Ben E O Paraíso

2 Competição e Amizade


Notas iniciais
Nesse capítulos nós conheceremos uma outra face do nosso protagonista. Boa leitura!

Estava sentado em uma mesa da principal lanchonete da faculdade junto com os meus amigos, aqueles do bar. Aquele era o nosso ponto de encontro antes e depois das aulas — estudávamos pela tarde. Era por volta de 13:15 e a aula começaria em quinze minutos.

Meus amigos realmente sabiam que eu havia beijado Davi na sexta e fizeram algumas piadinhas sobre. Parece que Davi andou fazendo umas perguntas sobre mim à Micaela. Mas a minha mente estava longe de todo aquele assunto. Hoje saía o resultado da vaga de estágio que eu estava concorrendo e eu tinha quase certeza de que passaria. Eu sei que parece presunçoso, mas apesar de não estar nem na metade de curso, considero o meu portfólio um luxo.

Um e-mail chega no meu celular e eu travo. Estou a ponto de dar um grito de comemoração. Abro o e-mail e me choco com o que está escrito. Eu não havia conseguido a vaga. Meus olhos lacrimejam rapidamente, mas eu disfarço. Não iria chorar e mostrar fraqueza na frente dos meus amigos. Era só um estúpido estágio. Haviam outros e logo eu iria conseguir um ainda melhor que esse.

Felipe chega sorridente a mesa. Ele também concorria as cinco vagas no estágio e nem precisa dizer para que eu saiba.

— Consegui o estágio. — todos começam a parabeniza-lo e me sinto incomodado. Tenho vontade de sair dali, mas não quero fazer um show durante a comemoração do meu melhor amigo. Felipe puxa uma cadeira e se senta do meu lado. — E aí? Conseguiu?

— Não. — eu olho para ele tentando disfarçar a minha decepção comigo mesmo. — Parece que eu vou ter que mudar a porra do meu portfólio. — tento soar engraçado, mas me assemelho mais a um ranzinza falando.

— Na próxima você consegue, Ben. Vamos pra aula? — eu concordo e nos despedimos do pessoal, indo em direção a sala em que teríamos aula.

Felipe está animado, falando o estágio. Ele fala que agora terá dinheiro para ir a todos os rolês, comprar roupas e planejar viagens comigo. Eu tento não me abalar com a derrota e deixar meu amigo curtir o momento dele, mas minha cabeça grita as piores coisas.

Durante a semana, eu tentava focar em apenas uma coisa: Me acabar em algum rolê no final de semana. Dançar e beber até não lembrar mais o meu nome. Precisa tirar da minha cabeça essa coisa do estágio.

Meus amigos marcaram de nos encontrarmos num bar karaokê na sexta a noite. Eu fui o primeiro a confirmar e incentivar todos a irem. E então sexta a noite, lá estávamos Felipe e eu na entrada do local.

— Eu não gosto muito daqui, na verdade. — disse Felipe assim que entramos. — As mesmas pessoas de sempre.

— Eu que deveria estar fazendo essa reclamação já que beijei todas elas.

— Tá vendo? Qual a graça de vir aqui.

— A entrada é barata e ninguém se importa em pagar mico cantando no karaokê. Agora deixa de ser chato e vamos encontrar o pessoal.

Saímos a procura da galera e encontramos John perto do DJ conversando com ele. Fomos até e perguntamos do resto do pessoal. John apontou para o lugar onde vendiam e bebidas e lá fomos nós. Foi a minha oportunidade de já comprar dois drinks. Deixei um com Felipe enquanto tomávamos o outro e encontramos Micaela, Alice e Matias.

— Hoje o Davi não veio. — disse Micaela para mim.

— Tô nem aí. Já beijei mesmo.

— E qual é o alvo da noite? — perguntou Alice.

— Até agora ninguém. Só quero ficar bêbado pra caralho.

— Se eu soubesse que tava nessa vibe tinha trazido um brownie especial. — disse Matias e eu sorri para ele. Matias era o tipo que só aparecia de vez em quando nas nossas saídas.

Terminei o primeiro drink e peguei o outro da mão de Felipe. Em segundos, já estava na metade do copo.

— Vai com calma. — falou Felipe me olhando com reprovação. — Depois eu é que vou ter que cuidar de você.

— Não precisa. Deixa que hoje eu me viro. — apesar de não querer, acabei sendo grosso com ele.

Terminei o segundo drink e fui até a pista dançar a música que tocava. Eu beijei uns dois minutos, mas o que eu queria de verdade era a bebida deles. O karaokê começou e a essa altura eu já estava um pouco alterado. Pedi para o DJ colocar Brilha La Luna da Rouge na lista e fiquei esperando minha vez.

Avistei Ari segurando uma latinha de cerveja e fui até ele.

— Chegou agora? — perguntei sem muito interesse.

— Há pouco tempo. Por que você não tá com a galera?

— Por que você não tá?

— Estou com outros amigos. Você quer alguma coisa?

— O quê? Não posso mais vir falar com você?

— É que você não costuma falar muito comigo. Na verdade, acho até que você não gosta de mim.

— Você quer que eu goste de você? Me dá um gole da sua latinha. — Ari riu e me entregou a latinha. Eu virei num movimento e ele logo segurou na minha mão, tomando a latinha de volta.

— Hey, hey. Você parece que já tá bêbado.

— Eu tô bem. Benjamin. — dei risada com o trocadilho que fiz com o meu nome.

— Okay. Eu vou te levar até o pessoal. — Ari pegou no meu braço e eu me livrei bruscamente dele.

— Me solta! Eu não preciso de babá. — ouvi o DJ chamar o meu nome e deixei Ari, indo até o mini palco.

A música começou a tocar e eu estava completamente perdido. No final, mal cantei, apesar do pessoal ter se empolgado com a música. Alice veio até mim e disse para eu beber água. Fui praticamente obrigado por ela.

E como eu esperava, estavam cuidando de mim feito um bebê. Disse para Felipe que queria ir embora e ele chamou um Uber. Quando paramos na minha casa, ele desceu junto.

— Ficou maluco? — perguntei sem entender.

— Eu não vou te deixar sozinho nesse estado.

— Felipe, eu tô bem. Vai pra casa.

— Não. — o Uber foi embora e eu fiquei paralisado olhando para Felipe.

— Bicha doida. — peguei as chaves do meu bolso e abri a casa tentando fazer silêncio para não acordar meus colegas de casa, Cristiano e Luana.

Fomos para o meu quarto e eu acendi a luz. Felipe era bem teimoso às vezes e isso me irritava, mas eu não estava em condições de brigar com ele.

— Cadê aquele colchão seu?

— Se tá aqui, vai dormir na cama. A gente se aperta. — minha cama era de solteiro, mas como nós dois éramos magros, iria caber.

Peguei travesseiro e coberto pra Lipe e tirei meu tênis, a calça e a camisa, ficando só de cueca. Felipe já havia me visto assim antes e não havia problema, apesar de ele ter ido dormir vestido. Não demorou pra que eu pegasse no sono assim que deitasse na cama.

Acordei com a minha cabeça doendo como se tivesse levado uma surra de bastão de basebol. Me mexi na cama e gemi manhoso pela dor. Abri os olhos e Felipe não estava no meu quarto. Apesar de querer ficar para sempre naquela cama, fui me levantar para ver o que havia acontecido. Encontrei Felipe na sala, sentando no sofá e mexendo no celular.

— Bom dia. – disse ele tirando os olhos do aparelho e me olhando com cara de quem vai me julgar.

— Faz tempo que acordou?

— Um pouco. Você estava agitado e não parava de se mexer.

— Desculpa. Você deveria ter ido pra casa, como eu falei.

— Quer que eu te prepare um café? Imagino que esteja morrendo de dor de cabeça.

— Bem isso. Eu agradeceria se fizesse um café. Mas por favor, não briga comigo hoje.

— Eu não sou sua mãe, Benjamin. E odeio te tratar como um filho. Mas você sabe que só fez besteira ontem. – bufei e fui me sentar no sofá enquanto Felipe se levantou. – Vou preparar o café.

Quase peguei no sono novamente ali no sofá. Felipe voltou com duas xícaras de café e me entregou uma. Eu tomei um gole e fiz careta. Estava muito amargo. Eu gostava do meu café com muito açúcar, mas não reclamei, pois ele estava era me fazendo um favor.

— O que está te chateando? – Felipe foi direto. Nós sempre procuramos ser sinceros um com outro. Por isso, nos tornamos melhores amigos tão rápido.

— Eu não quero parecer invejoso, mas a verdade é que eu tô com inveja de você. Por ter conseguido o estágio e eu não. Eu tava tão confiante nessa. Foi um tombo e eu queria esquecer disso ontem. Por isso, bebi sem pensar.

— Eu devia ter adivinha. Você sempre foi tão competitivo. Até mesmo comigo.

— É uma parte minha que eu queria mudar, mas não consigo. Eu gosto da competição. Me faz ter vontade de ser melhor.

— Mas aí, olha como você reage quando não consegue algo. Você precisa trabalhar isso.

— Okay, mãe. – provoquei e consegui extrair um risinho de Lipe. – Me desculpa por ter sido babaca por provavelmente toda a semana. Você sabe que eu desejo que você seja o profissional de maior sucesso desse país, depois de mim, não é?

— E nós seremos os melhores. Nem que seja no mundinho da faculdade. – abraço Felipe de lado e me sinto melhor. Era o meu melhor estado desde o resultado do estágio.

— Você é um amigo incrível, sabia? Às vezes, penso que não mereço sua amizade.

— Não seja dramático. Isso nem combina com você. Me disseram que você e o Ari discutiram. – tentei me lembrar de alguma discussão ontem com o Ari.

— Ah, foi besteira. Mas eu vou me desculpar com ele segunda.

— Eu cansei de sofrer pelo Ari. Acho que tô esquecendo ele.

— Ah, por favor, Lipe. Nem você acredita nisso. Mas se for verdade, ótimo.

Lipe e eu almoçamos juntos naquele sábado e a tarde ele foi para casa. Eu morri na minha cama o resto do dia. No domingo, fiz alguns trabalhos da faculdade e assisti série.

De volta a programação normal, cá estou na faculdade para mais uma semana. Porém, não será uma semana qualquer. As calouradas terão início logo e eu mal posso esperar para me acabar em todas elas e dar boas vindas aos calouros da melhor maneira. Oralmente.

Enquanto caminho em direção a lanchonete para encontrar meus amigos, vejo Ari e resolvo falar com ele. Precisava me desculpar por toda a situação no bar. E além do mais, que história era aquela dele pensar que eu não gostava dele? Mesmo fazendo o meu amigo sofrer, Ari não tinha culpa disso. Ele sempre deixou claro que não procurava por relacionamentos.

— Ari. – falei me aproximando dele. – Eu queria falar sobre sexta.

— Tô ouvindo.

— Me desculpa se acabei sendo grosso ou rude. Eu não estava em um bom dia e certamente não deveria ter descontado em você que foi gentil comigo. Agradeço por ter tentando me ajudar e peço de coração que a gente esqueça isso e tudo volte ao normal.

— Mas não é de hoje que você me evita, Ben. Pode me dizer o problema. Eu te fiz alguma coisa?

“Então. Meu melhor amigo é apaixonado por você e toda vez que te evito é porque não posso nem pensar em ficar em você numa dessas festas. E olha que você é o único do nosso grupinho com quem ainda não fiquei.”

Porém, minha resposta foi: — Eu passei essa impressão? Eu juro que não tenho nada contra você, Ari. Pelo contrário, te acho super maneiro. Talvez a gente possa conversar mais, realmente.

— Tudo bem, então. Saiba que qualquer coisa, você pode falar comigo. Às vezes, eu faço merda e nem me dou conta.

— Não lembro de ter feito nada comigo.

— Preciso ir pra aula. A gente se vê depois?

— Claro. – Ari me dá um abraço e eu retribuo meio sem jeito.

Em seguida ele sai e eu vou para a lanchonete. Meus amigos comentam detalhes da nossa saída sexta, principalmente sobre como eu estava louco. Eu já me sinto envergonhado pelo que fiz, mas resolvo deixar para lá. As calouradas estão chegando e só espero que não tenha mais histórias pesadas com a minha pessoa envolvida.

Notas finais
Será que vocês estão com ranço do Ben? Eu tento deixar o personagem o mais humano possível e humanos cometem erros, né? Enfim, comentem o que estão achando e o que esperam pros próximos capítulos. Beijos!