Ben E O Paraíso
3 De Festas com o Ex
Notas iniciais
Enfim, a primeira calourada da estação havia chegado. E o povo de Relações Internacionais tinha a fama de fazer ótimas festas. Ou seja, tem tudo para ser uma noite perfeita.
Agora você deve pensar: Nossa, mas é festa todo dia pra esse menino? Acredite, eu gostaria muito que fosse. Acontece que se eu narrasse a minha rotina e as coisas de Arquitetura, talvez não atingisse muito o interesse de vocês. E as festas ocorrem basicamente apenas em fins de semana, porque, como comprovado por uma pesquisa, o curso de Arquitetura é o que demanda mais tempo fora da sala da aula. Ou seja, não tenho muito tempo para farrear a semana inteira.
Como minha casa é perto da faculdade, vou a pé mesmo. Chego por volta de 22:00 e já um tem bastante gente perto do Departamento de R.I. Encontro os meus amigos e eles estavam conversando, alguns passando glitter.
— Mas vocês estão levando essa calourada a sério mesmo, ein? – perguntei ao me juntar ao grupo.
— Claro, bebê. Louquíssima pra conhecer a nova safra de calouros. E também vem muita gente de fora. – respondeu Micaela animada terminando de passar glitter.
— Eu quero você passe glitter no meu rosto. – Micaela se aproximou e começou a fazer um desenho com o glittler que pareciam lágrimas. Eu estava chorando glitter.
— Nós vamos comprar as bebidas agora. Estávamos esperando você. – disse Matias. – Trouxe o dinheiro.
— Tá aqui. – peguei a nota de dez reais e entreguei para ele. – Não esquece de comprar vinho e, por favor, o mínimo de cerveja possível.
— Do que você tá falando? Cerveja melhor bebida alcoólica. – me respondeu.
— Nunca será. – Matias saiu para comprar as bebidas e Micaela terminou com o glitter. – Onde está o Felipe?
— A última vez que vimos, ele tava conversando com um menino. Acho que estão ficando agora. – Alice me respondeu e eu estranhei. Do jeito que Felipe é tímido, ficar com alguém no início da festa não faz o seu estilo. Bom, pelo menos ele estava aproveitando.
Ficamos esperando Matias voltar com as bebidas. Ele havia ido de moto em um lugar aqui perto que vende a preço de atacado. Ari chegou e Felipe apareceu quase no mesmo minuto, porém eles vinham de direções contrárias. Matias logo apareceu com as bebidas escondidas na mochila, já que os seguranças proíbem a entrada de álcool.
Eu enchi o meu copo de catuaba e comecei a beber em goles. Um hit antigo da Katy Perry tocava alto nas grandes caixas de som. Nós resolvemos nos aproximar mais da galera e acabamos nos perdendo. Eu fui para um lugar onde o povo estava dançando e comecei a sentir o espírito dançarino tomar conta de mim quando Tik Tok da Ke$ha começou a tocar.
Estava me acabando na dança quando sinto uma mão circundar o meu braço. Achei que era alguém querendo passar entre o pessoal, então nem dei bola de início. Fui virado para frente a pessoa e meu queixo caiu ao ver de quem se tratava. Jefferson. Meu ex-namorado.
— Ben. Não esperava te encontrar aqui.
— Sério? Eu estudo aqui.
— Ahn? Não tô te ouvindo.
— Não é nada.
— Vamos sair daqui. Tá muito movimentado e barulho. – minha vontade era me virar e voltar a dançar como se nada tivesse acontecido, mas resolvi ouvir a voz em minha cabeça que me dizia para ser educado.
Um pequeno resumo sobre Jefferson: Foi o meu namorado no ensino médio. Nós tínhamos um relacionamento às escondidas porque ele ainda não era assumido. Eu era muito apaixonado por ele e cheguei a fazer coisas como fugir de casa pra me encontrar com ele. Acontece que um belo dia, Jefferson e eu vamos pra uma festa numa casa de um colega da escola. Eu me perco por um momento quando vou pegar algo pra beber e quando o encontro novamente, a sua língua dançava na boca de outro garoto. Pois é, ele me traiu.
Eu até tentei seguir com o relacionamento, pois gostava muito dele, mas não deu. Perdi toda a confiança que tinha nele e olha que eu cheguei a pensar em perder a minha virgindade com ele. Quando as aulas estavam pra acabar, eu terminei tudo com Jefferson. Ele fez drama e pediu para eu não fazer aquilo, mas eu expliquei que provavelmente iríamos pra faculdades diferentes e nos distanciaríamos e era melhor assim. Depois de um tempo, ele me bloqueou em tudo e não nos falamos mais.
— Como vai a vida? – me perguntou assim que saímos daquele lugar e fomos para um espaço mais calmo.
— Ah, vai indo bem. Passo muito tempo aqui na faculdade, mas é isso. Gosto muito de meu curso, então, nem é tão ruim.
— Que bom! Eu sinto muito se não continuamos amigos depois que terminamos. Você sabe que eu gosto muito de você, né?! – minha vontade era de revirar os olhos e rir debochadamente.
— Claro, Jeff! Mas, e você? O que anda fazendo? – “traindo os outros ainda?”.
— Tô fazendo cursinho. Vou tentar direito no próximo vestibular.
— Sério? Eu espero que você consiga.
— Vem cá?! Será que não rola algo hoje? Não digo sobre namoro, sabe. Mas, você sabe. Eu ainda gosto de você, talvez você goste de mim. Podemos ficar, sei lá.
— Eu acho melhor não, Jeff. Tem tantas pessoas aqui que a gente ainda não ficou. Não parece desperdício ficar repetindo o passado?
— Não sabia que ainda guardava rancor de mim.
— Não guardo. – menti. – Desejo tudo de bom pra você. Jeff, é verdade que você foi alguém muito importante pra mim. Meu primeiro namorado, meu primeiro em várias coisas. Porém, nosso tempo já passou. Agora, se me der licença. – tentei sair de uma vez por todas daquela desagradável conversa, mas o demônio segurou o meu braço.
— Você quer que eu peça desculpa? É isso?
— Não. Você já me pediu e eu já aceitei. Apenas, vamos superar isso.
— Eu não fui o único culpado pelo fim de nosso namoro. Você que terminou comigo.
— Ah, claro. Até porque você não me deu motivo pra terminar, não é mesmo? Me poupa da sua conversa vitimista, Jefferson. E evite cruzar comigo essa noite porque eu vim aqui pra me divertir, não pra rever fantasma.
Dessa vez eu consegui sair de perto dele. Meu coração deu um pequeno aperto. Jefferson era alguém que foi muito especial pra mim e numa época em que meus sentimentos estavam transbordando. Mas toda a dor que ele me causou, talvez tenha deixado uma cicatriz profunda em mim. Eu nunca cheguei a entrar em outro relacionamento sério após ele.
Avistei Felipe que conversava com Ari perto de uma escada. Pensei se deveria me aproximar e atrapalhar a conversa. Felipe me disse que tinha esquecido Ari, mas eu não cheguei a acreditar nele. Ao mesmo tempo, precisava desabafar com o meu melhor amigo. E Ari não iria mudar de ideia quanto a ter um relacionamento sério com alguém, ou seja, no máximo os dois ficariam e depois o Felipe sairia magoado. Resolvi atrapalhar justificando para mim mesmo que era o certo.
— E aí. – falei desanimado chamando a atenção dos dois garotos.
— Olha aí. Estávamos falando de você. – respondeu Ari.
— De mim é? O quê?
— Nada demais. Eu vou procurar a galera. – Ari nos deixou a sós.
— Iam ficar? Me desculpe se eu acabei atrapalhando alguma coisa.
— Nem. A gente só tava conversando mesmo. Será que ele sabe o que eu senti por ele?
— Não faço ideia. Às vezes o Ari é tão misterioso. Mas você não faz ideia de quem encontrei aqui.
— Ih, nem me fala. Tem tanta gente da minha escola que já vi aqui. Não sabia que essa calourada ia fazer tanto sucesso. Mas quem foi que você viu?
— Jefferson. Meu ex.
— Sério? O que te traiu?
— É o único que eu tenho.
— Desculpa. Como você tá? Você falou com ele?
— Infelizmente. Ele veio com um papo da gente ficar. Eu sinceramente não tenho paciência pra isso. Discutimos sobre a culpa de cada um no fim do namoro. Foi péssimo.
— Ai, amigo. Ele é mesmo um filho da puta, ein?
— Parece um enviado do demônio pra acabar com a minha noite. Até perdi a vontade de fritar.
— Ei, não deixa aquele embuste te afetar desse jeito. Ele é tão idiota. Vou juntar a galera pra gente dar uma surra nele. – aquilo me fez rir. Felipe, todo certinho, fazendo piada com violência? Isso era uma surpresa.
— Você tá mais que certo. Vamos dançar um pouco. Não peguei nenhum calouro da minha lista ainda.
— Eu já fiquei com aquele tal de Cássio. Beija bem, mas morde demais.
— O que deram pra você? Está muito estranho hoje. Ficando com garotos antes mesmo que eu.
— Só você pode, princesa?
— Não mesmo. Se esbalda. Vamos lá.
Voltamos para o local onde as pessoas dançavam animadas. A música agora era da Demi Lovato, Cool For The Summer. Nenhum sinal daquela praga na pista. Espero que tenha ido embora.
Enquanto estou dançando, sinto alguém sarrar em mim. Continuo dançando normal, agora ao mesmo ritmo da pessoa atrás de mim. Não é que eu seja um bom dançarino, mas acho que aprendi o suficiente no FitDance. A música acaba e eu me viro para ver quem estava dançando atrás de mim. Grata surpresa ao descobrir que era um dos garotos da minha lista. Preciso dizer mais alguma coisa? Foi uma troca de “oi” e depois já estávamos aos beijos. E ele beija muito bem!
Fiquei por volta de quinze minutos beijando aquele minuto, até que me cansei. A graça de uma festa é a quantidade de bocas disponíveis. Se eu quisesse só uma a noite toda, estaria namorando. Não me desfazendo desse garoto, que tinha um beijo realmente incrível. Mas, quem não me garante que eu esteja perdendo um melhor ainda?
Antes de ir atrás da minha próxima presa, fui de encontro ao pessoal e enchi o meu copo com vinho do frei. Meu copo é daqueles que tem um cordão para prender em volta do pescoço, o que facilita muito. Micaela que estava responsável por olhar as bebidas naquele momento, mas era um olho na bebida e outro no cara com quem ela tava ficando. A gente revezava quem ficaria de guarda e eu tinha que aproveitar antes que chegasse a minha vez.
Consegui ficar com mais cinco minutos até terminar um caco, vigiando as bebidas, que já estavam praticamente no fim. Meus pés doíam por eu ter dançado muito enquanto não estava beijando. Apesar daquele início desastroso, a calourada acabou sendo muito boa.
Ari apareceu e pegou a última garrafa que ainda tinha cerveja. Eu observava ele encher o copo como se estivesse em outro mundo. Quanto à bebida, eu ainda me sentia sóbrio. Talvez um pouco tonto, mas só isso.
— Se quiser, eu posso olhar pra você enquanto curte. Ainda não fiz meu turno. – disse ele e depois abriu um sorriso.
— Tudo bem. Eu já não tenho condições de curtir mais isso aqui. Aproveita lá enquanto ainda tá bom.
— Nossa, já são três horas? – pergunta ele depois de olhar o visor do celular. – Pra falar a verdade, já deu pra mim.
— Pelo menos você aproveitou, né?
— Sim. Tem uma pessoa que eu queria pegar, mas eu não sei. Essa pessoa tá sempre se esquivando de mim.
— Não acredito. Assim sua fama de pegador vai por água abaixo, ein?
— Você poderia me ajudar então né? – Ari se aproxima de mim. Tipo muito. Tipo como se ele fosse me beijar.
— Hey! – eu digo me afastando. – O que você tá fazendo?
— Ainda não ficou claro? Já tem um tempo que eu tô afim;
— É sério? Desculpa se eu flertei com você ou algo assim. Às vezes eu faço sem perceber.
— Então você não me quer mesmo. Eu nem vou me perguntar o motivo. Agora eu tô sentindo vergonha de mim.
— Não. Olha, eu te acho muito interessante e você é lindo, nem precisa que eu te diga isso, porque todos já dizem. É que eu realmente não posso ficar com você. E meio que não posso contar o motivo também.
— Tudo bem. Não precisa me dar um motivo. Você não quer e é isso. Eu vou... É... Vou indo. – Ari saiu com passos largos e eu me senti um pouco culpado.
Eu não podia fazer isso com Felipe. Apesar dele ter dito já ter superado, eu sei que ainda sente algo pelo Ari. Por essa, eu realmente não esperava. Eu tenho vontade de ficar com ele, mas sempre pensei no meu melhor amigo e o quanto isso o magoaria.
— Por que o Ari saiu daquele jeito? – perguntou Felipe. Eu nem percebi o momento que ele apareceu.
— Nem sei. E você? Tava ficando com outro garoto?
— Sim. Esse era tão bonito que eu ficava me perguntando porque ele tava ficando comigo.
— Deixe de coisa, Felipe. Você é lindo!
— Opinião de amigo não vale.
— É claro que vale.
Eu fiquei por mais poucos minutos ali. Encontrei a galera e me despedi deles. Felipe iria de carona com Matias, já que a casa dele era um pouquinho mais longe que a minha. Cheguei em casa e usei o banheiro para esvaziar a bexiga. Depois disso, só tirei os sapatos e caí na cama feito fruta podre caindo da árvore.
Fale com o autor