Ben E O Paraíso
6 Nada bem
Notas iniciais
Se vocês acham que é ruim ter a sua mãe, que nem mora debaixo do mesmo teto que você, batendo na porta do seu quarto numa manhã (?) de sábado em que você está de ressaca, acreditem, pode piorar. Bastou eu abrir os olhos e ver aquele corpo pelado na minha cama pra perceber que eu estava ferrado em vários níveis.
As batidas insistentes da minha mãe iam acabar me matando. De verdade, minha cabeça estava explondido e meu coração desparou de um jeito que acreditei que o motivo da minha morte seria ataque cardíaco ao ser pego no pulo.
Balancei o corpo de Ari sem delicadeza alguma, pois a situação pedia medidas rápidas e indelicadas. Ele acordou assustado e eu tapei sua boca com a minha mão antes que falasse algo e fizesse minha mãe descobrir que eu não estava sozinho.
— Se esconda debaixo da cama. Eu vou dar um jeito de distrair a minha mãe e te dou um sinal quando você poder ir embora.
Talvez eu devesse me desculpar por aquela situação, mas não o fiz. Eu estava sendo um completo babaca, mas isso já não é mais novidade. Acordei na cama ao lado do cara por quem meu melhor amigo é apaixonado. Estou sendo babaca há um tempo já.
Juntei as roupas de Ari e joguei para debaixo da cama, onde ele já estava. Vesti uma cueca, joguei a blusa e a calça no cesto de roupas sujas e peguei uma bermuda na gaveta do meu armário. Tentei fazer a melhor cara de inocente que consegui e abri a porta do meu quarto, dando de cara com uma mulher nada feliz.
— Por que demorou tanto pra abrir a porta? Está surdo agora?
— Bom dia, mamãe. Posso saber o que você faz na minha casa sem ter avisado?
— Eu disse que lhe faria uma surpresa. Mas parece que a surpresa acabou sendo minha.
— Vamos conversar na sala. Meu quarto está bagunçando e não quero ouvir suas reclamações. Eu iria limpá-lo hoje. – minha mãe tentou espiar o quarto, mas eu me coloquei para fora e fechei a porta, a puxando para a sala.
— Estava dormindo até agora? São mais de uma da tarde.
— É sábado. Eu não tenho que ir pra faculdade, então posso ficar à vontade quanto aos meus horários.
— Você está estranho. E tem bafo de bebida. Que horas foi dormir?
— Não sei do que você tá falando, mãe. Fui dormir tarde porque tava fazendo um trabalho da universidade.
— Poderia ter dormido cedo, acordado cedo e ter feito o trabalho. Não me engane, Benjamin. Você bebeu, não foi?
— Sim, eu bebi. Feliz?
— Nem um pouco. Quando conheci Lorena e Cristiano, tive uma ótima impressão deles. Não imaginava que eram do tipo que bebiam.
— Não foi com eles que eu bebi. Foi com outros amigos.
— De quem é o carro que está parado na porta? – Meu Deus, o carro do Ari. Como eu explicaria isso?
— É de um vizinho folgado que costuma deixar na nossa porta. Já reclamamos ontem, mas parece que ele continua fazendo de propósito. Falarei com ele novamente. – pra quem estava morrendo de dor de cabeça, eu conseguia mentir muito bem. Seria um dom? Eu deveria me preocupar?
— Se é pra beber que você veio morar aqui, então você irá voltar pra casa.
— O quê? Não seja irracional, mãe. Você sabe que é melhor pra mim por causa da faculdade. Que mal tem eu beber de vez em quando com uns amigos?
— Como eu vou saber que é de vez em quando? E como eu vou saber a quantidade de bebida que você anda ingerindo. Não vou permitir que se torne um viciado, Benjamin. Seu pai e eu não te criamos assim.
— Vocês me criaram numa prisão onde eu não podia nem ir dormir na casa de um colega. Essa experiência de morar sozinho está sendo ótima pra mim. Eu finalmente posso ser mais independente sem ter você e meu pai me sufocando.
— Prisão? Você irá entender quando tiver um filho como é difícil cria-lo. E seu pai e eu sempre demos o nosso melhor pra que você tivesse tudo. Pagamos essa casa pra você, então precisa nos respeitar e respeitar as nossas condições. Eu vou ao banheiro e depois de almoçar, nós teremos uma séria conversa.
Minha mãe foi até o banheiro e eu corri para o quarto. Ari já estava vestido e sentado na minha cama, mexendo no celular.
— Corre, Ari. Minha mãe tá no banheiro e você precisa ir agora.
— Nós precisamos conversar depois, Ben.
— Sim, depois. Agora vai logo antes que minha mãe perceba que você estava aqui.
Estou a ponto de me mijar enquanto vejo Ben ir embora. Só quando ouço o barulho do carro indo é que consigo soltar a respiração que estava segurando. Só de pensar nas consequências que eu teria de lidar quanto a ter ficado com ele, me dava vontade de voltar pra casa com a minha mãe e nunca mais pisar os pés na universidade.
E agora eu precisava usar meus argumentos mais convincentes pra fazer a minha mãe me deixar ficar. Eu preciso de ajuda divina para conseguir sobreviver a esse dia.
— Pelo visto, vou ter que preparar o almoço pro bonitinho não morrer de fome. – diz minha mãe assim que sai do banheiro.
— É... Meio que não tem nada na cozinha que você possa fazer pro almoço. – respondo e já espero outra bronca. O dia não estava conspirando ao meu favor.
— E o que você ia comer? – ah, mãe, qualquer besteira tá valendo.
— Eu costumo comprar quentinha num restaurante aqui perto nos fins de semana.
— Então tome um banho e vista uma roupa que vamos almoçar nesse restaurante.
— Okay.
Oh, mamãe, porque me matou? Eu não estou em condições de colocar um pé fora dessa casa. Quando senti aquela gelada do chuveiro caindo em mim só faltei dar o agudo da Demi Lovato. Minha mãe gritou de fora do banheiro pedindo para eu deixar de frescura.
Isso me fez ter uma ideia de como acabar com o assunto da bebida de uma vez. Era a minha chance, ou daria certo ou eu ferraria tudo de uma vez e voltaria pra casa dos meus pais e, talvez, fosse internado em alguma casa de repouso.
Saí do banho e vesti uma bermuda jeans e uma camisa cinza com uma estampa de frase em inglês. Calcei os sapatos e levei um tempo penteando o cabelo, mas quando vi que não ficaria bom tão cedo, larguei de mão e fui ao encontro de minha mãe. Ela já estava lá fora no carro que era dela e do meu pai. Entrei no banco de passageiro.
— O carro que estava parado aqui na frente desapareceu. – engoli em seco lembrando quem era o dono do carro.
— Ainda bem, né?
— Onde fica esse restaurante?
— Segue direto e vira à direita na terceira esquina. – minha mãe começou a dirigir.
— Quando você vai tirar a sua carteira?
— Ainda não sei, mãe. Por que você veio sem avisar? A casa não é só minha. Eu preciso comunicar antes ao Cristiano e a Luana.
— Eu sou a sua mãe e tenho direito de vir nessa casa quando quiser. Afinal, eu que estou pagando.
— Não teria problema se você viesse, mas o que custava ter dito antes?
— Como, se mal nos falamos? Se eu não ligar, você esquece de mim do seu pai. E foi bom eu ter vindo de surpresa, assim vi o que você anda fazendo por aqui.
Bufei e minha mãe estacionou perto do restaurante. Saímos do carro e o sol quase me fez desmaiar. O restaurante era self-service, então fomos colocar a comida no prato e depois pesar na balança. Minha mãe pediu uma Coca de um litro. Ela não bebia muito refrigerante, mas eu sim.
— Seu pai e eu fomos bem claros que somos contra você beber ou usar droga. Se está fazendo um, imagino que tenha experimentado o outro. – só maconha.
— Não tem nada a ver. Eu nunca usei droga e só bebo de vez em quando. Você e o papai precisam entender que eu já sou maior de idade e acabarei fazendo isso uma hora ou outra. Eu sei qual é o meu limite e não vou me tornar um alcóolatra.
— Enquanto estiver dependendo do nosso dinheiro, você vai ter que respeitar as nossas regras, Benjamin.
— E quando eu conseguir ser independente financeiramente? Como vocês vão me controlar?
— Aí já é com você e a sua consciência.
— Até quando não estou morando com vocês, o papai e você dão um jeito de me manter numa prisão. Foi assim durante toda a minha vida. – estávamos tendo a maior discussão no restaurante. Enquanto um falava, o outro comia e vice-versa, enquanto as pessoas olhavam curiosas.
— Não venha com seu drama. Eu sempre fui contra você se mudar tão novo. Poderia muito bem continuar estando e voltar todo dia pra casa. Mas você conseguiu convencer o mole do seu pai.
— E assim eu perderia quatro horas do meu dia no trânsito. De que maneira isso me ajudaria?
— Pelo menos, eu estaria de olho em você. Assim, queria ver se você ia chegar em casa bêbado.
— Isso não garantiria nada, mãe. Você precisa aceitar que eu cresci e já posso tomar as decisões por mim.
— Você está errado, Benjamin. Assuma o seu erro para que eu possa pensar se você irá continuar morando aqui.
— Preciso te contar uma coisa. – era agora, tudo ou nada. – Eu sou gay, mãe.
Dona Jacira abriu a boca para falar algo, mas não saiu nada. Era estranho ver ela sem reação. Minha mãe sempre tinha uma resposta para tudo. Naquele momento eu percebi que meu plano deu errado e eu acabei de piorar tudo. Minha ideia era me livrar desse fardo, que é ter que se assumir, de uma vez e fazer com que ela se esquecesse dessa briga pela minha revelação.
Eu sempre temi a resposta da minha mãe quanto a minha homossexualidade. Ela não era uma dessas mulheres que sempre iam a igreja, mas já tive que ouvir comentários desagradáveis dela quando via algum casal gay na televisão. Meu pai nunca se posicionava sobre a questão, mas eu acreditava que ele me apoiaria, já que ele sempre me protegia da minha mãe.
— Você não vai falar nada? – perguntei e não tive resposta.
Minha mãe ficou calada e não comeu mais nada. Quando eu terminei de comer, o que não demorou porque eu havia perdido a fome, nós nos levantamos e dona Jacira foi pagar a conta. No carro, mais silêncio. Eu já estava começando a ficar preocupado. Imaginava que quando chegássemos na minha casa, ela pegaria um cinto e começaria a me bater com ele.
Chegamos em casa e minha mãe foi para a sala e se sentou no sofá. Ela pegou o celular e vi que ligou para o meu pai. Eu fiquei de pé, encostado na parede e esperando pelo que aconteceria.
— Bernardo. – minha mãe disse ao celular. – O Benjamin falou. Você tinha razão, ele é viado.
— O quê? – deixei escapar e minha mãe me olhou por um instante.
— Vem para cá que precisamos ter uma conversa com ele.
F O D E U. Eles já haviam conversado sobre isso e já devem ter decidido o que vão fazer comigo. Eu já disse que esse é o pior dia da minha vida? O que seria de mim quando meu pai chegasse e minha mãe e ele me confrontassem? Para onde eu iria se eles deixassem de pagar essa casa e me proibissem de voltar para a casa deles?
Eu precisava ter conseguido aquele estágio. Se conseguisse, ia ter um salário para me sustentar. Eu poderia conseguir algum auxílio da universidade para continuar estudando e encontraria uma casa com aluguel menor.
Mas agora não adianta mais planejar nada. Por que tudo começou a dar errado tão de repente? A culpa é minha. Estraguei minha amizade com o Felipe de vez, ficando com o Ari, e agora contei pra minha mãe que sou gay.
Talvez eu seja o maior vilão da minha própria história.
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