Notas iniciais
Hi, paradisers! Esse capítulo pode te atingir fortemente, já aviso. Espero que esteja bem e possa ter uma ótima leitura!

Por mais que eu estivesse tentando manter uma expressão séria no rosto, por dentro eu me acabava de chorar. Minha garganta doía pelas lágrimas que eu prendia e se eu abrisse a boca para falar alguma coisa, iria denunciar o meu estado.

Meu pai havia chegado e agora estávamos os três sentados no sofá. Minha mãe na ponta, meu pai no meio e eu na outra ponta, tentando manter um pouco de distância e me preparando para correr caso as coisas tomassem um rumo violento.

A verdade é que mesmo conhecendo meus pais e sabendo que eles não eram adeptos a violência, esses casos eram imprevisíveis. Quantos acharam que podiam confiar a seus pais uma verdade e no final acabaram em maus bocados? É praticamente impossível ignorar a homofobia e os seus efeitos diante de séculos de preconceito.

— Você tem algo para nos falar? – perguntou meu pai e mesmo o seu tom sendo livre de agressidade eu estava tremendo.

— Tudo o que eu tinha para falar, já falei.

— Okay. Quando você era criança, sua voz costumava ser mais fina do que o normal para um garoto. Eu te dizia para você engrossar a voz, que parecia uma menina quando falava. Um dia você chegou em casa com um recado da professora. Ela pediu pra que eu ou a sua mãe fóssemos conversar com ela. Eu te deixei na escola na tarde seguinte e fui conversar com a sua professora. Ela me contou que alguns garotos fizeram uma brincadeira de mal gosto contigo. Que te trancaram em um banheiro e você chorou, pedindo por nós. Pelos seus pais. Ela disse que os meninos te apelidavam de nomes e você parecia inabalável, mas uma criança não tinha porque passar por situações assim. Então, ela me garantiu que chamou os pais de todos os que zombaram de você e iria conversar com eles. Eu cheguei em casa naquele dia e conversei com a sua mãe. Nós choramos e ficamos se perguntando por que você não havia comentado o que tinha acontecido na escola. Por que não nos contou que estava sendo perseguido, ridicilarizado pelos seus colegas. Nós comentamos sobre a possibilidade de você ser gay. Tentamos nos convencer de que você era ainda muito novo e que as coisas mudariam com o tempo. Escolhemos ignorar o que estava debaixo dos nossos olhos por medo. Medo do que iam te fazer, medo do que iam falar de você. E também medo do que iam falar de nós. – meu pai deu uma pausa e eu respirei fundo. Eu lembrava do incidente do banheiro, mas não lembrava que ele e minha mãe sabiam disso. – Nós falhamos como pais. Deveríamos ter mostrado o nosso apoio e não foi o que aconteceu. Ignoramos os seus sentimentos e fingimos que estava tudo bem. Meu filho. Você é a coisa mais preciosa que aconteceu na minha vida. E eu sempre fiz de tudo pra que se sentisse especial. E mesmo com todo o esforço, eu não consegui ser o melhor pai que eu poderia ser para você.

— Eu sinto muito pela minha reação. – minha mãe começou a falar e eu já estava chorando como um recém-nascido faminto. – Eu não soube o que dizer. Parte de mim se agarrava a uma esperança de que você não fosse gay. Eu não queria que você fosse e seu pai me fez ver que eu estava sendo egoísta. Nós conversamos rapidamente quando ele chegou. Meu preconceito acabou te afastando e isso acaba comigo. Ver o quanto você tem essa relação linda com o seu pai e quando é comigo, parece que eu sou uma estranha. Quando você me liga, eu sinto que é porque você não me ama mais. Porque eu fiz tão mal a você que agora você quer distância. Benjamin, eu peço perdão por todas as vezes que eu falei mal sobre essa condição sexual e acabei te magoando. Eu não sou a mãe que você merecia.

Após chorar por uns três minutos, consegui me recompor. Meus pais eram tão maravilhosos por estarem fazendo isso. Reconhecendo um erro e mostrando arrependimento. Isso era algo que aquecia meu coração.

— A expressão correta é orientação sexual, mas tudo bem, com o tempo você aprende todas as nomenclaturas. Eu queria tanto ter contado antes, mas tinha medo de vocês me rejeitarem. Na minha cabeça, a situação seria completamente diferente e envolveria muito mais drama. Eu amo vocês dois tanto. E, mãe, eu nunca deixei e nunca vou deixar de te amar. É verdade que algumas atitudes suas me magoaram, mas eu sei que também acabei te magoando pela minha distância. Eu espero que possamos trabalhar melhor nessa relação, porque eu quero de verdade me aproximar mais de você. Agora me deem um abraço e vamos deixar de chorar antes que meus colegas de quarto gravem essa cena e espalhem pela internet. — nós três nos abraçamos e ficamos um tempo assim, apenas sentindo aquele momento.

Eu era tão sortudo. Muitos não tinham a mesma sorte e acabavam por viver situações tão desgastantes e tóxicas. Como eu queria que as coisas terminassem tão bem para todos.

— E então, quando vamos conhecer o seu namorado? – perguntou meu pai.

— Não tenho nenhum. E se contentem em ficar sem genro por um tempo, pois não estou no momento pra namoro.

— Hoje em dia existe até momento pra namoro. – diz minha mãe. – Ainda falta um assunto pra discutirmos, não é, Benjamin? Quando eu cheguei aqui Bernardo, o seu filho estava de ressaca.

— Ah, é mesmo? Posso saber o que você anda bebendo mocinho?

— Foi apenas uma noite de diversão com os meus amigos. Eu precisava dar um tempo de todo o estresse da universidade e saí com eles ontem a noite.

— O que faremos quanto à isso? – minha mãe perguntou ao meio pai.

— Não podemos te proibir de beber. Você é maior de idade, meu filho. Precisa tomar as decisões. E as decisões certas. Sua mãe e eu podemos confiar a você isso? Não somos contra você beber um pouco de vez em quando, mas sim, beber com exagero e frequentemente. Pra você ter ficado de ressaca, pouco não foi.

— Eu prometo que vou me controlar quanto à bebida. Farei as decisões certas.

— Ótimo. Como seu pai está aqui, eu irei voltar com ele para casa hoje. Mas agora nós exigimos que você passe pelo menos um fim de semana em casa, além das férias.

— Tudo bem.

— Eu tô com vontade comer uma pizza. Tem uma pizzaria aqui por perto?

— Tem sim, pai.

— Então vamos. Chama a menina e o menino pra irem também. – ele estava se referindo aos meus colegas de casa.

Cristiano e Luana nos acompanharam para a pizzaria. Eu me desculpei com eles por toda o drama familiar que ocorreu aquele dia em casa. E também por não ter avisado que iria receber visitas, mesmo não sendo minha culpa, já que minha mãe me fez essa surpresa.

Após comermos pizza (frango com catipury é o meu fraco) e conversarmos, principalmente sobre a universidade – acabei omitindo a minha nota baixa, mas falei sobre não ter conseguido o estágio – meus pais nos levaram de volta para casa e se despediram de mim. A cena com minha mãe foi melosa, com choro e tudo. Minha mãe não havia chorado nem quando eu me mudei.

— Ben. – Luana me chamou quando eu estava trancado a porta da frente. — Hoje de manhã quando eu saí pra comprar pão, percebi que a porta não tinha sido trancada. – recobrando na minha mente o que aconteceu: eu estava bêbado e Ari entrou comigo em casa. Ele não trancou porque deve ter pensado que logo iria embora e aí eu trancaria, mas não foi o que aconteceu.

— Me desculpa, foi um descuido meu. Não vai acontecer novamente. E me desculpa novamente por não ter avisado que meus pais viriam.

— Tudo bem. Eu vou dormir. Boa noite!

— Boa noite!

Esse sábado começou sendo o pior dia da minha vida, mas acabou de uma maneira reconfortante. Apesar de que eu evitava pensar em tudo o que teria que enfrentar pela frente proveniente daquela maldita noite de sexta. E das minhas atitudes e minha habilidade em foder com as coisas.

Vamos ignorar o domingo, porque eu basicamente dormir até a tarde – estava cansado espiritualmente e precisava daquilo – e passei o resto do dia ou vendo séries, ou adiantando trabalhos.

Na segunda, meu coração faltava sair pela boca no minuto em que vi a entrada da universidade. Eu precisava ter aquela conversa com Ari hoje mesmo e sem rodeios. Micaela e Alice já estavam na fila – enorme – para o Restaurante Universitário e eu fui até elas. Depois de um tempo, Matias e Ari apareceram e nós entramos e fomos comer.

Quando saímos, cada um foi pra sala de sua primeira aula, mas eu puxei Ari e falei que teríamos aquela conversa agora. Entrei na primeira didática que vi e procurei por uma sala vazia. Ari me seguiu e entramos numa sala.

— Você deve estar confuso sobre o que aconteceu. Você tava tão bêbado que nem deve se lembrar de nada.

— Eu me lembro, Ari. De tudo. Não consigo esquecer as coisas que faço quando estou bêbado, ou lembro de grande parte.

— Que bom. Eu tava com medo de você não se lembrar de nada e acabar com um pensamento errado sobre mim. Eu não deveria ter transado com você naquele estado. Fui levado pelo momento, mas agora me sinto aliviado que você se lembra.

— Eu tenho culpa nisso. Sabia que você queria e acabei me deixando levar. Mas tem um problema aqui, porque como já conversamos antes, isso não poderia ter acontecido.

— Por que não? E por que você estava estranho comigo?

— O Felipe me contou que vocês conversaram sobre mim e sobre a conversa que tivemos naquela vez em que pensei que tivéssemos acertado tudo. Você prometeu que não tocaria mais naquele assunto.

— Eu pensei que não tinha problema em conversar com o Felipe. Achei que ele até já sabia, pois vocês são tão amigos e devem contar tudo um pro outro. Você ainda não respondeu minha pergunta. Por que isso não podia ter acontecido. – respirei fundo pensando se eu deveria falar o que estava na ponta da minha língua. Mas me parecia a única saída para pôr um ponto final nesse drama.

— Porque o Felipe gosta de você. E sinceramente, eu não sei como você ainda não percebeu isso. Ou está fingindo que não sabe esse tempo todo.

— O quê? O Felipe? Eu juro que não estava sabendo de nada.

— Pois é, Ari. Agora imagina a minha situação depois de ter transado com você. Não estou querendo colocar a culpa em ti, porque sei que sou o maior responsável por esse erro. E não vou mentir dizendo que me arrependo, porque não sei se eu me arrependo mesmo. Eu gostei de ter ficado com você, mas isso não pode se repetir jamais.

— Eu entendo que é complicado, mas o Felipe é maduro e vai entender o seu lado.

— Não vai. Sabe por que? Se fosse ao contrário, eu não sei se entenderia o lado dele. Eu tô morrendo de medo dele acabar descobrindo e se magoando, porque o Felipe é tipo a melhor pessoa que eu já conheci. E pensar que ele nunca mais falaria comigo ou me odiaria, isso é demais pra mim.

— Bem, você não pode se culpar dessa maneira por algo tão pequeno comparado a sua amizade com o Felipe. Eu tenho quase certeza de que ele te ouviria e saberia te perdoar. Talvez não imediatamente, mas com o tempo ele veria que isso não é o fim do mundo.

— Nossa relação nunca seria a mesma. Para ele, eu sempre seria o amigo que o traiu com o cara que ele gostava. Eu fiz uma merda muito grande e apesar de querer encontrar uma saída pra isso, não vejo como não machucá-lo sem ser escondendo o que aconteceu entre nós. Foi coisa do momento e não vai se repetir. Eu serei um lixo se não contar pra ele?

— Eu não consigo parar de pensar em você desde que ficamos. Eu já pensava muito em você antes, mas agora é o tempo todo.

— Não comece com isso. Você só estava obcecado comigo porque eu não te dava bola e agora você sabe o porquê. Você só continua pensando em mim porque sabe que isso não vai se repetir. É tudo imaginário, Ari. Não era você que não estava pronto para pensar em um relacionamento agora?

— Algo aconteceu. Está acontecendo.

— Pois faça parar de acontecer. Não há condições de eu me envolver com você. Por um acaso você ignorou tudo o que acabei de te falar? – me sentei em uma cadeira e coloquei a mão no rosto, soltando o ar que segurava. – É tudo culpa minha. Eu alimentei suas esperanças e agora não foi só com o Felipe que errei. Eu errei com você também.

— Nós podemos resolver isso de outra maneira. Pelo o que eu conheço de ti, você não vai conseguir mentir pro Felipe por muito tempo. Você é bom demais pra isso, Ben.

— Eu queria ser, mas não sou. Por favor, Ari. Esquece tudo isso, por mais difícil que possa ser. Entre magoar você ou o Felipe, eu prefiro magoar você. Vamos nos afastar e superar aquela noite.

— Não é tão fácil assim.

— Mas você consegue. Eu sei que consegue. Preciso ir pra sala, a aula já deve ter começado.

— Vai ser assim, então? Vamos nos tratar como dois estranhos?

— Vai ser melhor. Acredite.

Levantei da cadeira e evitei o olhar de Ari. Saí da sala quase correndo para não ter que ouvir ele falando mais alguma coisa. Eu não aguentaria. Entrei no primeiro banheiro que vi e me apoiei na bancada da pia, respirando super rápido. Me olhei no espelho e parecia que eu via uma mancha em mim. Lavei o meu rosto e fiquei alguns segundos criando coragem. Saí do banheiro e fui até a sala da aula de hoje. Assim que abri a porta, atraí o olhar de Felipe e respirei fundo.

Será que Ari tinha razão e eu não aguentaria mentir para Felipe por muito tempo? Como seria conversar com ele com a minha cabeça apitando o tempo inteiro a besteira que eu tinha feito? Parece que, afinal, esse inferno não vai congelar tão cedo.

Notas finais
Muita coisa pra se falar, ein? O que acharam da conversa do Ben com os pais? E sobre a decisão dele a respeito do Ari, concordam? Deixem suas opiniões e até suposições do que pode acontecer. Um beijo e até o próximo capítulo!