mandou junto do currículo uma otimização de gastos financeiros públicos da empresa alvo.
Sua ideia foi pesquisar tudo que podia sobre cada empresa que tentaria entrar e fazer algo em cima, mostrando que dava para fazer algo mesmo tendo somente os gastos públicos à disposição de dados.
Durante o tempo na nova moradia, ele aprendeu toda a simples rotina de Bianca, que consiste em ir para as aulas no período da manhã, passar a tarde estudando no quarto e algumas noites trabalhando de garçonete.
Nas noites de folga, limpa a casa e leva as roupas.
Ela precisa manter suas notas acima de uma média estabelecida pelas normas para que sua bolsa continue valendo, então seus estudos vinham sempre primeiro.
— Sou tão bonita assim? — BA pergunta a BS devido ao seu tempo observando a jovem.
— Desculpa, estava pensando em algumas coisas.
— Mas sou?
— ...
BS apresenta a BA a planilha que fez sobre os gastos, ganhos e tempo disponível que pode ser trabalhado.
— Hummmm.
— Hummmm? — Ele explica algumas coisas. — Nesses campos, você pode colocar novas atividades e o tempo que leva para realizá-las, já aqui te mostrará como pode realizá-las durante a semana sem se sobrecarregar ou afetar seus estudos.
Além de querer que BA parasse de gastar tanto, ele também queria que ela tivesse mais tempo para cuidar de si própria. Sua mente em boa forma será necessária em momentos de aperto que sempre vêm na vida.
Ele tirou um tempo para conversar com BA sobre como administrar a rotina dela de forma mais eficiente, depois disso foi para seu turno noturno em uma tabacaria.
E na manhã seguinte, no sábado, dia 24, Berlock, que passou a noite atendendo e dormiu menos de três horas, estava ajudando a descarregar sacos de cimento.
Isso era bem fora da curva e demais para seu físico varapau, mas estava pagando bem para jornada de trabalho.
Sua mente é forte, mas seu corpo nenhum pouco, o cansaço era nítido, sem força ou resistência física estava tendo dificuldades para se manter de pé.
A cada saco, ele tinha sua visão mais turva, mesmo que ainda fosse de manhã, ele já suava muito.
Mais alguns sacos e sentiu seu braço esquerdo formigando, no peito um aperto e pontadas, por um momento foi difícil se equilibrar.
Antes que Berlock parasse para dizer que tinha algo de errado consigo, seu coração foi quem parou, o fazendo ir de encontro ao chão.
Um tempo depois, aos poucos, Berlock recobra a consciência enquanto ouve uma voz.
— Sábado, depois de hoje, finalmente descanso e sem dores de cabeça, então, se puder se levantar para terminarmos mais rápido, eu agradeceria.
"Uma mulher... a encarregada? Meu dinheiro vai ser descontado por isso?" Berlock logo se pergunta.
Ele se levanta e olha em direção de onde veio a voz, quando se dá conta, percebe que está em um salão claro com pilastras amarelas.
No final do salão, sentada em um trono de mármore, se encontra uma mulher de pele clara, loira, olhos verdes, regata branca e short azul, corpo definido e expressão séria.
— Onde estou? — Berlock pergunta.
— Salão de Transição. Sim, você morreu. Não, não pode conversar, mandar mensagens, ver ou ouvir seus familiares, amigos, conhecidos, vizinhos ou animais de estimação, sem últimas palavras ou desejo e não apagamos histórico do navegador ou mensagens.
Berlock se ajoelha, suas perguntas estavam respondidas. Seu coração apertou, mas não apenas porque morreu, mas sim por ter sido antes de alcançar uma das três metas que estabeleceu.
Ele fracassou totalmente na vida e ainda jogou sua dívida toda para BA, já que o endereço dado foi o dela.
Na frente de BS surge uma tela azul com uma mensagem escrita em branco, algo como a tela de uma sala de bate-papo.
"Ela não consegue ver e com certeza não deve saber que você consegue."
— Me chamo Bra, sou a Deusa que checa os últimos detalhes antes da transição entre mundos.
Ela pega alguns papéis — Parece que hoje só tem você, é um mundo pequeno e vai pouca gente para lá, então seremos rápidos... poderia se levantar?
— D-Desculpa — Berlock se levanta e fica de frente para Bra.
Ele pensa em algo.
— Salão de Transição... eu vou ser mandado para o inferno?
— Sem paraíso ou inferno por enquanto. Você não entende o valor do trabalho, viveu preso em seu quarto. Já seus pais entendiam enquanto cuidavam de você desde sempre, e como retribuição, você os matou.
— Não! Foi — O curto não teria começado se não tivesse se irritado.
— Por isso te mandarei para um mundo pequeno, um onde irá trabalhar até entender o que seus pais passaram, lá não terá tecnologia como a que conhece.
— Essa é minha uma punição?
— Nop. É uma redenção. Algumas doenças misteriosas acabaram com boa parte da população em diversos reinos.
"Ela não quer ajudar."
— Por isso estão precisando de mão de obra. Você vai trabalhar até dar valor ao trabalho, quando morrer de novo será julgado se vai para o paraíso ou esquecimento.
— Redenção...
— Apagarei suas memórias, você renascerá em uma família camponesa que vive das plantações e caça, com certeza terá que trabalhar muito para começar a viver tranquilamente, não tem para onde correr.
"Se ainda quiser ter uma chance de alcançar de verdade suas metas, diga que foi parada cardíaca. A escolha é sua."
Berlock começa a pensar, as mensagens estão contra a Deusa, isso parece muito com o que ele viu em diversos jogos e mangás.
— Berlock Safe, né? Mudarei para BS, mais prático.
Bra encara BS.
— Você morreu essa manhã. Devido a — uma parada cardíaca — parada cardíaca? Aqui diz 'Traumatismo Craniano'.
BS estranha.
— Formigamento no braço esquerdo, palpitações, dores no peito, era uma parada.
"Boa escolha."
Bra folheia até chegar à última página.
— Ops. — Ops? — Deve ter sido algum estagiário, está aqui no final. Parada cardíaca, mas ela não foi a principal causa da sua morte.
— Não estou entendendo. — BS pergunta e Bra se levanta e explica.
Os Deuses Superiores dão duas vidas aos mortais. Uma em que podem fazer o que quiserem e a outra que devem aprender com os erros e arrependimentos da vida passada.
Você não deu valor ao trabalho ao viver às custas de outras pessoas, então trabalhar até não conseguir mais será sua redenção.
— Certo.
— Mortais devem morrer como foi definido, por isso você ainda está destinado a morrer de parada cardíaca para que sua morte seja cumprida, não existe escapatória.
Bra suspira antes de continuar.
— Chamamos isso de Selo de Morte, ele garante que você morrerá da maneira correta, então... assim que você chegar no outro mundo, você morrerá instantaneamente. São as regras.
"Se ficar quieto, será isso mesmo."
BS fica tenso por dentro, afinal, tem uma Deusa na sua frente, mas já que está indo para o esquecimento, não custa tentar algo. Hora de pôr sua experiência em prática.
— Se já morrerei assim, do que adianta ir para outro mundo?!
Ele se exalta.
— E se eu morrer sem trabalhar, eu vou pro esquecimento... quer saber, me manda direto pro esquecimento, depois você e seu estagiário.
"Um pouco exagerado, mas deve dar."
— Calma, calma, vamos ver — Bra revisa as páginas —, a parada cardíaca te mandou pro chão, mas enquanto você caía seu parceiro jogou um saco que caiu na sua cabeça e isso sim, te matou. Será que era cimento mesmo?
BS não diz nada, a Deusa não parece ligar muito para a situação dele, já as mensagens parecem que sim.
— Seu coração só parou depois do cérebro ser esmagado, daí o Selo de Morte.
— Sem novidades nisso. — BS muda para uma expressão fechada, o que deixa a Deusa com um pouco de medo. Demonstrar uma postura mais firme deve mudar sua situação, eis uma chance.
Ela nunca precisou lidar com pessoas agressivas, para esse mundo só os preguiçosos e fracos vão, ninguém com coragem assim iria, o estagiário está ferrado por ter dado alguém assim para ela lidar.
— Mas nem por isso quer dizer que você deve morrer assim que chegar — BS se mostra curioso nessas palavras.
— Podemos dar um jeito nisso. No outro mundo existe algo chamado Mana, com ela você pode conjurar habilidades e tem uma que vou te dar.
Ela estende os braços e uma luz envolve BS, após isso, Bra caminha em sua direção e entrega uma página com os status dele — Pegue.
BS, olhe seus parâmetros.
A habilidade concedida a ele se chama Resistência, com ela, seu corpo poderá suportar uma certa quantidade de impactos e exercícios sem que se machuque ou canse.
Depois que passar do limite BS, tem que ativar novamente a habilidade.
Realmente é como nos jogos que jogou, mas...
"Pressione mais um pouco."
BS, olha bem os status e entende a instrução de pressionar Bra.
— Tenho 80 de mana, a habilidade precisa de 70, para não morrer logo de cara preciso chegar com ela ativada, certo? — Certo!
— Assim só me sobram 10 de mana, o que vou fazer com isso? Depois de subir uma escada ou correr um pouco, a habilidade será desativada e vou morrer?!
Bra sorri envergonhada.
— É. Temos um problema, 80 de mana é o máximo que seu físico pode armazenar no momento, a mana costuma se alocar nos músculos e você não tem lá muito, convenhamos — BS se mostra irritado.
Quanto mais músculos e/ou resistência, melhor é para o armazenamento e alocação de mana, não são todos com o físico próprio para isso.
Por isso existem pessoas que guardam sua mana em lugares como equipamentos, artefatos ou armas.
BS analisa e comenta.
— Uma arma... não, gastaria resistência para manejar. Um equipamento como armadura poderia consumir minha resistência o tempo todo sendo pior que uma arma.
Ele pensa mais um pouco.
— Talvez..., talvez um artefato, sim, um artefato não gastaria nada de resistência, algo como um colar, pingente ou pulseira.
Se pegar um artefato, o que garante que em algum momento não ficará longe dele?
Sua escolha deveria ser algo que pudesse ter sempre consigo, não importando a situação.
"Você pode usar seu próprio corpo."
— Você disse que a mana se aloca nos músculos, tem como se alocar em outros lugares também?
— Sim, algumas pessoas guardam mana em outras regiões, como unhas, cabelo, pele, ovário. O que tem em mente? — Bra pergunta enquanto mexia no cabelo.
Agora BS confirma que as mensagens estão do seu lado, até então o guiaram para coisas que nem imaginaria perguntar e até mesmo estão o ajudando com Selo de Morte.
"Aumente a gordura corporal, 100 kg."
— Bra, poderia me fazer um favor temporário?
— Diga.
— Quero que aumente meu peso para 100 kg, para ser exato.
Bra estende o braço direito e o corpo de BS se expande, ele logo olha seus status.
— Meu corpo original não tinha tanta mana por conta dos músculos rasos, mas nesse a mana pode ser facilmente alocada na gordura corporal.
BS, quando estava com 58 kg, tinha 80 de mana; com o aumento para 100 kg, sua mana passou para 193.
"Um presente por confiar em mim. Cálice."
Nas letras miúdas da página, um informe sobre ele ter um corpo compatível com a passiva Cálice, que lhe dá um bônus de 20% de mana sobre sua quantidade total.
Essa passiva se ativa em indivíduos que possuem mais gordura que músculos e vão invertendo com o tempo.
O bônus da passiva aumenta conforme a quantidade de músculo se torna maior que a de gordura, ou pode aumentar por nível, mas bem pouco nesse último caso.
Assim, BS passou de 193 para 231 de mana, usando 70 para conjurar a habilidade Resistência, que, enquanto estiver ativa, BS está imune à parada cardíaca.
Lhe sobram 161 de mana, o que dá para ativar a habilidade mais duas vezes caso seja necessário e dá tempo para recuperar a mana.
— Isso, assim levarei mais mana sem ter que gastar resistência!
A deusa analisa BS.
Vê que ele não fez uma má escolha, a habilidade Resistência cortará custos naturais do corpo, então mesmo que BS esteja com sobrepeso, a habilidade não permitirá que ele sofra com as enfermidades disso.
Sua condição de saúde no mínimo será a mesma ou até melhor do que quando tinha 58 kg, a mana faz milagres, mas somente em mundos onde existe.
Por um instante, Bra fecha a cara e então retorna ao sorriso antes de chamar a atenção de BS.
— Muito bem, então! Se essa é sua escolha, te mandarei ao outro mundo, considere essa mudança física como uma recompensa pela má organização de detalhes na sua papelada.
Bra também diz que irá manter as memórias de BS, para que ele não esqueça do Selo de Morte.
Morrer por não saber disso seria culpa total da organização, então ele vai ganhar mais esse bónus.
— BS — Ele olha para a Deusa —, lembre-se, agora você tem mana e está alocando em sua gordura corporal, por isso só poderá recuperar se alimentando e com poções.
— Não me esquecerei.
— Adeus, BS, desejo sorte na sua próxima vida e que nunca se esqueça do Selo de Morte.
Bra estende os braços mais uma vez.
— Mesmo que tente fugir, uma hora ele selará seu destino, então trabalhe sempre que puder, estarei no seu julgamento para ver seu progresso em vida.
"Entrarei em contato logo mais."
A tela de mensagens se fecha.
BS é envolvido em luz, a sensação o faz relaxar enquanto é levado para o outro mundo onde sua nova jornada está prestes a começar.
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